03/11/10

O PASSADO COMPASSADO DE VIÇOSA

O PASSADO COMPASSADO DE VIÇOSA
EPÍTOME HISTÓRICA DA VELHA SANTA RITA DO TURVO


(DIREITOS RESERVADOS)


TEMAS


Desbravamento, destribalização, aldeamento e catequese
Usurpação territorial e genocídio indígena
Do Pomba ao Xopotó
Provisão e Termo de Posse do 1º Pároco
Formação patrimonial na Passagem do Turvo
Oratório com formalidade de Capela
Descortinando a Viçosa antiga
De Curato a Paróquia
Ciclo de emancipações
Elite política: notícias de governantes
A edilidade viçosense
De distrito à autonomia administrativa
O Distrito da Sede e a Comarca
Trajetória eclesiástica no Século XX
A construção do Santuário: marco de um novo tempo
Câmara, Prefeitura, Fórum e Cadeia
Cemitérios
Música, teatro, cinema, literatura e recreação
Artes Plásticas
Forças, luzes e comunicações
Educando a mocidade
A serviço da comunidade viçosense
Gênese Toponímica
O Dia da Municipalidade
ESAV-UREMG-UFV: A "Escola de Viçosa"
Ode ao meu viçoso vale




Encontra-se legalmente protegido o que aqui se posta, registrado em domínio próprio, conforme a Lei Federal nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, e artigo 5º (inciso XXVII) da Constituição da República Federativa do Brasil.


José Mário da Silva Rangel
rangelvicosa@gmail.com


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BIBLIOGRAFIA E OUTRAS FONTES CONSULTADAS




Principais referências bibliográficas


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ALMEIDA MAGALHÃES, Bruno de. Arthur Bernardes - Estadista da República
ALVES, Cirene Ferreira. Páginas para Serem Lembradas/Saudade em Dois Tempos – Crônicas de Norah
AMORA, Paulo. Bernardes - Um Estadista de Minas na República
ANDRADE, Rômulo. Escravidão e Cafeicultura em Minas Gerais: o caso da Zona da Mata
ARAÚJO, Paulo José de./ARAÚJO, Fernando. Antônio José Araújo - Esther Rodrigues Araújo
BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas Gerais
BARRETO, Fausto./LAET, Carlos de. Antologia Nacional (Escritores da Língua Portuguesa. do 20º ao 13º século)
BARROS, Edgard Vasconcelos. O Problema da Liderança
BLASENHEIM, Peter. Uma História Regional: A Zona da Mata Mineira (1870-1906)
BOLIVAR DE ARAÚJO MOREIRA, Cyro. O Centenário de Viçosa e o Presidente Arthur Bernardes
BRANT RIBEIRO FILHO, Antônio. Desbravamento, Caminhos Antigos e Povoamento nos Sertões do Leste – Uma Aventura de Pioneiros/Arthur Bernardes e a Revolução Constitucionalista - Um Resgate Histórico
CABANAS, João. A Columna da Morte
CAMPOS, Humberto de. O Brasil Anedótico
CAPRI, Roberto. Minas Geraes e seus Municípios (Zona da Matta) – (1916)
CARNEIRO, Glauco. História das Revoluções Brasileiras
CARVALHO, José Geraldo Vidigal de. Temas Oratórios/Temas Finais/Temas Pedagógicos/Temas Históricos/Viçosa Honra Dom Viçoso
CASTRO DE CARVALHO, Daniela Corrêa e. Além das palavras: o discurso conservador das elites agrárias mineiras a partir do Jornal de Viçosa na década de 1920
CASTRO FILHO, Sebastião da Cunha. Travessa Santa Rita, nº 60
CHIAVENATO, Júlio José. Bandeirismo – Dominação e Violência
COHEN, Ilka Stern. Bombas sobre São Paulo, A Revolução de 1924
COSTA, Joaquim Ribeiro da. Toponímia de Minas Gerais, com Estudo Histórico da Divisão Administrativa
COSTA VAL FILHO, João Braz da. Dr. João Braz da Costa Val: Uma vida, uma época
FIGUEIREDO, Celso Falabela de. Os Sertões do Leste: Achegas para a História da Zona da Mata
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GOMIDE, Tarcísio. Universidade Federal de Viçosa: Esboço de uma Síntese Histórica
GONÇALVES, Ary. O Segredo Revelado de Guido Marlière
GOULART, José Alípio. Tropas e Tropeiros na Formação do Brasil
GUEDES Pinto. João Bosco. São José do Triunfo - "Um povoado mineiro entre outros"
HILAIRE, August Saint. Viagem ao Interior do Brasil
HOLANDA, Sérgio Buarque de. História Geral da Civilização Brasileira: A Época Colonial
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LADEIRA, José Dionísio. Sempre Viçosa/Gente Viçosa/Viçosa, Uma Saudade/Viçosa é Terna
LAM-SÁNCHES, Alfredo. A UFV nos Tempos da Escola Superior de Agricultura
LEITE, Sebastião Lourival. Crônicas de um 'Barnabé'
LIMA, Alberto de Souza. Arthur Bernardes Perante a História
MAFFIA FILHO, João. Crônicas e Discursos
MAFRA, Johnny J../VON RONDON, Simone. Arduíno Bolivar: Resgate da Identidade Histórico-Cultural de Minas Gerais
MAGALHÃES, Gilson Faria Potsch./SABIONI, Gustavo Soares./BORGES, José Marcondes. A Universidade Federal de Viçosa no Século XX
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MATOSO, Caetano Costa. Diário da Jornada que Faz a Minas Gerais em 1749
MATOS, Raimundo José da Silva. Corografia Histórica da Província de Minas Gerais
MEIRELLES, Domingos. A noite das Grandes Fogueiras
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MERCADANTE, Paulo. Os Sertões do Leste: Estudo de uma região – A Mata Mineira
MOURA, Antônio de Pádua. Zona da Mata Mineira – Breve História
PAIVA, Adriano Toledo. A Dinâmica Populacional da Fronteira Leste do Termo de Mariana (1767-1800)
PEDROSA, M. X. de Vasconcelos. Zona Silenciosa da Historiografia Mineira: A Zona da Mata
PIMENTA, Silvério Gomes. A Vida de D. Antônio Ferreira Viçoso
PIRES, Maria do Carmo. A Expansão das Fronteiras da Comarca de Vila Rica e os Novos Oficiais dos Sertões
PIRES DA COSTA, Raimundo. Chão - Meu Chão/Pe. Antônio Guilherme - Um Cura Corpo e Alma
POSTCH MAGALHÃES, Edson. Até Quando? (Críticas)
PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo
RAMALHO. G. C.. Mapeamento Geotécnico de Viçosa com o Uso de Sistemas de Informações Geográficas
REZENDE, Irene Nogueira de. Negócios e participação política: fazendeiros da Zona da Mata de Minas Gerais (1821-1841)
RODRIGUES, André Figueiredo. Sertões Proibidos da Mantiqueira: Desbravamento, Ocupação da Terra e as Observações do Governador de Dom Rodrigo José de Meneses
SANTIAGO, Sinval Batista. Município de Rio Pomba – Síntese Histórica
SENNA, Nelson de. Annuario de Minas Geraes (1909)
SILVA, Cora de Araújo Moreira Ferreira da. Nostalgia
SILVEIRA, Victor. Minas Geraes em 1925
SIMÕES, Aparecida. Emílio Jardim - Amigo de Arthur Bernardes
SIQUEIRA, Edmundo. Resumo Histórico da The Leopoldina Railway
TAFURI Paniago, Maria do Carmo. Viçosa: Mudanças Socioculturais,Evolução Histórica e Tendências/Viçosa: Tradições e Folclore/Hervé Cordovil: Um Gênio da Música Popular Brasileira/Viçosa: Retratos de Uma Cidade
TÁVORA, Juarez. À Guisa de Depoimento Sobre a Revolução Brasileira de 1924
TRINDADE, Raimundo Octavio da. Instituição de Igrejas no Bispado de Mariana
VASCONCELLOS, Diogo de. História Média de Minas Gerais/História Antiga de Minas Gerais
VEIGA, José Pedro Xavier da. Efemérides Mineiras
VIDIGAL, Pedro Maciel. Minha Terra & Minha Gente/Ação Política


JORNAIS


A Cidade (Viçosa), A Razão (Viçosa), Barganha/Gazeta do Turvo(Viçosa), Cidade de Viçosa, Correio de Viçosa, Diário de Notícias, Escreva - Academia de Letras de Viçosa, Estado de Minas, Folha de Viçosa/Integração/Folha da Mata, O Alfinête (Viçosa), Gazeta Regional (Viçosa), Gazeta da Viçosa, Gazeta do Turvo (Viçosa), Mensagem Cristã (Viçosa), Jornal das Municipalidades, Jornal de Viçosa, Jornal do Brasil, Jornal do Povo (Ponte Nova), Luz do Carmelo (Viçosa), Comunidade (Viçosa), Paratodos - Informativo do Bar Sarau (Viçosa), Muzungu (Viçosa), O Arquidiocesano(Mariana), O Imparcial (Viçosa), Informativo São João Batista (Viçosa), O Popular de Viçosa, Semeando (Viçosa), Fermento (Viçosa), A Semana (Viçosa), UFV Informa/Jornal da UFV, O Progresso do Brasil.


REVISTAS


Revista Brasileira de Geografia (RJ) – Estudo Regional da Zona da Mata de Minas Gerais (RJ) – 1958, Revista do Arquivo Público Mineiro(edições diversas), Revista História Viva (edições diversas), Revista Nossa História (edições diversas) – Biblioteca Nacional, Revista Brasileira de História (SP) (edições diversas), Veja, Manchete, Centenário do Presidente Arthur da Silva Bernardes.


ACERVOS



Câmara Municipal de Viçosa, Instituto de Planejamento Municipal de Viçosa (Iplam), Museu Histórico de Rio Pomba, Paróquia de São Caetano (Cipotânea), Paróquia de São José (Paula Cândido), Paróquia de São Manoel (Rio Pomba), Paróquia de Santa Rita de Cássia (Viçosa), Paróquia de São João Batista (Visconde do Rio Branco), Prefeitura Municipal de Viçosa - Gabinete do Prefeito e Departamento de Cadastro e Tributos, livros diversos de leis, decretos e resoluções municipais e distritais, Cartório do Registro Civil da Comarca de Viçosa, Arquivo Central e Histórico da UFV (Viçosa), Diário Oficial, Minas Gerais (Belo Horizonte), Jornal do Povo (Ponte Nova), Cartório do 2º Ofício de Notas da Comarca de Viçosa, Cartório de Títulos e Documentos da Comarca de Viçosa, arquivo particular deste blogger e arquivos de famílias viçosenses residentes em Viçosa e Belo Horizonte.


ESPECIAIS AGRADECIMENTOS AOS COLABORADORES


Na elaboração de "O PASSADO COMPASSADO DE VIÇOSA - Epítome histórica da velha Santa Rita do Turvo" são muitos os amigos colaboradores deste blogger, com incentivo e críticas, depoimentos, fornecendo documentos, orientando, enfim, sendo como que co-autores deste trabalho:


Anna de Freitas
Antônio Pastor Machado de Castro
Antônio Teixeira Chequer
Arnaldo Dias de Andrade
Carlos Raymundo Torres
Cícero Garcia da Silveira
Cirene Ferreira Alves
Cláudia Beatriz de Castro Gomes
Cora de Araújo Moreira Ferreira da Silva
Cora Ferreira da Silva Castro
Cristina Fontes Araújo Viana
Daniel Lopes
Edgard de Vasconcellos Barros
Edson Potsch Magalhães
Élcida da Silva Valente
Eliane José Ferrão
Elias Ibrahim
Erotides Silva de Carvalho
Euter Paniago
Francisco Carlos Ferreira da Silva
Francisco Corrêa do Carmo
Francisco Machado Filho
Francisco Simonini da Silva
Frank Paiva da Cunha
Geni Maria da Silva
Geraldo Euzébio de Carvalho
Geraldo Lopes de Faria
Helena Carneiro Loureiro
Heloísa Gomes de Araújo Moreira
Hildécio Lopes dos Santos
Isaura Maria de Alvarenga Coelho e Loures
João Ferreira dos Santos
João Maffia Filho
Joelma Oliveira
José Antônio Rodrigues Dias
José Bernardes Raposo
José Dionísio Ladeira
José Geraldo Vidigal de Carvalho
José Levy de Oliveira
José Marcondes Borges
José Muanis Bhering Nasser
José Palhano Júnior
José Roberto Reis
José Romualdo Quintão
José Simião da Cunha
Laurindo Torres Carneiro
Lacyr Dias de Andrade
Leda de Bittencourt Bandeira
Lúcia Maria Sant'Ana Costa
Lúcio Queiroz Gonçalves
Manoel Duarte Pontes
Marden Ibrahim
Maria da Conceição Alencar Fontes
Maria do Carmo Rezende Borges
Maria do Carmo Tafuri Paniago
Maria do Rosário Bhering Nasser
Maria Emília Soares Garcia
Maria Teresa de Alvarenga Coelho e Silva
Mário Rocha Gomes
Marly de Souza
Maurício Valle Salles
Myrthes Maura Pacheco Batista
Nair Fonseca Torres
Nilton Alves Gonzaga
Oswaldo de Paula Lanna
Osvaldo Salles Tibúrcio
Paulo Dionê Quintão
Paulo José de Araújo
Pélmio Simões de Carvalho
Regina Maria Salgado Alves Pinto
Regina da Cruz Alvarenga
Renato Valle Salles
Rosângela Cardoso de Carvalho
Ruy Barbosa Assis Castro
Sebastião Paranhos Filho
Sylvio Caiaffa Mendonça
Simão Cirineu Ladeira
Vera Sônia Saraiva
Womer Wellareo de Oliveira

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Gratidão a todos pelo incentivo, pela colaboração.





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DESBRAVAMENTO, DESTRIBALIZAÇÃO, ALDEAMENTO E CATEQUESE



Desbravando a mata anecúmena



No lugar que seria um dia a Viçosa de Santa Rita, nos extertores do século XVIII, foi que a população embrionária se estabeleceu. O fluxo povoador veio com a liberação, pela Coroa Portuguesa, da abertura de atalhos numa mata que vinha sendo clandestinamente desvirginada e transformada num cenário de contrabando aurífero. Disso nos dão conta as informações mais remotas de que dispõem os maiores memorialistas mineiros. Neste proscênio ainda pré-histórico, o suave som do murmúrio das corredeiras de cachoeiras que brotavam das cumeadas da Cordilheira da Mantiqueira acalentava o sono dos puris, coporós, coroados, cataguás e aimorés, autóctones da nação Tupi, viventes que vagueavam pelos píncaros e planícies de uma extensa área anecúmena. Parte desses silvícolas havia sido rechaçada da baixada de Campos dos Goytacases, provavelmente por brancos povoadores que passavam a ocupar a faixa litorânea da Terra de Santa Cruz, ou talvez por tribos rivais.
Dentre morros e colinas, algumas escarpadas como espigões, outras seccionadas e de pendor suave, ramificados caprichosamente e abruptamente destacados no cenário das altaneiras serras da Piedade e do Caparaó, diante de um amplo horizonte, essas criaturas humanas presenciaram a chegada, ainda ao final do século XVII, de geralistas oriundos de Taubaté (SP). Serpenteando por rotas fluviais, em companhia de expatriados africanos, desbravaram densas matas, abrindo largas picadas numa espessa vegetação, atravessando as paragens de onde se assentaria um dia o município de Viçosa. Procuravam afoitos, em sinuosos caminhos de uma selva bruta, por novos vales auríferos e diamantinos. Percorrendo os sertões que margeiam o caudaloso rio de Nossa Senhora da Conceição da Guarapiranga (município de Piranga), partindo de Santo Antônio da Itaverava, num de seus afluentes, o rio da lendária “Casa de Casca”, vieram a encontrar, “em boa conta”, o reluzente e ambicionado ouro.
Era época de Bandeirismo. E não tão longe, em Caeté, Serro Frio, Pitangui, Vila Rica, Sabará, São João del Rei, do dadivoso Tripuí, extraía-se, às arrobas, ambicionados metais. Diamantes, esmeraldas, águas marinhas e safiras faziam a riqueza de uma população aventureira. Mata adentro, o bandeirante Antônio Rodrigues Arzão, em 1693, e depois seu cunhado Bartolomeu Bueno de Siqueira, percorreram essa misteriosa região até então indevassável da Zona da Mata mineira. Não há notícias de incursões anteriores nesta região, por parte de brancos povoadores. Muito tempo após, em 1781, o Conde de Calveiros, D. Rodrigo José de Menezes, governador da Capitania de Minas, organizou a sua bandeira, chefiada pelo padre Manoel Luiz Branco, que contornou a serra onde se estabeleceu o povoado de São Miguel e Almas de Arrepiados, atual município de Araponga, que outrora compôs o vasto território municipal viçosense, rico em manganês, mica, pedras preciosas e estanho, dentre outros minerais. D. Rodrigo viajou pela Mantiqueira no intuito de melhor fiscalizar “o quinto” e o extravio do ouro, que já ocorria numa selva ocupada por tribos de índios canibais, uma área proibida, até que houve as suas investidas.
Após a Guerra dos Emboabas, no começo do século XVIII, durante o período da mineração aurífera, o direito de ir e vir era totalmente controlado pelas autoridades reais. A abertura de caminhos novos nos sentidos Leste e Oeste era legalmente impedida, existindo, além de uma severa vigilância por parte do governo na circulação de todos pelos caminhos oficiais, muito índio bravo numa colossal mata virgem. Ao percorrer o denominado Caminho Novo, desbravado inicialmente em 1703, por Garcia Rodrigues Paes e concluído por Domingos Rodrigues da Fonseca, o ouvidor Caetano da Costa Matoso, vindo do Rio de Janeiro em direção a Ouro Preto, entre janeiro e fevereiro de 1749, assombrou-se com a magnitude da floresta fechada. Antes dele, somente os bandeirantes João Siqueira Afonso, Antônio Fernandes Furtado e Feliciano Cardoso de Mendonça haviam penetrado pelos chamados “Sertões do Leste”. E não havendo ainda atividade pastoril e agrícola em Minas, deu-se grande incentivo, entre 1750 e 1777, à busca de novas jazidas auríferas e pedras preciosas. Os puris da Zona da Mata mineira ocupavam, entre outras, as vastas áreas dos atuais municípios de Viçosa, Coimbra, Ervália, São Geraldo, Visconde do Rio Branco, Ubá, Tocantins, Rio Pomba, Guarani, Guidoval, Astolfo Dutra, Dona Eusébia, Cataguases, Miraí, Muriaé, Patrocínio do Muriaé e Leopoldina. De acordo com estudiosos, esses nômades eram de origem goitacá, como também o foram algumas tribos do Nordeste Mineiro, estas incorporadas aos botocudos, que no final do século XVIII eram considerados bravíssimos e donos das terras do ouro. Leopoldina era considerada o último refúgio dos puris escorraçados pelos mineradores.



FORMAÇÃO PATRIMONIAL NA PASSAGEM DO TURVO



Se em 1822 eram 20.000 habitantes da Zona da Mata, em 1890 esses chegavam a 430.000. Em 1920, eram já 840.000 os seus moradores. Na Passagem do Turvo, ou Aldeia da Aplicação do Ribeirão do Turvo (este é o primeiro nome conhecido da corrutela), povoado que se tornou uma cidade pólo prestador de serviços, os primeiros habitantes originaram-se das regiões mineradoras, porque com a escassez de gêneros de primeira necessidade, nas últimas décadas dos setecentos, muitos tiveram que formar suas primitivas fazendas cafeeiras em Santa Rita e adjacências, provavelmente a partir de 1770, baseadas em mão-de-obra escrava, onde trabalhavam os elementos servis que às vésperas da abolição somavam em três milhares, e que aqui aportaram, jongueiros, com seus atabaques, os bantos, congos, moçambiques, benguelas, rebolos, cassanges e cabindas, ligados, muitos deles, a irmandades religiosas como a da Terra Santa, conforme registros de óbito de inúmeros cativos, conservados no Santuário de Santa Rita de Cássia. Os imigrantes assumiram um patrimônio em torno do qual havia sesmaria concedida pela Coroa Portuguesa, provavelmente desde o meado século XVIII, e onde ouvia-se o cristalino bimbalhar do sino de uma ermida.
No livro nº 1, de óbitos, à fl. 2, consta o assentamento do óbito de Antônio Ang,ª (abreviatura com que se designava Angola), escravo do alferes Antônio Barbosa de Souza Lima, ocorrido em 6-XII-1814. Ibd., id. de Ignácio B.ª (abreviatura de Benguela), casado com Tereza Ang.ª (Angola), escravo de José Rois Branco, ocorrido em 18-III-1815. Ibd., id., de Antônio Cabunda, escravo de herdeiros órfãos do falecido Manoel José Gomes, ocorrido em 24-VII-1815. Ibd., id. de Joaquina Mina, casada com Manoel Soares B.ª (Benguela), ocorrido em 10-XII-1815. À fl. 5, óbito de Tereza Cassange, escrava dos herds. de Manoel José Gomes, em 8-II-1816. Ibd., de Ursula Ca. (Cambinda), escrava de Antônia Maria Angélica da Silva, em 6-3-1819. Ainda no lívro de óbitos nº 1 há o assento de 17/11/1822, do falecimento, aos 65 anos, de Joanna Rebolla, "pretta liberta, viúva de Francisco Benguela, pretto liberto". Chancelado pelo Pe. Maximiliano José da Silva Castro, o documento diz que ela recebeu os sacramentos da Penitência, Eucaristia e Extrema-Unção, sendo amortalhada no Hábito da Terra Santa, de que era irmã, dentro da Capela de Santa Rita, em sepultura gratuita e da Senhora do Rosário. Agostinho Angola (escravo) foi sepultado a 14/12/1818 "no Cemitério da Fazenda do Macuco", do Capitão Antônio Gomes. Manoel Angola, também escravo, no Cemitério da Fazenda do Alferes Manoel da Silva (Viana? - ilegível). Já Tereza Conga, enterrada a 16/3/1819, no adro da Capela de Santa Rita, como diversos outros escravos.
No século XIX, entre francesas e portuguesas figuraram como pioneiras, dentre outras, as famílias Airão, Almeida, Andrade, Araújo, Barbosa, Barros, Botelho, Cardoso, Carvalho, Castro, Costa, Coura, Dias, Diniz, Encarnação, Faria, Fernandes, Ferreira, Fonseca, Fontes, Fraga, Franco, Freitas, Gomes, Gomide, Gonçalves, Guimarães, Jacob, Lanna, Lima, Lopes, Machado, Magalhães, Marota, Martins, Mendes, Modesto, Monteiro, Moreira, Noronha, Oliveira, Paula, Procópio, Reis, Ribeiro, Rodrigues, Romão, Sabino, Salgado, Sant’Anna, Santos, Silva, Simplício, Soares, Socanga, Tristão, Ubaldo, Valente e Vieira. Descendentes de outras famílias viriam depois, naquele século e no seguinte, entre descendentes de alemães, portugueses, italianos, espanhóis, judeus e libaneses. Entre os italianos houve aqueles que vieram de cidades como Rivello (Apenino Lucano), na Basilicata, de Gallicano, na província de Massa-Carrara (região de Toscana) e de Caltanissetta, na Sicilia. Já os libaneses, ocupando já no final do século XIX o distrito da sede e os de São Miguel do Anta, Coimbra, Teixeiras e Cajuri, oriundos de cidades como Tripoli, Bzebdine, El Metten, Chebaniyeh, Broumana, Zgurta e Falougha, que aqui trabalharam inicialmente como mascates, alfaiates, em olaria, mecânica e na agricultura, integrando famílias como Aad, Assef, Azis, Khoury, Melim, Barquete, Charcha, Ramos, Balut, Muanis, Bhering, Zaidan, Wakin, Rameh, Brumano, Habib, Abrahão, Melim, Chequer, Assad, El Hadj, Faraht, Said, Abu, Daguer, Yasef, Gassin, Daibes, Nansir, Zahour, Daker, Gibaille, Abou-Id, Ibrahim, Kalil, Nascif, Jabrine, Slaimen, Naim, Yamim, Barquete, Abdalla, Marum, Mucci, Nasser, Nazar, Obeid, Said, Zacour, Ferez, Yared e Zaharãm. No século XX, as de origem alemã, espanhola e nipônica tiveram destacado papel nas práticas agrícolas, algumas na Colônia Vaz de Mello, mas sobretudo na vida científica e tecnológica da antiga Escola Superior de Agricultura. Cumpre citar famílias como Abe, Abiko, Esaki, Fujio, Fujivara, Fukumothy, Hamawaky, Hirama, Igarashi, Irino, Ito, Kasuya, Komuro, Kuana, Kudo, Kurokawa, Maruyama, Matsuoka, Matsucuma, Miasaki, Moritsugu, Mizubuti, Naguno, Nakasa, Noda, Ogata, Okada, Okino, Ootani, Sakane, Sassaki, Sato, Shimabukuru, Shimoya, Sediyama, Shimohira, Shirota, Suguinoshita, Suzuki, Takaki, Takayama, Takayanagui, Taniwaki, Toma, Uchiya, Watanabe, Yasunaga e Yukawa. No magistério, comerciantes e comerciários, operários, funcionários públicos, médicos, agricultores, profissionais liberais ou exercendo inúmeras outras profissões, tornaram-se viçosenses os Alencar, Alves, Bernardes, Blasi, Bittencourt, Brune, Brustolini, Coelho, Comastri, Brito, Ramos, Del Giudice, Bonicontro, D'Antonino, Domenici, Fortes, Gouveia, Iglésias, Dias, Ferreira, Nicácio, Nogueira, Coelho, Maciel, Antunes, Oliveira, Brandão, Barreto, Pacheco, Vaz, Paoli, Paiva, Paniago, Parreiras, Maffia, Campos, Bezerra, Passarinho, Paula, Pereira, Pires, Vidigal, Teixeira, Pinheiro, Bittencourt, Castro, Pinto, Pontes, Freitas, Borges, Bolivar, Queiroga, Lanes, Araújo, Nogueira, Braga, Lopes, Martinho, Ramos, Rebello, Xavier, Azevedo, Penna, Reis, Maestri, Floresta, Mattoso, Almeida, Lélis, Andersen, Alves, Resende, Rocha, Castro, Mota, Simões, Andersen, Bandeira, Medina, Silva, Maffia, Moura, Taranto, Nogueira, Brandão, Leal, Cruz, Rezende, Medina, Fialho, Rodrigues, Rosado, Garcia, Ladeira, Starling, Couto, Fernandes, Chaves, Alves, Rosa, Azevedo, Barbosa, Oliveira, Guedes, Sá, Fontes, Santiago, Sabino, Salles, Souza, Silva, Vianna, Santiago, Rodrigues, Cruz, Starling, Santos, Mantovani, Saraiva, Silveira, Silvino, Brandi, Soares, Dutra, Spínola, Teixeira, Tinoco, Vilhena, Ferreira, Torres, Val, Freitas, Valente, Vieira, Jardim, Rolla, Herman, Niewert, Kümmel, Lehner, Lentini, Lombardi, Wellareo, Maestri, Martino, Picorelli, Megale, Mello, Pecci, Rigotto, Menicucci, Miranda, Rigotto, Brandi, Mollica, Pacheco, Pacífico, Paixão, Paranhos, Pierri, Pinto, Pompeano, Pônzio, Rosado, Parzanini, Fontenelle, Rubim, Coaglio, Vanetti, Santos, Schitini, Silvino, Simonini, Tafuri, Torres, Vaz e Vitarelli. No final do século XIX registra-se a presença, ainda, dentre muitas outras famílias, as dos Bernardes, Cardoso, Condé, Dias, Faria, Franco, Laje, Lima, Valadares, Lopes, Colares, Mendes, Villa Maria, Ramos, Reis, Santos, Galvão, Silva, Silvino, Souza e Teixeira. No século XX, entre algumas aqui já citadas, presentes estavam em Viçosa famílias como Cardoso, Carneiro, Carvalho, Castro, Chaves, Cintra, Coelho, Correia, Costa, Dantas, Domenici, Duarte, Dutra, Euclydes, Faria, Faustino, Felga, Fernandes, Ferraz, Baião, Pavageau, Ferreira, Fialho, Fonseca, Franco, Freire, Freitas, Galvão, Garcia, Gomes, Marcondes, Gomide, Val, Gonçalves, Gonzaga, Gouveia, Guimarães, Horta, Jacob, Janotti, Jardim, Kunze, Leão, Moretzohn, Lima, Lisboa, Valente, Lopes, Vianna, Rigotto, Lourenço, Machado, Maciel, Magalhães, Braga, Dini, Marques, Abranches, Martinho, Martins, Dorofeeff, Medeiros, Figueiredo, Bini, Palhano, Megale, Mello, Pushmann, Mendes, Miranda, Moreira, Moura, Nascimento, Nazar, Neves, Nicácio, Balut, Oliveira, Orrico, Rolfs, Pacheco, Raposo, Paula, Peixoto, Vasconcellos, Pereira, Peres, Chagas, Rozado, Pessoa, Teixeira, Catoud, Pinheiro, Braatheen, Pinto, Pires, Pompeiano, Porfírio, Primo, Ramos, Rebello, Rezende, Ribeiro, Pecci, Xavier, Rodrigues, Rolla, Roque, Rosado, Sá, Salles, Sant'Anna, Santos, Senna, Serra, Silva, Simplício, Soares, Souza, Tavares, Teixeira, Thomaz, Torres, Tristão, Valentim, Valle, Vaz, Vianna, Victorino, Vieira e Xavier.
Ao citarmos os sobrenomes de famílias tão ilustres, tomamos como imperativo a transcrição de um pensamento de Bertold Brecht (1898-1956), coetâneo de alguns desses imigrantes. Sob a epígrafe “Perguntas de um operário que lê”, Brecht inquiriu: “Quem construiu a Tebas das sete portas? Nos livros constam os nomes dos reis. Os reis arrastaram os blocos de pedra? E a Babilônia tantas vezes destruída. Quem ergueu outras tantas? Em que casa da Lima radiante de ouro moravam os construtores? Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta a Muralha da China? A grande Roma está cheia de arcos do triunfo. Quem os levantou? Sobre que triunfaram os césares? A decantada Bizâncio só tinha palácios para seus habitantes? Mesmo na legendária Atlântida, na noite em que o mar a engoliu, os que se afogaram gritavam pelos seus escravos. O jovem Alexandre conquistou a Índia. Ele sozinho? César bateu os gauleses. Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo? Felipe da Espanha chorou quando sua Armada naufragou. Ninguém mais chorou? Frederido II venceu a Guerra dos Sete Anos. Quem venceu além dele? Uma vitória em cada página. Quem cozinhava os banquetes da vitória? Um grande homem a cada dez anos. Quem pagava suas despesas? Tantos relatos. Tantas perguntas.”



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O Pe. Manoel Inácio de Castro era o proprietário de uma das primitivas fazendas, a São Bartolomeu, onde estão as Quatro Pilastras, na entrada principal do campus da antiga Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (Uremg). Sua propriedade, de três léguas de extensão com matas de palmito, foi partilhada entre sobrinhos com o seu falecimento a 27/5/1819, conforme documento reproduzido na sessão iconográfica deste trabalho, cujo inteiro teor vai aqui transcrito:


"Aos vinte e sete dias de Maio de mil oitocentos e dezenove faleceu da vida presente de Idropesia, com Solenne Testamento o Pe. Manuel Ignacio de Castro, natural da Cathedral da De. de Marianna, recebeo os Sacramentos da Penitencia, Eucharistia e Extremunção, foi amortalhado em Vestes Sacerdotais, precedendo as Insígnias da Irmde. de N. Snra. do Carmo de Villa Rica, da qual era irmão 3º, conduzido em Caixão, acompanhado e encomendado pelo R. Vigº do Presidio e mais quatro Rs. Sacerdotes, por não concorrerem mais, feitas as diligências necessárias. Dicerão-se oito Missas de Corpo Presente por sua Alma de Esmola de mil e duzentos reis outro tanto a cada Pe. que acompanharão, estribuindose nove mil e seiscentos reis à porta da Capella pelos pobres q. acompanharão o Corpo. Gastou-se nesse Enterro dezesseis libras de Sera, e tres quartos no Deposito. Pes. Cruz, com homens de Opas, e Habito, o q. tudo pagarão nos Testamentos os herdeiros e foi sepultado no dia vinte, e nove do dito mês Dentro desta Capella de Sta. Rita, Frega. da Pomba, e pª constar fiz este assento, que assino. O Pe. Manoel Gls. Fontes".


Outras das mais antigas fazendas de que se têm notícias são as da Grama, São Domingos, Tico-Tico, do Turvo, do Coura, da Vargem, São João, São Tiago, do Benedito, Donana e do Paraíso. Alguns de seus proprietários ocupavam residências próximas da capela em dias santos de guarda e aos domingos, quando participavam dos ofícios religiosos.
Dr. Felício Brandi, emérito educador viçosense, ressaltou que a História de Viçosa “é um monumento simples de acontecimentos que empolgam, uma sucessão de atos rurais em prol do progresso e pela manutenção da independência conquistada com o trabalho progressivo de seus filhos”. E dentre esses atos de sucesso, ocorridos numa terra exportadora de marmelo, fumo, café, açúcar, algodão beneficiado, cereais, aves, ovos, gado, manteiga, macarrão e couro, avulta-se o de um casal, Manoel Cardoso Machado e Ana Joaquina de Fraga, que doou terrenos e casas para a constituição do primeiro patrimônio canônico da ermida santa-ritense.


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A seguir a transcrição do documento de doação, efetivada em São João Batista do Presídio (Visconde do Rio Branco), a que Viçosa pertencera eclesiasticamente após se desligar de Rio Pomba, por força da Lei N. 134, de 16 de março de 1839. Tal se deu quando Bernardo Jacinto da Veiga, presidente da província de Minas Gerais sancionou o decreto da Assembléia Legislativa Provincial elevando a Vila São João Batista do Presidio, compreendendo no seu Município a Freguesia do mesmo nome e as de Santa Rita do Turvo e de Arripiados (atual Araponga). Presídio de São João Batista passava então a compreender no Termo da Comarca do Rio Paraibuna.

Eis a transcrição:

“Monsenhor Cônego Júlio de Paula Dias Bicalho, Secretário do Bispado de Mariana e escrivão da Câmara Eclesiástica pelo Exmo. e Rvmo. Sr. Bispo Diocesano, etc...
Certifico, ex-vi do despacho retro, que na Câmara Eclesiástica estão arquivados os seguintes documentos relativos ao patrimônio da Capela de Santa Rita do Turvo, outrora filial da Matriz de S. Manoel do Rio da Pomba e Peixe, depois Matriz de Sta. Rita do Turvo e hoje cidade de Viçosa.

ESCRITURA

Dizemos nós abaixo-assinados Capitão Manoel Cardoso Machado e D. Ana Joaquina de Fraga, que entre os mais bens que possuimos e assim bem umas casas cobertas de telhas sitas nas terras do Patrimônio de Sta. Rita do Turvo, consta dos créditos que por elas paguei em preço de cincoenta oitavas de ouro a Manoel da Silva Soares e ao Alferes Joaquim Botelho da Costa as quais nós damos eu e minha mulher acima referidos damos de esmola a Sta. Rita e cedemos de todo direito jus e ação que nela temos e o transpassamos aos procuradores da dita Santa que atualmente servem: o Alferes Vicente Rodrigues Valente e Rafael Gonçalves Bastos para que na qualidade de procuradores as possam conservar e defender a benefício da mesma Santa e para nela se estabelecer o patrimônio da sua Capela: a qual doação de esmola fizemos muito de nossas livres vontades nem nossos testamenteiros e herdeiros poderão em tempo algum anular, desfazer ou reivindicar êste nosso papel de doação e pedimos a Sua Alteza Real haja por bem esta nossa doação e se nela faltar alguma cláusula ou cláusulas em direito necessárias as damos por declaradas e implícitas em nossa vontade a fim de que fique êste papel valioso. Para constar entregamos aos ditos procuradores o referido crédito como título do domínio doado e rogamos ao Rvmo. Cura Marcelino Rodrigues Ferreira êste por nós fizesse o qual assinamos em presença das testemunhas o Rvmo. Capelão de Sta. Rita o Padre Jerônimo Fernandes Lana e José Joaquim da Silva e Francisco Cardoso de Assis – abaixo assinados. Presídio de S. João Batista, 20 de Agosto de 1805.

Manoel Cardoso Machado
Ana Joaquina de Fraga

Como testemunha, Jerônimo Fernandes Lâna, José Joaquim da Silva, Francisco Cardoso de Assis. Como testemunha que êste escrevi a rôgo dos sobreditos e fiz assinar. O Padre Marcelino Rodrigues Ferreira. Reconheço por verdadeira a letra e sinal do Rvmo. Marcelino Rodrigues Ferreira, pelo pleno conhecimento que dela tenho.
Estava assinado com a rubrica do escrivão ajudante da Câmara Episcopal."



DESTRIBALIZAÇÃO, ALDEAMENTO E CATEQUESE



“A vida de uma cidade nem sempre tem começo numa data determinada, rigorosamente falando, exceção, é claro, quanto ao lado formal: os dispositivos legais que regem sua criação e os registros públicos que marcam o início de sua existência oficial. Isto constitui alguma coisa mas não é tudo. O essencial é o fundo que pré-existe, um sentimento do espaço partilhado, a convivência, a experiência e a consciência de estar vivendo com o outro ou com os outros num mesmo lugar, mesmo ignorando o resto: a fixação institucional de seus limites e os motivos que ditaram a criação da entidade”, segundo COSTA (nº?). Precedendo o início da epopéia viçosense seguiu-se uma trajetória épica de acontecimentos. Alguns desses fatos históricos remontam à Era do Brasil Colonial. Significativas, dignas de notícias, tais efemérides julgo merecerem, muito embora aqui neste nosso indigente exercício anamnésico, serem trazidas à recordação dos pósteros.
Em 1829, sendo imperador D. Pedro I e estando como titular do bispado de Mariana o eminente antístite D. Frei José da Santíssima Trindade, a Freguesia do Mártir São Manoel dos Sertões do Rio da Pomba e dos Peixes dos Índios Coropós e Coroados, com 39 casas, compreendia diversas capelas filiais, entre essas a de Santa Rita do Turvo. Naquela ocasião, constituíam-se em núcleos populacionais circunvizinhos: Guarapiranga (hoje Piranga), Barra do Bacalhau (Guaraciaba) e Tapera (Porto Firme), às margens do rio Piranga, todos servindo como pontos de pouso de tropeiros.
Por um decreto de 13/10/1831, Rio Pomba (Vila desde 13/10/1831, Cidade a partir de 6/6/1858, cujo atual território dista cem quilômetros de Viçosa, após sucessivos desmembramentos distritais) foi elevada à categoria de Vila, compreendendo a Freguesia de São João Batista do Presídio (atual cidade de Visconde do Rio Branco), conforme resolução da Assembléia Geral Legislativa. Expediram-se, a 3/3/1832, as instruções para a instalação do município. E de 25 a 27 de agosto daquele mesmo ano o, ocorreram os festejos, que se seguiram ao auto do levantamento do pelourinho, cerimônia comandada pelo ouvidor de Ouro Preto, Dr. Antônio José Monteiro de Barros, onde está a praça Dr. Último de Carvalho, a principal rio-pombense, outrora Largo da Alegria. Presidia a província de Minas, por aqueles dias, o Barão de Pontal, Dr. Manoel Ignácio de Mello e Souza.
Dentre os 14 distritos que inicialmente ficaram compreendendo no Termo (subdivisão de Comarca) do Pomba, figurou, então, a Freguesia de Santa Rita do Turvo. Contavam-se em seis, então, as Comarcas de Minas. Em 1837 chegavam a 20 os distritos rio-pombenses. A extensão territorial do município do Pomba era enorme, pois abrangia as divisas de Araponga até Além Paraíba, no sentido Norte-Sul; e de Mercês a Santo Antônio de Pádua (este último é município fluminense e já foi mineiro), no sentido Leste-Oeste. Por decreto de Dom João V, de 16 de fevereiro de 1718, foram constituídas as cinco primeiras paróquias das Minas Gerais, entre as quais a de Nossa Senhora da Conceição do Guarapiranga, embora esta já funcionasse como tal desde 1704, ligada à Diocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. O incipiente povoado de Guarapiranga, arraial surgido dez anos após a descoberta do ouro no Ribeirão do Carmo (região de Mariana), tinha desde 1695 a sua igrejinha, onde Frei José de Jesus celebrava as missas.
A região do Rio Pomba foi desmembrada de Guarapiranga, tornando-se Freguesia Colativa apenas em 1771, sob o orago de um santo persa, patrono dos diplomatas, martirizado no ano 363: São Manoel. Na data do Natal de 1767, num território totalmente vazio de gente civilizada, o vigário encomendado, Padre Manoel de Jesus Maria, em sua paróquia instituída com o propósito de consolidação do aldeamento central das matas do Termo de Mariana, deu início à sua Missão. Consagrado hodiernamente com o justo epíteto de Anchieta dos Sertões da Mata Mineira, este ínclito mineiro de Santo Antônio da Casa Branca (Termo de Vila Rica), foi o terçador que obteve da Capitania de Minas a abertura de um dos caminhos que atravessando serranias, do Pomba ao Xopotó dos Coroados, alcançou primitivos núcleos habitacionais da nossa região. A este padre coube a fundação de povoados da Mata, como registra a História de Minas Gerais. Pe. Jesus Maria criou, com o apoio constante do capitão Francisco Pires Farinho, uma escola de primeiras letras, além de se dedicar à catequização propriamente dita e ao ensino do cultivo agrícola e pastoril. No intrincado processo da conquista colonial, foram destribalizados os gentios cropós, bocaiús, guarulhos, croatos e puris, e aldeados ao redor da Igreja de São Manoel e de suas filiais, como Santa Rita do Turvo. Filho natural do português João Antunes e da negra Maria de Barros, após muito se empenhar na salvação de almas e no aproveitamento econômico dos sertões, Pe. Jesus Maria faleceu a 6/12/1811, sendo sepultado em Rio Pomba, na Igreja do mártir São Manoel, localizada na atual praça Ministro Odilon Braga.
A delimitação da nova Freguesia do Pomba fora feita em 1771, por Dom Luís Diogo Lobo da Silva, governador da Capitania de Minas, a pedido de Pe. Jesus Maria, reconhecido como “o Pároco dos Índios”. Dona Maria I confirmou a delimitação anterior, em 1779. Dez anos após, portanto em 1789, era lavrado o assento daquele que pode ser, de fato, o primeiro Batismo, ministrado pelo cura Jerônimo Fernandes Lanna, sacerdote descendente de franceses, na Aplicação (oratório com formalidade de capela) de Santa Rita do Turvo. A 2/7/1791, durante o bispado de D. Domingos da Encarnação Pontevel, se atestava a provisão de Pe. Francisco da Silva Campos, para a catequização do aldeamento indígena de Visconde do Rio Branco, onde a primeira capelinha, dedicada a São João Batista, foi erguida em 1787, ocasião em que, conforme JOSÉ, o território do primitivo povoado ia sendo, na segunda metade do século XVIII, “rapidamente conquistado por antigos mineradores, então transformados em poaeiros, agricultores e comerciantes”. Surgiram então, ao redor do Xopotó dos Coroados, as culturas e os sítios de subsistência, que produziam, ainda de acordo com JOSÉ, arroz, feijão, raízes e tubérculos, frutas, pequenos animais e cana de açúcar, cujo introdutor foi o referido Pe. Francisco, procedente de Campos dos Goytacazes, aonde retornou após sair de Minas, a fim de trabalhar na orla marítima fluminense. Na futura Viçosa, então com vinte e duas famílias, a Capela de Santa Rita (filial e distrito do Pomba, a exemplo da de Visconde do Rio Branco), onde Pe. Francisco da Silva Campos também se fazia presente, ministrando sacramentos, sob a autorização eclesiástica do vigário Pe. Jesus Maria, foi elevada a Freguesia pelo Decreto Imperial de 14/7/1832, passando a ter como filiais os curatos de São José do Barroso (Paula Cândido) e Nossa Senhora da Conceição do Turvo (Senador Firmino), sendo Dom Frei José da Santíssima Trindade o bispo da Diocese de Mariana.
Por aqueles tempos, em 1818, MARTIUS (nº?) percorreu a incipiente Freguesia de Santa Rita. Naturalista europeu, ele atravessara, de Norte a Sul, o Brasil. E de sua jornada por essas paragens fez breve descritivo do trajeto entre Barra do Bacalhau, Santa Rita do Turvo e a Serra de São Geraldo. Eis pequeno trecho de seu relato:


“...Perto da venda das Duas Irmãs, passamos por um fundo de cascalho, na junção dos rios Turvo e Piranga, e cavalgamos por uma região montanhosa. Nuvens úmidas e neblina envolviam-nos freqüentemente, assim como aos topos do Mato dos Puris, e nos faziam recordar o outono de nossa pátria. Ao cair da noite alcançamos um vale alto, bonito e achamos agasalho numa fazenda perto da Capela de Santa Rita. Muito mais penosa viagem foi a do dia subseqüente; mal havíamos cortado o vale alagadiço, achamo-nos diante da espessura de certa mata, na qual parecia nunca haver penetrado o sol.[...] A picada era tão estreita, que a custo passava uma mula atrás da outra, tétrica como o inferno de Dante fechava-se a mata, e cada vez se estreitava e mais íngreme se tornava, pelos labirínticos meandros, até ao profundo abismo, por onde correm águas tumultuosas de riachos, e ora aqui, ora ali, jazem blocos de rocha, que se soltaram. Ao horror, que esta solidão infundia na alma, acrescentava-se ainda a aflitiva perspectiva de um ataque de animais ferozes ou de índios malévolos, que a nossa imaginação figurava em pavorosos quadros, com os mais lúgubres pressentimentos. Indizível foi, portanto, o nosso alívio, quando chegamos, finalmente, ao outro lado da Serra de São Geraldo, e vimos luzirem cada vez mais claros os vislumbres do dia. Depois de havermos vencido parte do caminho abrupto, que vai descendo por um rego, avistamos extensíssima mataria, limitada a sudoeste pela Serra da Onça, igualmente coberta de mato. Apenas havíamos descido à vasta planície do vale entre ambas estas serras, composta em grande parte de gneiss, e tendo dois mil e quinhentos pés de altitude, fomos tomados de surpresa, na estreita picada, por dois vultos humanos. Estavam nus e sobre as costas caía-lhes o cabelo ao solo, negro como o carvão. Eles esgueiravam-se vagarosos a passos curtos, o pescoço encolhido virando os olhos, ora para a direita, ora para a esquerda; o homem ia à frente, levava arco e flecha na mão esquerda, e sobre o ombro pendia-lhe, ainda um feixe de flechas. A mulher, com a criança mais velha, seguia atrás e, trazia às costas uma cesta de folha de palmeira trançada, que era segura por uma tira amarrada à testa, contendo os utensílios domésticos e os gêneros: milho, mandioca, batatas, uma vasilha de barro, etc. Em cima de tudo estava sentada uma criancinha, de alguns meses de idade mais ou menos, que se agarrava com os bracinhos ao pescoço da mãe. Logo que nos avistaram escapuliram rápidos pelo mato”...



ORATÓRIO COM FORMALIDADE DE CAPELA



No Brasil Colonial e Imperial, as Freguesias (sinônimo de Paróquia) não eram meras divisões diocesanas da Igreja Católica, mas significavam subdivisões administrativas, civis e políticas. A atual cidade de Viçosa se tornou Freguesia em 1832, com o topônimo Santa Rita do Turvo. Antes disso, no princípio do século XIX, nossa região fisiográfica pertencera, como distrito, à Freguesia do Mártir São Manoel dos Sertões do Rio da Pomba e dos Peixes dos Índios Coropós e Coroados, hoje limitado, após sucessivos desmembramentos distritais, ao município de Rio Pomba, que foi a primeira sede paroquial da Zona da Mata (instituída em 1767), inicialmente sob a direção do “Anchieta dos Sertões de Minas”, Pe. Manoel de Jesus Maria.
Para Viçosa, o dia 10 de maio de 1807 foi significativo no aspecto religioso e civil, porque marcou, de certa forma, o início da organização social do futuro município, então Curato. Naquela data, um edital chancelado pelo Pe. Jerônimo Fernandes Lanna, referiu-se a importante acontecimento no povoado-embrião da cidade de Viçosa. Naquele ano já existia, de acordo com registros históricos, uma ermida (oratório com formalidade de capela) na qual permanecera afixado documento relativo a trâmites de doação de um patrimônio ao Curato de Santa Rita, da devoção dos primitivos moradores do arraial.
Pesquisadores têm polemizado em torno do período exato entre o início e o término da edificação da versão primitiva, em pau-a-pique, da capela de Santa Rita, bem como de sua exata localização. Mas é certo que foi Pe. Jerônimo, de uma família de sertanistas, filho de Domingos Fernandes Barroso e Antônia de Jesus e Lanna, natural do Pilar de Vila Rica, formado pelo Seminário de Mariana, ordenado a 8/3/1788, o primeiro capelão de Santa Rita do Turvo. No dia 10/5/1807 esse sacerdote certificou ter permanecido pregado na porta da igrejinha um edital do patrimônio da capela, por um mês, participando diretamente da obra de constituição patrimonial eclesiástica.
A data da posse dos bens, pelo alferes Vicente Rodrigues Valente, é 20 de maio de 1807, mas dez dias antes fora a data decisiva, porque foi naquele dia que se atestou, pelo primeiro capelão, o não impedimento, em definitivo, do prosseguimento dos trâmites da doação feita por um casal de fazendeiros, Manoel Cardoso Machado e Ana Joaquina de Fraga, que cedeu terrenos e casas para a constituição daquele que seria parte do rico patrimônio canônico da provavelmente futura Diocese de Viçosa. Eram procuradores de Santa Rita, Rafael Gonçalves Bastos e o citado Vicente Rodrigues Valente, quando foi redigida a escritura referente a tal doação, a 20/8/1805, durante o bispado de Dom Frei Cipriano de São José. Pe. Marcelino Rodrigues Ferreira, do município de Visconde do Rio Branco (antigo aldeamento indígena de São João Batista do Presídio, então também pertencente à Freguesia de São Manoel do Rio Pomba) foi quem chancelou a escritura.
Firmado em 1807, na “Passagem do Turvo, Ribeirão de São Bartolomeu”, outro documento bem conservado nos arquivos da Câmara Eclesiástica de Mariana (MG) relata o ritual do ato de posse, pelo referido alferes Vicente, de terras e casas pelo “procurador de Santa Rita”. Padre Jerônimo, falecido em 1811 – ele viveu 49 anos –, foi também quem assinou o termo de posse, a 20/5/1807. De Mariana extrai-se, dentre outros, o seguinte texto, referente à escritura de doação:

“... no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e sete, aos vinte dias do mez de Maio, sendo na Passagem do Turvo, Ribeirão de S. Bartolomeu, Distrito de Santa Rita, Freguesia do Pomba, Termo de Mariana, e sendo aí, compareceu presente o Alferes Vicente Rodrigues Valente como procurador da Senhora Santa Rita, para efeito de tomar posse das terras e casas contidas na doação e requerimento e de que se lhe désse na minha presença e das testemunhas abaixo assinadas e nomeadas, lhe a dei real e atual tanto quanto eu deva e posto por visto os depoimentos de pé e tocamento de mãos, fazendo o empossado todos os atos por onde se adquire posse, pegando em terras e pedras e cortando ramos e lançando para o ar e de dia claro dizendo que tomava posse de todos os seus pertences e tudo na forma da doação...”.

A 3/8/1806, os avaliadores Joaquim Botelho de Castro e José Marques Ferreira haviam assinado um terceiro documento, referente a doação do patrimônio da capelinha de Santa Rita.


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PROVISÃO DO PRIMEIRO PÁROCO, PE. MANOEL DE JESUS MARIA


Provizão

“Nós Arcediago, Dignidade, e mais Conegos desta Cathedral de Marianna, Sede Episcopal Vacante &.

A todos os fiéis Christão, nossos Subditos, Saúde, e paz para Sempre Em Jesus Christo Nosso Senhor, que de todos há verdadeiro remedio, Luz e Salvação. Fazemos saber, que attendendo nós ao que, por sua Petição nos enviou a dizer o Padre Manoel de Jesus Maria, e ao seu bom procedimento, Capacidade, havemos por bem de O prover pella prezente nossa Provizão, por tempo de hum anno, se antes não mandarmos o Contrário, em a Ocupação de Vigário Encomendado da nova Matris, que se nade Erigir do Martir São Manoel, para nova Creação dos Índios hindo para os Certões do Ryo da Pomba, e do Peixe declarado na petição retro, a qual ocupação Servirá bem, e fielmente, como Convém ao Serviço de Deus e bem dos Parochianos, da nova freguezia, administrando-lhes os Sacramentos e absolvendo-os de todos os pecádos, excepto os reservados, atuaes, Voluntarios Concubinatos, e ocaziões proximas, e lhe Encarregamos munto a bôa direção das Suas almas fazendo Estações e ensinando a doutrina Christã aos Índios das Aldeias, modificando-os e reduzindo-os a Santa fé Catholica, e aos mais, que della necessitarem, fazendo em tudo as obrigações de bom Parrocho, e Cumprindo a rezidencia na mesma freguezia, na forma do Sagrado Concílio Tridentino, e Constituhiçções deste Bispado; e na dita ocupação haverá todos os próis, e precalsos que verdadeiramente lhe pertencem; e mandamod, com penna de Excomunhão mayor, IPSO FACTO INCURRENDO, e de Sincoenta Cruzados para a Bulla, e fabrica da nossa Sé, a todos os freguezes, da Sobredita freguezia nova reconheção ao dito Manoel de Jezus Maria, por seu Legítimo Parrocho, e Como a tal o Estimem, e obedeção emtudo a quanto são obrigados; e para que inteiramente se observe Esta, a fará publicar em hum Domingo, ou dia Santo, à Estação da Missa Conventual, e será registrada onde pertencer, e findo o ditto tempo assima, ficará de nenhum vigor, e querendo Continuar nela aprezentará. Dada e passada nesta Cidade de Marianna Sob nosso cignal, e Sello da Meza Capitular aos dous de Setembro de mil Sette Centos sessenta e Sette; e eu o Padre Ignacio Loppes da Silva Escrivão da Camara Eccleziastica, que a Subscrevy. – E no lugaro do Sello – Silva – Chancellaria mil, e sincoenta reis. – Sello Setenta e sinco réis – Feitio quatrocentos e sincoenta réis – Registro – quinhentos, e vinte, e sinco réis. Provizão, que Vossa Senhoria há por bem mandar passar, a favor do Padre Manoel de Jezus Maria, para Vigario Encomendado da nova freguezia que se háde Erigir do Martir São Miguel (?) em os Certoens, e Aldêas do Ryo da Pomba, e do Peixe por hum anno, com as Clazulas acima. Para Vossa Senhoria ver. – Ignacio Correa de Saá – Francisco Gomes de Souza – José Botelho Borges – Registrada no Livro terceiro do registro geral a folhas noventa e quatro. – Vieyra. – E não se Continha mais couza alguma, em a dita petição, e despacho, e Provizão que aquy bem, e fielmente da propria fis copiar, e passar a prezente Certidão em observancia do dezpacho posto na petição do Reverendo Doutor Ignacio Correa de Saá, Provizor, e Vigario Cappitular deste Bispado de Mariana, que vai bem na verdade, cem Couza que duvida faça, e me reporto à própria, e Vay por mim subscrito, e conferida, e assynada, nesta Leal Cidade de Marianna, aos vinte e quatro dias do mês de Fevereiro, de mil settecentos sessenta, e outo annos. E Eu o Padre Ignácio Loppes da Silva, Escrivão da Camara Eccleziastica, que Subscrevi, Confery, E asgney. – Ignacio Loppes da Silva – E por mim Escrivão da Camara Conferido – Ignacio Loppes da Silva


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TERMO DE POSSE DO 1º PÁROCO DOS SERTÕES E 1ª MISSA NO VALE DO POMBA


SANTIAGO ( nº? ), à página 47, traz o teor do Termo de Posse da Freguesia, lavrado pelo primeiro Pároco dos sertões da Zona da Mata Mineira, assim exarado:

“Aos vinte e cinco de Dezembro de 1767 anos, nos Certões desta nova freguesia do Martir São Manoel do Rio Pomba e Peixe, estando junto todo o povo que nesse Districto se achou e fiz convocar ao toque da Campainha, ahi, em voz alta e publica li a Provisão do Illustríssimo e Reverendíssimo Cabido, SEDE VACANTE, pello qual me constitui vigário da dita nova Paróchia do Martir São Manoel, no Districto onde me acho no exercício de catechizar e civilizar os Indios e, em virtude della tomei posse da nova Freguesia, benzendo água, levantando Cruz e dizendo Missa em Altar Portátil, e publicando-me prompto a administrar os mais Sacramentos, como também logo benzi cemitério para os mortos, e a todos publiquei que tomava posse para mim e meus sucessores, em nome do Illustríssimo e Reverendíssimo Ordenario, e em meu nome, sem haver contradição de pessoa alguma, estando prezentes por testemunhas: Ignacio Andrade Ribeiro, Manoel Durão Bastos, João Moreira de Jesus, Joaquim Cordeiro, Jacob Cordeiro, José Gonçalves Vieira e Valentim Dias dos Santos, que todos aqui assignaram, commigo, do que para constar, fiz este termo UT-SUPRA.”

É o comentário de SANTIAGO:

“Instalada a caravana em pequenas choças de ‘pau-a-pique’, cobertas de sapé ou de folhas de palmito, deu o Padre Jesus Maria início às suas atividades paroquiais, escolhendo para instalação da freguesia a data máxima do Cristianismo ou seja, o dia de Natal do ano da graça de 1767.
Naquele dia, a exemplo de Frei Henrique de Coimbra, no ILHÉU DA COROA VERMELHA, diante de um altar portátil e da Cruz de Cristo, assistido apenas por meia dúzia de pessoas civilizadas e por dezenas de índios COROATOS e COROPÓS, que mais por curiosidade do que mesmo pelo poder da crença, compareceram àquele ato religioso, celebrou o Padre Jesus Maria a sua primeira missa, lançando em terreno fértil e dadivoso a semente da Fé e da civilização no seio da nossa região.”


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DO POMBA AO XOPOTÓ: ORIGEM DO PRIMITIVO CAMINHO


A luta pela construção da primitiva estrada, partindo do Pomba em demanda do Xopotó, não foi nada fácil. Passando por Mercês, Dores do Turvo, Piranga, Bacalhau e Pinheiro, rumo a Mariana e Ouro Preto, o primeiro caminho que alcançou a nossa região foi aberto ainda nos primórdios da criação do aldeamento central da Zona da Mata, graças a uma providência tomada pelo primeiro pároco, Padre Manoel de Jesus Maria.
Conforme salienta SANTIAGO ( ? ), à página 449, as circunstâncias exigiam "a abertura de novas estradas ou picadas ou picadas que o conduzissem aos locais onde desejava aldear as diversas tribos de índios e, ao mesmo tempo, que se prestassem para a passagem de tropas que, procedentes de Ouro Preto, lhe trouxessem os víveres, especiarias e mais utilidades necessárias à sua subsistência nos Sertões do Rio da Pomba e do Peixe do Índios Croatos e Cropós."
O Despacho do Governo da Capitania de Minas, autorizativo da abertura da estrada foi assinado em Vila Rica a 2 de março de 1768, atendendo à seguinte petição:

"Ilmo. e Exmo. Sr. Diz o Padre Manuel de Jesus Maria, vigário da freguezia do Martir São Manoel dos Sertões do Rio da Pomba, que para o Supte, haver de christianizar, civilizar e reduzir à fé de Christo os Índios, delles se lhe faz priciso vir mandar repetidas veses ao Xopotó a prover-se de mantimentos que se conduzem em cavallos até onde há caminhos abertos, e os demais caminhos com grande trabalho, em canôa, e as costas de gente, como mayor parte deste caminho por onde seguem cavallos está arruinada e quase tapada pela desunião dos moradores, pois os que têm terras onde elle passa, moram em outra parte, e se necessita muito acabar de fazer um novo caminho de cavallo em grande distância até a paragem onde o suplicante pretende aldeiar os gentios; e como estes não estão em disposição para o trabalho e são pessoas inimigas delle, por criadas, sem preceito, e o suplicante não tem possibilidade para tanto os homens que podem concorrer e trabalhar na factura do dito caminho são: Sylvestre Roiz, José Vieira Ferrete, Manoel de Mello, José da Silva, Manoel da Silva, Bartolomeu Lopes de Garcia, Manoel Durães, José Pereira Mosso, Francisco de Barros, Valentim Dias, oferecendo-se de novo Sylvestre de Lima, os quais todos supostos estejam promptos, não se animam sem remuneração, pois são pobres, sendo tão somente o último o de possibilidade e maior recurso: 'E nesses termos recorre o Supte. a V. Excia., para que se digne mandar que concluindo-se o dito caminho elles sem demora não sejam inquietados nas situações que fizeram para cultura, e tenham nas terras do mesmo Sertão preferência a todo outro qualquer que pello tempo adiante nellas quizer entrar, ficando os sobreditos trabalhadores em suficiente distância da Aldeia ou Aldeias dos ditos índios e terras de sua cultura; e juntamente, são conveniêntes para ajudarem ao Supte. em virtude dos mesmos índios evadirem-se com os mantimentos. Também em benefício dos referidos índios recorre o Supte.
a V. Excia para que se digne mandar não se lancem payses pelo Sumidouro abaixo, sôb pena de prisão, e que debaixo da mesma pena não impeçam nem embarguem os senhores proprietários de terras que pelas mesmas se lancem os caminhos e atalhos que forem convenientes. Pede a V. Excia. seja servido assim determinar em atenção ao seu pedido e que não se lancem tributo algum. E. R. M.."

E o Despacho do Governo assim se exara:

"Na forma do que pede a respeito dos Suplicados que se estabeleceram nas povoações que se erigirem dos índios de que o Reverendíssimo Suplicante está encarregado delles administrar a instrução necessária para sahirem do gentilismo e servirem ao gremio da Igreja Catholica, serem atendidos nas porções de terras que S. Magde. permite pello Diretório e Ordens Régias, se concedam a todos os brancos civilizados que forem úteis e quizerem residir nos referidos estabelecimentos, aos quais, dentro do Termo delles, constituindo-se moradores nas vilas e lugares que se erigirem dos referidos índios, as faculta gratuitamente no espaço competente, requere se entenderá concorrendo estes com o exemplo, diligência, zêlo, caridade para a redução e cristianização no trabalho da estrada que o Revdo. Supte. diz se carece, quando se faça indispensável para servir em serem formadas novas povoações que a Real Grandeza manda erigir, e della não possa rezultar prejuizo de extravio, no que terá não só o Revdo. Supte. mas o Diretores e mais moradores todo cuidado de embaraçar e fazer prender todo o intentar ou fizer, e remeter a esta villa acompanhado de documento porque se verifique a referida transgressão. Villa Rica, 2 de março de 1.768 (Com a rubríca de S. Excia)." – Códice nº 103 do A.P.M.,S.G. – Pág. 54 e V.
Eis a gênese do primeiro grande caminho que atravessou a nossa região nos primórdios do povoamento da Zona da Mata mineira.



DE CURATO A PARÓQUIA



"A Regência, em nome do Imperador, o Senhor Pedro Segundo, tem sancionado e manda que se execute a Resolução seguinte da Assembléia Geral, sôbre Proposta do Conselho Geral da Província de Minas Gerais.
Art. 1º - Ficam elevadas a Paróquia na Província de Minas Gerais, e na Comarca de Ouro Preto, os seguintes Curatos:

(...)

§ 3. O Curato de Santa Rita do Turvo, tendo por filiais os Curatos de São José do Barroso e Conceição do Turvo.
(...)
Art. 13 – Ficam revogadas as leis e ordens em contrário.
Diogo Antônio Feijó, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios de Justiça, o tenha assim entendido e faça executar com os despachos necessários. Palácio do Rio de Janeiro em 14 de julho de 1832, undécimo da Independência e do Império.

José da Costa Carvalho. João Bráulio Muniz.
Diogo Antonio Feijó."


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Pelas mãos de sacerdotes cujas memórias, com a de Manoel de Jesus Maria, viveram, vivem e viverão junto a diversas gerações, os viçosenses vêm sendo abençoados diante dos altares de suas igrejas matrizes e capelas filiais. De alguns, aqui declinamos os nomes: Adalberto Sabino da Cruz, Agostinho Barroso, Agostinho Isidoro do Rosário, Álvaro Corrêa Borges, Alvimar Sant’Ana Bhering, Alypio Odier de Oliveira, Antônio Correia Lima, Antônio de Souza Lima Moutinho, Antônio Ferreira Viçoso, Antônio Firmino Lana, Antônio Grisoli Rubim, Antônio Guilherme Pires da Costa, Antônio Joaquim da Cunha e Castro, Antônio Maria Corrêa de Sá e Benevides, Antônio Mendes, Antônio Prado, Aristides Clemente, Assis Memória, Bartolomeu Mendes dos Reis, Belchior Máximo Homem da Costa, Benedito de Luca, Camilo Martins Pereira de Andrade, Carlos dos Reis Baêta Braga, César Eduardo Moreira, Cícero Machado Sales, Cipriano de São José, Claret, Cláudio José da Silva, Daniel Tavares Baêta Neves, Dário Campos, Deolindo Coelho, Domingos da Encarnação Pontevel, Eduardo Bastos de Souza, Efraim Solano Rocha, Elias Bartolomeu Leoni, Elpídio Cotias, Feliz Sheper, Francisco Barroso Filho, Francisco Corrêa Alves, Francisco da Silva Campos, Francisco das Chagas Pacheco, Francisco Lopes da Silva Reis, Geraldo da Costa Val, Geraldo Francisco Leocádio, Geraldo Maia, Geraldo Martins Paiva, Geraldo Orione de Assis Silva, Geraldo Pio, Hélder Câmara, Helvécio Gomes de Oliveira, Hildebrando Martins, Homero Leite Meira, Ibraim Victor de Oliveira, Jaime Antunes de Souza, João Batista Barbosa, João de Freitas Ferreira, João Francisco Xavier, João Gualberto do Amaral, João Paulo Guedes, Joaquim Borges de Figueiroa, Joaquim da Silva Guimarães, Joaquim dos Reis, Joaquim Quintão de Oliveira, Joaquim Silvério de Souza Telles, Jorge Luís Miranda, Jorge Scarso, José Bonifácio de Souza Barradas, José Cassimiro Sobrinho, José Celestino Teixeira, José da Santíssima Trindade, José de Oliveira Valente, José Ermelindo de Souza, José Eudes de Carvalho Araújo, José Geraldo Coura, José Geraldo Vidigal de Carvalho, José Justino Paes Maciel, José Lopes dos Santos, José Maria Rodrigues de Morais, José Sazami Kumagava, José Silvério Araújo, José Torquato da Rocha, José Xavier Coelho, Lauro Sérgio Versiani Veloso, Licínio Fernandes de Oliveira, Luciano Pedro Mendes de Almeida, Luiz Carlos Ferreira, Luiz Carlos Lopes, Manoel Fellipe Nery, Manoel Gonçalves Fonres, Manoel Inácio de Castro, Manuel Bittencourt Godinho, Manuel da Cruz, Marcelo Moreira Santiago, Marcelino Rosado, Marcial Muzzi, Márcio Vieira Viana, Mateus Vigorito, Maximiliano José da Silva e Castro, Modesto Paiva, Napoleão Lacerda de Avelar, Nilo Dias de Andrade, Oscar de Oliveira, Osvaldo Renato Cunha, Paulo Diláscio, Paulo Dionê Quintão, Paulo Vicente Ribeiro Nobre, Pedro Lopes da Silva, Pedro Maciel Vidigal, Pedro Rosa de Toledo, Raimundo Gonçalo Ferreira, Raimundo Machado, Raul de Faria Cunha, Renato Alves Rodrigues, Rodolfo Lima, Sebastião Inácio de Moura, Sebastião Luiz Nogueira, Sebastião Sant’Ana, Seraphim Pecci, Silvério Gomes Pimenta, Sinphronino José de Almeida, Tarcísio Fortunato Matheus, Tarcísio Sebastião Moreira, Theóphilo Antônio do Souza, Vicente Diláscio, Walter Coimbra Rezende, Walter Jorge Pinto, Wander Torres Costa, Vanderley dos Santos Souza, Vandick Elias Gomes e Wellerson Magno Avelino.


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Pe. Agostinho Isidoro do Rosário, titular de uma sorte de terras nas proximidades da atual Rua dos Passos, fora capelão em São José do Barroso (Paula Cândido) entre 1853 e 1854. Revelou-se grande administrador dos bens paroquiais, conforme documentos conservados no arquivo paroquial de São José, de Paula Cândido. Empossado interinamente em Santa Rita a 1º/4/1833, teve a sua colação como pároco, por carta imperial de 23/2/1837. Durante seu paroquiato edificou-se a primeira Igreja Matriz de Santa Rita, iniciada em 1851, no patrimônio da velha capelinha (depois Largo da Matriz). De frontispício barroco, demolido em maio de 1955, o extinto templo foi erigido defronte a segunda capela do distrito, onde repousara, desde 29/05/1819, o corpo do Pe. Manoel Inácio de Castro, natural do Sumidouro de Mariana e grande líder do povo viçosense de antanho. Aquela que fora provavelmente a segunda capela, fora edificada em 1813, na referida praça central. Pe. Agostinho revelou-se um grande administrador dos bens eclesiásticos. Sua atuação, naturalmente se estendia aos curatos. A respeito da situação de um desses curatos sob sua jurisdição, a atual cidade de Paula Cândido, surgida como povoado no findar dos setecentos (1792?), conserva-se uma correspondência desse nosso pároco, na qual ele manifestou preocupações junto à Vicararia Capitular da Cúria Marianense, solicitando a criação de um conselho administrativo naquele curato, então denominado “fábrica”, para um possível aumento dos rendimentos do Curato de São José do Barroso.
Instituída canonicamente a 14 de julho de 1832, a Paróquia de Santa Rita seu primeiro pároco foi o Pe. José Bonifácio de Souza Barradas, até 1837. Sucedeu-lhe (?) inicialmente o Pe. Agostinho (1837-1853) e depois Pe. Camilo Martins Pereira de Andrade (1853-1860), Pe. Manoel Felipe Nery (1860-1879, Pe. Teophilo Antônio de Souza (1879-1883), Pe. Antônio Correia Lima (1883-1901), Pe. Sinfronino José de Almeida (1901-1903), Pe. Joaquim Silvério de Souza Telles (1903-1906), Pe. Belchior Máximo Homem da Costa (1906-1909), Pe. Frei Serafim Pecci (1909-1925), Pe. Álvaro Corrêa Borges (1925-1947), Cônego Modesto de Paiva (1947-1957), Pe. Geraldo Maia (?)e Pe. Carlos dos Reis Baêta Braga (1957-1999), este com o mais longo paroquiato até hoje registrado.
Pe. Manoel Filipe Nery faleceu a 21/4/1879. Vigário apresentado por Carta Imperial de 16 de agosto, foi empossado na paróquia a 11 de setembro de 1861. Foi ele quem abençoou os Voluntários da Pátria que combateram na Guerra da Tríplice Aliança e quem batizou o duodécimo presidente da República brasileira: Dr. Arhur da Silva Bernardes. Era Pe. Nery ainda o grande líder espiritual de Santa Rita do Turvo quando esta teve modificado o topônimo para Viçosa de Santa Rita. Teve como seu sucessor, primeiramente, o Cônego José Maria Rodrigues de Morais (interino), e, logo em seguida, Pe. Teófilo Antônio de Souza, que permaneceu na Paróquia de Santa Rita até 1883, desde 1879.



TRAJETÓRIA ECLESIÁSTICA NO SÉCULO XX



No limiar do século XX, de 1883 a 1901, a Igreja de Viçosa tinha à frente o Pe. Antônio Correia Lima, que legou especial contribuição à vida civil, partícipe que foi da elaboração do Estatuto da Câmara da Cidade Viçosa. Entre os que por ele foram batizados, a 17/7/1892, um menino muito especial, seu xará: Antônio Guilherme Pires da Costa, que nascera em Viçosa de Santa Rita a 25 de junho de 1892. Era um vocacionado como quem o introduzira no Grêmio da Igreja Católica pelas águas do Batismo. Falecido a 10/9/1981, ele levou muita luz, esperança, evangelização, verdade, consolo, compreensão e alegria às cidades mineiras de Mateus Leme, Guiricema e Bonfim. Pe. Antônio Guilherme estudou no Colégio do Caraça e foi ordenado a 29/6/1918. Foram 63 anos de sacerdócio. Desses, 60 dedicados à Paróquia do Senhor do Bonfim, de Bonfim (MG), onde a sua memória é cultivada "com grande afeição", como destaca seu biógrafo e sobrinho Raimundo Pires da Costa, era o filho primogênito do casal Pacífico Pires da Costa e Rita Virgilina Gomide. Aprendeu as primeiras letras do mestre Manoel de Deus Mello e foi criança freqüente à catequese nos tempos do Pe. Belchior Homem da Costa. Em 1909, ele se matriculava na Escola Apostólica do Colégio Caraça. Tirocinista em Guiricema, iniciou sua carreira sacerdotal como substituto do vigário de Mateus Leme, Pe. Hermenegildo Vilaça. Do livro "Pe. Antônio Guilherme – Um Cura Corpo e Alma", pinçamos os seguintes depoimentos, que constituem o seu retrato de corpo inteiro: "O padre Antônio viveu intensamente o evangelho, procurava na oração e na leitura cotidiana das Sagradas Escrituras e do breviário vigor e energia para o trabalho e ação, encontrando forças e motivação para uma autêntica ação apostólica: Ficava horas a fio no confessionário, atendendo a todos, na zelosa tarefa de preparação dos fiéis para a eucaristia, centro da plena comunhão com Deus uno e trino. Servir sempre e sempre ao Senhor com alegria." Padre Pedro de Sousa Pinto deu, na referida obra, o seu testemunho: "Um santo em conseqüência do seguimento de Cristo e da prática fiel de seus ensinamentos. Santo, porque viveu toda a sua vida para Deus no desempenho do ministério sacerdotal que lhe foi confiado. Santo, porque foi humilde e pobre. Santo, porque deu tudo de si mesmo pelo rebanho que lhe foi confiado por tantos anos, como resposta de amor por tudo o que Deus fez dele e por ele. Santo, porque não foi uma pessoa perfeita em tudo, mas porque acreditou e tudo fez para viver na maior integridade possível. Santo, porque procurou e lutou para ser, de verdade, um homem de Deus. Pe. Antônio foi, sem dúvida, um homem de Deus. Santo, porque sua vida, seu jeito de ser, sua simplicidade, sua humildade, sua amizade, sua fé, seus momentos de nervosismo, nos apontou que a santidade está ao alcance de todos nós. Ela não é simplesmente fruto de grandes feitos e sim de como saber associar a vida toda e toda a vida ao mistério da fé que nos lança continuamente nas mãos do Senhor. Assim foi Pe. Antônio Guilherme."
E no efêmero espaço de tempo compreendido entre os anos de 1902 e 1903, Pe. Sinphronino José de Almeida, que fora também capelão de São José do Barroso (1830 a 1832) e de São Sebastião da Pedra do Anta (1919), foi o pároco de Santa Rita do Turvo. Na Sacristia do Santuário de Santa Rita de Cássia foi acrescentada, em 2008, na galeria dos ex-párocos de Viçosa, a foto dele, que faleceu a 16/02/1951, em Belo Horizonte. Em Guidoval também cultivou profundas raízes, existindo naquela cidade mineira uma avenida central com o seu nome.
Sucedendo ao Pe. Joaquim Silvério de Souza Teles (1903-1906), o Pe. Belchior Máximo Homem da Costa (1906-1909), filho de tradicional família mineira (Guarda-Mor Matheus Homem da Costa e Maria Dias de Carvalho), foi o antecessor imediato do Pe. Frei Serafim Pecci (1909-1925) na direção da Paróquia de Santa Rita, ao mesmo tempo em que era capelão de Teixeiras. Primeiro provedor do Hospital São Sebastião, Pe. Belchior está sepultado em Rio Pomba, onde foi ordenado sacerdote em 1902.. Conforme sua sobrinha-meta, a musicista Maria Tereza de Alvarenga Coelho, em depoimento a este blogger, "quando ficou doente foi morar em Rio Pomba, na casa de meu avô José Alvarenga. Padre Belchior foi vigário na Catedral da Boa Viagem em Belo Horizonte e na cidade de Ubá". Em Rio Pomba, são vários os túmulos da família Alvarenga. Há informação de que o dele seria o mesmo de sua mãe, Maria Adelina da Rocha e da irmã Alice, primeira esposa do pai dele, Belchior Homem da Costa. As paredes laterais da antiga Igreja Matriz de Santa Rita foram reformadas durante o paroquiato do Pe. Belchior. De estatura física elevada, pregador austero, cunhado do Dr. José Tostes de Alvarenga, médico em Rio Pomba, descendente de Antônio Dias Tostes, pioneiro da cidade de Juiz de Fora. Dr. José Tostes foi casado com suas irmãs Alice Augusta da Costa, falecida em 1915, e Maria Engrácia da Costa, falecida em 1947, pais do Dr. José Tostes de Alvarenga Filho, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora, ex-presidente do Banco do Crédito Real de Minas Gerais, criador do museu desta instituição bancária, provedor da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora e reorganizador do Museu Mariano Procópio, também de Juiz de Fora. O pai do sacerdote, seu homônimo, Belchior Homem na Costa, nasceu em Mercês (MG) em 1841 e era Comendador da Ordem da Rosa, no grau de Cavaleiro, por decreto imperial de 25 de setembro de 1889. Filho de Antônio Homem da Costa e de Luzia Lopes de Faria.



PAROQUIATO DO PE. FREI SERAPHIM PECCI



Entre 1909 e 1925, um italiano da província de Salerno, nascido a 19/8/1867, foi também pároco. Vindo de Pirapitinga, nomeado pelo bispo (depois arcebispo) Dom Silvério Gomes Pimenta, Pe. Frei Seraphim era aquele que fazia com que do interior da extinta Igreja Matriz espargissem maviosas sonoridades. Era comum a cena de um clérigo vestido com sua loba negra a criar divinal musicalidade. O Vigário Pe. Frei Seraphim Pecci a dedilhar, entre os sobrinhos Fiori e Felício Brandi, as teclas de um imponente harmônio.
Das realizações de seu paroquiato ressalte-se uma especial. Em 1912 surgiu no município, a Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP), que obteria a sua Carta de Agregação, isto é, sua filiação ao Conselho Geral de Paris em 1926, com 32 fundadores, já no paroquiato de seu sucessor imediato, Pe. Álvaro Corrêa Borges. O Conselho Particular de Viçosa, que no princípio do século XXI congregava sete conferências, com mais de uma centena de confrades, obteve a 13/6/1938, a Lettre D’Institution du Conseil Particulier du Viçosa. Em 2005 eram 29 as conferências vicentinas na cidade, divididas nos conselhos particulares de N. Sra. de Fátima e de Santo Antônio e no Conselho Central. As sociedades vicentinas constituem um dos maiores e mais antigos movimentos leigos católicos de âmbito internacional, sendo formadas por membros ativos, confrades e consócias, e por membros auxiliares, benfeitores e contribuintes. O Conselho Central, sediado na Rua dos Passos, 54, congrega toda a área municipal, além de Araponga, São Miguel do Anta, Cajuri, Ervália, Monte Celeste, Paula Cândido, Divinésia, Senador Firmino, Dores do Turvo, Brás Pires, Presidente Bernardes, Porto Firme, Canaã e Coimbra. A SSVP de Viçosa e região é regida por um estatuto aprovado em sessão da assembléia extraordinária de 18/5/1969, baseado na Regra da SSVP, no Brasil, feita pelo Conselho Nacional Brasileiro da SSVP. O Conselho Particular foi registrado no Cartório Civil de Pessoas Jurídicas a 31/10/1969, sendo reconhecido de Utilidade Pública pelo Decreto Lei Municipal nº 543, de 10/12 do mesmo ano. O objetivo maior das conferências vicentinas, desde sua fundação, é a visita domiciliar aos assistidos. É comum a SSVP se dedicar à manutenção de várias obras como hospitais, abrigos, asilos e creches. São as chamadas Obras Unidas, que cooperam com o verdadeiro e principal trabalho da SSVP, que é a visita ao assistido em seu domicílio. Constata-se assim que o importante para os seguidores do santo confessor e fundador da Congregação da Missão, cujo dia é comemorado a 27 de setembro, nascido em Landes (França), falecido em 1660, é a melhoria de vida de seus assistidos, ajudando-os nas suas necessidades materiais e espirituais em Viçosa, desde os tempos de Pe. Frei Seraphim Pecci, falecido a 29/3/1931 e sepultado em belíssimo mausoléu, em Viçosa.
Foi também durante seu profícuo paroquiato que as seguidoras de Madre Maria das Neves (Rita de Cássia Aguiar), falecida a 8/3/1906, fundadora da Congregação das Irmãs Carmelitas da Divina Providência (presente no Brasil, Equador e Argentina), as freiras que formam a Fraternidade Carmo, na rua Virgílio Val, 161, centro, chegaram a Viçosa, para dirigir a Escola Normal, a partir de 3/5/1917. Tendo aportado em solo viçosense pela primeira vez, provenientes de Cataguases, exatos 3 meses antes, no dia 3 de fevereiro, a Família Carmelita cresceu em número de irmãs e em obras. A superiora da Congregação era então a Irmã Bernardete, tendo sido primeira diretora a Irmã Maria Verônica de Santa Face. Elas trabalharam inicialmente no hoje centenário Hospital São Sebastião, desde 1918. Um nostálgico poeta, Pinto Coelho, ao lembrar-se de sua mocidade, trouxe-nos, em magistral descrição, Frei Seraphim, para ele uma figura realmente “esbelta e impressionante”. Assim o descreve: “O melhor sorriso e vago sotaque de italiano... longa e bem tratada, a barba, preta como a sua batina, sereno olhar de investigador dos mistérios da vida... ar nobre e, ao mesmo tempo, simples, a passar uma das mãos sobre a outra, os olhos vivos a fixar-me, a dizer-me boas e imerecidas palavras de acolhimento. Com os seus sessenta e três anos, demonstrava o entusiasmo e o ardor de um jovem, contava episódios de sua vida, relembrava os amigos que deixou em Viçosa e acabava por dizer: - ‘Mas a vida é curta, meu amigo...’ Sobre música dizia que ela era, para o seu espírito, um documento. Admirava os que compunham idéias musicais. Distinguia o vocalista do instrumentista. A voz humana – acrescentava – define e interpreta, melhor que todos os acordes, a carícia e o grito, a dor e o amor, a cólera e a ternura... cantor e músico de Deus. Figura imperecível... Quem o conheceu e com ele teve a ventura de privar, há de convir em que o amável franciscano materializava em ação aquelas doces palavras do Mestre, recolhidas por São Mateus: ‘O meu jugo é suave e o meu fardo, leve’. Assim o sentíamos os que aqui labutávamos sob a direção espiritual daquele sacerdote, respeitado como Pastor e querido como pai... Tinha, com a sua proverbial cortesia, o dom de subjugar as inteligências e aprisionar os corações, confirmando o pensamento de Lacordaire de que ‘a verdade magnetiza a mente e a beleza da vida mergulha até a alma’. Como os grandes discípulos do ‘poverello’ de Assis, fez da cruz um fardo leve e motivo da mais justa e avassaladora alegria... Apaixonado pela música, que cultivava como um mestre, ele soube comunicar, dentro dos limites da arte digna do templo sagrado, o ardor da própria alma dos que o cercavam”. Esta a imagem do pároco que é nome de rua central em Viçosa, deixada pelo poeta Pinto Coelho. À época do Pe. Seraphim, Viçosa tinha suas entradas e saídas principais no Pau-de-Paina (bairro Nova Era) e na estrada da Conceição (estrada de Nova Viçosa a Airões). O centro era pouco mais do que a Rua Municipal ou das Vassouras, ou do Pastinho (rua Virgílio Val), a Rua do Comércio (rua Benjamim Araújo), a Rua de Cima (Calçadão da rua Arthur Bernardes), a Rua Direita ou de Baixo (Rua Senador Vaz de Mello), a Rua do Cruzeiro (rua Pe. Serafim), o Largo da Matriz (praça Silviano Brandão), o Largo de São Francisco (praça Dr. Christóvam) e a Rua Nova, além do Pasto dos Barros (avenida Santa Rita).
Notabilizou-se, portanto, o Pe. Frei Seraphim em ser um clérigo compositor, solista, que ensinando e incentivava o povo a cantar e a se organizar em conjuntos orquestrais e bandas musicais. Um som considerado celestial provinha sempre de sua residência, na antiga Rua do Cruzeiro (via que tem agora o seu nome)quando ele ali estava em seu piano. Prestou serviços religiosos, em seus derradeiros dias, também à cidade mineira de Mar de Espanha, a partir de 1928. Seu falecimento se deu a 29/3/1931, tendo sido sepultado na atual quadra 2 do Cemitério Dom Viçoso, em Viçosa, no mausoléu de número 129. À época do Pe. Seraphim, o distrito da sede de Viçosa, seu atual centro urbano tinha apenas três templos: a Matriz de Santa Rita, a Igreja do Rosário e a Capela dos Passos. E antes da chegada da SSVP, eram associações religiosas o Apostolado da Oração e as Damas do Sagrado Coração. Em 1916 - informam-nos historiadores - era de 40 a média anual de casamentos, 80 de catequizandos e 270 de batizados.
Admiradores convencidos de suas virtudes e méritos, os viçosenses reconheciam-no "um sábio", um "pároco modelar", por suas "maneiras altamente distintas" e pelo seu "inexcedível zelo no tratar das cousas religiosas", revela-nos documento de 9 de janeiro de 1925, quando este padre de vida e nome angélicos se mudou para a Itália.



TEMPOS DO PADRE ÁLVARO CORRÊA BORGES



Com uma sempre relevante participação na vida política, cultural, econômica e social de Viçosa, Padre Álvaro Corrêa Borges, vigário encomendado de Paula Cândido entre 1927 e 1928 e também durante o ano de 1940, provedor do Hospital São Sebastião, um dos diretores do Colégio de Viçosa em 1926 e prefeito interino em 1931, foi o pároco de Viçosa de 1925 a 1947. Mineiro de Formiga, este venerando sacerdote nascido a 25/11/1896, faleceu em Viçosa a 12/7/1967, estando sepultado no jazigo de número 168 do Cemitério Dom Viçoso.
Nas Semanas Santas transcorridas à época de seu paroquiato, como está a informar Parrique numa de suas antológicas crônicas publicadas no jornal A Cidade, “ao lado da Matriz, debaixo de árvores frondosas, em frente à mansão do Coronel Torres, onde existia um chafariz, eram armados os afamados botequins, cercados de esteira de taquara e cobertos de indaiá, onde o povo da roça, e mesmo da cidade, bebia o café com leite acompanhado de broas de fubá, comendo até frangos fritos, com os licores fabricados por Januário de ‘Sá’ Norberta, que lhe dava o nome de ‘idéia nova’. Dentro de um baú, era infalível a combuca de Almiro Torres, que era enfeitada de vidros de cheiro e outras quinquilharias, mas nos papeizinhos de sorteio só saíam um grampo, um alfinete, um cigarro, um espelhinho e dificilmente um canivete”. É o cronista provinciano quem nos relata: “No Domingo de Ramos, a velha e saudosa Matriz, com seu imponente lustre de pedrinhas, amanhecia atapetada de junco que vinha, em carro-de-boi, da fazenda do velho Xaxá”, pai do saudoso médico e presidente da Câmara, Dr. Sebastião Ferreira da Silva. “Era toda ornada de palmeiras, o que lhe dava aspecto bonito e imponente, um convite a orações, na hora de nossas meditações, num balanço espiritual de nossa vida de católico... Os apóstolos, que eram as crianças, usavam uma túnica vermelha, com um cordão na cintura e uma capa de tonalidade azulada... Como eram poéticos os lampiões de querosene, nas esquinas das ruas, acendidos por Dudu e Dico da Boa, com as casas iluminadas por lanternas de vidro quando as procissões passavam, os homens de terno preto e as mulheres de fichus cobrindo a fronte, em sinal de respeito e de luto! As imagens passavam e todos se punham de joelhos, ouvindo as marchas fúnebres... parando nos ‘Passos’, que representavam as estações do sofrimento de Cristo... D. Hélder Câmara, D. Távora, Monsenhor Pedrinho, Padres Ponciano, Cotias, Galo, Assis Memória e outros oradores sacros de projeção pregavam sermões magníficos que prendiam a atenção de todos. Como não existiam ainda a televisão e o rádio, as famílias disputavam um lugar na Igreja, levando cadeiras de suas casas para ouvir os sermões da Eucaristia e das Sete Palavras... E as chácaras de Judas? Após a procissão do enterro a rapaziada varava os quintais em busca de latas velhas, cancelas, portões, vasilhames de cozinha, taboletas comerciais, carroças, carros-de-bois e tudo era levado para frente da Igreja, onde já estavam os cavalos do pessoal da roça que vinha assistir à festa...” O fogueteiro e sacristão, segundo nosso cronista, “sabia preparar uma bomba que espoucava no ar como uma cabeça de negro, sem nunca falhar, correndo a meninada para apanhá-lo, em busca de barbante que envolvia o canudo do foguete, visando fazer um bodoque para perseguir os inocentes passarinhos. A célebre ‘estacaria’, à porta da igreja, no sábado de aleluia, retumbava dentro da igreja... E quando a Semana Santa terminava, a cidade era envolvida em saudade e todos ficavam ansiosos para chegar o mês de Maria, que era festejado com pompa”.
O escritor Elias Ibrahim, da Academia de Letras de Viçosa, também nos relata que “lá pelos idos da década de 1930, na antiga Igreja de Viçosa, Pe. Elpídio Cotias era sempre escolhido como pregador. Isso nas Semanas Santas e ficavam para ele os sermões mais difíceis. No sermão das 7 palavras, durante 3 horas, ele discorria maravilhosamente a respeito dos últimos momentos de Jesus Cristo. Pe. Cotias tinha muito conhecimento do latim. Suas primeiras frases eram ditas em latim e daí em diante era aquela beleza. Para mim ele foi o maior orador ou pregador que passou por Viçosa. Dominava perfeitamente a arte da oratória. Impressionava o auditório de tal maneira que conseguia encher a Igreja e os lugares perto do púlpito eram disputados. Eu tinha nessa ocasião uns 15 ou 16 anos e bem antes eu já estava lá para ouvi-lo. Oratória não é para qualquer um. Já se nasce com esse dom como um cantor. É arte oral ou fonética como a música e a poesia”.
"Foi nesta época que aqui esteve também o Pe. João Gualberto do Amaral cujo sermão sobre a Eucaristia foi um dos mais celebrados durante décadas. Mais tarde, já idoso, convidado a voltar a pregar em Viçosa no final da década de 40 ele afirmou: 'Outrora fui, talvez, um trovador da Eucaristia, hoje sou apenas um gritador dos louvores eucarísticos'. In fide sacerdotis et magistri eu lhe posso afirmar que Suas palavras tão espontâneas fluíam de seus lábios com exuberância, revestiam-se de engalanadas pompas os conceitos profundos que, nos momentos de mais grandíloqua eloqüência, arrebatava. Imergia seus ouvintes no belo, na verdade, no bem, como que possuído de luzes especiais do Espírito Santo. A largueza de vistas com que encarava o assunto, submetido à agudeza de seu engenho, prendia a inteligência de quem o escutava. Ele lançava sua tese, deixava-a no espírito do ouvinte, ia construindo, com uma série luminosa de reflexões, uma cadeia de argumentações ilustradas com todos os recursos da retórica e, sem nunca deixar o assunto, retomava a tese em tela, finalizando numa síntese que eram suas famosas perorações, luminosas, patéticas, enternecedoras. Possuía o dom da unidade oratória”, completou em depoimento a este blogger o Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, ao citar o discurso (in Temas Finais) de sua posse na Academia Marianense de Letras, cadeira 5, cujo patrono é este extraordinário orador sacro.
O historiador Dr. Fernando Araújo, co-autor da biografia de seus ancestrais, coronel-médico da Polícia Militar de Minas Gerais, ex-presidente da Academia Mineira de Medicina, membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, 18º presidente da Associação Médica de Minas Gerais, confirma tais fatos às páginas 111 e 112. ARAÚJO (nº ?) relata que “geralmente os sermões eram proferidos por padres de alto nível intelectual, provenientes de Mariana e outras cidades, que proferiam verdadeiras peças oratórias não só pela eloqüência como pelo conteúdo filosófico.
Viçosa mudava completamente sua vida durante a Semana Santa, ficando sua praça da matriz e ruas próximas totalmente tomadas por pessoas provenientes de toda a região. As pensões e casas de família ficavam lotadas de visitantes e muitos dormiam nos jardins da Praça Silviano Brandão. Barraquinhas de salgados, doces, café com leite, etc., enchiam as ruas próximas, principalmente a Rua do Comércio. Após o meio-dia de quarta-feira até o ‘romper’ das aleluias, no sábado, na era permitido o toque de sinos, ouvir ou tocar músicas que não fossem sacras, assistir a filmes cinematográficos que não os bíblicos, fazer barulhos excessivos etc. A Igreja permanecia o tempo todo ornamentada, com o chão coberto de junco, o que lhe dava um aspecto diferente e acolhedor. As imagens dos santos eram recobertas com um pano roxo, durante toda a quaresma.
Praticamente toda a população comparecia às procissões, as janelas das casas eram enfeitadas com as mais finas toalhas e as ruas, principalmente no domingo, recobertas de flores. A procissão de terça-feira terminava no calvário que era montado junto à porta da Igreja, onde três enormes cruzes representavam Jesus Cristo, o Bom e o Mau Ladrão. Antes, a procissão parava em altares, denominados de ‘passos’, localizados nas residências de Manoel Coelho, Altivo de Melo, Zefina e Zinho Simonini. Na sexta-feira, o ponto alto era a Procissão do Enterro, caracterizada pelo profundo respeito dos fiéis e pela figura da Verônica que, durante o cortejo, entoava cânticos tristes em louvor a Jesus Morto. Para essa representação era escolhida a moça possuidora de melhor voz na cidade. Por muitos anos as irmãs de mamãe, Nhanhá e Zizinha, fizeram com sucesso, esse papel de Verônica. O sábado da Aleluia trazia de volta o repicar dos sinos, a música festiva, os fogos de artifício e, principalmente, para alegria geral, a queima do Judas, na Praça Silviano Brandão. O último domingo da Semana Santa começava às 5 horas da manhã com a solene Procissão da Eucaristia, com o comparecimento maciço da população, entidades religiosas etc.”
E foram palavras de Pinto Coelho, o grande poeta de Viçosa, que bem definiram o perfil do Pe. Álvaro: “Não havia quem não se rendesse à doçura e à serenidade de sua presença, irradiante de simpatia e conquistadora de amizades. Tudo em torno dele e por onde passava se impregnava de bondade. A par de uma alma pura, generosa, profundamente liberal, que se dispunha para o bem e para o perdão, distinguia-se pela sua brilhante inteligência e primorosa cultura. Sem deixar de ser o ‘Homo Dei’, era bem homem. Para ele o sacerdócio era amor ao próximo, no mais alto grau. Poucos, tão homens e tão sacerdotes, como ele. Nas horas de amargura, jamais proferiu uma palavra com violência ou ânimo de injuriar: apenas um triste sorriso lhe aflorava aos lábios. Removido, em 1947, como capelão, para Conselheiro Lafaiete e, posteriormente, para Belo Horizonte, onde permaneceu durante 10 anos, como vigário da Paróquia ‘Cura d’Ars’, o Padre Álvaro suportou, por muitos anos, em silêncio, na sua evangélica humildade, a dureza do quase ostracismo. Entretanto, conservou-se sempre o mesmo, espirituoso e alegre [...] Tinha a visão límpida da imensa tarefa que ao sacerdote cabe num país como o nosso [...] Gravemente enfermo, veio para esta cidade onde, hospitalizado durante muitos dias, não lhe faltaram os recursos da medicina nem os cuidados de seus dignos irmãos e inúmeros amigos, todos incansáveis em servir com desvelo ao seu antigo vigário até a hora da extrema despedida da existência terrena. A mim impressionaram sempre, e mais do que nunca entristecem, os funerais sem lágrimas. No enterro do Padre Álvaro, ao contrário, eram muitos, homens feitos e velhos, mulheres e crianças os que choravam copiosamente [...] A vida do Padre Álvaro há de ser para nós uma inspiração, sua lembrança uma bênção e seu exemplo uma esperança. Em altar viverá ele, custodiado no coração de Viçosa e de quantos souberam venerá-lo em sua plena, fecunda e gloriosa existência. No Paraíso, certo de ter cumprido sua espinhosa missão na terra e pago o que a vida lhe deu em troca, poderá dizer: ‘Non omnis moriar’. Não morrerei de todo. Deixo a minha obra, que viverá por mim’”. Sob a epígrafe “Morreu o velho pastor”, Folha de Viçosa de 16 de julho de 1967 publicava seu panegírico, assinado pela articulista Simone: “Na manhã de 13 de julho o sino de Santa Rita dobrou dolorosamente pedindo uma prece pelo descanso eterno do Velho Pastor Pe. Álvaro Corrêa Borges. Por um quarto de século, apascentou as ovelhas do rebanho de Viçosa com dedicação e zelo espiritual dignificantes. Aqui empregou os melhores anos de sua mocidade na pregação do Evangelho de Cristo, batizando em Seu nome, confortando almas aflitas, reconduzindo transviados, levando a unção da hora extrema ao moribundo. Noites sem conta, cavalgou por esses morros escuros que cercam a cidade para absolver pecados e ungir com óleo santo os que estavam prestes a morrer. Sua casa, em qualquer paróquia, foi sempre oásis espiritual de quem sofria. Ali, uma bênção piedosa, uma palavra de fé era paz, conforto, consolação. Quarenta e oito anos passou no confessionário, sussurrando conselhos e palavras de perdão! Patriota e nacionalista, no bom sentido, sempre alertava os paroquianos quanto aos deveres cívicos, ao lado dos deveres da Religião. Findando sua missão na terra, o Senhor o chamou a Si. Exigiu, porém, do Velho Servo, uma última pregação: a pregação muda da paciência, da resignação, da esperança na vida futura. Foi a lição que aprendemos de sua última enfermidade, cadinho de purificação! A vida se lhe foi extinguindo pouco a pouco e Deus, na impenetrabilidade de seus desígnios, conservou-lhe a lucidez até bem poucos passos do fim, certamente porque o sacrifício consciente se reveste de maior valor. Em meio a tanta dor, sem um protesto sequer, o bom Velhinho tentava sorrir ao visitante no intervalo das lágrimas agradecidas que silenciosamente derramava. Morreu pobre. Nunca viveu para si. Confiou sempre no Deus que alimenta as aves do céu. E nenhum conforto lhe faltou. Nem mesmo o carinho de amigos, que, de longe, vinha prestar-lhe a homenagem derradeira. Sua agonia foi longa, mas a morte serena: tranqüila como a alma do justo. Soando a hora final, as últimas forças concentradas levaram-no a erguer-se a meio corpo e a olhar firme para o Céu, como se dissesse em sua prontidão característica: ‘Seu servo está pronto, Senhor’ e fechou os olhos para sempre. A Igreja se encheu de amigos de fiéis, ao correr a notícia de seu falecimento. Clero, autoridades civis, o povo. Homens rotos, de pés descalços, ao lado de outros das classes liberais, todos confraternizados junto ao ataúde do amigo comum. Enquanto os sacerdotes, na solene gravidade do ritual canônico, encomendavam sua alma a Deus, nós, na convicção de nossa fé, ouvíamos-lhe responder ao coro da terra, na Glória Eterna, onde descansa: ‘Por todos os séculos dos séculos. Amém’”.

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De acordo com o professor José Marcondes Borges, “no início da década de 1950, quando não havia a estrada asfaltada passando pelo Cantinho do Céu, quem chegava a Viçosa pela poeirenta estrada que vinha de Teixeiras, entrava no perímetro urbano pela única rua do Pau de Paina (Nova Era). Passava, em seguida, pela Rua dos Passos ou pela Dr. Brito, Muzungu e Virgílio Val, ou Benjamim Araújo, para chegar ao centro da cidade. Este se constituía de três ruas, apenas: Vaz de Mello, Arthur Bernardes e Balaustrada (Bueno Brandão) que, sem contar a P. H. Rolfs, confluíam para as ruas do Cemitério, Gomes Barbosa e Santa Rita. Estas últimas levavam à Conceição, onde a cidade terminava, no pé do morro, e o viajante voltava à poeira do caminho, para Paula Cândido e Ubá. Pelo exposto, quem andasse dois quarteirões, perpendicularmente ao eixo longitudinal da ‘lingüiça’, ‘estava no mato’. Para os ‘gozadores’, a cidade caminhava para o fim, pois, diziam, a cada casa que se construía, duas caíam”.




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USURPAÇÃO TERRITORIAL E GENOCÍDIO INDÍGENA



Numa mata de dificílimo acesso, o desmatamento vinha sendo feito com técnicas rudimentares, com o propósito de se plantar café. Sacrificavam-se, em até dezoito extenuantes horas diárias de um pesado trabalho, a mão-de-obra escrava. São inúmeras as notícias de latrocínios na região. CHIAVENATO ( nº? ) nos informa sobre o perfil dos elementos que compuseram, nas primeiras investidas, as bandeiras paulistas: “Eram marginalizados em Portugal e viveram como marginais no Brasil... E não há dúvida de que o bandeirante estava talhado para esse serviço. No geral, ele era um português analfabeto, de maneiras rudes, acostumado à dura vida de pobre. Já vinha treinado pela miséria desde o reino[...] Foi a necessidade econômica que impeliu os bandeirantes a ser o que foram. Primeiro foi a necessidade de escravos. Depois, foi a riqueza do ouro. E, por fim, oestabelecimento do latifúndio. Nessa última atividade, foi comum os bandeirantes atuarem como uma tropa de vanguarda, limpando o terreno para que os futuros latifundiários implantassem suas grandes propriedades. Mesmo aí, dedicaram-se à captura de índios, que eram vendidos como escravos, às vezes para os mesmos senhores que os pagavam para ‘limpar o terreno’ [...] Houve um ponto comum nessas três fases: o índio sempre era a vítima. Na primeira fase, os bandeirantes, enquanto escravizavam e matavam o índio, promoviam também o descobrimento das rotas fluviais, o conhecimento da terra, mas se desiludiam por não encontrar ouro facilmente. Isso ocorreu até mais ou menos 1696, quando finalmente apareceu o ouro. Os bandeirantes conquistaram a terra, e aos diplomatas restou o trabalho de aplicar o uti possidetis, legalizando a posse. Invadindo os sertões, preando índios, os bandeirantes garantiram a Portugal o alargamento das suas posses. O processo foi grandioso, mas marcado pelo banditismo”.
Quanto à fase seguinte, de ocupação propriamente dita do território indígena, JOSÉ ( nº? ) realça que “pelos mais diversos e indignos processos, o branco e seus associados usurpavam terras que se achavam na posse de croatos, cropós e puris. Se ocorria a conquista e apropriação do solo, deveriam existir conquistadores e conquistados. Foi o que não faltou. Conquistadores eram os brancos e associados seus e conquistados só poderiam ser os indígenas”. Ele descreveu os puris como “homens de estatura baixa, ora mediana, e de formas robustas, grossos e compactos, portanto, além de espadaúdos. Os homens mediam entre 1,35 a 1,65 metros de altura, e as mulheres tinham o seio de tamanho médio e não caíam muito. O ventre era volumoso, braços musculosos e redondos, pés estreitos e largos na frente, e pele de coloração acobreada. Cabelos negros, grossos, compridos e abundantes. Possuíam, ainda: cabeça de volume médio, testa baixa, pouca barba, rosto longo e anguloso, orelhas pequenas, olhos pretos e pequenos, afastados para fora, sombrancelhas finas, mas altas no meio, nariz curto e deprimido em cima e largo em baixo, beiços médios, boca pequena, dentes claros e queixo largo”.
Indianistas afirmam que, morrendo a maioria ainda jovem, e vivendo em estado de completa e absoluta nudez, nossos índios sequer conheciam rede e por isso faziam de leito a própria terra, e que estes rancheavam-se em habitações frágeis e extremamente rudimentares, formadas por duas forquilhas fincadas ao solo, sobre as quais atravessavam um pau, cobrindo-as com folhas de palmito, que faziam, concomitantemente, as vezes de telhado e de paredes. Não sabiam plantar nada. Isto aprenderiam com os brancos. Mas eram exímios nadadores, andarilhos, corredores, caçadores e pescadores, sendo que para pegar peixes de maior porte utilizavam-se de fios de embaúba para a confecção de suas redes. Sobreviviam de mel de abelhas, de frutos como sapucaia, genipapo, côco, jabuticaba e raízes de caratinga. Sua ferramenta era simplesmente uma pedra amarrada num pedaço de madeira.
O genocídio dos indígenas, praticado por aqueles que formariam os núcleos embrionários de uma aristocracia rural, controlando toda a vida econômica da Zona da Mata, suscitou fortes pressões internacionais. O rei de Portugal convenceu-se da necessidade de determinar a organização de uma expedição que possibilitasse uma amistosa aproximação com os indígenas. Em 1767, coube ao sertanista Francisco Pires Farinho, por designação do governador Luiz Diogo Lobo da Silva, a tarefa ingente de ser, nesse sentido, um especial guia, com função de comando. Especialmente por conhecer ele os costumes dos nativos, com os quais convivia harmoniosamente desde 1750. Entretanto, conforme alguns historiadores, sua ação não significou muito em termos reais de pacificação das tribos. Foram várias as tentativas no sentido de colonizar coroados, coropós, puris e aimorés, desde o Guarapiranga às margens das bacias fluviais do Xopotó, do Pomba e do Ubá. Terminavam em batalhas mortais. Enfrentando armas de fogo, os silvícolas usavam, em batalhas desiguais, seus machados e flechas. Havia uma terrível política de extermínio. Poupavam-se, entretanto, mulheres e crianças, aproveitadas em trabalhos domésticos.
No início do século XIX, na área compreendida entre os rios Angu, Meia Pataca e Pomba imperavam ainda as matas virgens. Antes da vinda da Corte portuguesa para o Brasil, Dom João VI havia mudado a concepção política com relação ao indígena, isto é, estudava a possibilidade de aldeá-lo, torná-lo civilizado, incorporando-o como súdito útil ao Império. Daí o aproveitamento do militar francês Guido Tomaz Marlière na tarefa de civilização dos indígenas da região, ainda de acordo com JOSÉ. Os mineiríndios não queriam, e não permitiram, tanto quanto lhes foi possível, a fixação de mineradores e agricultores em seu território. Por isso, de tempos em tempos, destruíam roças e as casas dos brancos invasores. Somente a partir da segunda metade do século XVIII foi que alguns arraiais se firmariam, em definitivo, com o aniquilamento dos índios.
Foi o Conde de Palma quem incumbiu Marlière da espinhosa missão de cumprir as seguintes normas:

“1º - que se conservem os Portuguezes, que estando arranchados nas terras demarcadas aos Índios as obtiverão, por posse, ou compra (ainda que nellas) e não prejudicão, antes favorecem aos mesmos Índios.
2º - que sejão obrigados a restituir immediatamente as terras aos Índios aquelles, que não lhes satisfiserão, apezar das bemfeitorias, que tenhão feito, salvo se preencherem as condições de compra.
3º - que apezar de possuirem terras pelos referidos titulos de compra, sejam expulsos para fora das aldêas, os que perseguem, e encomodam aos Índios, maltratando, ou destruindo suas plantaçoens e criaçoens.
4º - que os Portuguezes declarados facinorozos, e que comercião como as terras aos Índios, venham a minha Presença, de baixo de prizão, para lhes determinar o destino que me parecer conveniente”.

(Da Revista do Arquivo Público Mineiro, ano X, págs. 393 e 394).

A poaia, verdadeira quanto falsa, era abundante na Zona da Mata Mineira. Empregada contra a febre e como vomitório, era tida como eficaz pela medicina daquela época. Quanto a isto JOSÉ relatou: “Encontrava mercado certo junto aos aventureiros que vinham buscá-la. Esses a adquiriram geralmente pelo processo da troca, permutando-a pela aguardente, que uma vez conhecida do indígena, tornava-se sua perdição”. O fabrico de aguardente se transformou em eficiente “forma de que o aventureiro se valeu para vencer, conquistar e eliminar o indígena, numa trágica operação que duraria até o segundo quartel do século XIX, como está registrado nos escritos de Marlière, como esse que chega à violência verbal:

‘Em os Arraiaes frequentados pelos indios naturaes da paragem como Prezidio de São João Bapt.ª, e Pomba, duas Sodomas, q’ pa. satisfazer os preceitos da Religião, em os dias festivos veem bem vestidos, e sahem nús despidos pelos Taverneiros, q’ são hum em cada caza, e os lanção depois de bebados na rua aonde morrem apopleticos, ou esmagados pelos Carros, e Cavallos dos passageiros’.

Em verdade o avanço dos poaieiros trouxe consigo a conquista e o povoamento da terra e sua conseqüente colonização. Mas, a esse benefício, logo se opôs a ação deletéria resultante da troca da poaia pela aguardente. Realmente, os comerciantes inescrupulosos trouxeram para o indígena o ‘presente’ de sua destruição. Sempre arredio e temeroso, o mineiríndio se esquivava, a princípio, de entrar em negócios com o estranho. Para vencer essa dificuldade inicial, o aventureiro lançou mão da aguardente, cujo conhecimento por parte do indígena foi rude golpe, tanto na catequese como na colonização ordeira e frutuosa e na existência dos próprios grupos silvícolas. Daí por diante, o indígena era o primeiro a procurar encontros com os mercadores. Não foi, porém, apenas a aguardente a causa da decadência e do desaparecimento dos mineiríndios locais. À sífilis, à varíola, ao sarampo, à tuberculose, ao cruzamento com brancos e à prática do homicídio, coube também considerável parcela de culpa por esse desastre coletivo, em que pereceram tribos inteiras e, com elas, as mais antigas tradições locais. O organismo dos croatos, cropós e puris não estava habituado a produzir os anticorpos necessários à luta contra as invasões de tais moléstias. Era apanhado sem a indispensável capacidade de resistência. Na produção de mestiços, estava outra causa dessa eliminação do indígena como representante de uma etnia, embora os caracteres dela continuassem presentes nos novos seres. E a facilidade com que assassinavam indígenas completava o sombrio quadro...”
Em tempos realmente tumultuosos, em que existiam lutas entre as tribos indígenas dos aimorés contra os puris, no ano de 1808, estabeleceu-se, para a defesa dos colonos, na região de Santa Rita do Turvo e também do povoado de São Sebastião e Almas da Ponte Nova (que desde 1861 é o município de Ponte Nova), uma das divisões militares da Capitania de Minas, a mando de Sua Alteza Real, D. João VI. Existia, portanto, um quartel no povoado de Santa Rita, cujo contingente tinha funções exploratórias e não somente de defesa. Tratava-se, conforme registros históricos, de um serviço ordinário. As unidades da Guarda Nacional foram criadas depois, em 1831, como força auxiliar do Exército. Formadas por membros comissionados, eram organizações paramilitares dirigidas por comandantes gerais distritais, subordinados à presidência de juízes de paz.


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Transcrevemos adiante o que se pôde preservar do vocabulário de algumas das primitivas nações indígenas da Zona da Mata, formadas pelos índios puris, coropós e coroados. Tal dicionário foi organizado pelo capitão Manuel José Pires da Silva Pontes. Foi extraído do Tomo IX da Revista do Arquivo Público Mineiro:


A

Aba – homem, pessoa, cabelo; abaty-antom – milho; abaty-apê – arroz;
abi – agulha; acae – aí; acaiba – dorido, desassisado; acaju-caju –
amo; acanga – cabeça; acarã – garça (nome de certo peixe); ajura –
pescoço; akirai – abortar; aly – gaivota; amana-an – chuva, inverno;
amanajê –alcoviteiro; amanajêi – algodão; amana-ny – água de chuva;
amby –rancho; ambyra – defunto; amoma – parente; amu-irenandy – fêmea;
andiara – senhor; andyrã – morcego; anga – alma, sombra; anhangá –
demônio; anho – só; apeba – chato; apicaba – assento; apuam – globo,
redondo; apyabá – homem, macho de qualquer espécie de animal; apytiuma
– miolos; ar – queda, nascer; ara – dia, hora, mundo, tempo; ara-amana
– dia brusco; ara-ayba-etá – tempestade; ara-çacy – calma, calor;
aracoaracy – dia de sol; ara-çuipe – meio-dia; aracy – sol;
ara-etê-oçu – dia grande de festa; aravary – sardinha; archã – tia;
aroja – avô; aty – malho; aurano – pena; ayg – preguiça (animal).

B

Bera-berab – chamejar, fuzilar; boia – cobra; bubuí – aboiar.

C

Caã – herva, folha, mato; caã-etê – mato firme; caã-mando – caçar;
caãn-pyem – herva, relva; caã-para – rústico, habitante; caã-peru
–língua de mato; caã-puan – ilha; caã-pyir – capinar; caarary-ara –
verão, estio; caã-reru – beldroega; caã-roá – talo das árvores;
caã-roba – ramo das árvores; caã-ruca – tarde; caãtinga – mato
esbranquiçado; caaug – arremedar; caã-yby – anil; çaba – caía; caba –
vespa, banha, gordura; caba-oçu – peludo; çaboaçu – caraca; caburu –
cavalo; caça – rainha, menina dos olhos; caçapyra – gosto; çacecaceme
– algazarra; cacimbas – cachimbo; caçoão – ancião; caçoca – pilar,
moer, gorgulho; cacopca – romper; cacy – pena, dó; çaembé – áspero;
cagico – veia; çai – azedo; caí – queimado, queimar; çaibira –
gengivas; caibonçava – açougueiro; caiçara – trincheira, arraial;
çaimbançava – ajuntador; cainana – mulher velha; cainha – dente;
cainotim-manhagaba – olaria; cajiba – queixada, queixo; cajuca –
nervo; calloca – pelo; camapuan – peitos redondos; cambiçará – ama;
cambocy – panela; camby – leite; canca – peitos de mulher; cancute –
amar; cangaera – osso; cangoera-oçu – beberrão; canhana – ajuntar;
canhembora – o que costuma fugir; cantim – bico, ponta; çapeque –
tostar; capica – assentar-se; çapichava – roça; capi-retê – abrazar;
çapocai – chamar, apregoar; çapocaia – galinha; carai – feiticeiro;
caraibebê – anjo; carapi – curto; carapina – carpinteiro; carará –
mergulhão; cariboca – mestiço; carimã – farinha feita com mandioca
posta de molho; caroã – pita; caruaba – pasto; caruara – corrimentos;
carue – mijar, mijo; caryba – branco, português; catã – andar;
cata-inabê – abundância; catu – bem, são; catucaba – aguilhão; caú –
beber vinho; cauim – vinho; cauim-çai – vinagre; cauim-tata –
aguardente; cayeã – ontem; cearroma – ceia; cecá-cima – cego;
ceça-pecanga – sobrancelhas; cecapyço – vista; cecê – a cinta; ceem –
doce; cegiêmirim – tripas; cegiê-oçuí – estômago; cej – acarretar;
cemhã – mulher; cemhã-membira – sobrinho ou sobrinha do homem;
cemhã-mendaçara – casada; cemhã-moçu – donzela; cemhãtem – rapariga;
cemu – irmão de varão; cendú – ouvir; cendy – luz; cetê – corpo; cetem
– cheirar; cetyama – perna; ceyca – multidão, rebanho; cipó – planta
rasteira, trepadeira; cipó – raiz; cô – roça; coara – buraco, furo;
coaracy – sol; coaracy beraba – raios de sol; coaracy-ocankuní – sol
posto; coeno – nascer; comba – bertoeja, bonina; comendá – fava,
feijão; comendá-í – farinha; coô – caça, carne; coô-papáo –
quinta-feira; copê – costas; copiã – ovo; copiara – varanda, chaque;
corera – apápara; coromi-moçu – moço; corumirim – rapaz, criado;
cotypé – faces do rosto; couimi-oçucaba – novidade; çuaçu-apara –
veado-galheiro; cuacume – cobra; cuapara – camarada; çuasu – veado;
curucaba – papa, goela; cururiú – cobra d'água; cururu – sapo
maxilião; cutuca – picar; cuya – cabaço; cuyr – hoje; cyca – chegar.

E

Eâ – há! (interjeição), epeba – plano.

G

Goandu – ervilha; goiamim – velha; goiamim-ebera-para – arco da velha;
goobiru – rato; guã – saco de mar; guanana – marreco; guará – nome de
um pássaro (Ibis-Rubia); guará-piranga – barreira; guatã – passear;
guíra – ave, pássaro; guira-oçu – ave de rapina; gurupema – peneira;
gy – machado.

H

Huitêu – maçarico pequeno.

I

Iapar – aleijado; ibakepê tyryba – paraíso; ibatê - acima; iipé – tiú;
ikê – ilharga; imena – marido; imyra – árvore; inamby – perder; indoá
– pilão; inyry – cal; iomanar – abraço; ipecu – pato; iraitim – cera;
itã – ferro; ita – pedra; ita baboca – mò; ita bubuí – pedra pomes;
itã-cantim – chuço; ita-em – pedra hume; ita-embê – pedra de amolar;
itã-etê – aço; ita-hi – pedra de afiar; itã-jica – estanho; itã-jubá –
ouro, prata, dinheiro; itã-juráo – grelhas; ita-oca – parede de pedra;
ita-oçu – penedo; itã-peba – chapa de ferro; ita-tyba – rochedo,
pedregal; itic – arrumação; iyg apé – alagadiço.

J

Jacamã-mirim – charco; jacomã – poço d'água; jacoon – chorar; jacuê –
abafar; jacy – lua, mês; jacy-caba-oçu – lua cheia; jacy-gearoca – lua
minguante; jacy-jemotonçu – lua crescente; jacy-pocaçu – lua nova;
jacy-tata – estrelas; jagoaccacaca – lontra; jagoara – cão d'água;
jagoaraetê – onça; jakime – humedecer; jandu – aranha; jandy – aceite;
japi – apedrejar; japicoça – língua; japinon – onda; japixáo –
acutelar; japy – topada; japycã – multiplicação; jar – aceitar; jatime
– enterrar; jeauçupaba – amor honesto; jecripiam – joelho; jecuapaba –
sexta-feira; jemocarai – brincar; jemu – flechar; jeporacar –
mariscar; jeru –papagaio; jetica – batata; jicaçaba – abertura, raxa;
jirao –sobrado; jogoajira –alacráo; jora – amo, senhor, dono; juba –
manga; jucã –matar; jucaçara – matador; juçana pitereba – laço de meio
corpo; juçana-cepiyara – laço de pés; juçana-juripyara – laço de
pescoço; jucei – apetecer comida; juimboi – linha; jukira ou jukin –
sal; jurarã –tartaruga; jurity – pomba; juru – roca; jurupary –
demônio, diabo; juru-rata – inferno; jyba – braço; jybacangoera –
espádua; jyba-rupetã – cotovelo.

K

Ker – dormir; ketic – velar; kevira – irmãs da mulher; kiçaba – rede
de dormir; kicê – faca; kicê-opara – foice; koquera – capoeira, roça
velha; kyynha – pimenta.

M

Macaca – macaco; macauba – palmeira que dá azeite; maem – atentar;
mainharm – assanhar; majoi – andorinha; mama – cama; manhagaba –
fábrica; manô – morrer; mano-manha-gaba – guerra; maraar – estar
morrendo; maramonhang – brigar; marica – barriga; mavamanhang –
guerrear; meapê – pão; membeca – tenro, macio; membira – filha (da
mãe); membirá – parir; memby – buzina, flauta; merê – baço; merim –
pequeno, pouco; meru – mosca; meru ropiã – mosca vareja; meru-i –
mosquito; mimbabo – gado; mindy-pyron – papas grossas; mingao – papas
moles; mixire – assar; moama – armar; moatunçaba – parapeito; moçapyer
– três; moça-unbe – amolar; mocerane – desprezar, abater; mocoi –
dois; mocuê – moer; mocurui – esmigalhar; mojemonhang – gerar; mokatac
– abalar; mombyca – furar; mombyca-para – preso; mondã – furtar; monde
– alçapão, armadilha; monhagava – creador; moranduba – aviso;
moranhy-moça-pays – sexta-feira; moranhy-mocos – terça-feira;
moranhype – segunda-feira; mory – alegrar com afagos; moteric –
arrastar; moveó – apagar; moy – minhoca; mung – dar; murucututu –
mocho; mutuú-ara – domingo.

N

Namby – orelha, argola; nhaem – alguidar; nharm – bravo; nhunga-iara –
intérprete; nhungoera – falador; nupançaba – açoite.

O

Oapoan – arredondar; o'ato-cupô – pescada; oba – roupa; oca – casa,
rancho; ocai – queimar-se; ocapora – criado, escravo; ôco –
ausentar-se; oçú – grande; oiainte – amanhã; ojemogyb – abaixar-se;
okena – ponta; omê – acolá; opae – acordar do sono; orebo – a nós
somente; oro cumia – coruja; orocanga – costelas.

P

Berbori – bofes; pacamonhagara – médico; paçango – medicinal; panacu –
cesto comprido, carro; panama – borboleta; paragoá- papagaio; paranã –
mar; paranã-oçu – mar longo; paranã-remaia – cabo de mar; paraty –
tainha; parim-parim – manquejar; pary – armadilha para pescar; patuá –
arca; patuay – marreca; paya – pai; pê – caminho;
pecoacaba – atadura; pecu – comprido; pejara – guia de caminho; peju –
assoprar; pejuçara – abanador; penga – sobrinho ou sobrinha da mulher;
penna – genro; perê – baço; pereba – fístula; pery – junco; peyana –
gato; picerica – cair escorregando; pigoá – tornozelo; pinda-xama –
linha de pescar; pindayba – vara de anzol; pinhoa – artelho; pipema –
preto; pirã – peixe; pirã caem – peixe mal assado; pirã em – peixe
assado; pirã jacoava – peixe boto; pirã juqueiapara – peixe de
salmoura; pirã piriric – peixe frito; pirã-iguê – pescaria de corso;
pirãmomonhagava – pescaria de anzol; piranga – vermelho; piratun –
nariz, ponta, no mar; pirã-uma – peixe maro; pirã-ytye – pescar;
pirequita – periquito; pirera – pele; pirikytuim – rin; pitonga –
menino; pitonga-í – menino pequeno; pitu – cheiro de peixe, arroto; põ
– dedo, mão; poãçu – mão esquerda; poai-aconan – com a mão; põapem –
unhas; pobura – angelin; pocaar – prender, amarrar; pocoke – apalpar;
põcotu – mão direita; poe – arrebentar; pora – habitador; poracaia –
dança; poracê – dançar; pore – salto; potaba – parte, quinhão,
presente; potery – marreca; potrã –peito; potuu – aplacar; poty –
camarões; puidá – anzol; punga – alparcas; purib – vantagem; puruá –
prenha; py – pé; py-copê – peito do pé; pya – coração; pya-catú –
coração bom (agrado); pyçã – rede de pescar; pycajê – meia-noite;
pycengoera – porta; pypitera – planta do pé; pypora – vestígio,
pegada; pyr – mais; pyranha – tesoura; pyry – esteira; pytema – noite,
treva, escuro; pytema oçui – noite escura; pyterpe – meio; pytyba –
fraco, covarde.

Q

Quecã – navalha; quera – velho.

R

Rerecoara – tio; rim – faísca; roca – casa; roiçanga – sombra.

S

Sun ou suna – negro.

T

Taba – aldeia; tabatinga – argila; taboca – cana; taçoca – caruncho;
taçonha – membro viril; taçuba – febre; taçuba yba – febre maligna;
tacyba – formiga; tagoã – amarelo; taioba – couve; taipaba – parede;
tajira – filha (do pai); tamaracá – sino; tamimbuca – cinza; tamuia –
avô; tapanhuna – negro, preto; tapejara – useiro e veseiro; tapera –
aldeia destruída; tapereca – aldeia deixada; taperu – bicho; tapia
caapara – gentio; tapira – boi; tapuira – anta; tapuitama – sertão;
tapy-rotê – raspas de mandioca; taquã – cana ôca; teazon – fruta
madura; tatã berab – chama de fogo; tata piyntã – carvão; tataca – rã;
tay – arder; tayaçu – porco doméstico; tayapeba – porco do mato;
tayatinga – porco (queixada branca); tayatitu – uma espécie de porco
do mato; tayetê – porco do mato; tayna – menino; tayra – bicho; teça –
olhos; teju – lagarto; tejupaba – cabana; tenondê – adiante; teraira
–lagartixa; tibuira – pó; tijuca ou tijuco – lama, barro; tijuca ou
tijucopaba – atoleiro; timbê – beiços; timinidô – neto ou metade de
varão; timiricó – mulher do homem; tindêra – irmão de varão; tinga –
branco; tiniariron – neto ou neta de mulher; tining – seco, seca; tior
– nariz; tityra – tio; tomunhaeng – assobiar; tonha –dente; toryba –
festa, alegria; tuba – pai; tuguí – sangue; tuguí rapé – veia;
tupai-oca – igreja; tupanberaba – relâmpago; tupan-oca – igreja;
tupa-tupanã – Deus, trovão; turuçu – grande; tutuçupyo – maior; tuy –
frio, arrepiamento; ty – sumo, caldo;
tyaro-çu – guloso; tyba – freqüência, feitoria; typacoena – correnteza.

U

Uça – tosse, caranguejo; ui – farinha; ui atã – cosida, cosida de
todo; ui carimã – cosida como trigo; ui puba – cozida de milho; uiba –
flexa; uicatu – cosida d'água; una – preto; ura – bicho (berne); uri –
catarro; urupema – peneira.

V

Vu – comer.

X

Xama – corda, atilho; xapeacaba-kirá – vaidade; xo – apage, apre (interjeição).

Y

Ya – ainda bem (folgando do mal alheio); yba – árvore, cano, coxa;
ybabaçu – côco; ybaca – céu; ybarema – alho; ybaté – céu (das nuvens);
ybatiba – pomar; ybetu – viração, vento ou arroto, névoa, nuvem; ybi
ritê – firme; yby – terra; yby coara – sepultura; yby cuy – arca,
praia; yby ojê pira-oarê – terra gretada; yby peba – terra plana; yby
tinga – nuvem; yby ury – terremoto; ybytybã – areal; ybytyra – serra,
monte; yca – formiga grande; ycyca pira – grude do peixe; yg – água;
yg aba – limo; yg apôaçu – águas vivas, cheias; yg apopae – águas
mortas; yg apy – orvalho; yg berica – água corrente; yg by byra –
bulhão d'água; yg catu – água quente; yg gibera – remanso; yg guaçu –
difícil; yg tu – cachoeira; yg vô – beber água; ygaçapaba – ponte;
yggoara ritinga – vela; ygoara – canoa; ygoara coarana – caldeirões do
rio; ygoara mirim – remo; ygvoiçang – água fria; ypy – princípio;
yroba – amargas, amargoso; yuy-râ yyma – fuso.



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Música, teatro, cinema, literatura e recreação
ARTE MUSICAL



"Bastava que o dia se deitasse para dormir sobre o travesseiro dos morros e lá vinham as vozes bonitas acordar o silêncio tranqüilo das noites viçosenses. A troco de namoro? Qual nada! Sensibilidade de trovadores e musicistas. Cantando em casas de moças, de velhas, de senhoras e de amigos. Por sentimento de amizade e carinho. Com igual pureza de intenção. Apenas para homenagear as noites de Viçosa e despertar lembranças bonitas nos corações.
Que também as letras eram de enredo e inspiração para acordar a sensibilidade da noite.
Havia ainda as serenatas com músicas inspiradas que faziam os PASSOS DA SAUDADE, tocando as mais ternas valsas de um repertório fino. A lembrança dos pistons, violões, violinos que acordavam nosso sono nas noites de silêncio encompridam hoje a saudade da gente".

Norah

(A Cidade – 28 de setembro de 1969)


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Maestro Hervé Cordovil


Engrandece-se a cidade com o sucesso de seus filhos. Filho de Maria De Lucca Pinto Coelho (Dona Sinhá) e do Dr. Cordovil Pinto Coelho, ex-presidente da Câmara de Manhuaçu e ex-deputado estadual (1919-1939) pelo Partido Republicano Mineiro (PRM), nascido a 20 de fevereiro de 1885, em Astolfo Dutra, médico formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, que após exercer a profissão em Viçosa, clinicando no Hospital São Sebastião, socorrendo a indigência nos tempos do governo do Dr. José Ricardo Rebello Horta, transferiu-se, em 1917, para Manhuaçu, a convite de Alberto Pinto Coelho, seu primo e então administrador público daquela cidade, para combater, ali, um grave surto de febre paratifo, o maestro, pianista e compositor Hervé Cordovil veio à luz em Viçosa, no dia 3 de fevereiro de 1914. Falecido em São Paulo a 16 de julho de 1979, foi de sua progenitora que herdou o gosto pela música, desde a mais tenra idade, pois esta o ensinara ainda menino a dedilhar com muito gosto o piano doméstico. Tranferindo residência para a cidade mineira de Manhuaçu ainda pequeno, aos 10 anos Hervé já estava com seus pais no Rio de Janeiro. Lá ingressou no Colégio Militar, integrando sua banda de música, tendo então formado com os condiscípulos um grupo de jazz. Foi enquanto ainda epígono do colégio que Hervé, destaca TAFURI PANIAGO (nº?), iniciou a divulgar suas primeiras composições. Aos 17, matriculou-se na Faculdade de Direito de Niterói, bacharelando-se em 1936.
Hervé exerceu a advocacia em Manhuaçu, tendo estreado no rádio em 1931, inicialmente na Rádio Sociedade (Orquestra de Romeu Silva) e depois na Rádio Philips, Rádio Tupi e Rádio Record, de São Paulo; e Rádio Guarani da capital mineira. Compositor de jingles, regente de orquestra para teatro e cinema, foi autor de trabalhos em parceria com Walfrido Pereira da Silva, Zé Dantas, Luiz Gonzaga, Luiz Peixoto, Manezinho de Araújo, Manuel Vitório, Maria Regina, Mário Vieira, Daicy Portugal Cordovil, David Nasser, Fernando Lobo, Filomena dos Santos, Humberto Porto, Irvando Luiz Arrelia, Ivani Soares, Jayme Tolomi da Rocha, João de Barro, Polera, Raul Duarte, Renê Cordovil, Adoniram Barbosa, Alberto Ribeiro, Almirante, Marisa Pinto Coelho, Mauro Damotta, Nei Machado, Noel Rosa, Orestes Barbosa, Osvaldo Moles, Pascoal José Marcílio, Paulo Netto de Freitas, Paulo Roberto, Bonfiglio de Oliveira, Carlos Alberto Ortiz, Cláudio de Barros, Corrêa Júnior, Cristovão de Alencar, Aloysio Silva Araújo, Armando Ramos, Armando Rosa, Arrelia, João Gutierrez, Jorge de Lima, Jorge Murad, Júlio Atlas, Lamartine Babo, Thalma de Oliveira, Valdomiro Pereira, Vicente Leporace, Roberto Martins, Rochinha e Sérgio Ferreira. Carlos Galhardo estreou cantando canção sua: “Carolina”. Carmen Miranda também interpretou obra de sua autoria, bem como Francisco Alves, Aracy de Almeida, Sílvio Caldas, Isaura Garcia, Lamartine Babo, Carmélia Alves e Dick Farney. Este ilustre filho da terra é hoje nome de Comenda do Legislativo Municipal de sua cidade natal e também da Estação Cultural (antiga Estação da estrada-de-ferro), no centro da cidade de Viçosa.


Bandas e retretas


Guardiãs de uma tradição secular, as bandas realmente são celeiro fértil de músicos de qualidade. Se já se constitui privilégio a presença de uma só corporação musical no município, que se dirá de mais de duas? Popularizou-se esta frase: “Todo mineiro tem um trem de ferro apitando nas veias, uma montanha brilhando nos olhos e uma banda de música tocando nos ouvidos”.
Envolvidos por sua ação cultural, e em torno de suas atividades, são inúmeros os que se beneficiam dessa atividade criativa e construtiva. Em Minas, essa tradição remonta a 1781, ano em que se fundou a Sociedade Musical Santa Cecília, em Sabará. Viçosa, dentre outros conjuntos, contou no passado com a Orquestra Carlos Gomes, que era homônima de uma sociedade musical existente na capital mineira, Belo Horizonte, desde 1896. É rica a história musical viçosense. Há notícias, em antigos jornais da cidade e outras fontes, primárias e secundárias, de presenças de conjuntos como o regido pelo maestro Pedro Gonzaga, durante exibições cinematográficas no extindo Cine Theatro Paladinos do Progresso, e o Conjunto Estudantil Arthur Bernardes, idealizado por Dona Lucília Barbosa, nos primórdios do século XX.
A 1ª Banda de Música de Viçosa foi criada, provavelmente, em 1888. Era a Lira Viçosense, conhecida popularmente como a Banda dos Jacob/Sant’Anna: João Jacob, Juca Jacinto, Florentino Jacob, Francisco Gouveia, Jacob Lourenço, Jacob Jacinto, Randolpho Sant’Anna, Verano Faria e Lindolfo Sant’Anna.


Cameratas e orquestras


Contando com uma Orquestra de Câmara, tendo como estrela maior a soprano Katya Beatriz Oliveira, que sempre executou magistralmente composições de Carlos Gomes, Heitor Villa-Lobos, Senra, Tom Jobim, Handel, Banchieri, Mozart, Bruckner, Vinícius de Moraes, Dorival Caymmi, Lennon, McCartney e Premê, dentre outros compositores consagrados, a OCV congregou jovens e adultos apaixonados pela música clássica. Mestre em Musicologia, seu maestro é o viçosense Modesto Flávio Chagas Fonseca, que trabalhou na catalogação de um gigantesco conjunto de partituras encontradas no coro do Santuário de Santa Rita de Cássia e em poder da família do viçosense José Sant’Anna e Castro (maestro Zequinha), que marcou época à frente da Lira Santa Rita (popularmente conhecida como Banda do Zequinha) possivelmente a partir de 1917, regida inicialmente pelo maestro José Jacinto Dias de Sant’Anna, depois por seu filho José de Sant’Anna e Castro e por José Lopes de Gouveia. Confira a foto de uma de suas primeiras formações, na seção iconográfica deste trabalho.
Foi em 1994 que surgiu a Camerata Santa Cecília, que se transformou, em 1997, na Orquestra de Câmara, com 26 instrumentistas, mantida pela Associação dos Amigos da Orquestra de Câmara de Viçosa (AAOCV). Com coragem, boa vontade e persistência, os músicos da OCV, com o apoio de seus sócios e autoridades, a Escola de Orquestra de Viçosa (EOV) mostrou a realidade de suas conquistas. Aplausos carinhosos e efusivos demonstraram a confiança da comunidade viçosense. Trabalhando o desenvolvimento humano e, conseqüentemente, a inclusão social, por iniciativa da professora Roseli Shiroma, as atividades da EOV, um trabalho voluntário, foram organizadas em estudos envolvendo alunos novatos da OCV, com a imprescindível monitoria dos mais adiantados, que colaboraram, desde 2003, com os ensaios de conjuntos camerísticos, apresentações e concertos. O pequeno grupo se aventurou até no reparo de avarias de instrumentos musicais (iniciação a luteraria).


Seresteiros


Em 1949 era criado o Sexteto Melodia. Em 1975 era formado pelo maestro Portugal, pelo croonner Ed Carvalho, pelo maestro e violinista Adson Rodrigues Bicalho, José do Espírito Santo Sant'Anna (Zé Bóia), João Bosco Sant'Anna, Álvaro César Sant'Anna e João Bosco Fialho (João Bobaginha), como se vê na seção iconográfica deste trabalho. O maestro Adson, ser humano boníssimo, filho da tradicional familia Jacob Rodrigues, pelo lado materno, descendia de uma família de músicos, de saudosa memória, como a mãe, Adalgisa Rodrigues Bicalho (Dona Zizinha), a prima Maria Lopes Tafuri (Dona Neném) e os tios Esther Rodrigues Araújo e João Rodrigues, este, violonista da Orquestra Sinfônica Brasileira. Adson também espargiu a maviosa sonoridade, por décadas, pelo Brasil adentro, a magia e o encanto de seu inconfundível violino. Quem apreciou de perto a arte desses musicistas, aquilata o que se imagina ser a música celestial. Descendente, pelo lado paterno, do odontólogo e protético Adezílio Bicalho, da família Trindade Barreto, irmão de Maria Pompéia, outra virtuose do violino, de Luzieta, Léa, Adezílio Filho e de José, tendo freqüentado os cursos secundário e de datilografia em sua terra natal, Adson tinha inconfundível gosto pelo cancioneiro melódico e clássico. Folha de Viçosa de 2 de setembro de 1973 se referiu a ele como "um dos homens mais populares de Viçosa". O cronista Armando assim se expressou, dentre outros aspectos, sobre este musicista:
"O povo em sua infinita sabedoria diz com muita razão: tamanho não é documento. Naquele pequeno frasco, existe um mundo de fraternidade, fruto das almas de boa formação cristã: nele existe latente o continuar de orações expressas nas suas ações, nas suas palavras, nos seus gestos: Duas tendências manifestaram-se desde cedo em Adson: inclinação pelo comércio e para a música. Na infância o seu divertimento predileto era aquele de brincar de 'vendinha', e mais crescido, se é que ele cresceu, fez do seu violino o seu companheiro inseparável, o seu 'hobbie'. De família de músicos e com a sua formação sentimental, fez-se um 'virtuose'. Adson toca movido pelo desejo de transmitir alegria, a música coopera com ele na expansão de seu espírito filantrópico. Quantas e quantas vezes o seus famoso conjunto de seresteiros – faça-se justiça também ao José Bóia – não contribuiu para aliviar o sofrimento dos que são menos favorecidos pela sorte.
Tocando nos clubes, nas 'boites', ele transmite não só alegria, como o bálsamo para aqueles corações que procuram nos ângulos pouco luminosos dos salões esconder as traições diárias da vida. Adson não é só músico, como bom compositor: é o autor do hino do 'Clube 4S', que forma líderes rurais. Há muitas composições suas, que a sua modéstia não permite divulgá-las. Embora tocado pela genialidade de Beethoven, sente-se que no fundo do seu coração há raízes que penetraram profundamente naqueles compositores que formaram a época do 'Romantismo.' Ele é romântico e conservador, embora ache que a mocidade caminha para novos horizontes. Ele é sócio de quase todas as organizações de Viçosa, em muita, ele participa de suas direções, dos seus conselhos, das suas comissões, colabora sempre, é ativo e possui grande espírito de iniciativa. Adson está sempre cercado de amigos que o respeitam, que lhe dedicam profunda amizade. Quando nas suas 'rodinhas' se encontra uma 'hermosa muchacha' dizem os seus amigos mais íntimos, que ele ouve o trinado dos rouxinóis."
Música em Viçosa, especialmente a dos seresteiros, é tema inesgotável.



Corais e Festivais




Conforme registram as melhores fontes, a música coral dentro do campus universitário começou com o Clube dos Cantores, cuja trajetória se confundiu, inicialmente, com o nome do professor Koloman Lehostky, até fins da década de 1930, quando passou a ser dirigido e organizado pelo Dr. John B. Griffing, com o incondicional apoio do maestro João Salgado Amorim. Há informações de que, em 1939, era constituído de mais de três dezenas de cantores, entre discentes, docentes e funcionalismo. Isto até o ano de 1945. Com a instituição da Escola Superior de Ciências Domésticas (ESCD), a professora Benedita Melo, então diretora do que hoje é o Departamento de Economia Doméstica e os também docentes João Bosco Pinto Guedes e Benito Taranto mantiveram algumas poucas apresentações na então Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (Uremg). No final da década de 1960 o coral atingiu o apogeu, quando coube ao Clube Carcará a sua reestruturação, ficando a regência a cargo de Maria do Carmo Tafuri Paniago. Em 1971 chegou a se apresentar, com 40 componentes, no programa “Mineiros Frente a Frente”, da TV Itacolomi. “Seus elementos compuseram também o Coral Clélia Bernardes, da cidade de Viçosa, com apresentações diversas, em 1975”, conforme TAFURI PANIAGO (nº?).
O engenheiro João Carlos Bello Lisboa fundou, em 1923, a Banda da Esav, constituída de operários e regida por Manuel Florentino, por maestro da Polícia Militar e posteriormente, sargento Cordeiro, com 40 músicos. “Em 1928 assumiu a regência o maestro João Salgado Amorim. Com a saída do Dr. Bello Lisboa, a banda atravessou fases críticas. Teve nova fase boa com o Dr. José de Melo Soares Gouvêa, que deu total apoio à corporação. Depois disto, a banda se manteve com altos e baixos até desaparecer, com a saída do maestro João Salgado Amorim, em 1960”, ainda de acordo com PANIAGO. Em 1965, foi reorganizada durante o reitorado do Prof. Edson Potsch Magalhães, quando passou a contar com 32 músicos e instrumental novo, além da sede própria e de usar uniforme de cor verde-oliva. Era a Banda das Uremg, que mudou novamente de nome para Banda da UFV. Num dos três reitorados do Prof. Antônio Fagundes de Souza passou por nova reestruturação pelo órgão correspondente ao que hoje é a Divisão de Assuntos Culturais (DAC/UFV), encargo pelo qual responsabilizou-se o professor Benito Taranto. A regência, à época, era do maestro João de Moura. Em 1978, o Conjunto de Sopros foi reorganizado já sob a regência do maestro Rogério, e esteve em atividade até 93, havendo interrupções em suas atividades por um breve espaço de tempo. No referido período, foram realizadas centenas de apresentações em importantes cidades do Estado de Minas Gerais. O maestro Rogério Campos, que tem se destacado como baluarte da música no município de Viçosa, também foi o criador, em 1992, do Quinteto de Metais de Viçosa, aliás, o pioneiro do gênero, em Minas Gerais.
Um outro músico que muito contribuiu para o enriquecimento desta que é a primeira das artes foi o igualmente saudoso maestro Expedito Gomes de Castro (rubrica “E. G. Gomes”), que iniciou sua vida musical na Corporação Musical São Sebastião, no antigo distrito viçosense de São Sebastião da Pedra do Anta, onde nascera. Ele legou à posteridade composições de estilo sinfônico, duas Ave Marias, valsas, dobrados e e ainda o Hino do Colégio Estadual de Viçosa e o Hino à Viçosa, cuja letra é do médico e poeta riobranquense Ary Teixeira de Oliveira, da Academia de Letras de Viçosa.
O I Festival da Música Popular em Viçosa aconteceu no dia 28 de setembro de 1969, no Ginasio da Universidade Federal de Viçosa, constituiu-se, de acordo com a edição de 12 de outubro de 1969, no mais absoluto sucesso. "Viçosa ainda não tivera oportunidade de promover algo de despertasse tamanha vibração popular e merecesse tantos aplausos de público tão numeroso." A iniciativa de promover o Festival de Música nasceu de "pequeno e entusiasta" grupo de pessoas: Mário Rocha Gomes, Fernando José Ribeiro, Cícero Garcia, Fernando Antônio Gomes e José Geraldo Araújo. "O esforço e a dedicação dos extraordinários promotores foram a razão principal do completo sucesso do Festival", detacou A Cidade. Das músicas apresentadas foram selecionadas 13 como semi-finalistas e na primeira fase da seleção, tomaram parte apenas pessoas de Viçosa. As semi-finalistas, apresentadas ao público na noite de 28 de setembro, foram as seguintes:

Biscate p’ra Rapaz – Sanferjo (Viçosa)
A Você, Um Dia Eu Amei – Maria Cristina Leão (Viçosa)
Carnaval, Alegria Ilusória – Silas Pedrosa Soares (Mariana)
Copa de Setenta – Sanferjo (Viçosa)
Utopia – Roberto Carlos de Andrade – (Viçosa)
O Refrão do Jornaleiro – Irney Mamede Reis (Belo Horizonte)
Sonho – Francisco Eustáquio Salgado e Isnard José Lopes (Viçosa)
Confissão – B. Alcântara (Curitiba)
Lamento ao Mar – Romeu Mesquita Furtado e Roberto Vaz de Mello (Viçosa)
Não é Isto o Amor? – Zélia Alves (Viçosa)
Canto em Louvor ao Jangadeiro – Pierre Sabag e Eduardo Gleig (Viçosa)
Vivência – Dalva Lúcia Maffia (Viçosa)
O Adeus de Ataulfo – E. G. Castro (Viçosa)

Das 13 semi-finalistas, 5 foram selecionadas como finalistas e apresentadas novamente para classificação final, cujo resultado foi o seguinte:

1º lugar – Canto em Louvor do Jangadeiro
2º lugar – O Adeus de Ataulfo
3º lugar – Sonho
4º lugar – Lamento ao Mar
5º lugar – Vivência



CINEMATOGRAFIA



Par e passo com a arte musical, a 20/2/1898 foi fundada a primeira sociedade teatral de Viçosa: o Grupo Dramático Paladinos do Progresso. Foram seus fundadores: Joventino Octavio de Alencar, Randolpho Sant’Anna, Antônio Felipe Galvão, Honorino de Mello Lima, Francisco Torres Júnior, Antônio Batista, Florentino de Oliveira Sales, Dirceu Sant’Anna, João Lopes Jacob e José Canuto Torres. O surgimento do Cine Theatro Paladinos do Progresso remonta aos primórdios da República e do século XX. Esta casa de cultura teve o apoio da municipalidade em sua construção, conforme a Resolução Nº 119, de 5 de fevereiro de 1900, subscrita pelo presidente da Câmara, agente executivo e juiz municipal, Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, que autorizou despesa de quatro contos de réis, para ser paga à comissão encarregada da edificação em prestações anuais. Com sede própria onde se encontra atualmente o imóvel de número nº 52 da Praça do Rosário, nele surgiu o Grupo Dramático “Paladinos do Progresso”, em 1907. O jornal Cidade da Viçosa, edição 742, de 25 de outubro de 1908, trazia à última página a seguinte notícia: "Realizou-se domingo passado, conforme fora annunciado, um espetaculo do grupo dramatico 'Paladinos do Progresso.'
Levando-se à scena o custoso e apreciado drama de 5 actos - Ghigi, esforçou-se muito o grupo para alcançar um bom sucesso. E isto, de facto, se deu.
Teve o esplendido drama optimo desemenho, sendo por isso muito apreciado. Manda a justiça que seja feita uma referencia especial ao papel de Antônio Ferragi.
A essa parte, que, de instante a instante, se transformava, deu Pedro Gomide sempre fiel caracter.
Foi, por vezes, a representação interrompida pelos calorosos applausos.
É de lamentar-se não ter havido enchente no theatro como recompensa ao grande esforço que empregou o grupo, o que foi motivado pelo mau tempo.
Uma peça como Ghigi deve ser repetida pelo grupo 'Paladinos' que, para sua representação tantos muitos sacrifícios fez com a sua montagem.
Assim, pois, é de crer que se tenha opportunamente o publico outra vez de apreciar esse tão importante drama, e assim offerecerá ensejo aos que não pouderam assistir à primeira representação de apreciar a segunda e é o que espera".
De sua nova ala amadora surgiu outro grupo teatral, a “Aliança Viçosense”.
Pagava-se aos músicos instrumentistas, 500 a 800 réis por sessão cinematográfica, sendo que, conforme ARAÚJO (nº?), “Pedro Gonzaga, maestro na época, fundou um conjunto musical para tocar no recém-fundado Cine Paladinos, cujos filmes mudos faziam sucesso na cidade” (...). Tocava-se violino “nos intervalos e fazendo um fundo musical durante a exibição do filme mudo”.
Outro que marcou época em Viçosa, com suas projeções em Cinemascope, foi o Cine Brasil (Empreza Circuito Brasil Limitada), filial de Ubá, propriedade de Augusto Brascine, da década de 1950 à de 1980 (1956 a 1984), localizado no edifício proto-modernista projetado pelo arquiteto fluminense Edgard Velloso, que se estende de uma das esquinas do início da avenida P. H. Rolfs com a Praça do Rosário (onde tem o número 92) à uma outra esquina, a da rua Padre Serafim (onde recebeu o imóvel o número 3).
A 12 de maio de 1952 o prefeito José da Costa Vaz de Melo concedeu ao Circuito de Cinemas Brasil, pela Lei nº 156 (revigorada pelas Leis nº 185, de 10 de julho de 1953 e nº 238, de 20 de dezembro de 1954) a isenção de tributos municipais pelo prazo de quinze anos, exigindo-se, em contrapartida, a construção deste edifício, com 660 lugares, de acordo com planta então aprovada. Em 1995 o prefeito Geraldo Eustáquio Reis promulgou no jornal Gazeta do Turvo o Decreto 3236, declarando de utilidade pública para fins de desapropriação a edificação para fins de natureza cultural, na mesma linha do Decreto nº 700/1990, do prefeito Antônio Chequer.
À página 48 de ARAÚJO (nº?) lê-se que o fundador do Cine Theatro Odeon, o cidadão lusitano "Antônio Martinho veio de Portugal para instalar-se em Viçosa como empregado na padaria de Joãozico", referimdo-se ao alferes João Simplício Lopes, cujo estabelecimento comercial, a referida padaria, na hoje rua Senador Vaz de Mello, possuia, já em 1908 conforme registros históricos, uma chaminé medindo 41 palmos de altura, como se pode ver em antigas fotos da cidade. Referindo- se a Martinho, ARAÚJO prossegue: "Dotado de dinamismo e vontade de trabalhar logo associou-se a papai com a firma Araújo & Martinho. Construíram o prédio do então Cine Odeon, posteriormente denominado de Cine Brasil. De construção luxuosa, possuindo até camarotes, a sua pintura foi feita por artistas trazidos do Rio de Janeiro. Além das cadeiras confortáveis e modernas, possuía um palco de luxo, cujas cortinas eram de veludo e ricamente ornamentadas com adereços dourados que ali foram costurados por nossa mãe. A inauguração foi um acontecimento marcane, com a presença de toda a sociedade de Viçosa e cidades vizinhas, discursos das autoridades locais que elogiaram o arrojo dos dinâmicos Araújo & Martinho que com aquela notável obra colocavam Viçosa na vanguarda das artes cênicas em toda a região. A sessão inicial foi um sucesso com o filme mudo 'Curvas Perigosas' estrelado pela atriz Claire Brown. O Cine Theatro Odeon propiciou a vinda a Viçosa de vários grupos de teatro, danças e variedades, como a inesquecível Companhia João Rios do Rio de Janeiro, entre muitas outras que, desde então, passaram a incluir Viçosa no seu itinerário cultural."


CINE BRASIL – ANÚNCIOS DE FILMES EM JUNHO DE 1965:


Domingo, 2ª e terça-feira
7:30 sessão única
Domingo em três sessões 3, 6 e 8 horas,

A MORTE ESPREITA NA FLORESTA
Victor Mature e Janeth Leight
Colúmbia – Cinemascope colorido

4ª feira
LULÚ A FLOR DO PECADO
Nadja Tiller O. E. Hasse
Condor Filmes 7:30 –sessão única

5ª e 6ª feira
O TRANSVIADO
Cantiflas
Pel Mex – sessões 6:30 e 8:30

Sábado
NORMAM UM SUJEITO DE SORTE
Normam Wisdon
Organização Rank – sessões 6:30 e 8:30

Domingo Matiné
A ILHA MISTERIOSA
Michael Crag Joan Greenwood Gary Merril Beth Roan Herbeft Lan

CINE ODEON – ANÚNCIOS TAMBÉM DE JUNHO DE 1965:

Dias 5 - 6 - 7 - 8 - 9
CAPITÃO SIMBÀ
Guy Willians Pedro Armendariz

Dias 10 e 11
ADA
Dean Martim e Susam Hayward

Dias 12, 13, 14 e 15
A UM PASSO DA MORTE
Kirk Douglas e Elza Martinelle

Dias 16, 17 e 18
FRONTEIRAS EM CHAMAS
James Davis

CINE ODEON – ANÚNCIOS DE NOVEMBRO DE 1965:

Dias 10, 11
O JOVEM E O VALENTE
Vista Vision

Dias 12, 13, 14, 15, 16
O SATÂNICO DR. NO
Sean Corneiry – Ursula Andress – Vista Vision

Dias 17, 18
UMA GAROTA EM APUROS
Agnes Laurent – Jack- Watling

Dias 19, 20, 21, 22, 23
JAULA AMOROSA
Alain Delon – Jane Fonda

Dia 23 e 25
VÍCIO E VIRTUDE
Robert Aossein – Anne Issadot

Dias 26, 27, 28, 29, 30
FUGINDO DO INFERNO
Steve Me Queen – James Garner - CinemaScope

CINE BRASIL – ANÚNCIOS DE NOVEMBRO DE 1965:

Dia 10
MISSÃO SECRETA NA CHINA
Richard Boschart – Atheno Seiler – Columbia

Dia 11, 12
INIMIGO OCULTO
Jack Kelly – Ray Danton – Warner

Dias 13, 14 matiné
O DIÁRIO DE MINHA MÃE
Marga Lopes – Roberto Canedo – Pelmex

Dias 14, 15, 16
O MUNDO DE SUSIE WONG
Wilian Holden – Nancy Kwon – Paramount

Dia 17
ARSENE EUPIN CONTRA ARSENE LUPIN
Jean Claude Brialy – Jean Pierre Corsel

Dias 18, 19
SONHO DE AMOR
Dirk Bogard - Capucine

JULHO DE 1966 – TAMBÉM NO CINE ODEON:

Dia 20, 21, 22
TÚNEL 28
Cristine Kawfman

Dia 23, 24, 25, 26
OS REIS DO SOL
Yul Brynner – George Chakiris

Dia 27, 28, 29
SANGUE SÔBRE A TERRA
Rock Hudson – Dana – Water – Sidney Poitier

Dia 30, 31, 1, 2
OS 7 INVENCÍVEIS
Tony Russel


CINE ODEON – ANÚNCIOS DE FILMES EM JULHO DE 1966

Dias 6, 7, 8
ABSOLUTAMENTE ERRADO
Peter Sellers

Dias 9, 10, 11, 12
CAPITÃO BLOOD
Errol Flynn

Dias 13, 14, 15
A ESTIRPE DOS MALDITOS

Dias 16, 17, 18, 19
O ROLLS ROYCE AMARELO
Alain Delon – Rex – Harrizon – Shirley M. Laine


Um dos mais apreciados escritores que Viçosa conheceu, Elias Ibrahim, nascido no distrito de Teixeiras, membro da Academia de Letras de Viçosa, contou o que foi uma das mais longevas casas do gênero. A propósito do fechamento do Cine Theatro Odeon, situado no edifício de número 30 da praça Silviano Brandão, escreveu ele, a 11/02/1990, no Jornal de Viçosa:

“Li, com pesar, no jornal Folha da Mata a notícia do fechamento do Cine Odeon. Tive o cuidado de ler todo o noticiário. De minha parte também tenho alguma coisa para contar. O Cine Odeon deve ter sido construído, com muito carinho nos idos de 1930. Significam mais de 60 anos, e não 50, conforme noticiado. Em 1931, com a idade de 11 para 12 anos, eu e outros companheiros, como Caetano, Miltó, Bau, varríamos todos os dias o cinema e arranjávamos as cadeiras. À tarde era a hora da distribuição dos programas dos filmes. Naqueles dias distantes ganhávamos o direito da entrada que girava em torno de 800 réis. Com 800 réis dava-se para comprar a melhor marca de cigarros (Cônsul, Odalisca, Jockey-club), hoje desaparecidos.
Nesses programas vinham os nomes dos artistas do filme e pequenos comentários do que se ia ver. Guardei ainda alguns desses programas. De fato era o nosso melhor divertimento e origem de nossos primeiros namoros. Em 1931 existia em Viçosa somente 4 carros de praça. O fundador do cinema foi o português Antônio Martinho que voltou para sua terra. No Calçadão onde hoje funciona a Relojoaria Japão tinha outro cinema: Cinema Viçosense do Sírio Nacif. O primeiro cinema de Viçosa chamava-se Cine Paladinos. Sempre gostei de cinemas e ontem fui à praça e fiquei olhando em silêncio suas portas fechadas. Assaltou-me um mundo de recordações. Tive a impressão de que algo muito interessante havia desaparecido. ‘Até os livros têm o seu destino’.
O primeiro filme exibido nesse cinema chamava-se ‘Curvas Perigosas’ com Richard Dix e Claire Brum Trevor. O último conforme vimos foi ‘Avalanche’ com o falecido Rock Hudson.
Naquele tempo o cinema era mudo. Pequenas orquestras e cantores tocavam durante as sessões. Cinema falado em Viçosa apareceu por volta de 1940? Recordo que em 1935 assisti e fiquei muito impressionado com o filme ‘Drácula’ com Bella Lugosi. Filme baseado na novela de Bram Stoker. Um filme de vampiro muito bem interpretado. Li recentemente que Bella Lugosi, ator russo, morreu louco motivado pelo papel ligado a vampirismo.
Folha da Mata cita alguns nomes mas omite outros de grande envergadura. Tais como ‘E o vento levou’ .. (vide Seleções de fev/90). Museu de Cêra. A Noite Sonhamos ou Vida de F. Chopin com Merle Oberon. Casablanca com Ingrid Bergman e Bogart. O Fantasma da Ópera com Claude Rain. Os 10 Mandamentos. Vontade Indômita com Gary Cooper. Luzes da Ribalta de C. Chaplin. Morro dos Ventos Uivantes com L. Olivier. Rebeca, também com ele. Tarde demais para esquecer de Gary Grant. A Ponte de Waterloo de Robert Taylor. Seis Destinos. A Canção do Deserto com Ronald Colman e muitos outros.
Conta Stefan Zweigt em seu livro O Mundo Que Eu Vi que, por ocasião do fechamento do velho Teatro de Viena, demolido para construir a Ópera Estadual de Viena, no seu último espetáculo, depois de terminadas as apresentações, ninguém saiu do lugar. Presos como que hipnotizados pelas velhas recordações. Na manhã cedinho chegaram os operários para início da demolição. Os espectadores todos estavam emocionados. Cinema é arte. Arte visual ou cinematográfica. Toda obra de arte tem função educativa e deve ser preservada. Constitui como que um derivativo nas agruras do trabalho. A arte, como a felicidade, tem a sua própria razão de ser. O cinema foi muito aperfeiçoado por T. Edson e até hoje constitui um divertimento de primeira linha.
Suas portas estavam lacradas. Na parede ainda pude divisar a palavrinha HOJE. Um simples HOJE como se fosse uma advertência. Faz-me lembrar doutra palavra também importante ONTEM. Tal como se fosse uma confrontação entre o atual e o passado extinto.
Ajunto-me ao Paulinho, seu último gerente e demais pessoal para dizer-lhe que como eles, e talvez mais do que eles senti o impacto duma dessas coisas que vão ficando para trás e que não voltam mais”.



RECREAÇÃO


Carnaval


Já se foi o tempo das alegrias inocentes dos velhos bailes de Carnaval, com carros de boi e carroças alegóricos enfeitados de ramos floridos e bambu a desfilarem apinhados de “sujos” e mascarados, pierrôs, colombinas e palhaços e portuguesas distribuindo fartos confetes, bolas de água perfumada e de limão e serpentinas.
Os tempos atuais são de decadência. Matinês e bailes e correntes de foliões percorrendo do Canela Roxa à Liga Operária e do Viçosa Clube ao Atlético são cenas perdidas na bruma do passado. Já não mais existe o velho boi de massa, madeira e papelão, adornado com fitas coloridas, montado pelo funileiro Raimundo Pedro Pinto (Sô Pintinho) ou pelo alfaiate César Sant'Anna e Castro. Representam saudades o bloco Ferrões, com seu dragão vermelho e preto, e o bloco Araras, azul e branco, com a Águia, disputando ambos a preferência dos foliões de Viçosa desde a década de 1920. Pertenciam, respectivamente, ao Club Social Viçosense e ao Clube Dramático Paladinos do Progresso, sendo ligados, dentre outras, às famílias Sant’Anna, Costa Val, Alves Torres e Jacob.
O primeiro clube carnavalesco, “Filhos de Viçosa”, foi criado a 25 de janeiro de 1892 e não chegaram aos dias atuais registros de como eram suas fantasias e folguedos, e nem mesmo letra ou música das marchas. Seu idealizador foi João Ferreira e tinha sua sede no Hotel Ferreira, de propriedade do fundador, de acordo com nota do jornal Cidade da Viçosa, primeiro órgão de imprensa escrita do município, fundado no mesmo ano, a 15/11/1892. O Ferreira & Ferreira estabelecia-se na rua de Cima e era uma casa de pensão familiar “com commodos arejados e boa mesa, banheiro de chuva”, conforme anúncio da edição 742, de 25 de outubro de 1908, do referido jornal.
Em 2005 fundou-se a Liga Independente das Escolas de Samba e Blocos Carnavalescos de Viçosa (LIESBCV), integrando-a a cinquentenária Unidos dos Passos (GRESUP), verde e rosa, e a Turunas do Vale (GRESTUV), azul e branca, fundada em 1983. Unidos Esavianos (Ufevianos), Amoricana, Dose Dupla, Juventude Independente, Unidos da Parte Alta, Flor de Minas, Unidos do Pintinho, Bloco dos Sujos, Funil 2000, Última Hora, além dos que personificaram o Rei Momo (Ânderson Belcavelo, Kepler Euclydes Sant’Anna (Maninho), Osmar Balbino de Souza, Monte Alegre, Raimundo Careca e Ludovico Martino), tudo isto acabou. Em Viçosa, ninguém mais deve se recordar nem mesmo dos nomes das rainhas do extinto Carnaval viçosense!


Liga Operária


Surgida em 1923, na antiga Rua das Vassouras ou Rua Municipal (via cujo atual nome homenageia o tabelião Virgílio Augusto da Costa Val), a Liga Operária manteve, até o início do século XXI, a sua tradição como clube social-recreativo. Fundada a 13/5/1923, constantes alterações estatutárias não impediram que ali se conservasse muito bem acesa a velha chama da classe trabalhadora. O edifício-sede, de número 221, foi adquirido por 650 contos de réis, quando Canuto Torres era o seu presidente. O lançamento da pedra fundamental deu-se exatamente às 13 horas de 7/9/1923, em solenidade presidida por Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, Juiz de Direito.
Padre Serafim, Vigário de Viçosa, foi quem abençoou o início da construção. O orador de então foi o advogado João Braz da Costa Val. Naquela grande festa do operariado viçosense, executaram-se as retretas da Lyra dos Paladinos, da Lyra Santa Rita e da Banda do Batalhão Gynasial e numa urna de zinco foi depositada a cópia da ata de fundação, moedas brasileiras e, dentre outros objetos, jornais de Viçosa. A Liga permaneceu atuante, pois, em seu amplo salão de festas, ocorreram as assembléias dos sócios, nas manhãs de todos os domingos.


Viçosa Clube


Viçosa Clube surgiu no dia 7 de setembro de 1930, quando foi realizada, com a presença de algumas dezenas de associados, a assembléia de fundação do Automóvel Clube de Viçosa. Na época funcionando em sede provisória, oferecia o lazer com jogos de bilhar e de cartas. A denominação de Viçosa Clube surgiu pela discussão e aprovação do projeto de reorganização e elaboração dos estatutos, em janeiro de 1934. A 12 de dezembro de 1949 foi adquirida o prédio de número 15, edifício da Prefeitura desde a década de 1960, como sua primeira sede própria, e a 23 de setembro de 1968 foram adquiridos os terrenos de sua sede definitiva, na rua Padre Anchieta, Bairro de Ramos.



FUTEBOL



Palco privilegiado de memoráveis certames durante sete décadas, em 2008 se extinguiu o mais famoso campo de futebol da região central de Viçosa: o Estádio Carlos Barbosa, o popular “Barbosinha”, de propriedade do Viçosa Atlético Clube (VAC). Seu nome é homenagem ao homem que dirigia o clube durante a sua terraplanagem e construção, no lugar antigamente denominado Chácara do Chico de Sá Zeca, atual bairro Betânia, na década de 1930. Em 1937 já se iniciava o plantio do gramado, obra só concluída em 1939, contando com o fundamental apoio da administração do prefeito Dr. João Braz da Costa Val. Suas arquibancadas foram construídas na administração do prefeito Dr. Sylvio Romeo Cezar de Araújo, na década de 1940. Antes dele, no princípio do século XX, os principais campos de futebol do então perímetro urbano eram os que se localizavam na região próxima da avenida Santa Rita e da Av. A. Gomes Barbosa - chácaras de José Borges Pinheiro e Alexandre Corrêa de Almeida (Alexandre Português), este, próximo da travessa Purdue com a Av. Olívia de Castro Almeida e rua Francisco Machado, entre os bairros de Ramos e Clélia Bernardes; e aquele, próxima do Colégio de Viçosa, campo do Viçosa Sport Club, equipe presidida pelo farmacêutico Mário Dutra dos Santos. Já na região então suburbana existiam os campos dos Jacob e Araújo, na região do Pau-de-Paina (atual bairro Nova Era), à beira da antiga via-férrea, próximo de onde se ergue a Igreja Matriz de São João Batista. Quando ainda estivera neste local o primitivo campo do VAC é que o jovem barbeiro José Lopes Fontes, nascido em Pedra do Anta a 22/12/1900 e falecido em Viçosa a 16/7/2002, para onde viera em 1923, iniciaria o pioneiro trabalho de base com o time Juvenil do Atlético, com seu uniforme alvirubro, inspirado no América, do Rio de Janeiro.
O Primeiro de Maio Futebol Clube, time originário do extinto Ferroviário, o Estrela Dalva Esporte Clube, o Silvestre Futebol Clube, o Couceiro Esporte Clube, o Camilinho Futebol Clube e o Colônia Futebol Clube, foram outros clubes que construíram seus estádios na cidade, esses dois últimos localizados nos limites das zonas urbana e rural. Até 2010, Viçosa ainda não contava com um Estádio Municipal, havendo nesta ocasião projetos para uma Arena Esportiva na Rua do Pintinho, no bairro Bela Vista. Inúmeros campos de jogos existem na zona rural e nos três distritos, abrigando cotejos dos mais variados certames, aqueles de promoção oficial, do Departamento de Futebol Amador da Federação Mineira de Futebol (DFAI/FMF), os ocasionamente patrocinados pelo Poder Público Municipal, e ainda os de organização sumária, sediando prélios amistosos. Entre os mais tradicionais clubes, figuram: Acadêmico, Condé, Coura, Estiva, Grama, Grotense, Guarani, Juventude do Sapé, Juventus, Nove de Julho, Paraíso, Real de Nova Viçosa, Redenção, Renascer, Renovação, Ruanovense, Santa Cruz, São José, Social, Tupã, Triunfense e Vila Novo Paraíso. Estas eram algumas das mais tradicionais entre as dezenas de equipes futebolísticas em ação no primeiro centenário do futebol em Viçosa, em 2006. A maioria jogava nos finais de semana e não era registrada como pessoa jurídica, a exemplo dos clubes sociais Viçosa Atlético Clube, Liga Operária Viçosense, Viçosa Clube, Clube Campestre e Viçosa Tênis Clube. Hoje Viçosa tem duas ligas de desporto em funcionamento: a Liga Municipal de Desportos de Viçosa (LMDV), fundada em 1997, e a Liga Esportiva de Viçosa (LEV), surgida informalmente na década de 1960, integrada pelos times do Operário Futebol Clube, já extinto, carinhosamente apelidado de "Lote de Burro"; da azul e branca Associação Esportiva Colégio de Viçosa, de saudosa memória; do Viçosa Atlético Clube; e da Liga Universitária Viçosense de Esportes (LUVE), hoje Associação Atlética Acadêmica (AAA), regida atualmente por um Conselho Administrativo ligado ao Serviço de Esporte e Lazer da UFV.
Mas a LEV só veio a se constituir legalmente a 10 de novembro de 1979. Presidiram-na, dentre outros, da década de 1960 até a terceira década de sua existência formal, no final da primeira década do século XXI, Renato Antônio Sant'Anna, José Antônio de Oliveira, José Antônio dos Reis, Luiz Gonzaga da Silva, José Mário da Silva Rangel, Walter de Aguiar Maciel Sobrinho, Pedro Rodrigues Saraiva, Lacyr Dias de Andrade e José Homero Ferreira dos Santos. Os diversos veículos da imprensa local sempre registraram o prestígio da prática atlética do amadorismo viçosense, com suas fantásticas conquistas, agregando um cada vez maior número de competidores, mesmo na atualidade, quando jogos televisivos são uma das causas na diminuição da massa popular que outrora comparecera às arquibancadas. Especialmente nesta modalidade coletiva, a terra viçosense relevou alguns grandes nomes para os gramados nacionais, sendo expoente Raimundo Isidoro (Dorinho), atleta profissional cujo empenho nos treinamentos, dedicação, determinação e disciplina o fizeram evoluir e vencer inúmeros desafios, sendo o aguerrido detentor de gloriosas conquistas no Brasil e no mundo, sobressaindo-se em sempre novas e elogiadas performances, por isso, um ícone do futebol viçosense. Nas modalidades individuais, diga-se de passagem, os outros doi destacados valores do esporte viçosense, ainda não suplantados, não padece dúvida, vêm do ciclismo e do pesismo: Ivanir Teixeira, ciclista olímpíco, e Maria Elizabete, pesista que levantou 135 quilos (arranco e arremesso) nas Olimpíadas de Sidney.
A Liga Esportiva de Viçosa está indissoluvelmente ligada às glórias da Cidade de Viçosa. A despeito de breves interrupções ao longo de sua trajetória, a LEV completou 30 anos em 2009, em pleno funcionamento. Mas houve percalços maiores fora das quatro linhas. Está comprovado que "a cidade que não investe nos esportes", como disse alguém, "colhe seus recordes nas ruas, nos botecos, nos problemas sociais e na marginalização". E dentre outros problemas, inclusive questões político-partidárias, de conseqüências nefastas, e outros, relacionados particularmente a investigações de irregularidades nas federações por comissões parlamentares de inquérito e também pelo Ministério Público acabaram acarretando danosos impasses nesta entidade administrativa do desporto viçosense. Em alguns períodos administrativos desses citados dirigentes, líderes de agremiações se recusaram, por receio, a quitar as licenças de funcionamento, previstas no Regulamento Disciplinar Interno da CFB, penalizando seriamente seus clubes federados com o impedimento de receber benesses públicas, inclusive o direito de participação em campeonatos oficiais. Em situação, portanto, de clandestinidade temporária perante as federações, passaram a preferir as disputas exóticas, não se preocupando, muitas vezes, com a coerência de um trabalho concernente às categorias básicas. Houve períodos em que o Poder Público Municipal interveio, numa tentativa de substituir a Liga, quando o caminho correto seria o estreitamento da parceria, com eventos improvisados, nos quais se condicionavam, contrariando o que preceituam normas gerais do desporto, a inscrição de atletas por equipes em seus eventos à não adesão aos certames federados, interferindo no direito constitucional ao livre associacionismo, quando o melhor seria trabalharem juntos, contribuindo para o processo de organização da entidade. Foi esta a causa maior do esvaziamento das associações legítimas e tradicionais que, com isso, se nivelaram a times formados a toque de caixa, como se não possuíssem estatutos próprios. De fato, ocorreram períodos de cerceamento interno, que se repetiram em épocas várias, em que comissões descredenciadas, contrariando e aprisionando, em modelos de regulamentos, os principios fundamentais do amadorismo e visando pequenos favorecimentos, atletas viçosenses deixavam fatalmente suas verdadeiras agremiações de origem, assinando para quaisquer outras sem personalidade jurídica, que apareciam todos os dias no município. Foram períodos de promiscuidade na permuta de camisas e cores clubísticas. Torcedores - razão maior dos espetáculos -, juízes, roupeiros, tribunais disciplinares, massagistas, roupeiros, árbitros, lavadeiras, delegados de jogos e todo um batalhão de servidores do esporte viçosense ficaram totalmente perdidos, pois já não sabiam definir o conceito dessas em relação às outras, pois se enveredaram por um caminho inadequado.
O futebol apareceu em Viçosa no dia 15 de novembro de 1906, de acordo com antigos registros. Foram primeiros praticantes da modalidade nesta cidade os jovens Luiz Lopes Gomes (Lulinha), Randolpho Sant’Anna, João Simplício Lopes (Joãozico), Luiz Megale, João Ferreira Nunes, Pedro Galvão e outros. No dia 9 de dezembro do mesmo ano, foi convidado o coletor de Ubá, Sebastião Ramos de Castro, que veio a Viçosa ensinar como se jogava futebol. O clube chamava-se “Foot-Ball Club de Viçosa”. - Lulinha, Alvino Machado, Randolpho Sant’Anna e outros colaboraram para a fundação do segundo clube, o “Destemido Viçosense Foot-Ball Club”, em 1913. O Viçosa Atlético Clube foi fundado a 28 de maio de 1931, pelos viçosenses Dr. Raymundo Faria, Dr. Carlos Megale e Geraldo Lopes Jacob (Gigi), e teve como diretores Sebastião Taucci, Dr. Raymundo Faria, José Fontes, Arduíno Braga, José Thomaz Teixeira (Salame) e Orlando Santana da Cunha, numa época em que Viçosa possuía eram apenas três os clubes futebolísticos locais. Na terceira década do século XX, se contavam em pouco mais de oitocentas as casas de Viçosa.
Em sua coluna Domingo Sportivo o repórter Jotta anunciava, no título da matéria, ´Uma justa victoria do “Arnaldo Carneiro F. C’’, informando sobre prélios ocorridos a 19 de outubro de 1924. Disse Jotta que “desde cedo notava-se o grande número de espectadores seguiram rumo ao grammado viçosense” e que “debateram-se os teams de Sylvestre e da E. Agricola cabendo a este ultimo os loureis da victoria que conquistou grande numero de goals. Ao pisar o grammado os teams principaes era tal a concorrencia que se podia sem exagero calcular os espectadores em mais de mil pessoas”, e que “ao dar o dr. Jayme Marinho, arbitro da partida, inicio ao jogo pairava sobre toda assistência uma nuvem de duvida que se firmava com o desenrolar dos primeiros minutos de jogo, tal o equilibrio mantido pelos teams.
A bola zigue-zagueava de ‘back’ a ‘back’ sem passar ao goal”. Jotta segue narrando a partida nos seguintes termos: “Não se fez muito demorado este silencio de duvida dos espectadores que logo após o 1º goal Pontenovense transmudou em uma forte torcida. A reacção se fez rapida e pouco tempo havia decorrido quando tornava-se empate a partida com um goal feito pelo team de Viçosa. Findo o 1º tempo estavamos com o score favoravel a nós por 2 x 1. Começado o 2º tempo notou-se o domínio do quadro de Viçosa que em intervallo pequeno fez balançar a rêde sob as guardas de Jayr por duas vezes.Com uma vantagem grande em pontos os nossos jogadores desinteressaram-se pelo jogo, o que permittiu aos visitantes n’um esforço louvavel conquistar, fazendo vasar a cidadella de Reynaldo, o 2º goal Pontenovense. Deu o juiz por findo o jogo com a victoria do ‘Arnaldo Carneiro F. C.’ por 4 x 2.
Segunda-feira, às 18 horas, houve um reco-reco pelas principaes ruas da cidade, acompanhado pelos alumnos e alumnas do Gymnasio e grande numero de viçosenses no qual se fez echoar vivas e urahs em regosijo a victoria. Carregadas por alumnas do Gymnasio abriam alas ao reco-reco o ‘Fifi’ e taça ‘Bazar Renê’”, conclui o redator esportivo.



LITERATURA


Academias de Letras


A Academia Viçosense de Letras (AVL) foi fundada a 30 de setembro de 1963, mas teve efêmera existência. Seu primeiro presidente foi o Pe. Antônio Mendes, sendo seus sócios-fundadores Dr. Altamiro da Conceição Saraiva, Prof. Antônio Gonçalves de Oliveira, Prof. Edgard de Vasconcellos Barros, Prof. Edson Potsch Magalhães, Prof. Fernando Antônio da Silveira Rocha, Dr. Januário de Andrade Fontes, Prof. José de Alencar, Dr. José Felicíssimo de Paula Xavier, Dr. José Felismino de Oliveira, Dr. José Norberto Vaz de Mello e José Pinto Coelho, este seu primeiro secretário.
E a Academia Municipalista de Letras de Viçosa (AMLV) fundada a 23 de novembro de 1985, com 40 membros efetivos, eleitos por seus pares, e 20 sócios correspondentes, sua primeira presidente foi a escritora Maria Aparecida da Silva Simões. Para a diretoria foram eleitos os seguintes sócios: 1º vice-presidente Benito Taranto, 2ª vice-presidente Therezinha Mucci Xavier, secretária-geral Cirene Ferreira Alves, 1º secretário Pélmio Simões de Carvalho, 2ª secretária Juracy de Souza Barros, 1º tesoureiro Carlos dos Reis Baêta Braga, 2º tesoureiro Elias Ibrhaim, 1º bibliotecário Maurício Xavier e 2º bibliotecário Ary Teixeira de Oliveira.
Seus objetivos e finalidades são o estímulo e o engrandecimento os valores autênticos, que tenham contribuído para o aprimoramento da Língua Pátria, da cultura literária e histórica de Viçosa e das cidades circunvizinhas, e o acolhimento, sem discriminação, por parte de seus membros, dos valores culturais autênticos que engrandecem e valorizam o desenvolvimento da cultura em Viçosa, propugnando inclusive por melhor conhecimento de sua história."
A 12 de abril de 1986, em reunião ordinária da ALV, os acadêmicos escolheram o dia 24de maio para a sua festiva instalação, e a 8 de maio de 1986, em reunião extraordinária, decidiu-se por suprimir a palavra "Municipalista", ficando apenas Academia de Letras de Viçosa, por deliberação dos acadêmicos. Personalidades de indescritível valor no cenário cultural não só de Viçosa, aqui incluímos os nomes de todos os membros efetivos, entre vivos e já falecidos e sócios correspondentes e honorários do sodalício que tem como patrono o Mestre Arduíno Fontes Malaquias Bolivar, um dos mais ilustres filhos desta terra. Filho de Cândido Malaquias Bolivar e de D. Maria Tereza Gonçalves Fontes, um dos poetas e humanistas mais influentes de toda a vida intelectual e política de Minas Gerais entre as décadas de 1920 e 1950, nascido na velha Santa Rita do Turvo, depois Viçosa, a 21 de setembro de 1873. Tendo cursado Humanidades no Colégio do Caraça, onde foi despertado o seu pendor para o estudo das letras latinas, pupilo, por um ano, da conceituada Escola de Farmácia de Ouro Preto, onde também lecionou no Colégio Mineiro, bacharel, em 1902, em Ciências Jurídicas e Sociais pela consagrada Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, promotor de Justiça, diretor do Arquivo Público Mineiro, Arduíno foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santa Maria, atual PUC/MG, onde ministrou aulas de Literatura Latina. Tradutor das odes de Horácio e das ecóglas de Virgílio, latinista, sobre ele assim se expressou um seu ilustríssimo ex-aluno no Colégio Arnaldo, Carlos Drummond de Andrade: "Arduíno Bolivar, o teu latim/ Não foi, não foi perdido para mim./ Muito aprendi contigo;/ A vida é um verso/ Sem sentido talvez, mas com que música!"
Por ocasião do lançamento, pela Academia Mineira de Letras, de documentário sobre sua obra (citado na bibliografia do presente trabalho), desenvolvido pelos professores Johnny José Mafra, Mário Cleber Martins Júnior e Simone Von Rondon, do Projeto Universidade Livre, do Centro de Memória da PUC/MG, o jornal Folha da Mata, de Viçosa, se dignou publicar, de autoria deste blogger, a 22 de novembro de 2003, o artigo do qual a seguir compilo os principais tópicos. Nome de bairro em sua terra natal, localidade conhecida popularmente como "Alto das Amoras", emprestou seu nome também ao extinto Grêmio Artístico e Literário do antigo Colégio de Viçosa, o "Galab". Arduíno também é patrono da Academia de Letras de Viçosa (ALV).
Enquanto cursava Direito em São Paulo, Arduíno lecionou no Instituto Luiz Antônio dos Santos. Militante da imprensa local, ele trabalhou no "Comércio de São Paulo" e na "Nação". Foi ainda redator de algumas revistas acadêmicas como o "Instituto Jurídico", "A Evolução" e a "Renascença". Advogado, Arduíno retornou à terra mineira, onde foi nomeado, a 28 de maio de 1903, promotor de Justiça da Comarca de Carangola, onde permaneceu por três anos, período em que se dedicou ao jornalismo, como redator de "O Progressista", daquela cidade da Zona da Mata.
A 3 de fevereiro de 1906 foi nomeado Juiz Municipal da Comarca de Ubá, onde permaneceu até 1914 e lecionou no Ginásio São José, estabelecimento de que foi vice-diretor. Ali foi redator de outro orgão de imprensa: "O Movimento". E a 8 de setembro de 1914, nomeado oficial de gabinete do secretário de Agricultura, tendo servido neste posto com os secretários Raul Soares de Moura e Clodomiro de Oliveira. Ingressou no magistério estadual como professor da Escola Normal Modelo de Belo Horizonte, nomeado a 8 de dezembro de 1922. Em 20 de março de 1925 tornou-se ali titular da cadeira de Português e em março de 1926, diretor daquela instituição. No dia 14 de abril de 1936 foi nomeado diretor do Arquivo Público Mineiro, cargo que exerceu até 14 de setembro de 1938, quando se aposentou. De 1931 a dezembro de 1942 lecionou Latim no curso vestibular da Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais. Em 24 de março de 1944 foi admitido como professor de Sociologia da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas de Minas Gerais, posteriormente incorporada à Universidade de Minas Gerais, sendo investido como catedrático da cadeira de Princípios de Sociologia aplicados à Economia, por concurso de títulos, a 16 de novembro de 1945.
Lecionou Literatura, Latim, Francês, História Universal e História do Brasil no antigo Ginásio Mineiro de Belo Horizonte e no Colégio Arnaldo a que já nos referimos. Foi também professor de História da Literatura Italiana na Faculdade de Filosofia Santa Maria, e de História da Literatura Latina na Faculdade de Filosofia da Universidade de Minas Gerais. Membro da Academia Mineira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Arduíno Bolivar exerceu durante vários anos as funções de membro da Comissão Nacional do Livro Didático – subcomissão de Língua Portuguesa e línguas antigas do Ministério da Educação e Saúde. Para Múcio Leão, ele "soube dar a vida inteira a um ideal de cultura para o qual não via possibilidade de retribuição próxima ou póstuma."
Por ocasião de seu falecimento, a respeito do Mestre Arduíno, assim se expressou Affonso Penna Júnior, na Academia Brasileira de Letras (ABL): "No seu espólio de grande estudioso, serão encontradas muitas e muitas obras, que ele, na ânsia, bem caracense, da perfeição, ia limitando através dos anos, e apesar do incitamento de amigos, não se animava a publicar. Posso dar testemunho de algumas traduções latinas, que conservavam, na nossa língua, todo o vigor e o encantamento dos poetas Virgílio e Horácio. Essas produções, a crítica dos que o conheceram de perto, a devoção piedosa de seus muitos discípulos – pois Arduíno Foi, por excelência educador e mestre – hão de erigir-lhe o monumento de bronze e perenidade, que seu mérito reclama." De fato, o viçosense Arduíno Fontes Bolivar foi colaborador, articulista, em diversas revistas e jornais brasileiros mas não publicou livro.
Não cabe aqui, evidentemente, pormenorizar dados referentes às largas produções dos ilustrados integrantes da ALV, bem como de seus respectivos patronos no notável grêmio literário da cidade. Citamos tão somente aqui seus gloriosos nomes, que falam por si mesmos. Ei-los:

Alexandre de Alencar
Alexandre Furtado Cordeiro
Aluízio Borém de Oliveira
Antônio Aníbal Pacheco
Antônio Brant Ribeiro Filho
Antônio Gonçalves de Oliveira
Antônio Mendes
Ary Teixeira de Oliveira
Badia Abrão El-Hadj
Benito Taranto
Carlos dos Reis Baêta Braga
Cirene Ferreira Alves
Clibas Vieira
Denise Maria Nery Euclydes
Edgard Vasconcelos Barros
Edson Potsch Magalhães
Elias Ibrahim
Erly Cardoso Teixeira
Ernesto von Rückert
Fernando José Ribeiro da Silva
Francisco de Assis Costa
Francisco Simonini da Silva
Gerson Cunha
Jacyra Sant'Ana
João Maffia Filho
José Dionísio Ladeira
José Geraldo Vidigal de Carvalho
José Levy de Oliveira
José Maria dos Santos
José Paulo Martins
Júlio de Castro Paixão
Juracy de Souza Barros
Leda de Bittencourt Bandeira
Lúcia Maria Sant'Anna Costa
Luiz Cláudio Costa
Mansour Chalita
Maria Aparecida da Silva Simões
Maria Auxiliadora Monnerat
Maria das Graças de Freitas Castro
Marília Nascif Barbosa
Maurício Xavier
Murilo Rubião
Nilda de Fátima Ferreira Soares
Onofre Christo Brumano Pinto
Pélmio Simões de Carvalho
Rosimar Gomes da Silva Ferreira
Tarcísio Gomide
Therezinha Mucci Xavier
Wantuelfer Gonçalves


Estes formam a Galeria dos Imortais.



ARTES PLÁSTICAS



A Pinacoteca Municipal foi criada em 1966, quando o jornal “A Cidade” promoveu o I Salão de Artes Plásticas, sendo expostos, então dezoito trabalhos de artistas viçosenses, despertando-se o interesse geral, sendo que, nos anos imediatamente posteriores o número de obras em exposição aumentara para quase duas centenas, graças à inconteste liderança da Professora Stella Costa Val Brandão, coordenadora dos salões, a mentora da Pinacoteca de Viçosa. O prefeito Dr. Carlos Raymundo Torres sancionou a Lei n° 584, a 19 de julho de 1971, projeto de autoria do vereador Dr. Euter Paniafo, criando a pioneira pinacoteca do interior mineiro e, de seu notável acervo consta obras doadas por artistas como Alba Licínia Longo de Almeida, Amadeu Luciano Lorenzato, Amarílis Chaves, Ana Amélia Rangel, Athayde Coelho de Godoy, Betty Giudicci, Carlos Renato de Lima, Carlos Roberto Bracher, Chanina, Lwisz Szejnbejn, Conceição Pilo, Décio Noviello, Délio Delpino, Esthergilda Menicucci, Evandro Norbin, Francisco Ferreira Alves Jr., Frederico Bracher Jr., Ildeu Moreira, Inimá de Paula, José Batista de Miranda, José Orlando Castaño, José Ronaldo Lima, José Romualdo Quintão, Lisete Meinberg, Lugumar Passos Vieira, Maria do Carmo Arantes de Carvalho, Maria Helena Andrés, Maria José Santos, Márcio Sampaio, Marlene Maria Godoy Barreiros, Mari’Stela Tristão, Marlene Trindade, Meiga Villas Boas, Nazareno Altavilla, Nello Nuno de Moura Rangel, Nely Frade, Petrônio Bax, Recylde França, Renato Augusto de Lima, Rodelnégio, Ruth Werneck, Sânzio Meneses Marques de Souza, Sara Ávila, Xavier Silvestre A. Q. Barnabé, Yara Tupinambá e Wilde Lacerda.
Dentre os aqui citados destaca-se, com seus prêmios, entre os filhos de Viçosa que se dedicaram às artes plásticas, o desenhista e pintor autodidata Nello Nuno de Moura Rangel (1939-1975), consagrado nacional e internacionalmente pelo conjunto de sua obra, considerado por especialistas um dos “mais significativos” pintores mineiros e precursor da pintura neo-expressionista surgida na década de 1980. Obras de sua lavra foram permanentemente expostas, dentre outros salões de renome da capital mineira, no Centro Cultural Universidade Federal de Minas Gerais e no Museu Mineiro. Sua genialidade teve reconhecimento público desde a década de 1960, tendo atuado na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais e na Fundação Guggenheim Memorial Fundation (NY). Enriquecem-lhe ainda o currículo o ter ele sido um dos mais festejados mestres da Escola Guignard e da Fundação de Arte de Ouro Preto.



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EDUCANDO A MOCIDADE



O professor Felício Brandi realçou o fato singular de Viçosa ter tido “a sorte de ter sido uma das cidades do nosso glorioso Estado de Minas onde primeiro se estabeleceu uma universidade rural (hoje Universidade Federal de Viçosa), centro de cultura cuja fama se estende além dos mares”. E do Ensino Primário ao Superior, Viçosa conta com centenas de estudantes. São suas escolas estaduais: Centro de Educação Continuada Dr. Altamiro da Conceição Saraiva, Dr. Raymundo Alves Torres, Effie Rolfs, José Lourenço de Freitas, Madre Santa Face, Padre Álvaro Corrêa Borges, Raul de Leoni, Santa Rita de Cássia e Sebastião Lopes de Carvalho. Escolas municipais: Almiro Paraíso, Anita Chequer, Arlindo de Paula Gonçalves, Coronel Antônio da Silva Bernardes, Dona Nanete, Dr. Arthur Bernardes, Dr. Juscelino Kubitscheck, Getúlio Dornelles Vargas, Jacyra do Vale Rodrigues, João Francisco da Silva, José Lopes Valente Sobrinho, José Theotônio Pacheco, Ministro Edmundo Lins, Monsenhor Joaquim Dimas Guimarães, Nossa Senhora de Fátima, Padre Francisco José da Silva, Paulo Mário Del Giudice, Pedro Gomide Filho e Santo Antônio. Faculdades: Escola de Estudos Superiores de Viçosa (ESUV), Faculdade de Viçosa (FDV) e União de Ensino Superior de Viçosa (UNIVIÇOSA).



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A instrução pública municipal gratuita foi oficialmente criada em 1894, com escolas em núcleos rurais "de população nunca inferior a mil habitantes, em um raio de cinco quilômetros", onde houvesse casa apropriada para escolas, oferecida pela população desses núcleos. A freqüência deveria ser de pelo menos vinte alunos e as escolas, mistas, de acordo com a Resolução nº 11, de 11 de agosto do referido ano. Os professores, de acordo decisão do presidente do Conselho de Intendência (ou presidente e agente executivo municipal), Dr. José Theotônio Pacheco, tinham direito a um ordenado equivalente a 1:200$000 anuais, pagos trimestralmente até julho do ano seguinte, quando os vencimentos se tornaram mensais.
A 17 de janeiro de 1896 estava criada, já, de acordo com resolução da edilidade viçosense, uma cadeira de instrução primária municipal no Córrego Fundo, distrito de Teixeiras. Em 1899 a Fazenda dos Medinas, daquele distrito, ganhava a sua escola de instrução primária. E outras idênticas seriam criadas na sede (Viçosa de Santa Rita), como no Córrego do Paraizo, em 1900, bem como nos demais distritos, nos anos subseqüentes: São Vicente do Gramma e Herval, Araponga, São Miguel do Anta(Cachoeirinha). Em 1905 São José do Triunfo, distrito da cidade, tinha já a sua escola e em Coimbra trabalhavam professores estaduais.
Em 1908, a comunidade dos Arrudas, distrito de Teixeiras, ganhava nova escola para o sexo masculino (instrução primária). Em 1901 o Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, agente executivo municipal e presidente da Câmara determinara o funcionamento de dez escolas municipais, de modo que coubesse em cada distrito pelo menos uma e na cidade duas, dando preferências às senhoras como educadoras, em escolas mistas. De acordo com o artigo 5º da Resolução nº 137 de 4 de fevereiro de 1901, eram matérias de ensino "licções de cousas, leitura, calligraphia, arithemetica basica, systema metrico decimal, noçoes de grammatica portugueza, de historia do Brazil e de chorographia do Estado, educação moral, religiosa e civica e trabalhos de agulha para as escolas do sexo feminino."
Em 1896 já se destinavam 10:000$000 como auxílio a um colégio de instrução secundária na cidade, o Collegio Baptista, fundado pelo professor Basílio Baptista de Araújo. O administrador público de Viçosa exigira, então, que para que se tornasse efetivo o auxílio votado pela edilidade para manutenção do referido colégio - que cuidava também da educação primária (funcionando no exato local onde esteve, na atual praça Emílio Jardim, 3, o Hospital São Sebastião) - que este devesse receber, a juízo do chefe do governo local, 10 alunos externos, pobres, e que já tivessem as primeiras noções para cursarem o curso secundário. Em 1898 destinavam-se 10 mil réis mensais a 20 alunos de ambos os sexos para freqüência a colégios de instrução secundária em Viçosa. Documentos históricos, como resoluções da Câmara e jornais da época, referem-se a não mais um mas há três estabelecimentos do gênero: o já citado Collegio Baptista, a Escola Livre do professor J. Villa Maria e um colégio de meninas regido pela professora Rosalina Brandão. Esse último fora subvencionado com quatrocentos mil réis em 1898 ao passo que os dois outros receberam um conto de réis cada, conforme a Resolução nº 84, de 4 de fevereiro daquele ano. Anúncio de ensinos garantidos pelo Prof. J. Villa Maria, “em seis meses, de Gramática (portuguesa e francesa) e de Geografia, ao custo, sem desconto, de 10 $ para o Primário e de 20 $ para o Secundário, sem férias, além dos domingos”, foi publicado na edição de 12 de julho de 1897 do jornal A Cidade Viçosa, dirigido pelo major Mário Vaz de Mello.
A Biblioteca Pública foi criada em 1902, aberta ao público "das seis às nove horas da noite nos dias úteis e santificados e das onze da manhã às duas da tarde nos domingos e dias feriados," conforme Resolução nº 162 de 24 de setembro de 1902. Foi instalada em 1903. Em outubro de 1909 ela aparece como sendo mantida pelo Club Litterario e Recreativo 13 de Maio, ainda sem um prédio próprio, o que foi preocupação para o presidente da Câmara, Dr. Emílio Jardim de Resende, que lhe destina 800$000 com esta finalidade.
E de 1904 há a notícia da existência do Lyceu de Viçosa, subvencionado com 1:500$000 anuais, sob a condição de nele serem admitidos dez alunos pobres. Livros escolares, papel, penas, canetas e tinta eram distribuídos gratuitamente, no governo de Arthur Bernardes, a alunos reconhecidamente pobres, em 1906. Nada menos que 200$000 foram despendidos pela administração municipal naquele ano, conforme autorização da Câmara (Resolução 229). Bernardes se preocupava com a aquisição de um prédio para um grupo escolar e a Câmara, sob sua presidência, autorizou a concessão, a 30 de setembro de 1907, um auxílio de até cinco contos de réis para o ato de lavratura da escritura de doação do prédio ao Estado.
Pela Resolução nº 312, de 27 de março de 1912, foi decretada a desapropriação, por utilidade publica, de três prédios na praça Silviano Brandão, um de Jacob Lopes de Faria e dois de Manoel Pereira Coelho, para a construção do prédio do Grupo Escolar, cuja planta foi do engenheiro José Dantas. E em maio de 1913 a Câmara autorizava a adaptação de sua antiga sede para o funcionamento do Gymnasio de Viçosa, filial do Gymnasio Santa Cruz de Juiz de Fóra. A Escola Remington era uma realidade na década de 1920, sob a direção de Guiomar Medeiros. A edição nº 11 (Ano II) do Jornal de Viçosa, de 25 de outubro de 1924, publicou nota alusiva a um concurso. "A commissão examinadora foi presidida pelos srs. drs. Antonio Gomes Barbosa e Arnaldo Carneiro Vianna, servindo de examinadoras as professoras senhorinhas Juracy Miranda e Guimar Medeiros e de paraninpho o sr. dr. João Carlos Bello Lisboa. Obteve o primeiro logar a senhorinha Maria das Dores Vargas a quem foi conferida a medalha de ouro. Tirou o segundo lugar o Ssr. Carlos Lopes da Silva, chefe das officinas da nossa collega 'Cidade de Viçosa'. Os demais allumnos obtiveram notas simples e plenamente.
Foi oradora da turma examinanda, a sednhorinha Maria Amélia Carneiro. As provas constaram de copias de uma correspondencia commercial e de uma pagina de Coelho Neto," informa o jornal.
Alguns nomes de mestres da Grande Viçosa, registrados na história, são os de Aleta Fontes de Resende (Fazenda do Paraíso), José de Souza Lopes (distrito de Canaã), Olímpia da Cruz Dias e Etelvina Penna Salles (Araponga), Joaquim Gonçalves de Alvarenga (São Vicente do Grama), Maria da Conceição Cardoso (Cachoeira de Santa Cruz), Alice Souza Lima (Paraguai, em Cajuri), Maria da Conceição Silva (São Benedito, distrito da sede), Conceição Gomes, Cândida Maria das Neves (distrito de Teixeiras), Olga Germana e Arinda Bizerra Rego (Lemos, no distrito da sede), Francisco de Paula Galvão, Ludomilla Gomes Pereira e Maria Coelho Soares (São Miguel do Anta), Prudencia Velloso (distrito de Coimbra), Maria de Lourdes Ramos, Maria da Conceição Fontes (distrito do Herval), Genária Toledo, Maria Tomásia Leal, Argentina Borges Viana, João Custódio de Matos, Inácio Pereira Bartolomeu, Zélia Rodrigues Fonseca, Adalgisa de Sousa, Noêmia de Moura, Genica Pinheiro, Maria de Souza Sabarense, Maria Leonor, Iracema Rosa de Jesus Viana, Marianna Brandão de Resende, Nadir Queiroz, Marilene Nogueira, Mirca Vieira Paiva, Dorvina Vieira, Noêmia de Moura, Branca Rosa Schittini, Geraldina Rufino, Carlota Rufino, Anunciação de Paiva e Zita da Conceição Leal (Pedra do Anta).
Conforme CARVALHO (nº?), "tecer louvores ao mister grandioso da professora é um dever de justiça e gratidão. São Gregório diz ser 'ars artium' -arte das artes- a tarefa sublime da mestra. Fala René Bazin que 'a formação de um homem é obra difícil, quando bem realizada é obra-prima por excelência'" [...] "O dito bíblico: 'adolescens juxta viam suam, etiam cum senuerit, non recedet ab ea' - O jovem, mesmo ao envelhecer, não se afastará nunca da vereda trilhada em sua infância, revela o papel transcendental daquela que imprime nos espíritos uma poderosa e duradoura direção na vida." [...] 'Os destinos de uma nação se decidem nos bancos escolares, mormente das escolas primárias, onde se ministram aquelas noções fundamentais que levam à grandeza moral. Aí se fixam condutas indeléveis que marcam, para sempre, uma vida.
Viçosa teve uma professora singular, de fato, prima inter pares: Da. Argina Silvino Ferreira. A ela ficou a cidade devedora de eterno agradecimento. Muitos são aqueles que hoje beneficiam esta terra ou a honram em outras plagas, nos mais variados setores, e que hauriram, nas magistrais aulas daquela educadora competente e dedicada, o afeto à Religião, à Pátria e à Cultura.
Inúmeros os cidadãos prestantes que formou. Nas mais diversificadas profissões, eles conservam o traço primacial vincado por ela. O cumprimento das obrigações, o acatamento da lei de Deus e um acentuado patriotismo eram inoculados. Concomitantemente à assimilação do conteúdo dos temas das várias disciplinas eram desenvolvidos com sapiência e habilidade ímpares. Balmes tinha razão: 'Um só professor bom é capaz, em alguns anos, de produzir benefícios imensos a um país'. É que no porvir eles terão influição sobre outros e sobre todo um contexto no qual atuarão. Aliás, Gibier ajunta: 'Os destinos de um povo se ligam com a educação da primeira idade; o porvir da sociedade principalmente da boa educação dos meninos'. Não há dúvida, 'cultivar oportunamente e incessantemente este melindroso canteiro de pequeninos seres botões de rosa da lindíssima primavera humana; inclinar e robustecer para os recontros da sociedade e para as batalhas da existência esses tenros e ternos entes que tudo assimilam, de tudo se repassam, com tudo se matizam, tornando dúcteis e dóceis, qualquer feitio e impressão que se lhes dá; arrancar às trevas intelectuais e às seduções mundanas esta criaturinhas tão indefesas pela sua idade, tão insinuantes pela sua candura e tão simpáticas pela sua inocência; temperar-lhes as energias do corpo e arrotear-lhes as durezas do gênio; espreitar-lhes a vocação e compor-lhes o caráter; conduzi-las, com explicações claras, avisos prudentes e exemplos frisantes à adesão de todas as virtudes e à aversão de todos os vícios; habituá-las ao espírito da disciplina, ao amor do trabalho, ao sentimento do respeito e à observância do dever; talhar tudo isto, graduar tudo isto, moderar tudo isto é diminuir a estatística do mal e aumentar a crônica do bem; é extirpar o vício pela raiz e secar o erro na origem; é prosperar o indivíduo e a família; é empreender a cruzada acentuadamente civilizadora, a obra, por excelência humana, da segurança, da tranqüilidade e da ventura comum; é realizar o mais nobre, o mais transcedente, o mais alto apostolado que pode estadear-se sobre a terra'. Esta foi a missão que Deus confiou a Da. Argina Silvino Ferreira e ela a cumpriu com esmero!
Hoje se cantam as glórias da metodologia nova. Pelos idos de 1940, Viçosa já conhecia toda a técnica propagada pela moderna pedagogia, nas salas de aulas de Da. Argina.
Ela considerava a infância como uma tese no processo geral de desenvolvimento do homem. Conduzia seus epígonos, orientando-os para que eles chegassem, por sua iniciativa, por um progresso natural e contínuo, à idade adulta. Não lhe importava a soma de conhecimentos adquiridos, mas a maneira como o educando os concebia e manejava. Daí ter sido característica de suas aulas a participação de cada aluno. O que se estudava se transformava em instrumento através do qual ela mobilizava esquemas de assimilação. O esforço devia partir do discente. Nada pronto, pré-fabricado. Ela sabia que a lógica da criança é diferente da lógica do adulto.
Em classe, muitas vezes, pequenos grupos se formavam para o estudo dos temas, num processo socializador.
Dotada de fina psicologia, quase que por intuição, penetrava as sinuosidades recônditas da mente infantil. Patenteava uma vigilância instintiva, incentivando cada um no momento azado. Solicitude amorosa ostentava com os mais rebeldes em acatar suas diretrizes. Transfundia correntes de simpatia para cada etapa a ser vencida.
Ela não se prendia a nenhuma prática didática. Possuía permanente disponibilidade no anseio de evitar a rotina. Mantinha constante inquietação e dúvida em relação às soluções propostas no que tange ao sucesso escolar. Tinha o dom de saber orientar a aprendizagem. Sem autoritarismo, fazia da sala de aula um local aprazível, onde todos se sentiam motivados para as tarefas. Ajudava a apreender. Suas aulas eram feitas para o aluno, que era mantido em trabalho ativo, ora interpretando textos, ora falando francês, ou resolvendo problemas de aritmética, ou debatendo pontos da história, geografia e ciências naturais por ela habilmente suscitados. Cada ângulo era apresentado em situações reais, em termos de experiências vivenciais. Quantas vezes ela ia com seus alunos à antiga Igreja Matriz para uma aula de catecismo no ambiente sugestivo, apto a arraigar piedade e fé. É que ela sabia que Deus é o fim supremo da ação educativa e, com rara aptidão, lançava a semente nos corações de seus discípulos.
Nunca exigiu uma lição decorada. A História, terror dos alunos na escola tradicional, com série de nomes, datas e locais a serem memorizados, era uma das matérias mais interessantes e atraentes. Ela nos transportava ao cenário em que se deu o evento. O que aconteceu era objeto de cuidadosa hermenêutica. Fazia compreender os motivos pelos quais os personagens agiam ou daquela forma e como tal comportamento refletiu no meio social e foi, por sua vez, por ele influenciado. O passado ilustrando o presente e conduzindo a uma visualização prospectiva do futuro. Era a descoberta dos elos que uniam as ocorrências numa cadeia ininterrupta de causas e efeitos. A Guerra do Paraguai, por exemplo, era estudada dentro das mais aprimoradas normas da Didática. No mapa eram mostrados os lugares onde a batalha se desenrolou. Fotografias do heróis e cenas das lutas eram recursos visuais de grande valia. O encontro com as principais figuras, a exposição do ocorrido numa focagem global e exata dos acontecimentos, o devotamento ao Brasil, tudo entusiasmava. O objetivo era colimado: no fundo da consciência ficava claro que uma missão fôra cumprida, o território brasileiro fôra preservado com intrepidez, sem ódios, sem vinganças. Riachuelo, Tuiuti, Itororó; Osório, Barroso, Caxias: quadros familiares, vultos amados!
O francês era ministrado no quarto ano primário. O manual era O Novo Método prático e fácil para aprender A LINGUA FRANCESA com muita rapidez pelo Dr. F. Ahn, adaptado ao uso dos brasileiros. O autor era Francisco de Oliveira e a Livraria Francisco Alves, a distribuidora. Quem dá este testemunho, apesar de estar situado pelo seu perfil caracterológico nas Ciências Sociais, sobretudo nas províncias da História, muito lucrou com as aulas de francês da Da. Argina Silvino Ferreira. Tornaram-se um embasamento de importância capital." [...] "'A todos impressionava Da. Argina pela linguagem escorreita, castiça, pelo vocabulário rico, pela caligrafia bela, caprichada. Seus alunos esforçavam-se por imitá-la no falar e no escrever."
Nascida a 30 de abril de 1898, em Viçosa, filha do oficial de justiça Mariano Carlos da França Silvino e de Dona Rita Maria dos Anjos, a emérita professora Argina estudou o curso Normal com as Irmãs Carmelitas da Divina Providência. Professora da Escola Rural Mista de São José do Triunfo desde 1919 e da Escola Masculina da Estação do Turvo de 1921 a 1923 e novamente da escola de São José do Triunfo de 1923 a 1936, nesta, substituindo a mestra Paulina de Assis. Mudando-se para a cidade, criou a escola primária que preparava alunos para admissão ao Gymnasio e à Escola Normal de Viçosa. Desde 1950 foi orientadora educacional da Escola Agrícola Arthur Bernardes, até se aposentar. Faleceu no dia 4 de março de 1961.



Colégio de Viçosa, antigo "Gymnasio"



Em 1946 foi instituída a Sociedade Anônima Colégio de Viçosa, pelo Decreto nº 14.961, mas sua origem remonta a 1º de outubro de 1913, com a criação do Gymnasio de Viçosa, cuja primeira sede fora instalada na praça Silviano Brandão, nº 136. De acordo com as melhores fontes, o Colégio de Viçosa foi fundado pelo professor Alípio Peres com a já citada denominação de Gymnasio de Viçosa. Em 1918, sob a direção de Dr. Arnaldo Carneiro Viana obteve bancas examinadoras para processamento de exames finais. A partir de 1925, responderam pela direção do Colégio de Viçosa: Pe. Álvaro Corrêa Borges, Leopold Catoud, Adesílio Bicalho, Biolkino de Andrade e Pe. José Xavier. Pela Resolução nº 505, de 20 de setembro de 1928 a Câmara Municipal autorizou o administrador público de Viçosa, Dr. João Braz da Costa Val a promover a rescisão do contrato celebrado com o Dr. Arnaldo Carneiro Vianna, em 21 de dezembro de 1925, para continuar a manter e dirigir o Gymnasio, a tomar providencias no sentido de municipalizar o estabelecimento e a obter dos poderes competentes "a sua equiparação ao Collegio Pedro II" e também a ceder a quem este julgasse conveniente, a seu juizo, por prazo limitado ou indefinido e sob as mesmas condições estabelecidas no aludido contrato, o uso e gozo do estabelecimento. Em 1932, ocupou o cargo de diretor, o professor Alberto Álvaro Pacheco, que obteve da presidência da República a sua fiscalização permanente. Em 1936, pela Resolução de 10 de outubro de 1936, o município de Viçosa foi autorizado a promover judicialmente rescisão do contrato celebrado entre a Prefeitura e o Prof. Alberto relativamente à exploração do Gymnasio. Falecido a 15/7/1963 e cujas “barbas cor de marfim” foram perenizados em busto de bronze na praça que traz o seu nome na entrada principal do campus universitário, ao final da avenida P. H. Rolfs, este educador dirigiu com pulso férreo a instituição até que um grupo de amigos de Viçosa adquiriu o Ginásio, transformando-o no Colégio de Viçosa, cuja Sociedade Civil foi criada a 30 de dezembro de 1943. A primeira diretoria da Sociedade foi constituída por José Sant’Anna, Alino Corrêa Borges, Prof. Edson Potsch Magalhães, Prof. Edgard Vasconcellos Barros, Pe. Álvaro Corrêa Borges, Dr. Raymundo Alves Torres e Saulo Moraes Moretszon, quando assumiu a direção técnica o Dr. Moacir Pavageau. Contribuíram sobremaneira para que a empresa tivesse êxito, o médico Sebastião Ferreira da Silva, o farmacêutico Mário Dutra dos Santos, que foi diretor-tesoureiro, Francisco Simonini, os comerciantes João José Araújo e Jorge Ramos, o professor Felício Brandi, José da Costa Vaz de Melo (Parrique) e Dr. Sílvio Romeu Cezar de Araújo. Esses dois últimos cidadãos foram prefeitos de Viçosa, respectivamente, nos períodos de 1951 a 1954 e de 1943 a 1945. Foram diretores-técnicos do colégio, a partir de 1945, o Prof. A. Barroso, Dr. José Miguel Pacheco, Dr. Alexandre de Alencar e Dr. Felício Brandi. Seu último diretor- residente, até 1981, foi o advogado Januário de Andrade Fontes, que acumulou, com competência e abnegação, as funções, a partir de 1949, de professor de Língua Francesa, Educação Moral e Cívica e Matemática, inclusive no Curso Técnico de Contabilidade, que funcionou anexo ao Colégio. Durante sua direção foi criado o Curso Básico Noturno. Seu nome se tornou uma legenda, como um dos maiores entre os ilustres docentes que trabalharam, anos a fio, no Colégio. Iniciou sua carreira como inspetor de alunos em 1934, a convite do Prof. Alberto Pacheco e aposentou-se como professor em 1983.
Na lembrança de ex-alunos, professores, regentes, chefes de disciplina e funcionários, ficaram, entre tantas saudades, pelo menos três muito especiais: “O Dinamite”, órgão de imprensa criado pelos alunos; a AECV (Associação Esportiva Colégio de Viçosa), cujo time foi campeão em inúmeros certames regionais, inclusive da Liga Esportiva Viçosense (LEV); e o Galab (Grêmio Artístico Literário Arduíno Bolivar), do qual foi o maior incentivador o poeta e professor de Latim e Português, Sebastião Lopes de Carvalho, um mestre sempre idolatrado por quantos foram seus pupilos. Três institutos ligados ao Colégio, e que foram grandes marcos de uma época. O estabelecimento alcançou, em sua fase áurea, prestígio interestadual e foi reconhecido como “o Berço das Águias Futuras”. Primava pelos moldes tradicionais de ensino. Por seus bancos passaram centenas de jovens, muitos dos quais depois exercendo as mais diversificadas e importantes funções na vida social, política, econômica e cultura pelo Brasil afora. PANIAGO ressalta que “em 1957, o Colégio de Viçosa passou por séria crise financeira, resultante das despesas com a construção e a retração na aquisição das ações da Sociedade, pois a dívida do estabelecimento era de Cr$ 3.000.000,00 aproximadamente”, quando assumiu sua direção o professor Januário, que em sua administração pagou a dívida, “conservando a excelência do ensino ali ministrado”, quando chegaram a 1.000 os alunos matriculados. A maior parte de suas cotas foram adquiridas pela Prefeitura Municipal na década de 1980, quando atravessou nova crise financeira, tendo que encerrar oficialmente suas atividades. O prédio em que funcionou é considerado um signo da história da educação de Viçosa, tendo sido tombado pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural e Ambiental de Viçosa (CMCPCAV). Por fim, a 30 de setembro de 1999 constituiu-se a Fundação Colégio de Viçosa, tendo como membros natos e vitalícios de seu Conselho Diretor os cidadãos Antônio Carlos Ribeiro, Esmeralda Thomáz Affonso, Gilson Faria Potsch Magalhães, Lúcia Helena Mollica, Lúcia Moura, Marcelo Soares de Andrade, Maria das Graças Salgado, Maria de Lourdes Ribeiro, Patrícia Machado Coelho Lima, Paulo Márcio Carvalho Lopes, Terezinha Mucci Xavier e Virgínia Lúcia Bittencourt Moura.



Colégio Estadual



Criado pela Lei Estadual nº 3.508, o Colégio Estadual de Viçosa, de Ensino Fundamental e Médio, depois designado de “Dr. Raymundo Alves Torres”, foi iniciativa do governador Magalhães Pinto. Aprovada na Assembléia, a lei foi sancionada em novembro de 1965 após ser relatada pelo deputado viçosense, Dr. Carlos Vaz de Mello Megale, cuja síntese biográfica se encontra noutra postagem deste blog. A condicionante prevista na lei de que o estabelecimento de ensino só se instalaria após doado ao Estado prédio adequado ao seu funcionamento nunca foi atendida e principiou o educandário a funcionar em prédio do próprio Estado, até então sede da Prefeitura Municipal, por empenho do deputado Edgard de Vasconcellos Barros, no governo de Israel Pinheiro, que pleiteou ainda, na ocasião, que ali também se instalasse uma Faculdade de Filosofia, para funcionamento noturno.
O deputado Edgard de Vasconcellos, além de militante na imprensa local, foi um homem visceralmente ligado à educação da mocidade e especialmente aos interesses do povo viçosense, mormente nesta área. Um Conservatório de Música foi outro seu acalentado sonho, materializado na Lei nº 4.966, de 7 de outubro de 1968, no governo do Israel Pinheiro, que previa seu funcionamento "anexo à UREMG, integrando seu sistema de ensino médio". (Minas Gerais de 8/10/1968). Presidira a Companhia Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC), de organização de ginásios gratuitos, e no exercício de seus dois mandatos parlamentares no Estado, por ocasião da tramitação desse projeto, específico, de criação do Colégio Estadual de Viçosa, presidia a Comissão de Educação da Assembléia Legislativa, função que exerceu durante oito anos. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade do Brasil (RJ), exerceu também a advocacia entre 1938 a 1950, na Comarca de Viçosa. Nascido em Guiricema a 31 de dezembro de 1912, filho do farmacêutico Sebastião de Vasconcellos Barros e de Dona Maria Graça de Vasconcellos, descendente da família Bernardes, era casado com Dona Irene de Vasconcellos Barros e tiveram seis filhos. Veio para Viçosa aos 7 anos de idade, onde, antes de ingressar no Gymnasio de Viçosa, foi aluno da professora Rute Carneiro. Exerceu o magistério por meio século como professor na Universidade Federal de Minas Gerais, lecionando Jornalismo Agrícola, Estrutura Agrária Brasileira e Antropologia Social no Departamento de Economia Rural da Universidade Federal de Viçosa, onde coordenou o curso de mestrado em Sociologia Rural, professor ainda no Colégio Normal Nossa Senhora do Carmo, de Viçosa, e no Colégio de Viçosa. Doutor em Sociologia Rural pela Universidade Hebraica de Jerusalém, especialista em Planejamento e Desenvolvimento Rural, professor visitante na Universidade de Milwaukee (EUA), na Fundação Educacional para o Trabalho e pela Diretoria de Ensino do Exército Nacional, consultor para assuntos educacionais da Fundação Helena Antipoff, em Ibirité (MG). Prefeito de Ervália em 1947, foi também diretor técnico do Instituto Estadual de Florestas, presidente da Fundação Pandiá Calógeras, membro do Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais e do Conselho Curador da ULTRAMIG. Escritor, poeta e conferencista de renome internacional, pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, ao Instituto Genealógico Brasileiro (SP), à Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, às academias de letras de Divinópolis, Mariana e Viçosa, sendo detentor do.Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras em 1986 e ocupante da cadeira nº 37 da Academia Mineira de Letras. Publicou, além de livros científicos, milhares de artigos em jornais e revistas de circulação nacional sobre temas rurais, literários, políticos, econômicos, educacionais e sociais. O ex-deputado Edgard de Vasconcellos faleceu em Belo Horizonte, a 31 de maio de 2003.
Data de 12 de abril de 1971 o início do seu funcionamento do Colégio Estadual de Viçosa, na praça Silviano Brandão, onde até então fora a Prefeitura, propiciado pela Resolução nº 51/71, publicada em 30 de junho de 1971, tendo como primeiro diretor o Prof. David Procópio Loures Valle, secretariado pela professora Therezinha Mucci Xavier. Dentre outros destacados colaboradores, cite-se, de maneira especial, o Prof. Arlindo de Paula Gonçalves, então vice-prefeito municipal, a quem damos escorço biográfico noutra postagem deste blog. Da praça Silviano Brandão, em condições precárias, em prédio já demolido, transferiu-se para a Rua do Pintinho (antiga rua Tiradentes, no alto do bairro Bela Vista, outrora cognominada “Rua Seca”), graças a ampla campanha que encetou no Folha da Mata o jornalista Simão Cirineu Ladeira, em quatro artigos publicados em 1979, alertando para a deterioração do edifício, que passava a representar perigo para seus alunos. A campanha foi vitoriosa, pois foi construído, enfim, o novo prédio, onde, em seu vigésimo ano de funcionamento já atendia a dois mil alunos.



Effie Rolfs e Colégio Universitário



A 19 de março de 1965 foi criada a Escola Estadual Effie Rolfs, considerada um marco na educação do município. Construída por meio de um convênio entre a Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (Uremg) e o Plano Nacional de Educação (PNE) do Ministério da Educação e Cultura (MEC), em 1966 foi criado o curso complementar em Viçosa, que funcionou neste estabelecimento, pelo qual tem passado, ao longo de sua trajetória, docentes do mais alto nível. Posteriormente, este curso foi anexado ao grupo escolar, sendo que os alunos que completavam a sexta série do ensino fundamental eram encaminhados para a segunda série ginasial. Em 1978, a escola ampliava o atendimento até a oitava série, quando também nela foi introduzido o pré-primário. Em 1986, o ensino foi estendido para o segundo grau, aumentando o fluxo de alunos de 400, por turno, para 505. A ampliação do atendimento, com educação geral, se deu em virtude da facilidade de acesso ao terceiro grau. Instituíram-se, também, o segundo grau profissionalizante com habilitação em magistério de primeira a quarta séries. Em 2010 a escola atendia a 1.480 alunos, distribuídos entre o ensino fundamental (nove anos), ensino médio e educação inclusiva, com sala de recursos e oficinas pedagógicas. Este é outro estabelecimento considerado e respeitado como modelo para todos os que lutam por um ideal e almejam o conhecimento, com brilhantismo, sempre conquistando novas grandes vitórias com a aprovação de seus alunos nos diversos exames para cursos superiores.
Já o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa ou Colégio Universitário (Coluni), chegou a ser, por três anos consecutivos, considerado o melhor colégio público do país. A 26 de março de 1965, o Conselho Universitário da então Universidade Rural de Minas Gerais (UREMG) aprovou a criação de um Colégio preparatório para o vestibular, funcionando inicialmente em prédio de madeira, cedido pelo Departamento de Engenharia Florestal, recebendo somente alunos do 3º ano do ensino médio, tendo sido sua primeira turma formada em 1966, com 27 estudantes, todos aprovados no processo seletivo da UREMG. E desde 1983, com o expressivo número de aprovados, atendendo exigências legais, o colégio passou a receber alunos de todas as séries do ensino médio, sendo transferido para o pavilhão mais antigo do Colégio Nossa Senhora do Carmo, na rua Virgílio Val. Em 1989 foi inaugurado o prédio-sede do Coluni, no campus da UFV, obra do arquiteto Aguinaldo Pacheco. Em 2001 foi que tornou-se o Colégio de Aplicação, com seus alunos monitorados por estudantes dos cursos de graduação da UFV, e o desenvolvimento de projetos de extensão e iniciação científica. Foram os seguintes os percentuais de aprovação de seus egressos em vestibulares, em relação ao número de alunos participantes, conforme relatório oficial do educandário: Vestibular de 2006: Número de alunos: 159, aprovados, 123, aproveitamento, 77,3%; em 2007, número de alunos, 144; aprovados, 116, aproveitamento, 80,5%; em 2008, número de alunos, 156; aprovados, 117, aproveitamento, 75%; em 2009, número de alunos, 152, aprovados, 118, aproveitamento, 77,6%; em 2010m, número de alunos, 147, aprovados, 126, aproveitamento, 85,7%.



Grupo Escolar Cel. Antônio da S. Bernardes



Corria o ano de 1916 quando um mineiro de São Domingos do Prata, Dr. José Ricardo Rebello Horta, exercia o segundo de seus três mandatos de chefe do Executivo de Viçosa quando a educação de 1º grau foi institucionalizada na cidade. Era o ano de 1916 e o primeiro grupo escolar de Viçosa foi oficializado pelo Decreto nº 4.572 de 16 de março. Seu nome homenageia um ilustre português natural de Castanheira da Pêra: o advogado provisionado Antônio da Silva Bernardes. Viçosa contava, à época, 330 casas, sendo 2.000 os moradores da cidade. Foram matriculados, inicialmente, 320 alunos. A freqüência às escolas no município, abrangendo os pequenos distritos, era então de 1.350 estudantes. O velho “Grupo da Praça”, sediado no prédio 71 da rua Benjamim Araújo (antiga Rua do Comércio), foi instalado a 30 de setembro de 1922, na praça Silviano Brandão, e antes dele só existiam na cidade as escolas particulares, subvencionadas pelo poder público (conforme a legislação), isoladas, mistas ou unitárias, que funcionavam em casas de famílias como Soares, Silvino, Coelho, Loureiro, Galvão, Gonçalves, Mello e Sant’Anna, onde mestres-escola ensinavam algo além do ABC, das operações aritméticas básicas e do catecismo católico.
Em meados da década de 1920 contava 8 classes, num total aproximado de 600 matriculados. Tido como referencial de escola pública nos anos 70, foi o primeiro a contar, desde 1968, com supervisão pedagógica. Rute Carneiro, Nenzinha, Rita Val de Castro (Ritoca), Geraldina Sant'Anna Lopes Rosado (Genita), Carmita Pacheco, Aurita Saraiva, Argina Silvino Ferreira, Eny Tafuri, Anna Macário Soares (Donana), Antônia Soares Brandi, Dylia Pierri, Sylvia Del Giudice, Pe. Carlos dos Reis Baêta Braga (este último ali implantou o depois extinto Ginásio Santa Rita), João Batista Alves de Lima e Maria Val de Castro são apenas alguns dos poucos entre os muitos educadores que ali deram o melhor de seus conhecimentos e dedicação, e que se confundem com a rica história do primeiro Grupo Escolar de Viçosa.



Escola Normal



Em 1914, criada com o intuito de proporcionar à juventude feminina de Viçosa uma boa formação intelectual e moral, a Escola Normal, depois Colégio Carmo (este último nome desde 2005, quando foi extinto o Curso Normal), teve a sua direção ofertada às Carmelitas da Divina Providência, de Cataguases (MG), em carta subscrita pelo Dr. Emílio Jardim de Resende em 1916, endereçada a Irmã Bernardete, superiora da Congregação religiosa. Eis um excerto da correspondência do Dr. Emílio, que ensejou a oferta da direção do educandário:

"Viçosa, 6 de agosto de 1916.

Excelentíssima Irmã Bernadete,

Aproveito o ensejo para comunicar a Vossa Excelência que temos desejo de transferir a nossa Escola Normal, que funciona aqui na forma de externato e é comparada as oficiais, a alguma congregação religiosa que teria o nosso apoio e auxílio e a receberia sem ônus, podendo dar-lhe a forma de internato, aliás condição para a sua prosperidade. Não aceitaria Vossa Excelência essa transferência?

Emílio Jardim de Resende"

Irmã Maria Verônica de Santa Face foi a primeira freira a dirigi-la, em 1917. A pedra fundamental do pavilhão de dois andares, na rua Virgílio Val, 118, foi lançada em 1936, tendo ele sido orçado, na ocasião, em 133 contos, 471 mil réis. Nele funcionaram internato, ginásio e um curso de formação de professoras, além de cursos noturnos de 1º e 2º graus. Depois passou a ministrar o Ensino Infantil, Fundamental e Médio. No vicariato de Pe. Frei Seraphim Pecci, em 1919, o estabelecimento de ensino foi instalado no prédio construído em 1895 para sediar a Fábrica de Tecidos de Santa Maria, ao lado do referido pavilhão da rua Virgílio Val. Quando ainda era sediado anexo ao Ginásio de Viçosa, no prédio público do Grupo Escolar, onde se ergueu depois o edifício da Caixa Econômica Federal, na praça Silviano Brandão, teve como professores pioneiros os doutores Antônio Gomes Barbosa, Heitor do Nascimento e Emílio Jardim, tendo sido primeiro diretor o professor Alípio Peres. A Escola Normal de Viçosa foi instituída pelo Decreto nº 5.108, de 27 de janeiro de 1914, no governo de Júlio Bueno Brandão. Em 1917 por iniciativa do Dr. Emílio Jardim de Resende e do Dr. Arthur da Silva Bernardes, desejosos "de proporcionar à mocidade feminina de Viçosa uma formação intelectual e moral consentânea com as exigências sociais e religiosas da missão que lhe é destinada", conforme o jornal Luz do Carmelo, a Escola Normal passou à direção das Freiras Carmelitas.
Do âmago da Escola Normal é que surgiu a Escola Estadual Madre Santa Face, instituída pelo Decreto Estadual nº 6.564 de 11 de março de 1963, pelo governador José de Magalhães Pinto. Antes de se criar o cargo de diretora, sua coordenadora foi a Irmã Edwiges, carmelita da Divina Providência. O estabelecimento veio atender às estagiárias do Curso Normal, inicialmente com quatro turmas (de 1ª a 4ª séries), e desde 1970 o modelar estabelecimento de ensino, que funcionou até a década de 1980 anexa ao Colégio Normal, foi dirigido inicialmente pela Irmã Marlene Soares Vidigal, da referida Congregação religiosa (1970-1986), e partir de então, quando passou por grandes dificuldades, funcionando em casa alugada, teve à sua frente a professora Maria de Lourdes Sant'Anna Castro, até 1991, mestra que marcou época à frente do educandário, inclusive como regente do Coral "Pequenos Cantores de Viçosa", que sempre se apresentou impecavelmente, com seu uniforme (colete vermelho, calça azul-marinho, camisa branca de mangas compridas e gravata-borboleta), nas mais diversas solenidades cívicas, culturais e religiosas, constituindo-se numa das mais destacadas atividades da escola cujo nome homenageia a primeira diretora da Escola Normal de Viçosa a partir de 1917, Me. Maria Verônica de Santa Face. Naquela sua fase de lutas por uma sede própria, foi realmente muito grande a garra e o empenho de "Tia Lourdinha" e equipe, que contou com o apoio do ex-prefeito Antônio Chequer, empresários locais e também do Lions Clube de Viçosa, que colaboraram para que o sonho se tornasse uma realidade, hoje instalada na rua Dona Getrudes, nº 75.
Mantendo em seu quadro funcionários competentes, responsáveis e comprometidos com uma educação de qualidade, a Me. Santa Face sempre valorizou os conteúdos transversais, dedicando-se, extra-turno, o seu corpo docente e funcionalismo, a meticuloso planejamento e estudo para proporcionar sempre o melhor atendimento aos seus alunos, resultando tal trabalho, dentre outros prêmios, no reconhecimento de ser uma das 50 melhores escolas do gênero em Minas Gerais, título justamente conquistado em 2006, ao concorrer com nada menos que 4.000 outros estabelecimentos do
Estado.



CENTEV, antiga Escola Agrícola


Sofrendo diversas transformações em sua filosofia pedagógica ao longo de sua existência, até que fosse transformada no Núcleo de Desenvolvimento Social e Educacional Arthur da Silva Bernardes, vinculado ao Centro Tecnológico de Desenvolvimento Regional de Viçosa (CENTEV), instituído em 2001, onde se encontra em fase de implantação o Parque Tecnológico de Viçosa, cujas atividades se iniciaram em 1995, quando foi transferido pela Prefeitura Municipal o patrimônio da extinta Escola Agrícola Arthur Bernardes para a Universidade Federal de Viçosa, ali funcionam na atualidade uma Vaca Mecânica, produzindo leite de soja, distribuído à comunidade pela Secretaria Municipal de Assistência Social, produzem-se mudas de eucalipto e café pela Secretaria Municipal de Agricultura e Meio Ambiente, atendendo a pequenos agricultores de Viçosa, há o projeto Crescendo (educação esportiva), a APAE-Rural e o curso de marcenaria que funcionava desde 1993, hoje em parceria com a Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI). Em 1918, dentro de ações previstas na política de atendimento dos direitos da criança e do adolescente, Viçosa instituiu a sua organização governamental para seu acolhimento. Diferentemente da época atual, em que faltam instituições que trabalhem programas sócio-educativos nas cidades limítrofes a Viçosa, naquele ano, por força do Decreto-Lei nº 12.983, de 28/2, na antiga Fazenda da Vargem, em Novo Silvestre, uma grandiosa edificação, hoje sede da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica, ligada à UFV, foi o espaço onde se ministrou ensino técnico-agrícola em nível de 1º grau, cursos supletivos, formação ética, física e intelectual a crianças e adolescentes, como internato, semi-internato e externato. Antes de ser patrimônio da Universidade Federal de Viçosa, era ligado, na década de 1980, à Secretaria de Estado da Educação, tendo sido Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência (CBIA), depois Divisão Educacional (Deaab). A partir dos anos 40 foi a Escola Agrícola Arthur Bernardes (EAAB). Em 1964 era unidade local da Fundação Nacional do Bem Estar do Menor (Funabem).
Sua pedra fundamental foi lançada a 1º de junho de 1926, sendo inaugurado a 7 de novembro de 1927. Criado pelo Decreto-Lei Nº 12.983 de 28 de fevereiro de 1918, como Patronato Agrícola, inicialmente jurisdicionado pelo Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, depois pelo Ministério da Justiça e Negócios Interiores e também pelo Serviço de Assistência a Menores (SAM), seu primeiro diretor foi Carlos de Araújo Moreira, pai do ex-prefeito de Viçosa, Dr. Cyro Bolivar de Araújo Moreira, de saudosa memória. A escola teve os seguintes dirigentes, em suas fases várias: Anna da Conceição Saraiva Brandi (Dona Nanete), Arthur Pereira da Silva, Claudeni Siridol Pereira, Flávio Sodero Toledo, Gilson Cerny, Irmão Leão de Maria (da Congregação dos Lassalistas), José Américo Garcia, José Ferreira de Lima, Luiz da Rocha Vianna, Paulo Tadeu de Leite Arantes, Sérgio Carlos Botelho Padim e Vera Sônia Saraiva (Dona Verinha).



Tiro-de-Guerra



Desde 1934 funcionara anexo à Esav a Escola de Instrução Militar, que pela Portaria Ministerial nº 1696 de novembro de 1946 se transformou no Tiro-de-Guerra nº 04-162, mudando para TG 04-027 em 1979, quando passou a ser ligado ao Comando Militar do Lesta da 4ª Região Militar. Estabelecido desde a década de 1960, na Rua do Pintinho, 199, bairro Bela Vista. O engenheiro-agrônomo, professor universitário e tenente Waldemar Raul Kümmel, foi seu primeiro instrutor. Nome legendário, incorporado à atual sede da unidade, Kümmel ministrou formação física, militar e cívica à juventude viçosense. Descendente de alemães, gaúcho de Santa Maria (RS), nasceu a 22 de fevereiro de 1908. Chegou em Viçosa a 10/12/1930, quando assumiu as escolas de instrução militar, a nº 257, a partir de 1934, na Esav, quando seu diretor era o Dr. João Carlos Bello Lisboa; e a nº 126, do Gymnasio de Viçosa, na praça Silviano Brandão, 136. Até 2009 haviam sido seus chefes de instrução os seguintes militares: 2º tenente Waldemar Raul Kümmel (1934), subtenente José Ribamar Flaviano Corrêa (47-48), subtenente Eugênio Alberto Lage (48-54), 2º sargento Salathiel Clévio Lobato (55), 1º sargento Círio Dias Ferraz (45-59), 1º sargento Wilson de Castro (59-66), 2º sargento José Alves da Costa (66-67), 2º sargento Edjalma Alves Ramos (67-69), 2º sargento Manoel Luís Parreiras (70-71), subtenente Guido Aparecida Ferreira (71-81/87-88), subtenente Pastor Lucas Martins (81-87), subtenente Lourival Pereira (87-91), 1º sargento Geraldo Magela Teixeira (91-92), 2º tenente Atalides Nunes dos Reis Filho (92-93), subtenente José Carlos de Freitas (94-97), subtenente Jaime Faustino da Costa Filho (97-2001), 1º sargento Jorge Henrique Renzler Fraga (01-02), 1º sargento Jorge Augusto Guterres de Castro (02-04), 1º sargento Lismar José Puccinelli (04-05), Oriel Carlos Cruz (05-08) e Osmar Ribeiro Júnior (08-09).



ESAV - UREMG - UFV: a "Escola de Viçosa"



Viçosa planta culturas agropecuárias e científico-tecnológicas e por isto está a colher merecidos carinhos. Aqui já se ensinavam, anualmente, conforme dados estatísticos de 2006, 40.500 a estudar, saber, agir e vencer. Uma incipiente agroindústria e a produção rural fizeram a economia desta cidade, até a década de 1920, quando ainda não sediava órgãos de pesquisa e assistência na área agropecuária. Mas a tão propalada "indústria do ensno" teve início, sem dúvida, com a inauguração do Gymnasio de Viçosa, em 1913. Antes disso eram as escolas particulares, como, por exemplo, o Colégio Baptista, de efêmera existência, criado ainda no século XIX.
Desde que fora colonizada pelos aventureiros portugueses à procura de ouro, e que aqui deixaram famílias que se dedicaram à agricultura para abastecer Ouro Preto e adjacências, o massapé das encostas de Viçosa foram aproveitados apenas para a agricultura de milho,feijão e café - esse último tendo representado por muitos anos a maior fonte de renda municipal - mas com o decurso dos anos, os antigos agricultores, sem nenhuma técnica, deixaram que a erosão levasse todo o subsolo, deixando uma das produções mais baixas de todo o país: milho 1.200 quilos por ha., feijão, 300 quilos por ha., café 20 arrobas por mil pés. Portanto, a nossa agricultura quase não existia e como as terras são péssimas para pastagem sempre tivemos uma pecuária muito pouco desenvolvida. De acordo com informações, a produção cafeeira de Viçosa em torno de 1905 era de 38.000 arrobas, produzidas em pequenas propriedades. Em 1913 essa lavoura já havia diminuído muito, dado o baixo valor do
produto: cinco mil réis o saco. Em 1938 o café desapareceu da região.
Os antigos administradores municipais, não querendo ou não comprendendo que a economia local se esfacelava, não industrializaram Viçosa, deixando-a se tornar uma cidade pobre em agricultura e pecuária e sem indústrias, que aqui existiam, como as fábricas de tecidos São Silvestre e Santa Maria, a Usina Santa Rita, no antigo Pau-de-Paina, na Segunda década do século XX, a Indumel, de melaço em pó, no distrito de Silvestre, implantada na década de 1970 e que se foi na década de 1990, a usina de álcool, na década de 1940, nas proximidades do atual distrito de São José do Triunfo, todas consideradas atualmente como erros de estratégia, iniciativas precocemente implantadas. Outras foram aquelas que aqui poderíamos ter, como a Pif-Paf Alimentos. Muitas não encontraram o necessário apoio. Outras não suportaram exigências fiscais. Por tudo isto cerraram as suas portas. Portanto, grande parte do povo viçosense continuava vivendo, no início do século XXI, ainda que indiretamente, quase que exclusivamente dos frutos da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Desde a década de 1960 foi significativo o êxodo das pequenas cidades da microrregião de Viçosa em busca de trabalho, acelerando o processo de favelização da periferia urbana. Por outro lado, os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, dentre outros, tornaram-se verdadeiros "importadores de viçosenses," fato notório e relatado nas crônicas locais já naquela década. Refletindo o Brasil, à exceção de sua
construção civil, sua maior força econômica, Viçosa, sob certos aspectos, tornou-se uma cidade subdesenvolvida, semelhante ou pior do que muitas urbes nordestinas.
Assim com sua agricultura de subsistência, a pecuária que é sobretudo leiteira, indústrias de pequeno porte na área de confecções e móveis artesanais, além do modesto Distrito Industrial da Barrinha e região da antiga Colônia Agrícola Vaz de Mello e com um comércio que ainda quer se fortalecer (e iniciativas não faltam por parte das entidades ligadas às classes empresarial e operária), não resultaram em vantagem competitiva para o município aludidas parcerias com instituições estaduais e federais em busca de um planejamento para a atração de empresas para o município, com a preocupação de constituir um sistema produtivo integrado. Eram ainda quase inexistentes, nos alvores do século XXI, as empresas que quisessem se candidatar à instalação no município, ou que pudessem contar com algum tipo de subsídio ou incentivo, tais como isenção de impostos, terrenos a baixo custo, dentre outros serviços. A verdade é que nunca existiu, até então, em Viçosa, uma política global de promoção do desenvolvimento econômico e social, orientado para a geração de emprego e renda para setores sociais de baixa renda, marginalizados do denominado núcleo central do processo produtivo da economia regional.
Mas é em Viçosa que existe uma das melhores e mais importantes universidades de todo o Brasil, com 11.544 alunos, conforme dados estatísticos do ano de 2007 (9.838 graduandos e 1.706 pós-graduandos), 779 docentes e nada menos que 2.511 funcionários. Seus pesquisadores compõem Câmaras Setoriais do mais alto nível científico graças à competência e ao esforço conjunto que lhe proporcionaram uma extraordinária evolução em vários aspectos, inclusive no desenvolvimento regional e na educação aberta e a distância. De fato, “Estudar, Saber, Agir e Vencer” é o seu consagrado lema. Seus cursos, até 2009, eram os seguintes: Administração, Administração de Empresas, Agronomia, Agroquímica, Arquitetura e Urbanismo, Biologia Animal, Biologia Celular e Estrutural, Bioquímica, Bioquímica Agrícola, Botânica, Ciência da Computação, Ciência da Nutrição, Ciência e Tecnologia de Alimentos, Ciência Florestal, Ciências Biológicas, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas, Comunicação Social/Jornalismo, Dança, Direito, Economia, Economia Doméstica, Educação Física, Educação Infantil, Engenharia Agrícola, Engenharia Agrícola e Ambiental, Engenharia Ambiental, Engenharia Civil, Engenharia de Agrimensura, Engenharia de Alimentos, Engenharia de Produção, Engenharia Elétrica, Engenharia Florestal, Engenharia Mecânica, Engenharia Química, Entomologia, Estatística Aplicada e Biometria, Extensão Rural, Física, Física Aplicada, Fisiologia Vegetal, Fitopatologia, Fitotecnia, Genética e Melhoramento, Geografia, Gestão de Cooperativas, Gestão do Agronegócio, História, Letras, Matemática, Medicina, Medicina Veterinária, Meteorologia Agrícola, Microbiologia Agrícola, Nutrição, Pedagogia, Química, Secretariado Executivo (trilíngüe), Solos e Nutrição de Plantas e Zootecnia. Esses sessenta cursos já se somavam, em 2008, aos das faculdades particulares viçosenses: a Escola de Estudos Superiores de Viçosa (Esuv), com seus cerca de 700 alunos cursando de Direito, Ciências Sociais e Ciências Contábeis; a Unopar, na área de Administração de Empresas (cursos de curta duração e à distância), com cerca de 300 alunos; a Faculdade de Viçosa (FDV), com aproximadamente 350 estudantes em seus cursos de Administração (com ênfase em Comércio Exterior e Gestão de Negócios), Pedagogia e Sistemas de Informação; e a Univiçosa, com aproximadamente 800 alunos freqüentando aulas de Enfermagem, Fisioterapia, Nutrição, Farmácia, Medicina Veterinária e Psicologia, e os cursos 100% presenciais e de curta duração de Redes de Computadores, Marketing, Gestão Financeira, Gestão de Pequenas e Médias Empresas (Processos Gerenciais), Gestão Ambiental e Comércio Eletrônico (Sistemas para internet).

Uma instituição pioneira

Inaugurada a Esav em 1926, a lei que a regulamentou já objetivava o curso de especialização para os pós-graduados, com a duração de dois anos. No dia 1º de agosto de 1927 foi feita solene abertura dos cursos, com a presença dos 4 primeiros professores, P. H. Rolfs, Bello Lisboa, Diogo Melo e A. Rehag. Pioneira na extensão agrícola em grande escala, no Brasil, em 1929, com a 1ª Semana do Fazendeiro favorecera, até 2005, 405.371 pessoas. Em 1928, sua primeira biblioteca funcionava em uma sala do Edifício Principal, hoje Arthur Bernardes, e atualmente em um moderno e funcional edifício, que abriga um acervo de 243.997 publicações, sendo 132.603 livros. Em 2006 já se somavam em 1.318 os doutores formados em Viçosa. Com 36 cursos de graduação, 27 programas de pós-graduação, lecionados por 61 pós-doutores, 543 doutores, 166 mestres, 16 especialistas e 54 graduados. Uma freqüência de 13.134 estudantes dos mais diversos níveis. A instituição federal de ensino superior somava, no mesmo ano, 59.859 trabalhos científicos dela originários e 5.670 mestres dela egressos.
Ao mérito de grandes homens, a fecundas existências, se devem honras pela excepcional munificência da Escola de Viçosa em seus mais variegados setores. Da trajetória esaviana à ufeviana, são muitos os cidadãos, brasileiros e estrangeiros, que ocuparão sempre páginas de relevo, por terem sido os marcos vivos de uma luta plena. A Escola, de fato, evoluiu com firmeza. Formou, em 1931, seus primeiros agrônomos, então já reconhecida no exterior como instituição de Ensino Superior, por países como Portugal, Bélgica, Itália, Alemanha, Espanha, Inglaterra e também pelos Estados Unidos da América do Norte. Em 1935, ano em que formou seu primeiros veterinários, a Esav foi oficializada pelo presidente Getúlio Dornelles Vargas no Decreto 112, de 4 de abril, após ter adquirido, quatro anos antes, nova organização e regulamentação, autonomia didática e administrativa, pelo Decreto Estadual 10.054, de 1931. Cumprindo determinação do presidente Arthur da Silva Bernardes, e por intermédio do embaixador do Brasil em Washington, José Cochrane de Alencar, foi conseguida a feliz indicação, por meio do Departamento de Estado dos Estados Unidos da América do Norte, do diretor do Florida Agricultural College, em Gainesville, Bachelor of Science, Master of Science e Doctor of Science Peter Henry Rolfs, para trabalhar no planejamento e depois assumir a primeira direção da Escola Superior de Agricultura e Veterinária (ESAV) de Viçosa. A bordo do vapor Huron, ele chegou em terras brasileiras, na cidade do Rio de Janeiro, no dia 4/2/1921, cabendo-lhe a honra de içar, pela vez primeira, no atual campus da Universidade Federal de Viçosa, a bandeira nacional. Dr. P. H. Rolfs, hoje nome do prédio da Reitoria e de uma das principais avenidas viçosenses, foi partícipe direto da comissão para a escolha do local em que a futura UFV seria implantada, tendo supervisionado todo o seu planejamento, construção e estruturação. Foi dela o primeiro diretor, desde 1927 até o dia 1º de fevereiro de 1929, quando a deixou, para assumir a consultoria técnica de Agricultura de Minas. Dr. Rolfs, o pioneiro, faleceu nos Estados Unidos em 1944. O que é hoje a monumental UFV teve portanto, como sua célula mater, a Esav, uma “Filha da Universidade da Flórida”, pois que o ensino nela ministrado, em seu primórdios, em regime semestral, seguiu o método agrícola americano.
Para que fosse edificada, um descendente do Duque de Caxias e do Almirante Tamandaré, o agrimensor e engenheiro civil João Carlos Bello Lisboa, falecido em 1973, aos 81 anos, em Belo Horizonte, foi o especial contratado do governo mineiro. Jovem fluminense de Vassouras (Ipiranga), com inimitável organização e apurada técnica, ele comandou, com o apoio de 600 operários, e o dispêndio de 3.054 contos de réis, o surgimento de prédios e da colossal infra-estrutura inicial da instituição que, em 1927, iniciara suas atividades com 2 cursos médios (5 professores e 15 alunos). Docente do Instituto Propedêutico de Ponte Nova, formado pela Academia do Comércio de Juiz de Fora e pela Politécnica do Rio de Janeiro e contador, foi da UFV um dos pilares. Secretário da Indústria e Comércio (RJ), prefeito de Ubá e Uberaba, ele foi também sustentáculo do progresso da Viçosa para além do campus, pois acumulou, enquanto diretor da ESAV, a direção financeira do extinto Colégio de Viçosa. Ter sido homenageado como “O Esaviano nº 1”, em 1942, foi sua consagração, na 14ª Semana do Fazendeiro, uma de suas grandes criações. Pioneira na extensão agrícola em grande escala, no Brasil, a criação da Semana do Fazendeiro em 1929 proporcionou favorecer, até 2005, a 405.371 cidadãos, num balanço de quase oito décadas.

A locação

Reunindo excelentes condições, conforme parecer do Dr. Álvaro da Siqueira, a Fazenda Maria Luíza foi indicada para instalação da Escola Superior de Agricultura e Veterinária (Esav), que hoje se desdobra em Fundação Universidade Federal de Viçosa. A 24 de janeiro de 1921 ele escreveu: “Dos terrenos que visitei nas vizinhanças de Ubá, Visconde do Rio Branco, Viçosa e Ponte Nova, prestam-se, a meu ver, melhor os situados a pequena distância de Viçosa. Há uma parte em vargem não brejosa e outra parte em morros mais ou menos íngremes, mas que, em alguns lugares, são arados. Não é necessária propriamente a aquisição de todo o vale do Córrego do Paraíso, pois me parece que a extensão de terra indicada é suficiente para os trabalhos da futura Escola: entretanto, para a irrigação da vargem situada à margem direita desse córrego será precisa a água tirada bastante alta desse mesmo córrego, e por isso não seria fora de propósito a compra de todo o terreno compreendido da bacia até as cabeceiras. Além de tudo, a área total da bacia não é demais grande. Parece-me que a sede da Escola não ficaria mal no ponto do esboço. Daí à cidade tem cerca de um quilômetro e meio, bastando, para que até aí seja fácil o acesso, que se melhore a travessia do córrego S. Bartolomeu, com a construção de nova ponte suficientemente elevada, para a grade da estrada a declividade compatível com o tráfego de automóveis ou bondes’.
Adquirida das famílias Ferreira da Silva, Lopes Rosado, Gonçalves Guimarães, Pacheco, Vitarelli, Machado, Massena, Vieira e Alencar, aquela parcela do solo viçosense recebeu a pedra fundamental da ESAV a 10 de junho de 1922, ato a que se seguiram o trabalho colossal de sua edificação comandada pelo engenheiro-chefe Dr. Honório Hermeto Corrêa da Costa e a adoção dos princípios “Ciência e Prática” e “Aprender Fazendo”., integrante da trilogia “Ensino, Pesquisa e Extensão”. Conforme a planta dos terrenos da velha Esav, sob responsabilidade técnica de Benedito Quintino dos Santos, datada de 15 de setembro de 1921, erigiram-se a residência do vice-diretor, um modesto escritório de construção, um dormitório e o prédio principal. Uma primitiva casa de fazenda se ergueu à esquerda da via férrea, onde depois se construiu a Vila Matoso, no campus universitário. Era o começo da existência de toda uma rica infra-estrutura de uma Universidade Federal que entregaria ao mundo, ainda na década de 1960, os 2 primeiros Magister Scientiae brasileiros na área agrícola. No dia 19/9/1926 o jornal Cidade de Viçosa noticiava a festa de inauguração da Escola Superior de Agricultura e Veterinária (Esav): “Inaugurou-se no dia 28 de agosto, com a presença de altas autoridades estaduais e federais, a Escola Superior de Agricultura e Veterinária, que veio marcar uma verdadeira época de renascimento para o Estado e, particularmente, para Viçosa. Esse notável empreendimento, devido ao tino superior de estadista do nosso benemérito conterrâneo Dr. Arthur da Silva Bernardes, pôs em foco não só a competência técnica do jovem e talentoso engenheiro patrício Dr. João Carlos Bello Lisboa, que dedicou toda a sua atividade e todo o seu carinho à execução dessa Escola, feita com a maior economia, pois não excedeu os 1300 contos a construção de seu edifício principal, sendo computado em menos de 3000 contos o preço total das obras, incluindo-se cerca de 100 hectares de excelentes terras”.

Os primórdios e a evolução

Na instituição que veio a ser a UFV o primeiro Curso Superior foi iniciado a 1º/3/1928, quando os ensinos Elementar e Médio já existiam. De lá até aqui, foram longos anos de “lutas, glórias, crises, risos, sofrimentos e vitórias”.
Assinada pelo governador Dr. Milton Soares Campos, a Lei 272, de 13 de novembro de 1948, criou, composta de escolas superiores de Ciências Domésticas, Agricultura, Veterinária, de serviços de experimentação, extensão e pesquisa e de uma escola de Especialização, a Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (Uremg). A 15 de novembro de 1949, o Decreto 3.211 a declarou instalada em Viçosa. Por força da Lei 2.470, de 28 de abril de 1955, a instituição passou a contar com subvenções federais. Uma conseqüência natural da evolução da velha Esav, que conquistara largo reconhecimento desde seus primórdios. A partir de 1962, um surto progressista se verificou na Uremg e na ESA, no governo de José de Magalhães Pinto. Multiplicaram-se os alunos e as vultosas obras, desenvolvendo-se inestimáveis projetos em setores os mais diversos. Na primeira das três administrações do reitor Antônio Fagundes de Sousa (1974-78), extraordinário foi o crescimento nos contextos administrativo e de valorização de recursos humanos. Em março de 74 eram 36 os auxiliares de ensino, 84 os professores-assistentes (57 adjuntos e 9 titulares), perfazendo o total de 186. Dificuldades financeiras do Estado levaram o Governo Mineiro a postular a sua federalização, e o passo inicial neste sentido foi um convênio assinado com a União, no governo de Israel Pinheiro, a 10 de abril de 1969.
Com o registro do Decreto 64.825 no Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas, em Belo Horizonte, a Universidade passou a existir como pessoa jurídica de direito público ainda em 1969.O primeiro reitor da Universidade Rural foi um preclaro mineiro nascido em 1910, filho de Visconde do Rio Branco, Prof. Joaquim Fernandes Braga, reconhecido como “um dos mais finos espíritos” que passaram pela Uremg, falecido em 1963, aos 52, em BH, que permaneceu no comando da Uremg entre 1949 e 1953?6?. Até 2005, foram seus sucessores Joaquim Fernandes Braga (49-56), Antônio Vieira Machado (56-57 – pro tempore), Lourenço Menicucci Sobrinho (57-59), Geraldo Oscar Domingues Machado (59-62), Flamarion Ferreira (62-64), Edson Potsch Magalhães (64-66/66-69/69-71- UFV), Geraldo Martins Chaves (66 pro tempore e 84-88 – UFV). UFV: reitores – Erly Dias Brandão (71-73), Renato Sant’Anna 73-74 – vice-reitor em exercício), Antônio Fagundes de Sousa (74-78/82-84/88-92), Paulo Mário Del Giudice (78-81), Joaquim Aleixo de Souza (81-82 – vice-reitor em exercício), Cid Martins Batista (88 – vice-reitor em exercício), Renato Mauro Brandi (92 – vice-reitor em exercício), Antônio Lima Bandeira (92-96), Luiz Sérgio Saraiva (96-2000), Carlos Sigueyuki Sediyama (2000 – vice-reitor em exercício / 2004-2008 - reitor), Evaldo Ferreira Vilela (2000-2004) e Fernando da Costa Baêta (2004 – vice-reitor em exercício). E antecessores, na Esav, os diretores Peter Henry Rolfs (1927-29), João Carlos Bello Lisboa (29-36), Sócrates Renan de Faria Alvim (36-39), John Benjamim Griffing (36-39), José de Mello Soares de Gouveia (39-40/44-46), Geraldo Gonçalves Carneiro (40-44), Diogo Alves de Mello (46-47 – pro tempore) e Antônio Secundino de São José (47-51). Em março de 78, a Universidade já contava com 170 auxiliares de ensino, 99 professores-assistentes (75 adjuntos e 109 titulares), totalizando 453 professores.
O primeiro professor catedrático da Uremg foi o Dr. Edson Potsch Magalhães, que com obras e trabalhos científicos cooperou extraordinariamente para a modernização e desenvolvimento da instituição, tendo sido partícipe direto das discussões que transformaram a Esav em Uremg e da Uremg em UFV. A federalização ocorreu a 8 de maio de 1969. Reitor por três mandatos, foi um dos responsáveis, ao lado do viçosense Dr. Arthur Bernardes Filho, pela federalização da instituição, ocorrida a 8 de maio de 1969. Dr. Edson, conforme realçou LADEIRA (nº?)“em 1944 vai para os Estados Unidos fazer pós-graduação e, em Cornell, torna-se amigo do Dr. Frost F. Hill, Chefe do Departamento de Economia Rural e que mais tarde assume posição de relevo na Fundação Ford. A amizade propicia uma série de doações à instituição, que começaram em 1952, com a construção do edifício do Instituto de Economia Rural e a criação do Curso Superior de Economia Doméstica e se estenderam até 1970. Inúmeras outras doações, tipo da Fundação Rockfeller e convênios como o de 1952 e 1973, com a USAID-Purdue em programas de pós-graduação, explicam o desenvolvimenot fantástico da UREMG, que vai tornar-se a UFV, com Dr. Edson reitor de 1964 a 1971!
Em síntese, consolidou a passagem da ESAV para a UREMG e expandiu a UREMG, criando todas as condições de fazê-la a UFV, uma das mais conceituadas instituições de ensino superior da América Latina.
Entre tantos professores e professoras, servidores e servidoras, que foram ou que continuam construtores desta instituição modelar – neste desenlace de tantas décadas depois dos pioneiros – ninguém nega que Edson Potsch Magalhães, seu primeiro catedrático, sempre se ombreou a Peter Henry Rolfs e a João Carlos Bello Lisboa, pilares da instituição”. (Legado Magnífico) Sempre Viçosa (págs. 94 e 95 - Folha Artes Gráficas - 2009).
Um dos maiores benfeitores do município de Viçosa foi, sem dúvida o Dr. Arthur Bernardes Filho, aqui nascido a 16 de setembro de 1905. Diz o Padre Antônio Vieira numa de suas mais famosas orações fúnebres que a memória dos homens é tão volúvel que são pouquíssimos aqueles que são lembrados após a missa de trigésimo dia. Lamentavelmente, é forçoso dizê-lo, na cidade natal de um grande nome da política nacional, Viçosa, não houve nenhuma comemoração oficial, pela municipalidade, pelo transcurso de seu centenário. Filho do ex-presidente Dr. Arthur Bernardes e de Dona Clélia Vaz de Mello Bernardes, aluno do extinto Gymnasio de Viçosa, tendo cursado o secundário também no Colégio Anchieta e no Colégio Aldridge, Bernardes Filho se formou pela Faculdade de Direito de Minas Gerais. Agricultor, empresário e banqueiro, dentre os cargos de alto relevo que exerceu em sua vida de homem público, foi secretário particular da Presidência da República (1923-1926), ministro da Indústria e Comércio no efêmero governo de Jânio Quadros, deputado constituinte (1933 a 1934), deputado federal (1935 – 1937/1946 – 1947), senador (1947 – 1951/ 1951 – 1956) e vice-governador de Minas Gerais (1956 – 1961), foi exilado em 38, tendo permanecido no exílio até o início da 2ª Guerra Mundial. Fundador e presidente da Eletromar por 38 anos, foi Senador, eleito em 1946, reeleito em 1950, cumprindo mandato até 1958. Foi de sua autoria a emenda, aprovada, ao Orçamento da União, que ao Estado de Minas Gerais foi propiciado receber indenização do governo federal pela incorporação da antiga Rede Mineira de Viação. Membro do diretório nacional da Aliança Renovadora Nacional(Arena), presidiu o Partido Republicano (PR) até o advento da Revolução de 1964. Ele faleceu em 21 de setembro de 1981, na cidade do Rio de Janeiro. Ao compulsarmos os anais das casas do parlamento federal, deparamos com registros de uma prolífera atuação de Bernardes Filho. Em homenagem à sua memória, aqui trazemos à recordação, este simples registro, que é de sua autoria o projeto de lei que culminou na assinatura, pelo presidente da Câmara dos Deputados no exercício do cargo de presidente da República, Carlos Coimbra da Luz, da Lei nº 2.470, de 28 de abril de1955, facultando à Uremg, beneficiada pela federalização, a condição de entidade subvencionada. Tal decreto determinou uma consignação anual à Uremg de uma subvenção não inferior a nove milhões de cruzeiros, trazendo extraordinário progresso para o seu torrão natal, conseqüência da extraordinária ampliação que então se pôde efetivar da conceituada instituição federal de ensino superior.
As palavras seguintes são profundamente esclarecedoras. Bernardes Filho foi de fato uma figura ímpar. É o Dr. Tancredo de Almeida Neves quem o descreve, aqui, com raro brilho. Para Tancredo, havia em Bernardes Filho, "em contraste com a forte personalidade de seu progenitor, a universalidade do seu espírito, forrado de liberalismo, tolerância e compreensão. A firmeza de suas convicções e a intransigência com que as ostentava e defendia não excluíam dele a cordialidade no trato, a elegância das atitudes e a requintada fidalguia dos seus gestos altivos e generosos, que expressavam a sua grandeza d'alma. Percorreu, com irrepreensível dignidade, rara competência e acurado espírito público, todos os patamares da vida pública, que foi, para ele um longo e devotado exercício de abnegação, dedicação patriótica e de permanente e integral serviço à causa da democracia brasileira... Como chefe partidário foi elemento de decisiva importância na eleição de Juscelino Kubitschek para o Governo de Minas e, depois, na sua ascensão à Presidência da República. Quando dos trágicos acontecimentos que levaram Getúlio Vargas à anuidade e à história, amigo íntimo que era do Presidente Café Filho, a sua palavra, as suas ponderações e os seus conselhos foram da maior importância para o arrefecimento das paixões e ódios que, naquela conturbada quadra, expuseram a Nação a todos os riscos e perigos de uma luta fraticida... Era um político diferente. Exercia uma ação constante construtiva e da maior eficiência nos planos ocultos da política. Não gostava de se mostrar. A ostentação não era o seu forte. Preferia o lusco-fusco de uma atuação fecunda e criadora, dando-se por bem gratificado pelos malefícios que evitava, as incompreensões que corrigia e a desprendida contribuição que trazia para a solução dos graves problemas do momento. Não era, na maioria das vezes, personagem de proscênio, exibindo títulos, serviços ou vaidades, mas, ao contrário, preferia o fundo do palco, para agir com mais desenvoltura e melhor realizar e construir, longe da vista da vulgaridade... O homem social era exemplar. A finura de sua educação, os seus dotes de inteligência, a sua abrangente cultura literária, faziam dele a companhia que todos reclamavam e disputavam. Era o causer fascinante pelas frases cuidadas e chistosas, a graça dos seus ditos e a crítica suave, sem malícia e perversidade, das situações ridículas e da mediocridade vistosa.
Secretário da Presidência da República, no Governo do seu pai, Constituinte, Deputado Federal, Senador, Vice-Governador de Minas, Ministro de Estado, escreveu opulenta biografia na qual se honra, na mesma medida em que engrandeceu o nosso Estado.
No parlamento era atuante e aliciador. Palavra brilhante, ocupava a tribuna com brilho e segurança. Ferino e contundente no aparte, fazia-se, não obstante, estimado e respeitado pelos seus pares. O Deputado foi crítico severo dos governos a que se opunha e no Senado a sua palavra serena, experiente e persuasiva era uma fonte de inspiração e conselho que todos procuravam ouvir.
Fez da Vice-Governança de Minas um posto de maior relevo, dando-lhe projeção política de ampla repercussão pela participação que passou a exercer, em razão do seu magnetismo pessoal, na condução da vida pública de Minas Gerais. Deu ao Governador, em exercício, o o insigne José Francisco Bias Fortes - de memória nunca assás louvada - uma colaboração leal, amiga e desinteressada. O seu concurso foi dos mais preponderantes para o levantamento de graves problemas e a busca das soluções que se impunham.
Quando o Presidente Jânio Quadros, impressionado com a vivacidade de seu espírito, a força dominadora de sua mentalidade e os recursos do seu cérebro privilegiado, convidou-o para exercer, no seu curto Governo, a pasta da Indústria e do Comércio, entregou-lhe um Ministério recém-criado, que existia, apenas, no papel, sem estrutura
e sem organização, com órgãos esparsos e distantes. Coube-lhe pôr ordem no caos e fundir todo o arcabouço de uma obra imensa, que se lhe apresentava como um dasafio esmagador. Em poucos meses o Ministério recebia a sua espinha dorsal, através de uma regulamentação moderna e eficiente, de excelente técnica administrativa. Coordenados os departamentos e órgãos que o integravam, colocou-os em condições de poder atender, em toda a sua plenitude, as suas extensas finalidades.
Esse início de administração deixava ver, na sua clarividência e dinamismo, o que viria a ser a sua presença à frente desse importante setor do Governo... A nossa diplomacia registra algumas de suas incursões como representante do Brasil em rumorosas Conferências Internacionais. Poliglota, falando corretamente o francês, o inglês e o alemão, valia-se desse dom inapreciável para dar às suas missões singular refulgência, a que o seu talento sedutor imprimia um destacado relevo.
O estadista, o homem público, o diplomata, o parlamentar, o administrador, o cidadão e o homem Bernardes Filho revelaram, na sua múltipla e extraordinária personalidade, o Brasil e Minas Gerais nas virtudes mais raras e mais nobres do nosso povo. Ele foi digno para os seus amigos, benemérito para os seu coestaduanos e preclaro filho de nossa Pátria... Na mesa simples e frugal, como são as mesas da gente mineira, era o mais alegre, expansivo e conversador, a todos deleitando com as irradiações de sua alma simples, que o conforto e a civilização não conseguiram corromper..."
E o Dr. Potsch é também um proeminente cientista e mestre cuja vida e obra se fazem indissociáveis da ciclópica trajetória da grandiosa Universidade viçosense. Nascido no município de São José do Barroso (MG), a atual cidade de Paula Cândido, a 24 de janeiro de 1914, filho do farmacêutico Antônio Apolinário Magalhães e de Dona Maria Francisca, estudou em colégios da região tendo sido aluno por dois anos do Seminário de Mariana (MG) e foi funcionário da Casa Araújo e Martino. Admitido na ESAV em 1939 onde se formou agrônomo, concluiu o mestrado em Iowa (EUA) em 1945, sendo o segundo brasileiro a conquistar mestrado em Economia Rural. Doutorou-se na UFV. lização da mesma, o que ocorreu a 8 de maio de 1969. Foi membro fundador do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras e prefeito do outra distrito do Herval, depois município de Ervália (MG), acumulando a função de secretário de Estado da Agricultura entre 65 e 66, no governo de Magalhães Pinto. Doctor Honoris Causa da Purdue University, a ele se aplica a assertiva segundo a qual “os grandes vultos se tornam ainda maiores através da perspectiva do tempo”.

O "espírito esaviano" e a Marcha "Nico Lopes"

Um outro alguém muito especial ingressou na Esav passados sete meses de sua criação, tendo vivido o desenvolvimento de sua Escola “em condições duras e difíceis, com curtos e espaçados momentos de bonança”, mas dinamizada por um grupo de professores competentes, desprendidos, idealistas e entusiastas. À medida que avançaram as décadas, aumentou o número de ex-alunos em postos de alta responsabilidade, cresceram suas reputações, não só no seio da classe, como nas comunidades nas quais se inseriram. Fruto de uma semente muito bem plantada em Viçosa. Em Santa Rita de Patos, hoje Presidente Olegário (MG), nasceu em 1910, Antônio Secundino de São José. Formou-se agrônomo aos 21 anos de idade, na Esav, da qual fora o diretor entre 1947 e 1951, sendo reconhecido nacionalmente como “o homem do milho híbrido”. Foi protótipo dos que encarnaram o amor à Escola que os formou. Criador da famosa Marcha Nico Lopes, uma manifestação de protestos e críticas que desde sua criação quase nunca deixou de acontecer. Até mesmo em alguns momentos da ditadura militar, apesar da dura repressão, a marcha Nico Lopes é o Carnaval temporão de Viçosa. A famosa “micareta” da cidade universitária tem projeção em tudo semelhante a de festas congêneres como a Jeguefolia, de Visconde do Rio Branco; Sanatório, de Ubá; Festa do Doze, de Ouro Preto; e Carnabelô, da capital mineira. Nas primeiras edições do século XXI, chegou a atrair um público médio de 50.000 pessoas. A tradicional marcha foi o meio pelo qual os alunos manifestaram seu descontentamento com as autoridades universitárias, municipais, estaduais e federais, e expressaram suas críticas, na mais das vezes, irreverentes, sofreu grandes transformações, acompanhando a evolução dos tempos e, logicamente, da universidade, dos estudantes e do Estado. O trio elétrico se incorporou ao evento em 1992. Forjado pela tradição, foi criado em 1939, quando a instituição possuía cerca de 50 alunos. Antigamente era pura sátira, “crítica de fatos pitorescos, pois todas as brincadeiras eram atribuídas ao Nico Lopes, espírito folgazão”. Secundino reunia calouros, “arregaçava-lhes uma das pernas da calça e fazia com que corressem em volta do jardim ao som de uma sanfona de 8 baixos e fole rasgado. Daí o nome da brincadeira”, conforme destacou o professor José Marcondes Borges. E de acordo com o professor José Dionísio Ladeira, “não era Nico Lopes propriamente ‘responsabilizado pelas coisas erradas ou más que aconteciam’”. Segundo escreveu, o patrono da marcha não era “’um boêmio que tempos atrás perambulou na cidade’”... “Nico Lopes era um espírito brincalhão, gozador, que vivia o ‘dolce farniente’ da Viçosa até certo ponto efervescente dos anos 20, anos 30. Por isto, todas as outras pessoas que também se entregavam ao ócio, quando questionadas, diziam: - ‘Trabalho para o Nico Lopes...’ Espírito brincalhão, Nico Lopes se entrosava muito bem com os estudantes, sobretudo quando se dispunha a dar uma ajuda no Bar do Dario, seu genro, ali na Rua Arthur Bernardes, onde hoje é o Shopping d’A Mundial... Ah! E quando ‘dependurava as contas’... Daí o Secundino – que vai se formar na primeira turma de agrônomos em 1931 e depois será nome da Biblioteca Central – cognominar de Marcha Nico Lopes a passeata que era a culminância do trote aos calouros”. Dr. Secundino, além de criador da Nico Lopes, fora o orador oficial do quadragésimo aniversário da instituição. Transcrevemos aqui excertos das memoráveis palavras por ele ditas na ocasião solene:


“Sem qualquer intenção de colocar nossa Universidade no topo da escala de classificação, diríamos apenas que ela tem muito de pessoal, de diferente. Não no sentido material [...] mas no sentido educativo, na linha que se traçou de instruir educando, tentando sempre colocar o melhor técnico dentro de um homem mais homem. Essa luta se traduz na implantação de uma camaradagem profunda, que se estende no tempo e na distância, nivelando seus filhos pelo mesmo ideal e pela mesma dedicação ao trabalho, pelo orgulho e pela defesa de sua profissão, independentemente de idade ou origem. Essa mística que os mais antigos ainda conhecem por ‘Espírito Esaviano’ e que os mais novos, provavelmente, distinguem por outra designação, realmente existe e existirá sempre [...] Quem duvidar de que esse espírito exista, basta entrar em contato com um ex-aluno desta Casa, no campo ou na cidade, neste país ou fora dele, contemporâneo ou não de bancos escolares, e verificará que a tônica obrigatória e dominante da conversação será a sua Escola, a sua Universidade [...] Que sua mística, e tudo de bom que ela encerra, representa e defende, seja transferida de ano para ano, de curso para curso, de geração para geração, indefinidamente, pela mão firme, honesta e idealista dos moços.”


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A CONSTRUÇÃO DO SANTUÁRIO: MARCO DE UM NOVO TEMPO



Na década de 1960 o cronista Parrique, em "A Cidade", assim se expressou:


“Os sinos, no campanário de nossa Matriz, já tangem diferente, como que soltando notas musicais repassadas de tédio e nostalgia, anunciando a Semana Santa que evoca o Calvário de Cristo”.


Viçosa experimentava um notável influxo em seu desenvolvimento, tão logo se edificara um templo que passou depois a Santuário. O velho sino mecânico, plangente, da velha Matriz, silenciara-se. Do alto do novo e imponente campanário não havia mais lugar para aquele vetusto badalar que outrora convocara para os ofícios religiosos. Aqueles sons criados pelos sineiros, ao tempo do Brasil colonial, Te Deum, Ângelus, exéquias, cinzas, ressurreição, treva, passos, finados, agonia, incêndio, almas, Natal, ano-novo, morte do Senhor, dentre outros repiques já não faziam mais parte de um sonhado futuro, que já se fazia presente. E os sinos, modernos, eletrônicos, aqui chegavam na década de 1950, como prenúncio daquele novo tempo. Viçosa contava, então, com 6 açougues, 4 torrefações, 5 padarias, 8 alfaiatarias, máquina de beneficiamento de café e arroz, dois salões de beleza, 7 barbearias, de seu Parque Industrial constava uma oficina gráfica, 5 fábricas de calçados, duas de macarrão, uma de biscoito, uma de manteiga, duas de ladrilho, 5 de móveis e esquadrias, um curtume, uma de farinha e uma de basculantes.
Foi quando o Cônego Modesto Paiva vaticinou um futuro luminoso para a Terra de Santa Rita. Tido em Viçosa como um semideus, ele passou seus derradeiros anos em Tabuleiro do Pomba (MG), classificando, de lá, um dia, como "inesquecíveis" seus paroquianos viçosenses. Disse ele: “Esquecer-vos? Nem na eternidade!”
Eis aqui um depoimento, a este blogger, de quem o acolitou por um bom tempo, Simão Cirineu Ladeira: “Modesto Paiva era realmente um Cônego modesto! O modesto Cônego assumiu a Paróquia sob protestos e abaixo-assinados. Logo ao chegar o Cônego mostrara seu conservadorismo. O primeiro ato das missas dominicais era o Cônego desfilando pelo corredor central da velha matriz, municiado de água benta com a qual aspergia as mulheres de qualquer idade cujos cotovelos estivessem à mostra, expulsando-as do recinto sagrado. Na igreja, reservou o lado esquerdo de quem entrava para os homens, indo, em conseqüência, as mulheres para o lado direito. As filas para o concorridíssimo confessionário eram também separadas por sexo
Jamais receou os comprometimentos próprios à sua idade, compromissos e circunstâncias.
O Cônego era um obstinado em fazer aumentar o número das pessoas que "faziam" a primeira sexta-feira de cada mês. Contava ele próprio, minuciosamente, o número dos comungantes, com o auxílio de um anelzão dentado, enquanto recitava o necessário "O corpo de Cristo...". Na época, as comunhões só eram distribuídas pela manhã e às pessoas em jejum, exclusivamente por padres, diretamente nas bocas e só aos ajoelhados na longa mesa (na verdade algo como parte anterior do "banco da frente"). À noite, no mesmo dia, na hora santa solene, com a igreja entupida de devotos e Chico Salamargo "puxando" os cantos, revelava o "placar", comparando-o com o do mês anterior, sempre progressivamente inferior. Instigava a presença de mais e mais..."
E quanto modesto ele era!-- agiu, ao contrário da maioria dos padres que constroem templos e, das construções, que não acabam nunca, fazem fonte de arrecadação.
Construiu, em uma cidade paupérrima, em tempo recorde, uma igreja do tamanho que o futuro viria a exigir e que o bom povo de Viçosa mantém lotada. E, com que sacrifício! Por exemplo, adquiriu um caminhão Volvo para comprar pessoalmente, à distância, pelo menor custo, o material de construção. E, para economia, dormia sob ele, na estrada, junto com Felipe, o fiel motorista. Aliás, fora do caminhão, dormia na sacristia da velha igreja, para locar a casa paroquial para o farmacêutico João Dias e reverter o aluguel para a igreja.
Era criativo para arrecadar recursos. Além desse exemplo, representado no folheto (Preso o Vigário de Viçosa), antes de instalar os sinos da nova igreja, disponibilizou-os, para que a população pudesse dar-lhes badaladas, em troca de contribuições. Conheci-o e com ele convivi, como seu principal coroinha diário, nas missas e nos batizados e nos sepultamentos.
"In illo tempore" os batizados eram realizados fora das missas. O Cônego os ministrava, sempre às 13 horas, diariamente, salvo, se não me engano, aos sábados e domingos. Havia uma pia batismal, na matriz antiga, em lugar reservado à esquerda de quem nela entrava, ao lado das cordas que serviam para tanger o sino, por ocasião dos sepultamentos (sem necessidade, exclusivamente nessas situações, de subir ao alto da torre para o solene repique, aos cinco minutos antecedentes às missas dominicais).
À direita ficava a escada que dava acesso ao Côro, e, atravessando-o, a nova escada pela qual se subia aos sinos (esta sim, já sobre o local da pia). Invariavelmente, lá, com ele, estavam a Professora Maria de Lourdes Ramos, encarregada de fazer os imprescindíveis registros em um cadernão, e eu, coroinha, para dialogar o ritual, em latim...”
Falecido a 16/2/1996, em Juiz de Fora, ele foi sepultado no Cemitério Dom Viçoso. Seus restos mortais foram transladados a 19/5/2005 para o Batistério do Santuário de Santa Rita, templo construído em tempo recorde, sob sua liderança, a partir de 1951. “E isto aconteceu porque um vigário de qualidades excepcionais, encarnação perfeita e completa da autoridade, padrão das mais puras e nobres virtudes, o enérgico e humilde, culto e despretencioso, pobre e desprendido, infundidor de confiança e catalizador de boa vontade, ergueu a sua batuta e comandou a orquestra do querer e realizar de seus paroquianos. Assim, em tempo recorde, a Santa Padroeira ganhou a sua morada e Viçosa assistiu a construção de sua bela Matriz[...] Solenidade inesquecível, de ordenação de vários sacerdotes saudou o novo e admirado templo. Cerimônia brilhantíssima de consagração, promovida pelo nosso querido Arcebispo Dom Oscar de Oliveira e pelos Bispos Dom Rodolfo e Dom Lázaro e programada para o término da decoração e montagem dos altares, por ocasião da festa da Padroeira, realizou-se...”, destacou a imprensa.
O templo é considerado um dos marcos da capacidade e generosidade do povo viçosense. Sobre este fato o professor José Marcondes Borges relatou, em 2001, o seguinte: “Uma pequena e pobre cidade pôde, em quatro anos, conduzida por um autêntico líder, construir uma obra majestosa, a nova Matriz de Santa Rita de Cássia e, confiante, então, em sua real capacidade, encetar um ciclo progressista de construções que ainda permanece, cinqüenta anos depois. Na verdade, a cidade era pequena, pois, conforme a Enciclopédia Mérito, era habitada por 6.424 moradores, em julho de 1950. [...] Naquela época, a velha matriz, situada na esquina da rua Benjamim Araújo com a praça Silviano Brandão, além de mostrar visíveis sinais de deterioração em sua estrutura física, e até em seu sino rachado, estava se tornando muito pequena para os devotos de Santa Rita. [...] Como preparativos para o início da construção, cônego Modesto tinha de enfrentar três problemas: adquirir o terreno, obter a planta e escolher o pessoal técnico. O local adquirido, que não poderia ser melhor, foi o da parte central do quarteirão onde ficava situada a velha matriz. Quanto à planta, valeu-se da intercessão da Irmã Célia (Amélia de Carvalho Janotti), diretora da Escola Normal Nossa Senhora do Carmo, junto a seu irmão, o benemérito e prestigioso viçosense José de Carvalho Janotti, que havia sido prefeito de Teresópolis, deputado e presidente da Assembléia Legislativa e era, na ocasião, governador do Estado do Rio de Janeiro. Ele obteve a planta de um amigo engenheiro, o Dr. Octávio de G. Freire."
Nascido em 1916, em Viçosa e falecido em Teresópolis (RJ) em 1980, José de Carvalho Janotti iniciou sua carreira de homem público em pleno Estado Novo, no ano de 1945, tendo sido seu primeiro cargo o de secretário da Prefeitura de Teresópolis. Em 1947 elegeu-se prefeito daquele município fluminense. Em 1950, foi eleito deputado estadual pelo Partido Social Democrático (PSD) e em 1955 foi reeleito para o mesmo cargo. Foi deputado novamente à Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro em 1958, tendo assumido o governo do Rio de Janeiro a 7 de julho de 1962, ao qual renunciou em 1963 para assumir o Tribunal de Justiça daquele Estado. Memorável, sem dúvida, esta sua participação na construção do majestoso templo.
"Para a direção técnica, o cônego convidou o Dr. Mário das Neves Machado, engenheiro-agrimensor e um dos mais antigos e conceituados professores do Departamento de Engenharia Agrícola da Esav, prestante cidadão e católico praticante. Vicente da Paixão, que foi um dos melhores mestres-de-obras e pedreiro que Viçosa conheceu, foi, naturalmente, o escolhido para as duas funções. A construção da nova matriz foi seu último trabalho como pedreiro e era excepcional no mister pela boa qualidade e, sobretudo, pela sua rapidez no trabalho. Depois da construção, tornou-se o mais disputado mestre-de-obras da cidade.
Resolvidas as preliminares, o cônego conseguiu das autoridades competentes a permissão para que os presidiários da cadeia de Viçosa fizessem a demolição de todas as casas do quarteirão, com exceção da situada na esquina da rua Virgílio Val. É justo dizer que, contra a previsão de muitas pessoas, o trabalho foi realizado em poucos dias e sem nenhum incidente [...] Concluído o arrasamento das casas e limpo o terreno, o Dr. Mário Machado e seu cooperador, o professor da Esav, José Marcondes Borges, locaram a igreja no centro do quarteirão. [...] Esta foi iniciada com a abertura da escavação e a colocação da laje de base da torre que seria também sua pedra fundamental. Para esta o cônego escreveu a inscrição, em latim [...] cuja tradução foi feita pelo cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho e monsenhor Vicente Diláscio é a seguinte: No dia 9 de maio do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1951, sendo Sumo Pontífice Pio XII, Arcebispo da Igreja de Mariana Helvécio Gomes de Oliveira, Pároco, Modesto Paiva, para edificar esta lápide, projetada por Octavio de G. Freire e feita por Vicente da Paixão, sob a direção de Mário das Neves Machado com seu cooperador José Marcondes Borges, os cidadãos viçosenses com ardor ofereceram os recursos, favorecendo Santa Rita”. A inscrição original que se encontra na base da torre é esta:


ANTE DIEM VII IDUS MAIAS ANNO DOMINI NOSTRI JESU CHRISTI MCMLI, SUMMO PONTIFICE PIO XII ARCHIEPISCOPO ECCLESIAE MARIANNENSIS HELVETIO GOMES DE OLIVEIRA, PAROCHO MODESTO PAIVA, AD HANC EXSTRUENDAM LAPIDEM, AB OCTAVIO DE G. FREIRE DELINEATAM ET A VINCENTIO DA PAIXÃO CONFECTAM, DIRIGENTE MARIO DAS NEVES MACHADO CUM EJUS COOPERATORE JOSEPH MARCONDES BORGES, INFLAMMANTER NUMUM CIVES OBTULERUNT VIÇOSENSES, SANCTA FOVENTE RITA


Monsenhor Modesto deixou Viçosa, como vigário, a 12/10/1955. Nascido a 16/6/1898, em Santa Bárbara (MG), num arraial chamado Brumado, hoje Brumal, aos 14 anos iniciou seus estudos no Colégio Caraça, com os padres lazaristas. Formado no Seminário de Mariana, foi ordenado padre a 29/11/1925. Foi coadjutor e vigário de Cataguases, onde esteve por 9 anos, e de Santana dos Ferros, tendo trabalhado ainda em Belo Horizonte e São João Del Rey e exercido a vice-reitoria do Ginásio de Dom Helvécio, além da capelania da Escola Normal Nossa Senhora do Carmo, de Viçosa, a partir de 1943, por 4 anos. Foi também professor de Religião e de Língua Portuguesa, no antigo Gymnasio de Viçosa. Em entrevista concedida a um jornal de Viçosa, ele relatou só ter aceitado a direção da paróquia de Santa Rita por “muita insistência” do arcebispo. Transcrevemos a seguir alguns trechos, esparsos, de seu depoimento: “Conhecia muito bem todo movimento da paróquia e sabia que todos tinham sido batizados e casados pelo padre Álvaro e não iria ter coragem de substituí-lo”, enfatizou.[...] “Neste tempo, tudo aconteceu de novidade. A Igreja Matriz estava podre, querendo cair. Era necessário construir uma outra. As dificuldades aumentavam. Então, pouco a pouco o dinheiro foi aparecendo, de sorte que, não querendo eu construir uma Igreja na esquina, onde estava, mas construí-la onde está hoje, tive de comprar, na praça principal de Viçosa, quatro casas. Compradas estas casas com muitas dificuldades demoli-as e iniciei a construção da nova Igreja, onde ela está, no dia 6/11/1950, para começar o Ano Santo. De vez em quando o arcebispo aparecia para ver como estava a construção. [...] Logo depois da Semana Santa veio a festa de Santa Rita. Para que o povo me desse bastante dinheiro, fiz um boletim. Mas como ninguém lê boletim, coloquei o seguinte título: ‘Preso o Vigário de Viçosa Cônego Modesto Paiva’.

De fato, o boletim foi assim redigido:



"PRESO O VIGÁRIO DE VIÇOSA

Como é triste uma prisão!

O Vigário de Viçosa está preso, mas tem confiança que, até o dia de Santa Rita, cada Viçosense trará muito dinheiro, para comprar a liberdade dêle.
Está preso pelos compromissos, que assumiu, na construção da igreja.
Os credores estão exigindo e não há dinheiro para êles.
Vêm Viçosense! Vem depressa, com tua contribuição e sentirás grande alegria de trazer o fruto do teu trabalho, para Santa Rita.

Viçosa, Maio de 1953.

Cônego Modesto Paiva"



Prossegue ele: "Foi um efeito muito bom, porque o povo concorreu, concorreu, concorreu e no dia da Festa de Santa Rita ele me deu o dobro do dinheiro que eu tinha pedido. Assim, pude ver, em 12/12/1953, a Igreja construída, dependendo apenas de lisar o piso e improvisar um altar que deixei lá. Improvisado este altar, o arcebispo pôde celebrar missa, ordenando cinco padres: padre Pedro Lopes, padre Rubim, já falecido, padre Wandick e padre Valente e um outro que se fez monge, padre frei Thiago. [...]
A cidade era muito pobre. Toda ela de construção de cor amarela e os portais e janelas de cor roxa. Eu disse ao povo: vamos construir a Igreja que a cidade vai melhorar. E de fato a cidade melhorou muito [...] A casa lá de trás, comprada primeiro, onde estava o correio, esta parte eu a transformei numa loja e casa[...]Todos ajudaram, até os pobrezinhos das casas de São Vicente de Paulo, que criavam franguinhos e davam para a Igreja. Os ricos ajudaram, mas quem construiu a Igreja foram os pobres. Há muita ajuda dos ricos, mas se não houvesse a cooperação de toda a população da cidade a Igreja não seria construída não. Construída a Igreja, tratei de colocá-la de acordo com a padroeira Santa Rita. Santa Rita era devota da Paixão de Nosso Senhor. Acompanhei o arquiteto, dizendo a ele como queria a Igreja: sete janelões de um lado, sete de outro, para por a Via Sacra lá. Eles estão lá. Santa Rita era devota também de três santos: São João Batista, Santo Agostinho e São Nicolau Tolentino [...] Por isso, no sopé da torre, eu fiz lugar para os protetores de Santa Rita. Eu gastei os três primeiros anos de pároco para levantar a Igreja espiritual. Levantada esta, eu tinha a confiança do povo [...] Eu deixei as duas casas, quatro lojas, terreno para construir o salão que está lá, o salão paroquial. Também deixei dinheiro. [...] Na primeira missa que eu celebrei, coloquei: recebi do senhor fulano de tal vinte cruzeiros para a Igreja. Todo o mês eu publicava o que entrava. O povo tomou confiança. Na festa de Santa Rita, de 1953, foi muito dinheiro que me deram. Eu pude comprar muito material caro de São Paulo, levando ainda três operários especializados de São Paulo, para acabamento da Igreja. Tudo ficou pronto”.
Seu epitáfio, no Santuário, fez justiça a sua obra:

“MODESTVS, SACERDOS INCLITVS, HOC TEMPLVM CVM MAGNA SEDVLITATE POSVIT - Sacerdos Modesto Paiva – Parochus: 1947-1955 - * 16/6/1898 - + 16/2/1996 (Tradução: Modesto, ínclito sacerdote, com grande zelo construiu este templo).

Padre Carlos dos Reis Baêta Braga foi o Pároco de Viçosa desde 1957, sucedendo ao Padre Geraldo Maia, antigo capelão da Escola Normal e do Hospital São Sebastião, este falecido em Piedade de Ponte Nova (MG). Foi ele, Pe. Carlos, quem mais tempo permaneceu à frente da Paróquia: 42 anos. Dizia encontrar na convivência com seus paroquianos “uma porfia de mútua correspondência”, e a ele coube dar continuidade e ampliar a obra do Cônego Modesto num período em que começaram a se estabelecer na cidade diversas igrejas cristãs de denominações diversas, a partir da década de 1960. A 9/10/60 estabelecia-se fisicamente o protestantismo na avenida Bueno Brandão, 18, expandindo-se depois em núcleos congregacionais. No paroquiato de Pe. Carlos foi criada, a 16/7/1994, a Paróquia de São Silvestre, cuja Igreja Matriz, no distrito de São Silvestre, fora construída como capela em 1963. Em seu paroquiato foim criada a Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, a 13/5/1975. Paladino de grandes causas, instituiu a Fundação Cultural Santa Rita, construiu diversas capelas na periferia, o edifício do Centro Social ao lado do Santuário, incentivou a Semana Santa ao Vivo, criou a Casa de Retiro em São José do Triunfo, que sedia, dentre outros importantes eventos, as Jornadas de Conscientização Cristã do JSC, originárias do GGJ (Grupo de Gente Jovem), fundado a 3 de março de 1975, com Dias de Encontro (DDE) desde 1979 em parceria com o GJV, este o nosso grupo jovem mais antigo e promotor do TLC (Treinamento de Liderança Cristã) e das Escolas de Dirigentes, dos quais nasceu também o ASC, para os adolescentes.
Filho de Carlos Fabrino Braga e de Maria Tavares Baêta Braga, ordenado em Conselheiro Lafaiete, sua terra natal, a 31/12/1950, notário da Cúria Metropolitana, vigário cooperador do Cônego Oscar de Oliveira, então pároco de Mariana, vigário ecônomo da Catedral, comissário da Igreja de Nossa Senhora das Mercês, sua posse em Viçosa foi a 29 de março do referido ano de 1957. Capelão e professor de Psicologia, Filosofia, Religião e Latim na Escola Normal, capelão da Escola Agrícola Arthur Bernardes e do Hospital São Sebastião, fundador e diretor do Ginásio Santa Rita, entre 1967 e 1986 lecionou História da Filosofia, Sociologia, Administração, Problemas Brasileiros, História do Brasil e Geral, Pedagogia e Sociologia no Seminário Maior e algumas dessas disciplinas na Faculdade de Filosofia de Mariana (1979 a 1986) e no Seminário Menor. Licenciado em Sociologia em Roma, pelas universidades Gregoriana e Internacional de Estudos Sociais; em Filosofia, pela Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras D. Bosco, de São João Del Rey; em Letras, pela PUC-Minas, em Direito em Lafaiete e pela PUC fez também os cursos de Estudos Históricos do Brasil, Folclore e Desenvolvimento Integral. Membro benemérito do Mobral de Viçosa, sócio-fundador da Academia de Letras de Viçosa, membro Academia Marianense de Letras, foi cidadão honorário de Viçosa. O Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho é quem nos informa sobre as realizações de Pe. Carlos e é quem melhor define o seu perfil caritativo. Conforme ressalta, costumava Pe. Carlos doar cobertores a aviar receitas para os pobres. "Gastava muitas horas com pessoas, confortando-as e medicando-as espiritualmente, detalhes que só Deus sabe lá nos seus registros eternos". O Ginásio Santa Rita foi por ele fundado em 1966, e mantinha 300 alunos pobres. "Quando de seu falecimento, a Superintendência Regional de Ensino recolheu toda a documentação, por ser modelo de organização escolar," destacou o Cônego Vidigal. Ele foi "um dos pilares" do Instituto de Ciências Humanas e Sociais. "Como Jesus Cristo valorizou a amizade, Pe. Carlos era amigos dos paroquianos. Modelo do amigo pela sua sinceridade", realça ainda o Cônego Vidigal, que acrescenta o fato de que a tarefa de Pe. Carlos foi "difícil e complexa" com o acabamento do Santuário porque "todos aqueles detalhes são 'detalhes' que hoje nós admiramos num conjunto, mas que diante do povo pouco aparecia, quer a pintura, quer outros detalhes significativos", recordando-se de quando ele chegou "jubiloso lá em Mariana apresentando o croqui do altar de mármore da nossa padroeira. 'O zelo da Tua casa me consome' poderia ele dizer." Quando cursou Sociologia Pastoral, Metodologia do Apostolado e Exercitação para o Clero, em Roma, em 1962, fora substituído aqui, por 10 meses, pelo Pe. Efrahim Solano Rocha, hoje em Ipatinga, servindo no Hospital da Usiminas. Pe. Efraim o Rocha foi pároco interino em 1963. Este é outro sacerdote que certamente nunca se esqueceu de seu povo, pois como disse o próprio, ele partiu “levando saudades de tudo e de todos de Viçosa”. Musicista como Pe. Seraphim, incentivou a Lira Santa Rita e a Semana Santa ao Vivo, tendo formado o GGN (Grupo Gente Nova), que fez as primeiras apresentações paralitúrgicas da Grande Semana. Disse ele, certa feita: “Aqui, em Viçosa, eu não vim dar lição de amor a Deus, de cristianismo. Eu vim receber estas lições. Cinco Missas Dominicais, e a Igreja – grande já se torna pequena para o número de fiéis [...] O pouco ou nada que fiz, foi impulsionado pelo desejo e boa vontade de todos”.
A Semana Santa, a Festa de Santa Rita e o Mês de Maria foram, não há dúvida, as meninas-dos-olhos de Pe. Carlos, que sempre contou com o apoio de leigos engajados, festeiros, entre quais Dr. José Lopes de Carvalho, Alvino Machado, José Lopes Fontes Filho (Nonô), Custódio de Souza Parreira, César Sant'Anna Filho (Cesinha), Dr. Raymundo Alves Torres, Antônio Sant'Anna Gomide, João Cupertino de Souza, Geraldo de Lucca, Agostinho Vaz de Mello (Zutinho), Geraldo Lopes da Silva (Ladito), Waldir Pinheiro, Michel Marum, Geraldo Rodrigues Bento e Antônio Rafhael Teixeira Filho (Tonito). Ao lado do incentivo a movimentos como a Apov, desde 1982, aos Cursos e Círculos Bíblicos desde 1970, aos Cursilhos de Cristandade - do qual foi Diretor Espiritual - ao Movimento Familiar Cristão desde 1972, e à Pastoral da Saúde, incondicional apoio à SSVP e ao Apostolado da Oração, merece ser destacado em seu perfil de Pastor a grande devoção à Padroeira da Cidade e do Município. Esta sua característica pessoal marcante fez com que, por esta Causa, a festa do 22 de Maio fosse, a cada ano, em seu longo e profícuo paroquiato, o Maior de todos os nossos eventos religiosos. A exemplo de seu antecessor, Cônego Modesto, está sepultado no Santuário desde 19/5/2005, onde se inscreveu seu epitáfio, já no paroquiato do Pe. Dionê:

“CAROLVS, PRAECLARVS DEI MINISTER, HOC TEMPLVM MAGNA CVM PERITIA PERFECIT. Sacerdos Carlos dos Reis Baêta Braga – Parochus: 1957-1999 - * 6/1/1927 - + 6/5/1999” (Tradução: Carlos, preclaro Ministro de Deus, com grande perícia terminou este templo).

De Padre Carlos dos Reis é o soneto Ano Novo:

“Eis que no tempo surge um Novo Ano
E como é bom, Senhor, contar contigo,
Quando ao meu lado tudo é desengano,
Tenho a certeza: Tu estás comigo.

O mundo passa e falha o ser humano.
Mas Tu és sempre o mesmo, o mesmo Amigo
E de saber-Te eterno é que me ufano,
Tu me esperas, se chego, é meu abrigo.

Calo-me, escuto e só nós dois, a sós,
Alegremente ouço a Tua Voz:
Por que temer? Levanta-te, sê forte:

Nós dois iremos juntos, de vencida,
Eu sou Caminho, sou Verdade e Vida
E quem Me segue não verá a morte!”

Três sacerdotes, Monsenhor Raimundo Gonçalo Ferreira e os Cônegos Antônio Mendes e José Geraldo Vidigal de Carvalho figuraram entre seus coadjutores.
Falecido a 22 de março de 2002, no Hospital São Sebastião, de onde fora o devotado capelão, Monsenhor Raimundo foi sepultado em Paula Cândido, sua terra natal, após 69 anos de uma vida inteiramente dedicada ao sacerdócio. Em Viçosa desde janeiro de 1964, quando transferido da Paróquia de Jequeri (MG), onde fora pároco e professor da escola técnica depois de ser o desvelado pastor da Paróquia de Porto Firme por 22 anos, município de que foi um dos maiores benfeitores. Mons. Raimundo iniciou estudos eclesiásticos em 1924 com os padres barnabistas, no Rio de Janeiro, e de 1925 a 1933 foi aluno dos padres lazaristas, em Mariana, sendo ordenado a 8 de dezembro de 1933. Coadjutor, entre 1934 e 1935, do Cônego Felício de Abre Lopes, na Paróquia de Piranga, foi também capelão da Escola Normal de Viçosa até 1971, do Patronato Agrícola até 1967, tendo sido capelão também do Lar dos Velhinhos, até seus últimos dias neste mundo. Vulto célebre e benfeitor, nasceu a 11 de fevereiro de 1910, no Sítio Canteiro, comunidade do Arruda, filho primogênito do Senhor Antônio Julião Ferreira e de Dona Maria Petrina Ferreira. Monsenhor Raimundo Gonçalo Ferreira foi um vulto realmente célebre e que nunca deixará de ser assaz louvado pelas comunidades nas quais conviveu. Fez seus primeiros estudos em seu torrão natal com o não menos célebre professor Samuel João de Deus. De 1934 a 1935 foi coadjutor do Cônego Felício de Abreu Lopes, em Piranga. De Jequeri - onde fora pároco até 1963, e onde construiu a Igreja do antigo distrito viçosense de São Vicente do Grama, depois de exercer o mesmo munus de 1935 a 1955, em Porto Firme - mudou-se para Viçosa. Nomeado capelão de Sua Santidade em 1983, recebeu o Monsenhorato por Dom Oscar de Oliveira, em outubro daquele ano, no Santuário de Santa Rita. Justo é o fato de, em Porto Firme, ser ele Cidadão Honorário e nome de sua praça principal. Ali construiu a nova Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, entre 1945 e 1950, além de casa paroquial e as primeiras capelas e cemitérios das comunidades rurais, além de ter sido "o veículo de que Deus se serviu para dar impulso ao progresso" daquele município, na definição de seu sucessor na capelânia do Hospital São Sebastião, Cônego Joaquim Quintão de Oliveira. Monsenhor Raimundo foi capelão do Colégio Normal Nossa Senhora do Carmo até 1971 (quando da extinção do internato), do Hospital São Sebastião e do Lar dos Velhinhos até seu falecimento e do Patronato Agrícola Arthur Bernardes até 1967, quando assumiu a capelania deste o Pe. Pedro Rosa de Toledo. Abrigando a dor dos doentes e da velhice desamparada que o buscava, a sua presença foi confortante para os viçosenses porque sempre distribuiu bondade e compreensão. Foi pródigo em benefícios ao povo necessitado, muitos no mais absoluto anonimato, providenciando toda sorte de benesses aos vicentinos, aos internos do Lar dos Velhinhos e ao Hospital São Sebastião, do qual foi um autêntico provedor, assim se revelando em mensagens na imprensa local, relatando inclusive significativos fatos históricos do século 4º da Era Cristã, na Europa, quando a Igreja possuía hospitais e asilos, conquistando seus leitores para generosas colaborações com tais instituições, que na abalisada avaliação do Monsenhor Raimundo, correspondem "a toda sorte de doenças, necessidades e condições de vida".
Pe. Mendes, que deixou o rol dos vivos a 22/1/2002, foi orientador da Renovação Carismática Católica (RCC), fundando a Comunidade “Cenáculo do Senhor”, na Fazenda Antuérpia Mineira, no Paraíso, zona rural de Viçosa. Primeiro presidente da depois temporariamente desativada Academia Viçosense de Letras (AVL), ocupou a cadeira nº 3 a Academia de Letras de Viçosa (ALV), tendo como patrono Raul de Leoni, que, como ele, era poeta. Pároco de Alfié, Marliéria e Nova Era (MG), primeiro capelão da Universidade Rural do Estado de Minas Gerais, a partir de 1950, confirmado pela Portaria nº 440, pelo reitor Joaquim Fernandes Braga, serviu até 1985 na capela que tem como orago Santo Tomás de Aquino, no campus universitário. Pe. Mendes nasceu em Viçosa a 3/8/1914, onde aprendeu enfermagem, trabalhando na farmácia de Benjamim Araújo. Ordenado padre a 11/12/1938, tornou-se cônego em 1993. Bacharel em Direito e professor universitário, participou de órgãos colegiados e foi professor dos cursos de Economia Doméstica, Administração do Lar, Agrotécnico, do Colégio Universitário e da Engenharia Florestal, lecionando disciplinas como Política, Sociologia, Psicologia, Português, Ética, Geografia, Legislação Florestal, Administração e Literatura. Em 1954 fundou a Conferência Vicentina Santo Tomás de Aquino, a primeira no âmbito universitário, orientando, por meio dela, a duplicação da Vila Vicentina, na Rua dos Passos, 475 e a construção do Centro Profissionalizante da SSVP, na Rua Sant’Anna. Organizou a Semana Ruralista de Padres e Freiras, repassando, por intermédio dessa, princípios de Higiene, Agricultura e Alimentação. Lutou e obteve, com seu prestígio, verbas para a construção de edifícios da Universidade Rural e iniciou um trabalho extensionista que resultou na fundação e direção de dezesseis ginásios na Zona da Mata e no Sul de Minas, entre os quais o Raul de Leoni, em Viçosa, gratuito para jovens oriundos de famílias de pequena renda. Deu assistência espiritual ao Centro de Treinamento de Professoras Rurais, na antiga Colônia Agrícola Vaz de Mello, no Colégio de Viçosa, no bairro Bela Vista, no Patronato Agrícola, no distrito de Cachoeira de Santa Cruz e no Lar dos Velhinhos, foi vice-prefeito de Viçosa e um dos que mais lutaram pela construção do Hospital São João Batista, na Rua dos Passos, 1000. O Cônego Antônio Mendes desempenhou tarefas hercúleas ao trabalhar na assistência e promoção humana, sendo respeitado como cidadão de prol e líder político, inclusive tendo sido candidato a deputado. Pioneiro em diversos setores da vida social de Viçosa, foi o idealizador de um encontro para os dias de Carnaval, o Rebainho, que se transformou no Seara. Era conhecido pelo tratamento que dava a todas as pessoas de “Doutor”. Isto porque ele considerava que cada qual “é um Doutor em sua especialidade”. Sob sua orientação surgiram cursos bíblicos universitários, que culminaram em movimentos como a Pastoral da Oração de Viçosa (Pov), dentro das diretrizes do Concílio Ecumênico Vaticano II, que deu origem a uma associação, a Apov, com sede na rua Joaquim Nogueira, 235, em Nova Viçosa, dirigida inicialmente por uma mulher que teve um coração nobre e por isso deixou uma obra notável. Personalidade sem igual, que alcandorou-se em santa, foi professora Leda de Bittencourt Bandeira, nascida em Coimbra a 27/3/1936, falecida a 2/1/2003, e sepultada em Viçosa, sua fiel discípula. Teóloga, poetisa, escritora, integrou os quadros da Academia de Letras de Viçosa e muito contribuiu para o enriquecimento da literatura religiosa e infantil. Ela formou, fortaleceu e ampliou a Apov (Associação Assistencial e Promocional da Pastoral da Oração de Viçosa). Cidadã honorária de Viçosa, criou e direcionou projetos que priorizam a infância em situação de risco pessoal e social. Ela e os voluntários buscaram em estagiários da Universidade e pessoas da comunidade viçosense, o subsídio financeiro e técnico, envolvendo-os no Centro Comunitário que depois recebeu o nome dela, em Nova Viçosa, e que atende a centenas de pessoas. Mais de duas dezenas de alunos da Escola Criança Feliz, no bairro de Nova Viçosa, foram parte integrante, por sua influência pessoal, da assistência educacional das freiras carmelitas. Ali, para os que assim o desejassem, houve ensino gratuito assegurado até o Ensino Médio. Em Nova Viçosa, uma classe anexa do Ensino Fundamental, destinada a crianças carentes, em parceria com a Apov, foi considerada um fiel exemplo do trabalho proposto por Madre Maria das Neves, fundadora do Carmo. O treinamento de lideranças, campeonatos esportivos, lazer, festas folclóricas, coral e violão, afoxé, teatro, dança, tricô, crochê, corte e costura; aulas de reforço do Ensino Fundamental e Médio, alfabetização de adultos em 3 turnos, formação cultural, moral e cívica; catequese e cursos bíblicos; treinamento de agentes de saúde e atendimento num mini-posto, encaminhamentos e visitas a enfermos em domicílio, prevenção às drogas; fabricação caseira de salgados, doces, quitandas e gelados para consumo e repasse, são alguns dos “talentos” que Leda e uma grande equipe de voluntários, seguindo as diretrizes do Cônego Mendes, compartilharam com os menos abastados de Nova Viçosa e Posses. Cantina e bazar, aulas de computação, fotografia e filmagem são programas intensivos e bem administrados, realizados no salão social, e que melhoraram sobremaneira o nível de vida daquele bairro popular viçosense, surgido em 1977, ligado à Paróquia de Fátima, e que antes da Apov era praticamente desvalido.
E o Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho foi ordenado na Catedral Basílica de Mariana (MG) a 2/12/1956 e tornou-se Cônego Catedrático do Cabido Metropolitano a 3 de dezembro de 1961. Nascido a 1º/12/1933, em Viçosa, onde aprendeu as primeiras letras na escola da professora Argina Silvino Ferreira. Filósofo, especializou-se em História do Brasil e obteve certificados de cursos de extensão universitária como Jornalismo, Psicologia Dinâmica e Psicologia Experimental. Professor de História, Francês, Filosofia, Cultura Religiosa, Economia Política e Estatística, Eloqüência, Filosofia Antiga e Medieval, membro das academias Mineira, Municipalista, Marianense e Viçosense de Letras, assumiu a direção regional da Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos, sendo também membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG), da Società Internazionale Tommaso d’Aquino, da Sociedade Interamericana de Filosofia, da Academia Marial de Aparecida e da Academia de Letras e Artes Mater Salvatoris. Dirigiu o Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto (ICHS/Ufop), sendo membro da Fundação Marianense de Educação e detentor de vários títulos honoríficos. Conferencista de congressos nacionais promovidos pela Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos, e internacionais, como do Congresso Mundial de Filosofia Cristã em Córdoba, na Argentina (1979), do III Simpósio Teuto-brasileiro, em Bonn, na Alemanha (1981), do Simpósio “Os Cem Anos de Evangelização na América Latina e Centenário do Concílio Plenário da América Latina”, Cidade do Vaticano (1999), na Internet (Catolicanet) abordou temas teológicos, filosóficos, políticos e científicos e teve registrados seus trabalhos em provedores globais, sendo articulista de inúmeros jornais de circulação nacional e titular de programa semanal na Rede Católica de Rádio deste l9 95. Publicou quase duas dezenas de livros de real valor. E foram principalmente nos cursinhos de Igreja de Viçosa e em toda a periferia de sua terra natal que sempre se sobressaiu sua empatia, estabelecida e conquistada por sua presença carismática, marcante e permanente entre os grupos de jovens católicos, desde 1969.

No final do século XX, Pe. Elias Bartolomeu Leoni, natural de Pedra Bonita (MG) foi empossado pároco de Santa Rita, no dia 11/6/1999. Ordenado em Mariana a 7/7/1977, tendo dedicado um bom tempo de seu ministério sacerdotal à Alemanha, mestre em Teologia Dogmática e doutor em Teologia Fundamental em Roma, foi o sucessor imediato de Pe. Carlos. Teve como característica marcante a preocupação com a organização das comunidades paroquiais rurais e da periferia urbana. Viçosa festejou codignamente suas Bodas de Prata sacerdotais em 2002. Padre Elias esteve por um curto tempo em Viçosa. Mas também aqui deixou suas boas obras. Dele é este pensamento, para a nossa reflexão: “A inevitabilidade da morte coloca o cristão diante da provisoriedade e caducidade deste mundo, desfaz suas pretensões, pulveriza suas ilusões e o projeta nos horizontes infinitos da vida eterna. Para ele, na morte, a vida não é tirada mas transformada, e, desfeita esta habitação mortal, é-lhe concedida uma morada eterna.
Eis o motivo porque, diante da morte, o cristão jamais deve sentir medo, mas a confiante expectativa do encontro definitivo com o seu Criador, razão e objetivo de toda a sua existência”.
Com a transferência do Pe. Elias para a Paróquia de Santo Antônio, em Santa Bárbara (MG), sucedeu-o o Pe. Paulo Dionê Quintão, desde 26/8/2003. Sob sua liderança, após enriquecer com sua presença a região Sul da Arquidiocese marianense, mormente as igrejas de Ponte Nova, Barbacena e Amparo do Serra, além da comunidade de Monsenhor Horta, Pe. Paulo Dionê liderou e participou, a 19 de fevereiro de 2005, a instituição da quarta paróquia, a de São João Batista, desmembrada da Paróquia-Mãe e cujo templo principal teve a sua pedra fundamental lançada a 11 de outubro de 2008, em cerimônia presidida pelo Vigário Geral da Arquidiocese de Mariana, Monsenhor Celso Murilo de Souza Reis. Padre Dionê, mineiro de Abre Campo, membro da Academia Mantiqueira de Estudos Filosóficos, escreveu um dia esta linda mensagem: “Quando unimos nossas forças para concretizar um sonho em comum, todas as dificuldades são superadas mais facilmente. As portas se abrem, as sementes da confiança, da fraternidade e da união brotam e se transformam em uma frondosa amizade, sentimento que nos engrandece e nos torna mais próximos do Criador”.
Desde o dia 25 de setembro de 2008 Viçosa pôde contar com o Apostolado da Oração Masculino do Sagrado Coração de Jesus, por iniciativa do Pe. Dionê, ordenado na Igreja Matriz de Santana, de Abre Campo, sua terra natal, a 29 de junho de 1984, por Dom Oscar de Oliveira. Sobre ele, escreveu o Revmo. Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, um expoente do clero marianense: “Viçosa está se tornando ainda mais viçosa com a presença do Pe. Paulo Dionê Quintão, Pastor desvelado, que veio escrever seu nome na galeria dos notabilíssimos Párocos desta renomada urbe. Todos os viçosenses já se tornaram admiradores entusiastas das excelências de sua pessoa, e todos sempre a lhe dever mimos e extremos de bondade e benevolência [...] É um fidalgo na plena acepção da palavra. Ativo e brioso, íntegro e probo, detentor de um talento administrativo extraordinário, dotado de uma perseverança inflexível, de uma paciência heróica, de uma afabilidade imperturbável e uma bondade sem limites, é o protótipo do varão de crenças extremadas e de uma sabedoria excepcional. Personifica o que declarou Sêneca: 'O homem sábio não faz nada que não deva fazer, mas nem deixa de fazer o que deve'. Puritano do dever, paladino da honra, luzeiro intenso de caridade, exemplar famoso da virtude, inteligência fulgurante é ele, sem sombra de dúvidas, um luminar que tem irradiado fulgores intensos na sua trajetória de sábio sacerdote. Condecorado com inúmeras honrarias, como Diploma da Medalha da Ordem do Mérito Legislativo do Estado de Minas Gerais, de Cidadão Benemérito de Barbacena, de Cidadão Honorário de Viçosa, tem colecionado Prêmios, Títulos e Placas que tornam o seu Currículum Vitae o espelho de suas boas ações e de seu dinamismo na promoção da felicidade coletiva. Escritor, poeta, filósofo, teólogo, conferencista… é um orador claro e eloqüente, revelando-se um especialista em pregação de Retiros Espirituais para Seminaristas e Religiosas de várias Congregações, e palestras para universitários e outros estudantes de diversos níveis."
Em seu paroquiato chegaram a Viçosa as Religiosas Oblatas de Nazaré, acolhidas oficialmente na cidade em julho de 2007 e as Monjas Beneditinas, que tiveram instalado canonicamente o Mosteiro Mãe de Deus a 11 de julho de 2008, na antiga residência da família Chequer (Castelo), na Alameda Roystonea, 405, bairro Vereda do Bosque, com a presença do arcebispo de Mariana e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Geraldo Lyrio Rocha, que foram recepcionadas, em noite memorável, pela Banda do 21º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais e pela Lira Santa Rita, ao som de repiques festivos dos sinos, por dezenas de clérigos, seminaristas, representantes das santas missões populares, centenas de fiéis e autoridades municipais. "Nossa vinda para Viçosa foi como uma 'Tocha Olímpica'. Primeiramente passou pelas mãos de Madre Vera Lúcia, do Mosteiro Nossa Senhora de Guadalupe, (São Mateus), que a entregou aos Oblatos Marcos e Simone, em seguida ao Padre Paulo Dionê, Lúcia Molica e, finalmente, chegou às mãos paternais do Arcebispo Dom Geraldo Lyrio Rocha que vibrou e fez acontecer," relataram em crônica as monjas, inicialmente e número de sete e uma oblata claustral. "A Santa Missa teve início às 19h30, no Santuário Santa Rita, onde havia uma grande faixa na entrada, dando-nos as boas-vindas. Duas Bandas de Música faziam relembrar nossa infância. Entramos em procissão com os concelebrantes, diáconos, ministros e o presidente da celebração, Dom Geraldo Lyrio Rocha. O povo cantava ao som do órgão, de dois violinos e uma flauta transversal; parecia a "ante-sala" do céu, pois a presença de Deus, da Mãe, dos Anjos e Santos se misturava com o ritmo da dança do incenso.
As saudações iniciais foram proferidas pelos oblatos do Mosteiro de São Mateus: Marcos (Irmão Bento) e sua esposa Hilda Simone (Irmã Plácida) que residem atualmente em Viçosa.
Assim disseram: 'Reunimo-nos neste Santuário para a celebração da Instalação Canônica do Mosteiro Mãe de Deus, da Congregação Beneditina do Brasil. A chegada das Monjas Beneditinas em nossa Arquidiocese é um sinal do chamado de Deus à conversão de nossos costumes. Pelo labor da obediência, orientemos a nossa vida para Cristo"'
A Homilia do Sr. Arcebispo foi extasiante. Foram enaltecidas: a vida de São Bento e a Ordem Beneditina", prossegue a crônica.
As Oblatas trabalharam no projeto do Centro de Educação Infantil Santa Rita de Cássia, na rua Marly Azevedo, 13/37, centro, e atuaram, desde sua acolhida em Viçosa, também na Pastoral Vocacional, dentre outras atividades de cunho pastoral e missionário. A decisão das Oblatas de aceitar o convite de Pe. Paulo Dionê foi no dia 20 de janeiro de 2007. Viçosa tornar-se-ia, a partir daquele instante, a segunda casa desta congregação no Brasil. A primeira fora a da cidade de Petrópolis (RJ), no Instituto das Irmãs Oblatas de Nazaré (Creche São José das Oblatas de Nazaré) sediado na Rua Olavo Bilac, 815, Castelânea, atendendo a crianças a partir dos dois anos de idade, integrando-se ao Sistema Municipal de Ensino daquela cidade fluminense. O trabalho desenvolvido em Viçosa é nos mesmos moldes do de Petrópolis. Conforme bem destacou o Pe. Marcelo Moreira Santiago, ex-Vigário Geral da Arquidiocese de Mariana, em 2007, na condição de administrador diocesano, a presença “honrosa e serviçal” das Oblatas é “de grande estímulo e valioso auxílio em favor do nosso povo”, abrindo “perspectivas novas de tantas iniciativas como do trabalho de creche e de pensionato, colaboração e atendimento à obra vocacional” da congregação. Elas chegaram no ano de 2007 na Cidade de Viçosa, reforçando e estimulando ainda mais a equipe de atuantes clérigos e leigos que trabalham na Pastoral do Menor de Viçosa, que intensamente promovem e defendem a vida das crianças e adolescentes empobrecidos e em situação de risco quanto à garantia de seus direitos fundamentais. Conforme o “Semeando”, informativo da Paróquia de Santa Rita (ano VII, nº 89, de julho de2007), a instituição religiosa Oblatas de Nazaré foi fundada na Itália, em 1950 e depois passaram a trabalhar com Colônia de Férias, surgindo desse trabalho as primeiras creches, casas de noviciado e várias pastorais. As Oblatas de Nazaré também estão presentes na África e na Índia.
Sacerdotes cooperadores da Paróquia de Santa Rita, durante o paroquiato do Pe. Dionê, foram, além dos já citados, os Cônegos Joaquim Quintão de Oliveira e Pedro Lopes da Silva. Este Cidadão Honorário de Viçosa, descendente de uma das mais tradicionais famílias mineiras (Ana Cabral Câmara e Antônio Álvares Ferreira), que, no século XVIII estabeleceu-se em Calambau (hoje Presidente Bernardes), oriunda de São João do Morro Grande, hoje Barão de Cocais. Sua vocação foi fomentada pelo saudoso Monsenhor Raimundo Gonçalo Ferreira, em Porto Firme, quando foi seu coroinha, e de quem é sucessor como capelão do Hospital São Sebastião. Ele tem como lema "Eis que venho, ó Deus, fazer a Vossa vontade" (Hb 10,9). Nascido a 5 de junho de 1922, em Porto Firme, ordenado em Mariana, seu sacerdócio tem marcado as cidades de Piranga (1950-1951), Diogo de Vasconcelos (1951-1963), Ponte Nova (1964. 1966-1967), Barbacena (1965), Mariana (Seminário – 1967-1971), Barra Longa (1971-1979), Guaraciaba (1978-1998), Viçosa e Teixeiras, nestas desde 1998, e onde granjeou uma legião de amigos, por seu acolhimento e disponibilidade em tempo integral a todos os que o procuram. O Cônego Pedro, falecido a 3 de janeiro de 2008 sepultado no Cemitério Dom Viçoso (jazigo nº 39), descendia de uma das mais tradicionais famílias de Viçosa, onde nasceu a 28 de junho de 1927. Figurou entre os primeiros padres ordenados no Santuário de Santa Rita, a 12 de dezembro de 1953. Filho de Manoel Lopes da Silva e de Francisca Paulina da Silva (Dona Quita), sobrinho do Cônego Francisco Lopes da Silva Reis (Padre Chiquinho), que o encaminhou e ajudou em sua vida de seminarista em Mariana, como ele costumava sempre divulgar à comunidade católica, o Cônego Pedro foi, em seus primeiros anos de sacerdote, pároco auxiliar de Ponte Nova, depois pároco de Tabuleiro do Pomba (Paróquia do Senhor Bom Jesus da Cana Verde), de Nossa Senhora da Conceição em Senador Firmino e Porto Firme, e em Rio Doce como titular da Paróquia de Santo Antônio. Admirado por sua simplicidade, alegria e bondade, pois, como se ressaltou, "falava a linguagem dos paroquianos e nunca se esquecia de uma brincadeira para descontrair", seu espírito de humildade e fino humor foram suas inconfundíveis características pessoais, que marcaram a vida de quantos conheceram e conviveram com o Cônego Pedro, e que fizeram dele uma pessoa benquista em todos os lugares por onde passou. Foi o seu sacerdócio, em primeiro lugar, o que o fez alvo de tantas homenagens. E não menor foi a amizade que todos lhe devotaram porque se o sacerdócio é obra exclusiva de Deus, o carinho e a consideração a ele dedicadas foram merecidas, especialmente por conta de seu espírito firme e forte. Pela sua abertura de alma. Por seus ideais. Foi Dom Luciano Mendes de Almeida quem o classificou como "Anjo da Guarda do clero marianense".
Foram Vigários Paroquiais, ainda no paroquiato do Pe. Dionê, o Pe. Lindomar José Bragança, ex-pároco de Ressaquinha (MG), e o Pe. José Cassimiro Sobrinho, ex-pároco de Senador Firmino (MG). Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Santa Cruz, de Roma, nomeado o primeiro capelão do Mosteiro das Beneditinas, Pe. José Cassimiro exerceu as funções de Chanceler do Arcebispado de Mariana, professor no Seminário Maior São José, de Mariana, e no Seminário Maior Dom José André Coimbra, de Patos de Minas, além de Vigário Paroquial da Catedral de Mariana.

Paróquia de Nossa Senhora

A Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Fátima foi instituída a 13/5/1975, portanto ainda no paroquiato de Pe. Carlos dos Reis. Seu primeiro pároco foi o viçosense Pe. Geraldo Martins Paiva, nascido em 8/8/1925 e falecido a 26/8/2001, sepultado em Viçosa após 20 anos de pároco de N. Sra. Fátima e vigário cooperador de Santa Rita entre 1959 e 1964. O terreno onde se encontra a Matriz de Fátima, na praça José Sant’Anna, foi doado pela família Fontes. Empossado ali a 15/6/1975, coube ao padre Geraldo Paiva a tarefa de liderar uma campanha gigantesca junto ao seu fiel rebanho para que fosse feita a terraplanagem da área onde, com armação feita de eucalipto e de bambu e revestimento de folhas de coqueiro, foi construída a primeira versão da Igreja Matriz, com 800m² de área útil para acolher mais de mil pessoas.Simpatia, dedicação e capacidade de trabalho foram alguns de seus atributos. E “ao lado de construir a Igreja-templo, nunca se esqueceu de construir a Igreja-comunidade... Estava disponível e acessível ao povo a qualquer hora, em qualquer lugar... inclusive gostava de visitar os enfermos nos hospitais”, de acordo com LADEIRA (nº?). “Todos ficávamos encantados como ele conseguia ajuda material do povo, quando se sabia que não era de ficar com peditórios”, realça o cronista, acompanhado por ALVES (n°?): “Só sabe distribuir bondade, compreensão, entendimento. Palavras medidas, e poucas, ouvidos abertos para as queixas, recursos vários para ajudar a alguém que esteja meio tonto no meio do caminho; mão estendida a quem dele solicitar e, às vezes, de pronto, até sem solicitação, ele se achega daquele que precisa, diz algumas poucas palavras sensatas, coloca ternamente a mão sobre a cabeça do indeciso, e seu ‘vai em paz, Deus está com você’, passa uma paz tão grande, dá uma certeza tamanha, que o indeciso sente a força divina, apruma a cabeça pendida, sorri para o amanhã, e acredita” [...] Num bairro grande, afastado, construiu a Matriz de Nossa Senhora de Fátima, nome do bairro que ele tornou nobre, grande, conhecido, graças à força com que se empenhou em erguer uma Igreja, sem pompas, sem dourados, mas a Igreja da fé, da constante presença dos fiéis em busca do Padre que a todos acolhe com a mesma atenção, o mesmo carinho. Chegou ao Hospital São João Batista, por designação sábia de Dom Luciano, na condição de Capelão e que presença alentadora é a sua visita aos enfermos, seu carinho com os que trabalham; à missa rezada semanalmente acorrem os devotos de São João Batista, os amigos do Hospital, os pacientes, os familiares. Para todos, o mesmo padre simples tem uma palavra de alento, de amizade”.
Cinco mil pessoas participaram de suas exéquias. Ordenado na Sé Catedral de Mariana a 30/11/1956?8?, celebrara sua primeira missa cantada no Santuário de Viçosa a 7/12 daquele mesmo ano. Pároco de Jequeri, de Pedra do Anta e de Calambau, capelão em Viçosa do Patronato Agrícola, Colégio Normal e Hospital São Sebastião, atuou em toda a dimensão pastoral além do soerguimento do templo físico. Fez-se a terraplanagem e em pouco tempo, com armação de eucalipto e bambu e revestimento de folhas de coqueiro, estava erguida a primeira versão da Igreja de Nossa Senhora. Sua grande disponibilidade e facilidade de comunicação conquistaram seus paroquianos, possibilitando a construção da moderna Matriz. Seus colegas de sacerdócio compararam seu perfil ao de São João Maria Vianey. Humilde, paciente, acolhedor, carismático, simples, sempre presente nas atividades de setores vários da vida de Viçosa, fiel à missão de pastor, era figura indispensável, essencial, na vida comunitária. Foi um ser humano “autêntico, comunicativo, alegre a amigo”, na opinião unânime de seus paroquianos. Padre Geraldo Martins Paiva foi um sacerdote “expansivo, caritativo, prático e operoso [...], sua santidade existencial era irradiante; seu zelo pastoral, ardente; sua sinceridade, atraente; seu tino administrativo, inigualável; seu devotamento à Igreja, ininterrupto; sua vida ilibada, brilhante como o sol”, na sábia definição de seu colega no Seminário de Mariana e conterrâneo Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho. Seus colegas de sacerdócio compararam seu perfil ao de São João Batista Maria Vianey. Padre Geraldo foi sucedido pelo padre Geraldo Francisco Leocádio.
A devoção a Nossa Senhora do Rosário teve seu primeiro marco em Viçosa em 1834, com a construção de sua primeira igreja no Largo do Rosário. Demolida em 1899, teve a sua reconstrução concluída em 1924, mas em agosto de 1965 sua segunda versão foi demolida, durante o arcebispado de Dom Oscar de Oliveira. Muitas das incipientes povoações da Mata Mineira eram dotadas, inicialmente, de duas igrejas. Uma delas geralmente tinha, necessariamente, como orago, Nossa Senhora do Rosário. Eram nelas que os escravos tradicionalmente realizavam o cerimonial de coroação do casal-rei do Congado, com seus capacetes e coroas enfeitados com fitas multicoloridas e pedaços de espelho, com a sua corte de instrumentistas formada pelo capitão-do-meio, secretário, vassalos, bamba e dançarinos, e com uma bateria em ritmo sincopado, cantoria, embaixadas e passos característicos. Em Viçosa, o último clérigo a celebrar missa na capela localizada, até 1963, no centro do jardim da atual Praça do Rosário foi o Cônego Francisco Lopes da Silva Reis (Padre Chiquinho), nascido a 30/11/1868, falecido a 22/4/1951 e sepultado no túmulo nº 7 do velho cemitério de Viçosa. Ele veio morar nesta cidade após servir como pároco, por longos 41 anos, da cidade mineira de Calambau, onde fora, como asseveram seus coetâneos, um amoroso apóstolo e verdadeiro instrumento de paz, perdão, união, educação, força moral, meditação, estudo, oração, ascese, mística e muita fé. Ordenado sacerdote a 19 de abril de 1896, Padre Chiquinho era filho de Francisco Lopes de Faria Reis e de Antônia Maria da Conceição. Teixeiras, velho distrito viçosense, foi a sua primeira paróquia, desde a ordenação até 1900, sucedendo aos padres Joaquim José Fernandes de Godoy (1881/82) e Anastácio Azevedo Correia de Barros (1892/95). Ali, sucederam-lhe os padres Antônio Moreira de Carvalho (1900/03), João Gomes Rodrigues (1903/08), Celestino Cesarini (1906/08), Antônio Moreira de Carvalho, Belchior Homem da Costa (1908), Antônio Carlos de Souza (1908/40), José Alves de Freitas (1940), Luiz Gonzaga da Silva (1940/41), João Silvestre Alves de Souza (1941/47), Carlos Antônio de Souza (substituto), Geraldo Valadares (1947/51), Napoleão Lacerda de Avelar (1951/88) e Sebastião Luiz Nogueira, a partir de 1988. Seu sobrinho, Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, destaca a grande devoção do Padre Chiquinho à Eucaristia e a Nossa Senhora. "Muito dedicado à família, todo mês de agosto passava as férias em Viçosa, celebrando Missas nas diversas fazendas dos parentes as quais ficavam à margem da atual rodovia asfaltada na direção de Coimbra. Ele sempre teve também a seu lado aqui em Viçosa Joaquina Francisca dos Reis (Da. Quininha), sua irmã, que residia na Fazenda Bonsucesso", de José Batista da Silva Araújo (Duca Araújo). Residindo na Praça do Rosário, 15, com seu sobrinho Dr. Christovam Lopes de Carvalho, "todas as tardes reunia um grupo de pessoas para a recitação do terço. Enquanto pôde nunca deixou de rezar o Ofício divino, sendo que, quando sua vista não mais o ajudou, ele passava horas e horas rezando o terço, tanto que no final de sua vida havia uma funda marca entre o seu dedo indicador e o polegar por onde passavam as contas dos diversos mistérios", recorda-se o Cônego Vidigal, acrescentando que o alpendre do majestoso sobrado do capitão Joventino Alencar "era o lugar preferido para recitar suas orações. Quando veio definitivamente para Viçosa trouxe seus livros pelos quais se pode aferir sua notável cultura humanística, filosófica, teológica, Entre as obras que o Cônego José Geraldo conserva na sua vasta Biblioteca, sejam citadas as de Massillon, de Bourdaloue, de Lacordaire, de Monsabré, de Columba Marmion, de Monte Alverne, do grande moralista Aertnys, do Pe. Antônio Vieira, do Pe. Manuel Bernardes, Código do Direito Canônico e comentários sobre o mesmo, obras dos clássicos latinos como Cícero e Virgílio, os Lusíadas de Camões, Manuais de História da Igreja, de Filosofia, comentários sobre textos de Santo Tomás de Aquino. A maioria destes livros são da década de 1840, muitos em francês e latim, o que mostra que, mesmo antes de sua ordenação, ele já se dedicava com afinco aos estudos. Encaminhou muitos jovens para o Seminário de Mariana, sendo que chegaram ao sacerdócio Mons. Joaquim Dimas Guimarães, Pe. Francisco Miguel Fernandes, Pe. José Quintão Rivelli, Pe. Pedro Maciel Vidigal. Indiretamente, pela sua piedade e santidade existencial no término de sua trajetória terrena, muito influenciou na vocação sacerdotal de seus sobrinhos Côn. Pedro Lopes da Silva, Pe. José Silvério Carvalho Araújo, Pe. José Eudes de Carvalho Araújo e Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho. A fidelidade à Igreja Católica por parte da família Lopes Carvalho é, sem dúvida, em grande parte, devido aos exemplos do Côn. Francisco Lopes da Silva Reis, o saudoso Pe. Chiquinho. Muitos são aqueles que, visitando seu túmulo no Cemitério D. Viçoso, têm obtido graças especiais por sua intercessão junto do trono de Deus," conclui o Cônego Vidigal.

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São poucas as informações sobre antigos párocos e curas. Não chegaram aos tempos atuais sequer litografias retratando as figuras humanas de alguns desses clérigos que serviram ao povo viçosense. Perdidas estão, suas vozes e fisionomias, na bruma de um tempo que ficou pra trás. Imprimiram todos eles, certamente, indelével marca na espiritualidade dos nossos ancestrais. E se não chegarão aos dias futuros o que foi um pouco da vida de tão ilustres ministros sagrados, é certo que, conforme a crença de que Cristo vive, eles descansam para sempre sob a luz infinita da divina face Daquele que, segundo o evangelista, afirmara um dia a seu discipulado:

“Os céus e a terra passarão, mas as Minhas palavras não passarão” (Evangelho segundo São Mateus - Capítulo 24, versículo 35.)



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ELITE POLÍTICA: notícias de governantes

GOVERNANTES DE VIÇOSA

PRESIDENTES DA CÂMARA
(DO REGIME IMPERIAL PARA O REPUBLICANO)

Manuel Bernardes de Souza Silvino (1873-1876/1879-1881)
Carlos Vaz de Mello (1877-1878/1887-1891)
João Lopes de Faria Reis (1882-1886)

PRESIDENTE DO CONSELHO DE INTENDÊNCIA, PRESIDENTE DA CÂMARA COM ATRIBUIÇÕES LEGISLATIVAS E EXECUTIVAS E AGENTE EXECUTIVO AUTÔNOMO DESDE 24/7/1894 (RESOLUÇÃO Nº 110), QUANDO SE EXTINGUIU O CONSELHO DO DISTRITO-SEDE

José Theotônio Pacheco (1892-1897)

PRESIDENTES DA CÂMARA E PREFEITOS NOMEADOS NO REGIME REPUBLICANO

Francisco Machado de Magalhães Filho (1898-1905)
Francisco José Alves Torres (1899) - Vice-presidente da Câmara em exercício
Arthur da Silva Bernardes (1906-1907)
Augusto José Nicácio (1906-1907) - Vice-presidente da Câmara em exercício
Emílio Jardim de Resende (1908-1912)
Joventino Octavio de Alencar (1911) - Vice-presidente da Câmara em exercício
José Ricardo Rebello Horta (1912-1915/1916-1918/1933)
Antônio Gomes Barbosa (1919-1927)
João Braz da Costa Val (1927-1930/1937-1943)
Álvaro Corrêa Borges (1931)
Anelio Salles (1932-1933)
Antonelli de Carvalho Bhering (1934-1936)
Arnaldo Dias de Andrade (1936)
Cyro Bolivar de Araújo Moreira (1936-1937)
Sylvio Romeo Cezar de Araújo (1943 a 1945)
José Martins Palhano (1945-1946)
Carlos Vaz de Mello Megale (1947)

PREFEITOS E VICE-PREFEITOS E INTERVENTORES APÓS O ESTADO NOVO

José Lopes de Carvalho (1948-1950)
VICE: Carlos Vaz de Mello Megale

José da Costa Vaz de Mello (1951-1954)
VICE: Antônio Dias de Andrade Neto

João Francisco da Silva (1955-1958)
VICE: Arnaldo Dias de Andrade

Raymundo Alves Torres (1946/1947/1959-1962)
VICE: Moacyr Dias de Andrade

Moacyr Dias de Andrade (1963-1966)
VICE: César Sant'Anna Filho

Geraldo Lopes de Faria (1967-1969)
VICE: Carlos Raymundo Torres
Abel Jacinto Ganem Júnior (1969-1970) - Interventor

Carlos Raymundo Torres (1971-1972)
VICE: Arlindo de Paula Gonçalves

Antônio Chequer (1973-1976)
VICE: Antônio Mendes

César Sant'Anna Filho (1977-1982)
VICE: Renato Sant'Anna

José Américo Garcia (1983-1988)
VICE: José Borges Neto
Lacyr Dias de Andrade (1986) - Interventor
Geraldo Eustáquio Reis (1986) - Interventor

José Ferreira Pontes (1986) - Presidente da Câmara no exercício da Prefeitura
Roberto Proença Passarinho (1988) - Presidente da Câmara no exercício
da Prefeitura

Antônio Chequer (1989-1992)
VICE: Ary Teixeira de Oliveira
Ary Teixeira de Oliveira (1989) - Vice-prefeito no exercício da Prefeitura

Geraldo Eustáquio Reis (1993-1996)
VICE: César Sant'Anna Filho

César Sant'Anna Filho (1995) - Vice-prefeito no exercício da Prefeitura

Antônio Chequer (1997)
VICE: Fernando Sant'Ana e Castro

Fernando Sant'Ana e Castro (1997-2000)

Fernando Sant'Ana e Castro (2001-2004)
VICE: Raimundo Nonato Cardoso

Raimundo Nonato Cardoso (2005-2008)
VICE: Wesley Augusto Salomé de Castro

Raimundo Nonato Cardoso (2009-2010)
VICE: Lúcia Duque Reis

Celito Francisco Sari (2010-
VICE: Dirceu Teixeira Coelho


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A EDILIDADE VIÇOSENSE (1877-2010)


A cronologia dos mandatos dos agentes executivos e deliberativos até 2010 e outras informações, acrescidas de outras aqui publicadas permitem, evidentemente, análises as mais variadas sobre os diversos aspectos desses períodos administrativos, especialmente quanto à influência exercida pelas lideranças em todos os tempos, antes, durante e após os sucessivos desmembramentos territoriais devidos às emancipações distritais, desde os primórdios até a hora presente. Por uma análise primária da mera cronologia dos mandatos aqui apresentada não se consegue aferir o tempo exato de permanência individual no cargo de vereador. Muitos nomes apresentados são de suplentes, que tiveram que completar os mandatos de seus titulares. O recordista em termos de tempo de vereança ainda não suplantado no princípio do século XXI seria Geraldo Hélio dos Santos, reeleito sucessivas vezes pelo voto direto, mas há cidadãos que podem ter exercido o cargo por mais tempo que ele, como Arnaldo Dias de Andrade e Antõnio de Pádua Bittencourt.
Não é o propósito do presente trabalho aprofundar na questão, dada a sua alta complexidade. Ao compulsar as referências à cronologia dos desmembramentos dos distritos viçosenses, neste trabalho, o caro leitor poderá fazer uma melhor análise comparativa. As linhas infra trazem a lista da edilidade viçosense, que é a que conseguimos apurar nos arquivos do Legislativo (1877–2010) e também em velhos jornais e acervos públicos e particulares, numa minuciosa verificação cruzada.
Cabem aqui algumas observações: entre 1882 a 1886 consta como presidente o cidadão João Lopes de Faria Reis, que concentrava atribuições deliberativas e executivas. Não conseguimos localizar, portanto, até onde pudemos levar nossas pesquisas, nos registros documentais a que tivemos acesso, nos arquivos originais, livros de atas e de leis, da Câmara Municipal de Viçosa e da Prefeitura Municipal de Viçosa, quaisquer nomes de edis. O regime de intendência vigorou tendo como titular, em Viçosa, o marechal Dr. José Theotônio Pacheco, que governou o município de 1892 a 1897, até a extinção do Conselho do Distrito-Sede. No Estatuto da Câmara da Cidade Viçosa, promulgado em seu período administrativo (1894 - Tipographia da "Cidade Viçosa"), previa-se mandato trienal ao agente executivo (artigo 25 da "Secção Segunda") e a existência de "dous poderes: deliberativo e executivo, harmonicos e independentes" (artigo 3), "órgãos da soberania do Povo do Município da Viçosa, no exercício da administração municipal". Na "Secção Primeira", capítulo I", em relação ao Poder Deliberativo, o número de 11 vereadores, sendo "oito especiais e tres geraes", representando os distritos de Viçosa, Coimbra, Teixeiras, Anta, S. Miguel, Araponga, S. Vicente do Gramma e Herval. Nos arquivos, localizamos apenas 10 nomes durante o governo dele, em que, pela Lei nº 110, de 24/7/1894, foi criado o cargo de Agente Executivo Autônomo. O artigo 47 desta legislação municipal rezava serem empregados municipais o "Director da Secretaria" da Câmara, o "Official da Secretaria" e o "Porteiro da Cãmara", nomeados; e empregados do agente executivo "o procurador, collector de impostos e seus agentes, os fiscais e guarda-fiscaes". Dentro de uma relação dos maiores contribuintes de impostos, era então organizada a lista dos membros à Assembléia Municipal (artigo 49 do Estatuto da Câmara).
Nos períodos compreendidos entre 1931 e 1935 e de 1937 a 1947, a inexistência da vereança se explica pelas resoluções a que já nos referimos. A 18/8/1935 foi instalada a Assembléia Legislativa de Minas Gerais, e em 1936 Viçosa tinha 16 vereadores, sob a presidência do Dr. Juarez de Sousa Carmo. Essa situação do Legislativo funcionando não perdurou, pois a 10/11/1937 as suas atividades foram novamente suspensas. A democracia seria restabelecida, parcialmente, a 2 de dezembro de 1945.
Da primeira formação da Câmara, EM 1873, localizamos 7 nomes de vereadores; na segunda formação, 9 membros, e na terceira, 12 componentes. Entre 1898 e 1905, aparecem, nos registros, 45 nomes (governo Francisco Machado). E logo em seguida o número dos edis passa a variar de 12 a 21, até a década de 1930. E desde o final da década de 1940 os camaristas variaram de 11 a 19, contando-se os suplentes que assumiram mandatos.
Eis a lista, até o presente momento a mais completa possível, em sua mais perfeita ordem cronológica e alfabética:

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Manuel Bernardes de Souza Silvino - Presidente - (1873-1876)

MEMBROS

Antônio Pinto de Miranda
João Braz da Costa Val
Joaquim Gonçalves Fontes
Joaquim de Oliveira Ribeiro
José Lopes de Faria Reis
Manuel Bernardes de Souza Silvino
Pedro Nolasco da Silveira

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Carlos Vaz de Mello - Presidente - (1877–1878)

MEMBROS

Carlos Vaz de Mello
Christiano Eugênio Dias de Carvalho
Francisco José da Silva Cardozo
Joaquim Lino de Freitas e Castro
José Cardoso Dias
José Soares de Souza Lima
Manuel Bernardes de Souza Silvino
Manoel Isidoro da Silva Ramos
Silvestre Lopes de Faria Reis

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Manuel Bernardes de Souza Silvino - Presidente - (1879–1881)

MEMBROS

Francisco dos Reis Condé
Francisco José da Silva Cardozo
Francisco Lopes de Faria Reis
João Lopes de Faria Franco
José Cardoso Dias
José Lopes de Faria Reis
José Soares de Souza Lima
Luiz Mendes dos Santos Júnior
Manuel Bernardes de Souza Silvino
Manoel Isidoro da Silva Ramos
Nuno Teixeira Laje
Silvestre Lopes de Faria Reis

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João Lopes de Faria Reis - Presidente (1882-1886)

MEMBROS

Não há registro de nomes de vereadores durante sua presidência nos arquivos da Cãmara.


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Carlos Vaz de Mello - Presidente - (1887-1891)

MEMBROS

Antônio da Silva Araújo
Antônio Francisco de Souza Lima
Antônio Manoel de Freitas
Antônio Moreira Faria
Carlos Vaz de Mello
Joaquim Fellipe Galvão
José Eugênio Dias de Carvalho
Lauriano José de Gouvêa

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José Theotônio Pacheco - Presidente - (1892-1897)

MEMBROS

Antônio Correia Lima
Augusto José Nicácio
Carlos Pinto Coelho
Francisco José da Silva Cardozo
José Pereirinha de Rezende
José Theotônio Pacheco
Manoel Vieira de Andrade
Mário Vaz de Mello
Theopisto de Bittencourt Godinho
Vicente Gonçalves Fontes Sobrinho

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Francisco Machado de Magalhães Filho - Presidente -(1898-1905)

MEMBROS

Antônio Caetano Rodrigues de Barros
Antônio Lopes Soares Valente
Antônio Manoel de Freitas
Antônio Pádua Bittencourt
Antônio Pereira Baptista
Antônio Thomé dos Santos Phires
Antônio Tomé Teixeira
Arnaldo Dias de Andrade
Arthur da Silva Bernardes
Augusto José Nicácio
Augusto Maximiano de Carvalho
Dirceu Rodrigues de Salles
Fernando Augusto Medina
Fortunato Anastácio de Souza
Fortunato Antônio da Silva
Francisco Albino da Silva Vianna
Francisco Augusto Spinola
Francisco de Assis Bello
Francisco José Alves Torres
Francisco José da Silva Cardozo
Francisco Machado de Magalhães Filho
Hermenegildo de Souza Lima
João Coutinho
João Ferreira da Silva
João Jacovini
Joaquim Lopes de Faria
Joaquim Lopes Moreira
Jorge Gomes da Silva Roza
José Antônio Barboza
José Antônio de Oliveira
José Guedes de Bittencourt
José João Carneiro
José Joaquim Lourenço Júnior
José Manoel da Silva
José Theotônio Pacheco
José Tinoco
Lúcio de Vilhena
Manoel Ferreira Pinto
Manoel Joaquim Teixeira Lima
Manoel L. Jorge Júnior
Messias Nonato de Queiroga
Onofre Lannes
Raphael da Silva Araújo
Sebastião Tito Lopes de Sá
Vicente Gonçalves Fontes Sobrinho

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Arthur da Silva Bernardes - Presidente - (1906-1907)

MEMBROS

Antônio Manoel de Freitas
Antônio Pádua Bittencourt
Antônio Tomé Teixeira
Arnaldo Dias de Andrade
Arthur da Silva Bernardes
Augusto José Nicácio
Custódio Lopes Soares
Emílio Jardim de Resende
João Alves Ladeira
João Ferreira da Silva
João Jacovini
Joaquim Felippe Galvão
Joaquim Pedro de Oliveira
José da Silva Araújo Júnior
José João Carneiro
José Theotônio Pacheco
Joventino Octavio de Alencar
Silvestre Lopes de Faria Reis

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Emílio Jardim de Resende - Presidente - (1908-1912)

MEMBROS

Antônio Pádua Bittencourt
Arnaldo Dias de Andrade
Custódio Lopes Soares
Emílio Jardim de Resende
Heráclito da Costa Val
João Alves Ladeira
João dos Anjos de Macedo
Joaquim Pedro de Oliveira
José Antônio Savino
José Antunes Moreira
José da Silva Araújo Júnior
José Ricardo Rebello Horta
Joventino Octavio de Alencar
Olympio Castro de Rezende
Silvestre Lopes de Faria Reis
Synfronino José de Almeida

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José Ricardo Rebello Horta - Presidente - (1912-1915/1916-1918)

MEMBROS

Amadeu de Souza Freitas
Antônio Brandão de Rezende
Antônio Pádua Bittencourt
Arnaldo Dias de Andrade
Custódio Lopes Soares
Emílio Jardim de Resende
Heráclito da Costa Val
João Baptista da Silva Júnior
José Antônio de Oliveira
José Antônio Savino
José Antunes Moreira
José da Silva Araújo Júnior
José Ricardo Rebello Horta
Manoel Lopes da Silva
Olympio Castro de Rezende
Raphael da Silva Araújo
Sebastião Tito Lopes de Sá

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Antônio Gomes Barbosa - Presidente (1919-1926)

MEMBROS

Adalberto Sabino da Cruz
Agenor Alvim de Souza e Silva
Alceu Lopes de Faria
Antônio Ângelo Fialho de Oliveira
Antônio Brandão de Resende
Antônio Gomes Barbosa
Antônio Pádua Bittencourt
Arnaldo Dias de Andrade
Benvindo dos Anjos Macedo
Carlos Cunha
Emílio Jardim de Resende
Ernesto Lopes Soares
Honório Vieira de Andrade
João Braz da Costa Val
José Antônio de Oliveira
José Antunes Moreira
José Canuto Torres
José Teixeira de C. e Silva
José Victorino da Cunha
Pedro Pereira Santiago
Raphael da Silva Araújo

João Braz da Costa Val - Presidente - (1927-1930)

MEMBROS

Antônio Brandão de Rezende
Antônio Pádua Bittencourt
Arnaldo Dias de Andrade
Ernesto Lopes Soares
Francisco Miguel Archanjo
Gabriel Elias Pereira
João Braz da Costa Val
Joaquim Barbosa de Castro Filho
José da Silva Araújo Júnior
José Antunes Moreira
Manoel Fialho de Freitas
Ragosino Ferreira da Silva Pinto

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CAMARISTAS COM ATRIBUIÇÕES EXCLUSIVAMENTE LEGISLATIVAS

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Juarez de Sousa Carmo - Presidente - (1936-1937)

PREFEITOS

Antonelli de Carvalho Bhering, Arnaldo Dias de Andrade
Cyro Bolivar de Araújo Moreira (1º prefeito do governo municipal biorgânico)

MEMBROS

Antônio Lopes Soares
Arnaldo Dias de Andrade
Christiano de Freitas Castro
Christóvam Lopes de Carvalho
Cláudio José Mariano da Rocha
Gabriel Elias Pereira
João Francisco da Silva
João Maffia
Joaquim Nogueira
José Albino Leal
José Paulino de Rezende
Juarez de Sousa Carmo
Pérmio Fialho de Oliveira
Ragosino Ferreira da Silva Pinto
Raphael da Silva Araújo
Silvestre Alves Ladeira

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Octávio da Silva Araújo - Presidente - (1948-1950)

PREFEITO: José Lopes de Carvalho
VICE: Carlos Vaz de Mello Megale

MEMBROS

Alberto Álvaro Pacheco
Almiro da Silva Pontes
Antônio Faria Lopes
Antônio Pereira Soares
Arnaldo Dias de Andrade
Dorvino Coelho Soares
Francisco de Souza Fortes
João Francisco da Silva
João Maffia
Joaquim Nogueira
José Geraldo Santana Gomide
José Pereira Lélis
Mário Dutra dos Santos
Octávio da Silva Araújo
Silvestre Alves Ladeira

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Felício Brandi - Presidente - (1951-1954)

PREFEITO: José da Costa Vaz de Mello
VICE: Antônio Dias de Andrade Neto

MEMBROS

Alfredo Soares do Carmo
Antônio Gonçalves de Oliveira
Antônio Lopes Moreira
Antônio Pereira Soares
Arnaldo Dias de Andrade
Clibas Vieira
Deusdedith Lopes Nogueira
Dorvino Coelho Soares
Felício Brandi
Geraldo Lopes de Carvalho
José Brumano
José dos Santos
José Fausto de Castro
José Lopes Soares
Mário Dutra dos Santos
Moacir Ladeira
Oscar Rodrigues Milagres

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Arlindo de Paula Gonçalves - Presidente - (1955-1958)

PREFEITO: João Francisco da Silva
VICE: Arnaldo Dias de Andrade

MEMBROS

Almiro Fialho de Freitas
Antônio Maffia
Antônio Rodrigues Pontes
Arlindo de Paula Gonçalves
Carlos Vieira Machado
César Sant'Anna Filho
Francisco Lopes da Silveira Filho
Heitor Lopes Rosado
Moacir Ladeira
Otaviano Couto
Raymundo Alves Torres

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Sebastião Lopes de Carvalho - Presidente - (1959-1962)

PREFEITO: Raymundo Alves Torres
VICE: Moacyr Dias de Andrade

MEMBROS

Altamiro da Conceição Saraiva -
Antônio Chequer
Antônio Lopes de Freitas
Antônio Rodrigues Pontes
Cornélio Borges Coelho
Geraldo Rodrigues Cunha
José Rodrigues de Souza
Marina Viana Fontes
Michel Abraão Daibes
Omar Orlando
Oswaldo de Paula Lana
Sebastião Lopes de Carvalho
Sebastião Milagres

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Altamiro da Conceição Saraiva - Presidente - (1963-1966)

PREFEITO: Moacyr Dias de Andrade
VICE: César Sant'Anna Filho

MEMBROS

Altamiro da Conceição Saraiva
Antônio Augusto de Araújo
Antônio Chequer
Francisco Lopes da Silveira Filho
Geraldo Hélio dos Santos
Geraldo Rodrigues da Cunha
Jésus Lourenço
João da Costa Dias
José Medina Floresta
José Mendes Cardoso
José Rodrigues de Souza
José Valentino da Cruz
Ludovico Martino Filho
Michel Abraão Daibes
Omar Orlando
Oscar Rodrigues Milagres
Paulo Fernando de Souza

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Sebastião Ferreira da Silva - Presidente (1967-1969)

PREFEITO: Geraldo Lopes de Faria
VICE: Carlos Raymundo Torres

José Antônio Rodrigues Dias - Presidente (1969-1970)
Abel Jacinto Ganem Júnior - Interventor Federal
Mário Calvão da Silveira - Secretário do Interventor

MEMBROS

Altamiro da Conceição Saraiva
Antônio Augusto de Araújo
Antônio Chequer
Antônio Zaharãm
Geraldo Hélio dos Santos
Geraldo Rodrigues da Cunha
José Antônio Rodrigues Dias
José Medina Floresta
José Mendes Cardoso da Costa
José Rodrigues de Souza
José Valentino da Cruz
Ruy Barbosa Assis Castro
Sebastião Ferreira da Silva
Sebastião Lopes da Silva

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Euter Paniago - Presidente (1971-1972)

PREFEITO: Carlos Raymundo Torres
VICE: Arlindo de Paula Gonçalves

MEMBROS

Antônio Mendes
Antônio Zaharãm
Divino Mendes Galvão
Euter Paniago
Francisco de Castro Cardoso
Francisco de Paula Oliveira
Geraldo Hélio dos Santos
Gilberto Valério Pinheiro
Joaquim de Castro Rocha
José Medina Floresta
José Nazar da Cruz
Ludovico Martino
Mauro Roberto Martinho
Raymundo Alves Torres
Ruy Barbosa Assis Castro

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Mário Rocha Gomes (1973 e 1975) e Ruy Barbosa Assis Castro (1974 e 1976) - Presidentes

PREFEITO: Antônio Chequer
VICE: Antônio Mendes

MEMBROS

Adão Ladeira de Carvalho
Ana Maria Corrêa
Antônio Zaharãm
Elias Chequer
Francisco de Castro Cardoso
Francisco de Paula Oliveira
Frank Paiva da Cunha
Geraldo Hélio dos Santos
Gilberto Valério Pinheiro
Joaquim de Castro Rocha
José Fausto de Castro
José Medina Floresta
José Nazar da Cruz
Lacyr Dias de Andrade
Mário Rocha Gomes
Paulo Lopes da Mota
Pélmio Simões de Carvalho
Ruy Barbosa Assis Castro

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Gilberto Valério Pinheiro (1977, 1979 e 1981) e Geraldo Eustáquio Reis (1978, 1980 e 1982) - Presidentes


PREFEITO: César Sant'Anna Filho
VICE: Renato Santana

MEMBROS

Antônio José de Araújo
Custódio de Souza Parreiras
Elias Campos
Francisco de Castro Cardoso
Francisco Machado Filho
Geraldo Eustáquio Reis
Geraldo Hélio dos Santos
Gilberto Valério Pinheiro
Joaquim de Castro Rocha
José Joaquim Bezerra de Barros
José Mota
José Nazar da Cruz
Josephino Couceiro de Freitas
Lacyr Dias de Andrade
Manoel José Parzanini
Moacyr Dias de Andrade
Ruy Barbosa Assis Castro

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Roberto Proença Passarinho (1983-1984 e 1987-1988) e José Ferreira Pontes (1985-1986) - Presidentes

PREFEITO: José Américo Garcia
VICE: José Borges Neto
Lacyr Dias de Andrade (1986) - Interventor Estadual nomeado
Geraldo Eustáquio Reis (1986) - Interventor Estadual
José Ferreira Pontes (1986) - Presidente da Câmara no exercício da Prefeitura
Roberto Proença Passarinho (1988) - Presidente da Câmara no exercício
da Prefeitura

MEMBROS

Aloísio de Castro Cardoso
Carlos Herman Lehner
Elias Azis Alexandre
Elias Chequer
Francisco Machado Filho
Geraldo Hélio dos Santos
Joaquim de Castro Rocha Filho
José de Arimathéa Silveira Marques
José Ferreira Pontes
Josephino Couceiro de Freitas
Luiz Eugênio de Moura
Luiz Gonzaga da Silva
Manoel José Parzanini
Raimundo Eunício de Barros
Roberto Proença Passarinho
Ruy Barbosa Assis Castro

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1ª ASSEMBLÉIA ÔRGÂNICA MUNICIPAL

Arnaldo Dias de Andrade (1989-1990) e José de Arimathéa Silveira Marques (1991-1992)-Presidentes

PREFEITO: Antônio Chequer
VICE: Ary Teixeira de Oliveira
Ary Teixeira de Oliveira (1989) - Vice-prefeito no exercício da Prefeitura

MEMBROS

Arnaldo Dias de Andrade
Carlos Roberto Rezende Pereira
Euter Paniago
João Paulino Gouveia Netto
Joaquim de Castro Rocha Filho
Jorge Rafael Ferraz
José Antônio Gouveia
José Chequer
José de Arimathéa Silveira Marques
José Ferreira Pontes
José Maria Paiva
Ludovico Martino
Raimundo Nonato Cardoso
Raimundo Nonato da Silva Castro
Reiner Martins
Roberto Proença Passarinho
Rosângela Santana Fialho
Rosemary Batalha Araújo
Wantuir Lopes Ferraz

José Antônio Gouveia (1993-1994) e Fernando Sant'Ana e Castro (1995-1996) - Presidentes

PREFEITO: Geraldo Eustáquio Reis
VICE: César Sant'Anna Filho
César Sant'Anna Filho (1995) - Vice-prefeito no exercício da Prefeitura

MEMBROS

Ademar Gomes de Lima
Antônio Filomeno
Carlos Herman Lehner
Carmen Mendes de Oliveira Sant'Anna
Euter Paniago
Fernando Sant'Ana e Castro
Geraldo Magela Gouveia
Joaquim Tristão da Silva
José Ailton da Rocha
José Antônio Gouveia
José Fernandes
Raimundo da Silva Guimarães
Raimundo Nonato Cardoso
Vera Lúcia Fernandes Lehner
Wantuir Lopes Ferraz

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Wantuir Lopes Ferraz (1997-1998) e Raimundo Nonato Cardoso (1999-2000)- Presidentes

PREFEITO: Antônio Chequer (1997)
VICE: Fernando Sant'Ana e Castro
Fernando Sant'Ana e Castro (1997-2000)

MEMBROS

Aguinaldo Pacheco
Antônio Paulo da Cunha
Antônio Raimundo Charrão Rodrigues
Carlos Fernandes Nascimento Portes
Euter Paniago
Francisco Corrêa do Carmo
João Batista de Arruda
João Márcio Medina
Joaquim Moreira da Silva Filho
Joaquim Tristão da Silva
José Antônio Gouveia
José Chequer
Raimundo da Silva Guimarães
Raimundo Nonato Cardoso
Roberto Dias de Andrade
Vera Lúcia Fernandes Lehner
Vera Sônia Saraiva
Wantuir Lopes Ferraz

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Antônio Filomeno (2001-2002) e Pedro de Oliveira da Silva (2003-2004)- Presidentes

PREFEITO: Fernando Sant'Ana e Castro
VICE: Raimundo Nonato Cardoso

MEMBROS

Ademar Gomes de Lima
Adriano Henrique Ferrarez
Ângelo Chequer
Antônio Filomeno
Antônio José Maciel
Carlindo Rosa Loures
Carmen Mendes de Oliveira Sant'Anna
Euter Paniago
Joaquim Tristão da Silva
José Ailton da Rocha
José Antônio Gouveia
José Félix de Souza
José Helvécio Alves Moreira
Lúcia Duque Reis
Luciano Piovesan Leme
Milton Cardoso
Pedro de Oliveira da Silva
Rafael Kopschitz Xavier Bastos
Vera Lúcia Fernandes Lehner

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Vera Sônia Saraiva (2005-2006) e José Antônio Gouveia (2007-2008)- Presidentes

PREFEITO: Raimundo Nonato Cardoso
VICE: Wesley Augusto Salomé de Castro

MEMBROS

Ademar Gomes de Lima
Ângelo Chequer
Arnaldo Dias de Andrade
Cristina Fontes Araújo Viana
José Antônio Gouveia
Leandro Araújo Torres
Lúcia Duque Reis
Luís Eduardo Figueiredo Salgado
Raimundo da Silva Guimarães
Valter Sérgio Batalha
Vera Lúcia Fernandes Lehner
Vera Sônia Saraiva


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Cristina Fontes Araújo Viana (2009-2010) - Presidente

PREFEITO: Raimundo Nonato Cardoso
VICE: Lúcia Duque Reis
PREFEITO: Celito Francisco Sari
VICE: Dirceu Teixeira Coelho

MEMBROS:

Ademar Gomes de Lima
Ângelo Chequer
Antônio Elias Cardoso
Carlitos Alves dos Santos
Cristina Fontes Araújo Viana
João Batista Teixeira
João Januário Ladeira
José Antônio Gouveia
Lídson Lehner Ferreira
Luciano Constantino de Oliveira
Luís Eduardo Figueiredo Salgado
Marcos Arlindo Pereira
Marcos Nunes Coelho Júnior


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JUÍZES DE DIREITO DA COMARCA


Criação a 10 de novembro de 1890
Decreto nº 230
Instalada a 15 de março de 1892

(Outras informações na postagem "De distrito à autonomia administrativa, neste blog)


Nomes dos magistrados com ano da posse


Vara Única


João Olavo Eloy d'Andrade (1892)
Enéas Carrilho Vasconcelos (1892)
Alberto Andrade Figueiredo (1894)
Francisco Castro Rodrigues Campos (1902)
Horácio Andrade (1904)
Francisco Paula Fernandes Rabelo (1905)
Francisco Castro Rodrigues Campos (1908)
José Ricardo Rebello Horta (1908)
Francisco Machado de Magalhães Filho (1913)
Raul Cavalcanti (1927)
Lívio de Oliveira (1928)
Félix Geraldo de Moura e Silva (1934)
Francisco Martins Soares (1939)
Cândido Martins de Oliveira Júnior (1941)
Manoel do Bonfim Freire (1948)
Antero Viotti de Magalhães (1955)
Janyr Moacir de Castro e Silva (1957)
Oswaldino de Paula Salazar (1961)
José Norberto Vaz de Mello (1962)
José Felismino de Oliveira (1966)
Ivo Nogueira (1979)
Júlio Henrique Prado Bueno (1981)
Manuel Bravo Saramago (1987)


1ª Vara Cível


Pedro Coelho Vergara (1989)
Mário César Azambuja (1992)
Omar Gilson de Moura Luz (1994)


2ª Vara Cível


Ailton Felisberto da Silva (1989)
Fernando Alvarenga Starling (1991)
Osvaldo Soares de Paiva (1993)
Vander Cardoso de Oliveira (1996)
Maurício Torres Soares (1996)
José Carlos Marques (1997)


3ª Vara Criminal e da Infância e Juventude


Marilda Aparecida Danelon (1998)
Napoleão Rocha Lage


4º Vara (Juizado Especial)


José Xavier Magalhães Brandão (2001)
Rosângela Fátima de Freitas (2005)



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Ainda no regime imperial, quando existia o presidente da Câmara com atribuições deliberativas e executivas (de 1873 a 1890), o mandato municipal passara a ser trienal, desde o dia 7/1/1882 até o advento da República. De 1890 a 1892 a cidade de Viçosa fora governada pelo regime de Intendência. O Dr. José Theotônio Pacheco foi o cidadão que governou Viçosa naquela ocasião, quando se editara a Lei Mineira nº 2, de 14 de setembro de 1891, que instituíra os Conselhos Distritais, constituídos de três membros, e ainda as Assembléias Municipais, estas formadas por vereadores, por membros dos referidos Conselhos Distritais, sendo a outra metade de seus integrantes obrigatoriamente formada pelos maiores contribuintes locais de impostos. Fora aquela efêmera fase, portanto, a das Assembléias Municipais e dos Conselhos Distritais (de 1892 a 1895), a que nos referimos noutra parte do presente trabalho. A Lei nº 110, de 24 de setembro de 1894, instituíra o cargo de Agente Executivo, autônomo do de Presidente da Câmara e os antigos Conselhos Distritais foram extintos ulteriormente, pela Lei nº 373, de 17 de setembro de 1903. Entre outubro de 1892 e dezembro de 1929, Viçosa fora administrada por meio de resoluções, que totalizam nada menos que 536, obviamente já prescritas por sua antiguidade. Em 1898 o Conselho do Distrito da Sede já havia sido extinto, e de 1895 a 1931 o município fora administrado por esses tais agentes executivos autônomos. Pacheco foi Intendente Municipal, depois presidente da Câmara com dupla atribuição (Legislativa e Executiva) e finalmente Agente Executivo Autônomo, desde 24/7/1894, por força da Lei nº 110. No periodo pós 1894, a Assembléia Municipal se reunia apenas uma vez por ano, para julgamento das contas. Neste período Pacheco, foram representantes do povo os cidadãos Augusto José Nicácio, Carlos Pinto Coelho, Francisco José da Silva Cardozo, Mário Vaz de Mello, Vicente Gonçalves Fontes Sobrinho, Antônio Correia Lima, José Pereirinha de Rezende, Manoel Vieira de Andrade e Theopisto de Bittencourt Godinho. Confira, neste caso, a Resolução nº 67 de 17/12/1897, e uma ata da reunião de 24/11/1897, arquivada na Câmara, na qual consta alguns desses nomes. Quanto ao Governo Francisco Machado de Magalhães Filho (1898-1905), os "vereadores", na verdade eram os conselheiros distritais de Teixeiras, Pedra do Anta, Coimbra, Araponga, São Miguel do Anta e São Vicente do Grama, que compunham a edilidade de então, com mais de 40 membros.
Após a Revolução de 1930, até 1947, foram vários os interventores nomeados pelo poder ditatorial. Alguns desses cidadãos, forasteiros, aqui exerceram voláteis mandatos, mas outros realizaram profícuas administrações, a bem do povo viçosense. O interventor mineiro Olegário Dias Maciel dissolvera as Câmaras Municipais, por força da Lei nº 4.897, de 2/2/1931, instituindo os Conselhos Consultivos, formado por 5 membros, entre os quais os dois maiores contribuintes de impostos em seus municípios e 3 cidadãos de livre escolha do chefe do governo municipal. O ilustre filho da terra, Antonelli de Carvalho Bhering, fora o primeiro cidadão que sob a denominação de prefeito chefiou o Município, após a promulgação da Constituição Federal de 16 de julho de 1934. No dia 6/12/1929, o Dr. João Braz da Costa Val subcrevia em Viçosa a última lei, na condição de presidente da Câmara: a Resolução nº 536. Não há registro de quaisquer decretos ou resoluções da Casa no ano, revolucionário, de 1930. No dia 24/1/1931 ele assina, como prefeito, pela primeira vez, nomeado que fora a 14 de janeiro daquele ano, após ser mantido no cargo de presidente da Câmara pelo Governo de Minas, ao lado do qual se posicionara, apoiando a deposição do presidente da República, Washington Luiz Pereira de Souza, pela Aliança Liberal, opondo-se, portanto à Concentração Conservadora. O Decreto nº 1, subscrito por João Braz, data de 24/1/1931. A Carta Constitucional de 1934 é que instituiu, portanto, o Governo Municipal Biorgânico, ou seja, Prefeitura e Câmara, sendo o primeiro prefeito daquela nova fase o médico Cyro Bolivar de Araújo Moreira, já em 1936, sucedendo a Arnaldo Dias de Andrade. Até então os decretos 9776 de 6/11/1930, 9168 de 24/11/1930, 22.364 de 4/5/1932 e 20.033 de 29/10/1932 é que ditavam as normas para as resoluções das administrações públicas municipais. A 2 de dezembro de 1945 a democracia seria, em parte, restabelecida, ocasião em que assumiu a administração municipal, José Martins Palhano, sucedendo a Sylvio Romeo Cezar de Araújo. As primeiras eleições diretas para prefeito, após a queda do Estado Novo, foram realizadas no dia 23/11/1947, sendo Juiz Eleitoral da Comarca de Viçosa o Dr. Cândido Martins de Oliveira, júnior, quando o Dr. José Lopes de Carvalho foi eleito prefeito.
A presente pesquisa teve o propósito de resgatar a Memória de Viçosa, abrindo perspectivas para novos estudos. Buscamos, dentro de nosso amadorismo e limitações pessoais, temporais e espaciais, o resgate da herança histórico-cultural desta nossa comunidade, outrora parte integrante dos Sertões Proibidos, inicialmente ocupada pelos silvícolas Puris. Em nosso diletantismo, desejamos que a História de Viçosa não tão somente fosse resguardada, mas, sobretudo, partilhada. Que restem, inclusive de nossos agentes administrativos, nos anais da história, e quiçá, na lembrança de futuras gerações, um pouco além da mera citação de seus nomes e de seus períodos de governo. A carreira política, a vida partidária, a atividade econômica e a escolaridade formal de nossos agentes administrativos foi estudada por este blogger nos anais da Câmara Municipal de Viçosa e da Prefeitura, por entre as poeiras acumuladas de velhos arquivos de jornais, dentre outros documentos, especialmente cartas, à cata dos vestígios de alguns desses homens públicos e de seus governos. Depoimentos de contemporâneos e descendentes das personagens foram fundamentais e por esse motivo é que pudemos obter, de alguns deles, dados substanciosos.



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Manuel Bernardes de Souza Silvino (1873-1876/1879-1881)



O primeiro governante municipal de Viçosa, o antigo município de Santa Rita do Turvo, foi Manuel Bernardes de Souza Silvino. Não há muitos registros disponíveis daquele período nos arquivos do Município de Viçosa. Não localizamos registros de nascimento e óbito desta personagem, tampouco de sua vida conjugal, entretanto depoimentos de seus parentes nos levaram à hipótese de ter ele nascido em Santa Rita do Turvo. Presidiu ele a Câmara em dois períodos: 1873-1876 e 1879-1881. É datada de 12/4/1877 a ata relativa à “primeira sessão legislativa da primeira legislatura”, já sob a presidência do advogado e industrial Carlos Vaz de Mello. ALVES (nº ? ), relatando a inauguração da galeria dos presidentes da Câmara Municipal de Viçosa, a 30 de setembro de 1972, obra considerada "de pesquisa e estudo, de ânimo e tenacidade do professor Euter Paniago, digno presidente da Câmara Municipal", retratando então os "vultos que marcaram os passos cívicos de Viçosa." Referindo-se ao seu ancestral, Manuel Bernardes de Souza Silvino, o primeiro presidente da Câmara, ALVES relatou que este foi "localizado até contra a barreira do esquecimento dos próprios familiares", e que o professor Euter Paniago "reconstruiu uma galeria que falará, pelos tempos, da trajetória dos homens que teceram a ordem, a lei e o poder desta cidade centenária."
Sobre o primeiro presidente, realçou ALVES, naquela ocasião (década de 1970), a pesquisa do Dr. Euter Paniago que pesquisou fatos, acordou lembranças, fazendo chegar "aos nossos olhos e ao coração a imagem daquele que dormiria no esquecimento, ignorado, não fosse a preocupação sadia do moço-presidente de colocar, na lembrança das gerações presentes, aqueles que fizeram a história desta cidade." De fato o presidente do Legislativo de então viajou a Belo Horizonte, onde obteve de uma falecida parenta de Manuel Bernardes de Souza Silvino informações descritivas que ensejaram a feitura de um desenho a lápis, retratando o mais próximo do que teria sido o rosto do mestre-escola e tenente-coronel "Neca Coletor", o primeiro governante municipal, que figura na galeria do saguão da Câmara.
Sobre ele ALVES dedicou as seguintes palavras em sua crônica: "Encantou-nos na vida desse tenente-coronel, não a patente, não o cargo de coletor, nem tampouco a presidência que lhe coube. Mas a lembrança de que, nesta Viçosa, ele foi, acima da honraria, patente e cargo, MESTRE-ESCOLA. Numa terra inculta e virgem, sem luzes, distante do progresso, da civilização, o MESTRE-ESCOLA plantando, com sua paciência e devoção, as raízes da que seria mais tarde a CIDADE-CULTURA, honra e glória do Estado de Minas Gerais.
Desse Mestre, talvez venha a herança didática que marca os SILVINO, fazendo de cada membro desta família, que se espalha pôr Minas e outros Estados, um professor em potencial," acrescenta ALVES.
Outras informações sobre o contexto administrativa da época do governo Silvino podem ser lidas na postagem deste blog, intitulada "De distrito à autonomia administrativa".



Carlos Vaz de Mello (1877-1878/1887-1891)



Nascido em Vila Nova de Lima a 9/8/1842 (Freguesia de Congonhas de Sabará), depois Nova Lima (MG), filho do engenheiro Fernando Vaz de Mello e de Dona Sophia Adelaide de Andrade, Juiz Municipal de Órfãos da Comarca de Ubá desde 1866, por 4 anos, Juiz de Direito da Comarca de Rio Turvo (Termo de Viçosa e Ponte Nova), deputado à Assembléia Geral por dois mandatos, conquistados em1881 e 1884, foi membro da Comissão de Estudos do Projeto do Código Civil. Presidente da Câmara Municipal de Viçosa por duas legislaturas, data de 12/4/1877 a ata da “primeira sessão legislativa da primeira legislatura”, sob a sua presidência. Deputado pelo 3º Distrito entre 1894 e 1902 (quando optou pelo Senado e o presidiu de 1899 a 1902), fora o proprietário da Companhia de Fiação e Tecidos São Silvestre e da Fábrica de Tecidos de Santa Maria, em Viçosa.
Com seu prestígio, em 1885, ele conseguiu que chegasse a esta cidade a estrada-de-ferro. Os trilhos e dormentes da ferrovia The Leopoldina Railway se estendiam então a uma primitiva estação, edificada a seis quilômetros do centro da cidade, na localidade rural depois denominada Estação Velha. A facilidade de transporte permitiu aos viçosenses intensificar o seu trabalho, interessar-se por multiplicar a sua produção, na certeza de poder aproveitá-lo no comércio micro-regional e com regiões longínquas, sem as penosas caminhadas primitivas, sem as difíceis escaladas orográficas, sem as peripécias cruentas, mas vencendo a natureza com conforto, com rapidez, com segurança, em busca de melhoria da própria vida e em cooperação com o progresso da zona estadual e da riqueza nacional. Ainda no século XIX, em 1881, a vizinha São Geraldo (antiga Vargem do Presídio) tinha já inaugurada a sua estação. A ferrovia atravessava o Pontilhão do Sapecado em direção ao distrito de São Sebastião dos Coimbras. Em 1885, também com o fito de substituir as velhas tropas e carros de boi no comércio com os centros adiantados, inauguraram-se os trilhos da Estação Ferroviária de Teixeiras, que funcionou, com seus trens mistos, até 1980, na linha Ubá-Ponte Nova. Trecho intermediário de ligação da Estrada de Ferro Leopoldina, era uma junção de linhas diversas, originalmente isoladas, construídas em épocas várias. O trecho Entre Rios-Silveira Lobo foi aberto em 1903 e 1904. O seguinte, até a estação de Guarani, ficou pronto em 1883. Fora construído e também operado pela Companhia União Mineira, até ocorrer a entrega à E. F. Leopoldina, em 1884. O trecho até este ponto e Ligação ficou pronto em 1886. Entre 1879 e 1886 foi entregue o trecho até Ponte Nova. Entre 1912 e 1926, entregou-se a linha até Matipó (Raul Soares) e em 1931 a via férrea chegava, enfim, a Caratinga. Havia um trem diário, de Barão de Mauá, no Rio de Janeiro, até Caratinga (via Petrópolis), desde 1931. Sem trens de passageiros desde a década de 1980, a linha foi desativada em 1994 nos trechos Três Rios-Ligação e Ponte Nova-Caratinga.
Os nativos não poderiam deixar de encarar senão com simpatia essa perspectiva de progresso acelerado.
O vulto dessa obra, que Vaz de Mello então oferecia, era grande demais para aquela época e seria dispensável referirmo-nos aqui ao valor das ferrovias, especialmente naquele tempo, como fator progressista. A áquina vencendo as distâncias, varando os longes tinha ao mesmo tempo a faculdade de aproximar os filhos desta terra, não só nas suas relações de amizade, mas sobretudo no interesse material. Esses trilhos e dormentes foram como o traço de união dos sentimentos e dos interesses de toda uma gente laboriosa.
Fundador e diretor do primeiro jornal aqui surgido, o Cidade Viçosa, a 15 de novembro de 1892, desde o aparecimento deste, nele foram publicadas as leis e demais expedientes municipais, até 1931, sem solução de continuidade, por pelo menos 37 anos, passando depois para o Correio de Viçosa. A partir da década de 1950 toda a legislação municipal passou a ser publicada em jornais diversos da cidade (isto quando existiam), entre os quais o mais longevo, o Folha da Mata (antigo Integração e Folha de Viçosa).
Já no ano seguinte à fundação do Cidade Viçosa, em 1893, publicava-se naquele órgão de imprensa o 1º Código de Posturas Municipais, lei que recebeu o número 3. Dentre seus artigos, destacamos os seguintes:

"27 – É expressamente prohibido verter agua ou fazer outras precisões encostado as portas, paredes ou logar publico de modo que haja ofensa á moralidade publica; multa de 2$000 a 3$000 e duplo nas reincidencias;
32 – São prohibidos os batuques e cateretês em qualquer logar do Município, sob pena de dispersão do ajuntamento e 2$000 de multa a cada pessoa que nelle se achar e 20$000 ao dono da casa.
§ I – Todo o ajuntamento tumultuário, algazarras e vozerias nas ruas e casas, sob pena de dispersão e multa de 2$000 a cada pessoa e 10$000 ao dono da casa; sendo á noute o dobro da multa.
§ II – Cantar em voz alta por ocasião de guardarem cadaveres em casa mortuaria, fazer algazarra que a seriedade do acto não permitta, bem como encommendar-se alma com cantigas altas; multa de 10$000 ao cabeça e 2$000 a cada acompanhante.
36 – É prohibido correr a cavallo pelas ruas sem motivo justificado; multa de 5$000 e 5 dias de prisão.
38 – É prohibido escrever ou sujar paredes e portas com qualquer material; pena de prisão por 5 dias e multa de 10$000.
§ I – Pasquins injuriosos ou de qualquer maneira; multa de 3$000 e 10 dias de prisão.
41 – O carcereiro será obrigado a tocar o sino da cadeia, todas as noutes, ás 9 horas, multa de 5$000 por cada noute que não o fizer.
47 – É prohibido tirar esmolas pelas ruas e estradas sem licença das aucthoridades ou prova do seu estado valetudinario; multa de 5$000 e 5 dias de prisão.
51 – O negociante ou açougueiro que vender ou comprar por pesos que não sejão do systhema metrico afferido pelo padrão da Camara, pagará a multa de 10$000 e o dobro na reincidencia."

Eis um Edital extraído da edição do Cidade Viçosa, de 10 de junho de 1900:

"José Jacinto Dias de Sant'Anna, procurador da Câmara Municipal desta cidade de Viçosa etc. Faz saber aos que o presente virem ou delle notícia tiverem que foram arrecadadas como bens do evento e acham-se em depósito os seguintes animaes: um burro grande, calçado dos quatro pés, mascarado e de côr de pello de rato, muito velho e tem rotura na virilha, do lado direito; uma besta vermelha pequena de sete a oito anos de idade; um cavalo pampa, grande e muito velho com uma pequena estrela na testa; e um dito baio claro de altura regular, fazendo a última muda e tem uma pequena grossura no pé esquerdo. Convida, portanto, a todas as pessoas que se julgarem com direito aos referidos animaes a virem provál-lo perante o Doutor Agente Executivo, no prazo de sessenta dias, contados desta data, findo os quais se expedirá
edital para serem vendidos em leilão na forma da lei. Procuradoria da Câmara Municipal da Cidade de Viçosa, em 19 de abril de 1900. José Jacinto Dias de Sant'Anna."
Dr. Carlos Vaz de Mello faleceu a 3/11/1904, em Viçosa, estando sepultado, com a esposa, na quadra 2 do Cemitério Dom Viçoso, sob um hoje mal conservado mausoléu, mandado construir em 20/5/1906, pela Resolução nº 223, da Cãmara Municipal de Viçosa.

Eis o primeiro editorial de A Cidade Viçosa, de 15 de novembro de 1892:

"A CIDADE VIÇOSA

A folha que hoje entregamos a luz da publicidade sob a denominação que encima estas linhas, tem por principal intuito pugnar pelos direitos e interesses desta cidade e seo município, pondo em contribuição todos os esforços a seo alcance para promover o seo engrandecimento, progresso e prosperidade.
Alheia inteiramente as lutas e questões partidárias, ella não tem outra preoccupação nem outra politica que não seja a do interesse geral e do bem publico, entendendo que se em quaesquer circumstancias deve ser essa a principal, senão única, cogitação de todo cidadão que ama deveras o seu paíz e deseja vel-o grande, prospero e feliz, ella se impõe actualmente de modo imperioso e iniludível.
De feito, não pode ser de occasião propria nem azada para dissenções e recriminações partidarias, aqquela em que o paiz, á braços com as innumeras dificuldades, que o assoberbão, umas oriundas da profunda transformação porque acabão de passar as suas instituições em consequencia do novo regimen político e outras dos erros e falta de patriotismo daquelles a quem foi confiada a sua suprema direcção, precisa de toda a paz, socego e tranqüilidade para poder prover de prompto remedio aos males que o afligem.
Quando os mais temerosos problemas sociaes, politicos e economicos se impõem á nossa mais seria cogitação e ahi estão a reclamar instantemente uma solução prompta e em harmonia com os importantes interesses, a que affectão, parece-nos ser aquella a unica orientação verdadeiramente patriotica.
Hoje, mais que nunca, corre a todo cidadão o imperioso dever de sacrificar no altar da patria os odios e rivalidades politicas e postar-se firme e resoluto junto de sua gloriosa bandeira para defendel-a dos assaltos dessa horda de piratas e especuladores, que da mesma tentão se apossar para para cobrirem a avariada carga de seos incomfessaveis interesses.
E’ esse o nosso modo de ver e acreditamos e acreditamos que comnosco estão todos aquelles que sinceramente se empenhão pela união da grande familia brazileira e desejão ver a sua patria livre, grande e feliz.
Tomando a seos hombros a nobre tarefa de pugnar pelos direitos e interesses deste município, cuja população tanto se distingue pelo seo espirito de ordem, amor ao trabalho, e pela altivez e independencia de seo caracter, a – A Cidade Viçosa, - não não poupará esforços nem se furtará á sacrificios para, de modo condigno, desempenhar-se de tão honrosa missão, assegurando que não a farão vaccilar e nem recuar quaesquer embaraços ou tropeços que possão surgir em seo caminho para deter-lhe os passos.
Escudada na consciencia do seo direito e impulsionada sempre pelos mais nobres sentimentos, ella abrirá passagem por entre os parceis e arrecifes das agitadas e voluveis correntes da opinião sem receio de sossobrar.
Na apreciação e julgamento dos factos procurará proceder com a maior isenção de espirito, esquivando-se inteiramente á perniciosa influencia dos pequenos odios, paixões e intrigas locaes e sem se preoccupar com os interesses que por ventura n’elles se achem envolvidos e possão ser contrariados.
Externará sempre com a maior franqueza e independencia o seo pensamento e modo de dever , não se deixando prender por consideração de ordem alguma, uma vez que entenda que assim cumpre o seo dever.
Não regateando encomios á quem os merecer, será ao mesmo tempo inexorável e severa nas censuras que haja de fazer á aquelles que faltarem ao cumprimento de seos deveres civicos, por mais elevada que seja a sua posição ou cathegoria social.
As suas columnas estarão sempre francas para a defesa de todas as idéias e commetimentos nobres e patrióticos, aceitando de boa vontade a collaboração de todos os obreiros do progresso e engrandecimento da patria.
A causa dos opprimidos e dos fracos merecerá a sua mais decidida sympathia e a encontrarão sempre prompta e de arma ao hombro para combater os abusos, desmandos, attentados e violências praticadas por quem quer que seja.
Pugnando pela pratica dos bons principios e procurando innocular no seio do povo as idéias do ordem, moralidade, economia, e de respeito á lei e á autoridade, quando digna d’este nome, condições indispensáveis de toda a sociedade bem organizada e factores obrigados de todo o desenvolvimento, progresso e adiantamento social, espera esta folha captar a confiança e apoio da opinião sensata e imparcial, única com a qual se preoccupa.
Não tendo a pretenção de formular em programma, parece-nos que as poucas linhas que ahi ficão lançadas e com as quaes prefaciamos o primeiro numero desta folha, estereotipão perfeitamente os nossos intuitos, que se não são dos mais esclarecidos, tem ao menos o merito de serem sinceros e patrióticos.
Não sabemos a sorte que nos reserva o futuro, cujos arcanos a ninguem é dado devassar; se tivermos, entretanto, de succumbir em meio da jornada sem attingir o almejado alvo, nos ficará ao menos o consolo de haver mos feito o possivel para levar tambem ao altar da pátria a nossa modesta offerenda e de podermos dizer que não fomos inteiramente inúteis – non omne inutiles."



João Lopes de Faria Reis (1882-1886)



João Lopes de Faria Reis descendia de imigrantes judeus como Hanna Franco, vinda da Checoslováquia. E do alferes Jacob Lopes de Faria, oriundo de Capela Nova das Dores, tendo este chegado a Santa Rita do Turvo por volta de 1854. As famílias Faria Reis e Faria Franco, popularmente conhecidas como Jacob, por causa de seu ancestral, possuíam propriedades rurais e casas na cidade, como na Rua Direita (ou Rua de Baixo), atual rua Senador Vaz de Mello e no Largo da Matriz, hoje praça Silviano Brandão. Diversos registros históricos apontam nomes como o de Francisca, Joaquina, Silvestre, Antônio, José e Francisco Lopes, que geraram imensa prole hoje representada por famílias como Araújo, Machado, Barbosa, Potsch, Faria, Morelli, Gomes, Lage, Paniago, Lemos, Lopes, Martino, Schlottfeldt, Ferreira, Monteiro, Coelho, Rena, Silva, Valle, Laureano, Souza, Gomide, Gouveia, Mattiy, Fonseca, Vidigal, Janotti, Dias, Bicalho, Simonini, Tafuri, Neves, Modesto, Fernandes, Sant’Anna, Castro, Freitas, Torres e Magalhães.
Este blogger não cuidou de pesquisar a genealogia desta gente, e no caso desta personagem não certificamos datas de nascimento e óbito e tampouco a sua vida conjugal. Não certificamos, outrossim, os motivos e nem a data em que teria sido deposto este governante, por não existirem registros documentais nas fontes primárias. Francisco, Silvestre e José, outros membros da família Lopes de Faria, compuseram o governo municipal desde os seus primórdios, sob a direção de Manuel Bernardes de Souza Silvino. Embora a primeira sessão legislativa da primeira legislatura tenha ocorrido em 1877, sob a presidência do Dr. Carlos Vaz de Mello, sucessor imediato de João Lopes, os Faria Reis foram personagens diretamente ligadas ao processo de instalação do município, em 1873, ainda no governo provincial de Venâncio José de Oliveira Lisboa. Para que se inaugurasse a Vila de Santa Rita do Turvo, a 22 de janeiro de 1873, ainda no governo provincial de Joaquim Floriano de Godói, foi fundamental a participação das famílias Silva Soares Cabral, Gomes e Faria Reis, em 1872, no processo de cessão da primeira Casa da Câmara e Cadeia, na atual praça Silviano Brandão, nº 136, desde 1913 transferida pelo governo do Estado ao Gymnasio de Viçosa e demolida na década de 1950. A História do Brasil registra que naquele tempo existiam duas correntes: a dos Liberais e a dos Conservadores. Em artigo publicado no jornal Cidade de Viçosa, resposta a citação vinda a lume no jornal A Reação, também de Viçosa, em outubro de 1906, citado por LIMA (nº ) à página 20, Dr. Arthur da Silva Bernardes atribuiu ao seu antagonista, Dr. José Theotônio Pacheco, ex-deputado geral pelo Partido Liberal, a autoria da “perseguição” e deposição de João Lopes de Faria da Intendência Municipal. Não obstante não existam registros documentais, como já dito, relacionados às circunstâncias que culminaram na sua deposição, há relatos, versões desencontradas, de que houve, no ano de 1884, por ocasião da chegada dos trilhos da The Leopoldina Railway ao município, graves controvérsias, envolvendo interesses particulares de fazendeiros, que tiveram posicionamentos divergentes quanto ao traçado originalmente planejado para a via férrea, que cortaria, dentre outras propriedades rurais, a da família Faria Reis, cujo chefe se opôs às obras em suas terras, vetando-as. Não existem, outrossim, resoluções subscritas pelo intendente João Lopes nos arquivos da Câmara. Não há notícias de que dividira o Poder Municipal com conselheiros, ao contrário dos períodos administrativos anteriores e subseqüentes. As indicações, portanto, nos favorecem a crença de que Faria Reis fora um Conservador, centralizando em si todas as atribuições deliberativas e executivas municipais. Em 1883, Viçosa de Santa Rita tinha alistados 100 eleitores e, em 1886 eram 3.042 os escravos desta microrregião.
Durante seu período administrativo o mandato passara a trienal, desde o dia 7/1/1882. Outras informações sobre o contexto administrativo daquela época na postagem deste blog, intitulada "De distrito á autonomia administrativa".



José Theotônio Pacheco (1892-1897)



Nascido em São José do Barroso (MG), a atual cidade de Paula Cândido, a 3/1/1849 e falecido em Viçosa a 14/4/1915, era advogado formado em São Paulo a 4/11/1974, Juiz de Direito da Comarca do Prata, nomeado chefe policial da Província de Santa Catarina, Promotor de Justiça de Oliveira (1875), Juiz Municipal de Ubá (1876) e depois de Viçosa, Juiz de Paz e deputado federal à Assembléia Federal. Dr. José Theotônio Pacheco, casado com Dona Maria Thereza de Andrade, de tradicional família de Visconde do Rio Branco, pai de João Theotônio, José, Alzira, Maria da Conceição, Otávio Otaviano, Álvaro Alberto e Alberto Álvaro, legou a Viçosa extensa folha de serviços. Antes dele, Viçosa não tinha Legislação, iniciada em sua administração com a Resolução nº 1, de 1º de outubro de 1892. Sua posse como presidente da Cãmara representou, portanto, uma nova era, em termos de organização administrativa, logo após a Sublevação de 1892. Promulgou ele o Estatuto da Câmara da Cidade de Viçosa, a Lei Orgânica Municipal daquela época. Subscrito no Paço da Câmara a 21 de dezembro de 1893, por ele, pelo ex-pároco de Viçosa, Pe. Antônio Correia Lima, pelo Dr. Manoel Vieira de Andrade, José Pereirinha de Rezende, Theopisto de Bittencourt Godinho e Cel. Mário Vaz de Mello, impresso na Typografia da "Cidade Viçosa", a referida legislação, em seu capítulo II, que trata "DA SEGURANÇA INDIVIDUAL", traz, dentre outros, os seguintes artigos.

"Artigo 92. Toda pessoa que for encontrada embriagada pelas ruas será posta em custodia por 24 horas.
Artigo 93. E' prohibido sob multa de 10$000:
§ 1. Fazer vallos ou quaesquer escavações nas ruas e praças: obrigação de entupill-os quem os fizer alem da multa:
§ 2. Dar espetaculo sem a previa licença.
§ 3. Usar armas offensivas sem licença da autoridade competente; além da multa serão obrigados os infractores a entregar as armas.
Exceptuãm-se as pessoas que as usarem quando forem necessarias ao exercicio de sua profissão.
§ 4. Amarrar animaes em frente ás portas das casas ou nos passeios de modo que impeçam o transito publico.
§ 5. Montar animaes bravos ou amançal-os nas ruas e praças das povoações e correr a cavallo sem necessidade.
§ 6. Ter nas ruas soltos cães, porcos, cabritos e carneiros.
§ 7. Dançar baile, batuque, cateretê ou qualquer outra diversão com algazarra que encommode aos visinho, poderão porém usar taes brinquedos, desde que nelle reinem a ordem e paz, e que paguem ao conselho districtal uma licença de 5$000 por cada vez.
§ 8. Arrebentar pedras dentro das povoações perto das casas sem tomar precauções que evitem damno ás pessoas ou couzas; alem da multa de 10$000 prizão por 8 dias:
§ 10. Andar soltos pelas ruas da cidade e povoações gado, vaccum cavallar, muar, lanigero ou suino, os quaes serão recolhidos ao coural do conselho:
Artigo 94. E' considerado infracção contra a propriedade e punida com a multa de 30$000;
§ 1. Fingir-se inspirado por potenciais sobrenaturaes, attribuindo-se curador de molestias por meio de benzeções e feitiços: alem da multa, 8 dias de prizão.
§ 11. Matar peixe com veneno ou dynamites.
§ 12. Dar commodo ou pousada a ciganos por mais de 24 horas nos districtos do municipio, salvo caso de molestia provada attestado medico."
Na "SECÇÃO PRIMEIRA, CAPÍTULO I" da referida legislação, também está escrito:
... "Artigo 87. Affectarem publicamente sua prostituição as mulheres de vida airada nas ruas ou em casas, pelo trajar, gargalhadas, gestos ou por qualquer modo que offenda o decoro publico. Pena de prisão por um dia e multa de 10$000.
Artigo 88. Defecar ou ourinar em lugar publico: Pena 5$000 de multa.
Artigo 89. E' prohibido sem necessidade e fóra das horas dos dias festivos fazer vozerias, dar gritos, nas ruas ou praças, dar tiros, soltar foguetes á noite. Pena de multa de 10$000.
Artigo 91. Os vagabundos sem domicilio certo, os vadios por habito, que durante 8 Dias depois de intimados pelo fiscal, não tomarem occupação licita de que possão viver, serão multados em 20$000; e quando não tenhão meios para pagar a multa será esta convertida em prizão à rasão de 2$000 por dia."
Quando da inauguração da galeria dos ex-presidentes da Câmara Municipal de Viçosa, a 30 de setembro de 1972, neto do Dr. José Theotônio, o Dr. José Miguel Pacheco relatou em discurso, dentre outros, os seguintes aspectos do perfil caracterológico de seu avô: "Há mais de cinco decênios, faleceu nesta cidade aquele de quem vos falo.
Com tantos anos já decorridos de sua morte, é de presumir-se que já estejam apagadas as brasas das paixões que acendeu e das controvérsias pessoais que provocou, e a que estão sujeitos todos que já exerceram, ou ainda exercem, qualquer parcela de autoridade. Nenhum homem público, por mais perfeito e justo que seja, está livre desse ônus. Na presunção de que aquelas paixões ou controvérsias já estavam reduzidas a cinzas, passo a delinear, com palavras singelas, mas repassadas de saudade, os traços mais vigorosos daquele que ora nos toma a atenção. Ao seleto auditório que me ouve, peço escusas se a voz do coração falar mais alto do que a razão. De início, devo advertir que não conheci o homenageado, porque tinha apenas quatro anos quando faleceu. Este fato deixa-me bem à vontade para focalizar a sua imagem, moldada no meu espírito – através de informações exauridas dos seus familiares e amigos, bem como dos seus adversários políticos e dos trabalhos forenses e artigos de jornais de sua terra.
É possível, assim, que haja alguma torvação na áurea dessa imagem, que tem crescido com o passar dos anos, e que é tão cara aos membros da família Pacheco.
O homenageado conheceu a luz da vida em 3 de janeiro de 1849, na pitoresca Vila de S. José do Barroso, hoje Paula Cândido. Embora pobres, seus pais José Miguel Pacheco e Dona Leopoldina Cândida Pacheco, deram-lhe sólida educação religiosa e social. Cursou humanidades no Seminário de Mariana e no tradicional Colégio de Congonhas.
Foi discípulo dileto do saudoso arcebispo D. Silvério Gomes Pimenta, cujo qüinquenário de sua morte o Brasil inteiro ora comemora, com profundo respeito e admiração. O sábio e santo prelado votava grande amizade ao ex-discípulo e, quando em missão apostólica por estes rincões nunca deixou de o visitar e assistir.
Cursou o Dr. Pacheco a tradicional Faculdade de Direito de São Paulo, tendo ali colado grau de bacharel de ciência jurídica e sociais em 4 de novembro de 1874.
Tão logo diplomado, foi nomeado Juiz Municipal da Comarca de Ubá, sendo, em seguida, removido para o então Termo Judiciário de Viçosa. Concluindo o quatriênio de sua investidura ao cargo de Juiz, abriu banca de advocacia nesta Comarca. Em 1885 foi nomeado pelo Imperador Pedro II Chefe de Polícia do Estado de Santa Catarina, mas declinou da nomeação.
Voltando à magistratura, exerceu o cargo de Juiz de Direito da Comarca de Prata.
Abandonou, depois, a toga de Juiz para abraçar, com amor, a profissão de advogado e para a qual tinha grande vocação, e – aqui reabriu o seu escritório. Em pleito memorável e aqui realizado, foi eleito, em 1889, deputado da antiga Assembléia Geral, que foi dissolvida com a Proclamação da República. Exerceu por nove anos de Presidente e Agente Executivo desta Câmara e, por duas vezes, as funções de Juiz de Paz do distrito da cidade. Impossível seria traçar num discurso, que deve ter proporções bitoladas: a trajetória da vida dinâmica e agitada do homenageado. Mas não deixarei de delinear, embora de modo pálido e incompleto, algumas facetas de sua brilhante personalidade. Segundo aprendi dos que tiveram a felicidade de gozar de sua convivência, era dotado de qualidades excepcionais, a começar pelo físico. De estatura elevada e complexão apolínea, era forte e vigoroso. Contou-me o Dr. João Alfredo da Fonseca, brilhante e saudoso advogado dos auditórios desta Comarca que, quando o Dr. Pacheco exercia o cargo de Juiz do Termo local, foi desrespeitado e desacatado por três jovens soldados da Polícia. Para restabelecer a ordem e resguardar a sua autoridade, ele os prendeu na cadeia, à força de bengaladas e empurrões, e à vista estarrecida dos circunstantes. Era moreno, esguio, calvo, elegante no trajar, e usava longas barbas, à moda dos profetas. Dotado de inteligência vibrante e memória prodigiosa, recitava de cor longos trechos do “Paraíso Perdido” de Milton e da “Divina Comédia” de Dante. Revelou-me o saudoso Milton Campos que passou a infância nesta cidade, pois o seu pai aqui exerceu a judicatura por vários anos, revelou-me o saudoso Milton Campos que, quando criança, o Dr. Pacheco o colocava sobre a mesa de jantar de sua casa, e lhe ensinou a recitar os primeiros versos da obra imortal do grande vate inglês, seu homônimo, e que, muitos anos depois ainda os sabia de cor. Dominava com grande maestria o vernáculo e conhecia bem o grego. Era exímio latinista e falava e escrevia corretamente o inglês, o francês, o espanhol, o italiano, conversando, ainda, com os antigos escravos no seu próprio idioma de além mar. A sua biblioteca era vastíssima e continha muitas obras raras. Guardo, ainda, com especial carinho, na minha estante, algumas destas obras, cheias de anotações por ele feitas, com a sua letra miúda e quase ilegível. Orador primoroso, eloqüente e jocoso, eletrizava os ouvintes, logrando sempre brilhantes vitórias no Tribunal do Júri desta e das Comarcas vizinhas. Jornalista brilhante, feria sem ofender e criticava sem molestar.
Como Rui, de quem fora condiscípulo na vetusta Faculdade de Direito de São Paulo, tinha o espírito superior ao do seu tempo. Comprovam a assertiva as realizações ousadas para a época, que empreendeu nesta terra que adotou como sua. Como agricultor que era nas horas vagas, aqui formou rebanhos selecionados de gado vacum, nas imensas pastagens de suas fazendas, em terras hoje ocupadas pela Universidade Rural e pela Colônia Vaz de Melo. Chegou a formar grande rebanho de carneiros de raça pura que, às tardes de verão, eram tangidos pelas ruas bucólicas e tranqüilas da Viçosa Velha, para a alegria da garotada. Foi o primeiro apicultor racional destes rincões, chegando a criar abelhas pelo sistema mais moderno da época. No seu casarão da antiga rua das Vassouras, hoje denominada Virgílio Val – disto ainda me lembro e com que saudade – havia instalação completa de gás em todos os aposentos, máquina de lavar roupa movida a mão, gramofone, piano, carruagem de passeio de quatro rodas, forrada de veludo e sêda, além de outros objetos cujo uso ainda não era comum nem nas capitais, naquela época. Além de todas essas facetas que já servem para definir a sua personalidade, foi caridoso e humanitário, pois a primeira casa de saúde de Viçosa funcionou num barracão de sua propriedade, nos fundos do quintal de sua residência, com a assistência médica de seu compadre e amigo Dr. Loureiro – marido de D. Alice Vaz de Melo, cuja memória reverencio neste momento, por dever de justiça e gratidão" (...) "Parecia não ter vocação para a política, porque era sincero e leal para com todos, e a política, como já disse um publicista, é 'a arte de enganar'. Devido as circunstâncias, o homenageado envolveu-se nas malhas da política e, em companhia do Dr. Carlos Vaz de Melo e outros líderes locais, chegou até a ser revoltoso e a depor um Juiz de Direito da Comarca.
Empenhou-se em vários pleitos eleitorais, logrando vitória em quase todos, apesar das atas falsas, da votação dos defuntos e ausentes, das torças dos nomes dos eleitores e dos candidatos, de freqüente usança naqueles tempos. As derrotas que sofreu não lhe quebrantaram a têmpera de lidador, e jamais se intimidou com os alaridos e bravatas dos vencedores. A sua fibra espartana somente se arrefeceu quando o gládio lhe foi arrancado das mãos pelo vendaval da hora em que, no melancólico dia 11 de abril de 1915, entregou seu espírito a Deus, que hoje o tem no seio de sua glória."
A cidade de Viçosa e os municípios que constituem a sua região sempre tiveram muito a ver com grandes movimentos nacionais. Na Revolução Liberal de 1842, chefiada em Minas por Teófilo Otoni, diversos filhos de Pedra do Anta, Ponte Nova, Ubá, Paula Cândido, Viçosa, Tocantins, Dores do Turvo, Senador Firmino, Guaraciaba e Araponga, sob o comando do coronel Francisco de Assis Athaíde, incorporaram-se às forças legalistas, sufocando o movimento revolucionário sob a liderança do coronel Geraldo Rodrigues de Aguiar, que se refugiou em Rio Pomba, após sangrenta batalha em Visconde do Rio Branco. Viçosa e região também aderiram, incondicionalmente, a uma Sublevação, nos primórdios da República, em decorrência do golpe de 3 de novembro de 1891, que fechou o Congresso Nacional. Após a renúncia de Cesário Alvim ao governo de Minas, eclodiu em Viçosa, no governo de Eduardo Ernesto da Gama Cerqueira, ao movimento para deposição de autoridades judiciárias locais, com a participação dos principais chefes políticos de então, o Dr. José Theotônio Pacheco e o Dr. Carlos Vaz de Mello, este entre 1899 e 1903 presidente da Câmara dos Deputados. Viçosa viveu o clima da guerra civil que culminou com a ascenção ao cargo de presidente da República, do vice-presidente, Marechal Floriano Peixoto, que anistiara os presos políticos.
Viçosenses também participaram diretamente de duas guerras. Em 1864, do distrito de Pedra do Anta, José Luís da Silva Viana, ligado ao capitão-mor Luiz Manuel de Caldas Bacelar, integrou a Guarda Nacional e arregimentou voluntários para a Guerra do Paraguai, no sertão de Mato Grosso. Também o mestre-escola de São Miguel do Anta, tabelião e escrivão do 1º Ofício do Termo Anexo de Santa Rita do Turvo, um serventuário da Justiça de Viçosa, cadete Francisco de Paula Galvão, foi legítimo herói da Retirada da Laguna, combatendo pelo 17º Batalhão de Voluntários da Pátria, sob o comando do coronel Carlos Camisão e do brigadeiro José Antônio da Fonseca. Professor Francisco de Paula, hoje nome do pátio do Tiro-de-Guerra de Viçosa, sabaraense de nascimento, tornou-se capitão honorário do Exército. Filho do coronel Antônio Nunes Galvão, um veterano da Independência, faleceu na Fazenda do Bom Sucesso a 6/5/1904. Sua atuação na Batalha de Nhandipá, a 11 de maio de 1867 valeu-lhe o título de herói. Detentor da medalha conferida pelo Decreto nº 3.926, de 7 de agosto de 1867, Galvão foi laureado Cavalheiro da Ordem de Cristo pelo Decreto de 19 de agosto de 1867, tedo sido homenageado como Cavalheiro da Ordem da Rosa. Ele serviu ainda no 5º Batalhão de Guardas Nacionais em Poconé. Outros viçosenses que também estiveram no teatro de operações da Guerra do Paraguai, como registra a história, são o oficial de justiça Mariano Carlos da França Silvino, José Lopes de Faria Jacob, o curandeiro José Antônio Loiola, a indígena cuiabana Sinhana Paraguaia, Seraphim Sant’Anna e o relojoeiro João Cesário, do distrito de Cachoeira de Santa Cruz. No conflito mundial, a 2ª Grande Guerra, nossa região foi representada, tanto guarnecendo fronteiras, como no front por Almiro Rigueira de Carvalho, Anatólio Fontes de Oliveira, Antônio Amaro, Antônio Calixto da Fonseca, Antônio Julião da Silva, Antônio Pacheco, Domingos Teixeira Valente, Evaristo Gonçalves da Silva, Francisco Lopes de Souza Lima, Geraldo Augusto de Mattos, Irineu Tomás de Paula, Jacinto Berto da Silva, João de Freitas, Joaquim Ferreira Coelho, Joaquim Saraiva da Silva, José Batista Teixeira, José Guilherme, José Manoel Pinto Neto, José Maria Alves Torres, que registram livros, foi quem deu o primeiro rito de artilharia brasileira lá na Itália; Marino Lopes da Costa, Nagib Balut, Paulo Bernardo T. Duarte, Raimundo Luiz dos Santos, Sebastião Gomes da Silva, Sebastião Roberto dos Santos, Targino Silva, Tomás de Aquino Gonçalves e Wilson Rodrigues Bittencourt. Podem existir outros, cuja memória aqui não se descortina.
Legitimado pelo governo da República, o massacre de 25 mil sertanejos liderados pelo cearense Antônio Vicente Mendes Maciel, o “Antônio Conselheiro”, especialmente a quarta e última Expedição, com mais de quatro mil soldados e o combate de Cocorobó, considerado hoje um dos genocídios praticados no país, e que mobilizou aproximadamente 12 mil soldados, foi amplamente festejado em Viçosa, com direito a saudação do Dr. José Theotônio Pacheco ao “governo patriótico da República”. Considerado um “monarquista encapotado”, conforme LIMA (nº?), no dizer de seu adversário Dr. Arthur da Silva Bernardes, a edição de 12 de julho de 1897 do jornal A Cidade Viçosa, dirigido pelo major Mário Vaz de Mello, noticiava o regozijo, na cidade, pela "grande vitória do povo brasileiro" representada pelo arrasamento e “tomada do reduto do fanático Antônio Conselheiro". Casas e edifícios públicos se iluminaram e a Lyra regida pelo maestro José Jacintho Dias de Sant’Anna desfilou garbosa pelas ruas, além de terem sido espocados foguetes e dinamites ao som de muitas salvas ao presidente da República, Dr. Prudente José de Moraes Barros, ao Dr. Carlos Vaz de Mello e também ao general Arthur Oscar de Andrade Guimarães, comandante da derradeira expedição. Fato é que Antônio Conselheiro ainda vivia naquela data da referida edição do jornal A Cidade Viçosa, e a tudo resistia nos sertões baianos.
Outras informações sobre este governante municipal cujos descendentes hoje estão representados nas famílias Oliveira, Andrade, Camarão, Galvão, Marques, Bhering, Lopes, Bessone, Lisboa, Vieira, Moreira, Martins, Batista, Bastos, Terra, Comastri, Jacob e Macedo, na postagem "De distrito à autonomia administrativa" e "Educando a mocidade".



Francisco Machado de Magalhães Filho (1898-1905)



Descendente do Barão de Pontal, o Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, ex-promotor de Justiça da Comarca de Leopoldina, daquela cidade se transferiu para Viçosa, nomeado Juiz Municipal do Termo de Santa Rita do Turvo, empossando-se a 24/11/1883. Trinta anos após foi nomeado pelo governador Júlio Bueno Brandão, para o cargo Juiz de Direito da Comarca de Viçosa, empossado a 1º/3/1913. Entre 1907 e 1910 exercia ainda o cargo e, quando de seu falecimento, em Viçosa, a 8/12/1927, substituiu-o como Juiz do Foro local o Dr. Raul Cavalcanti. Antes de ambos exercera também o cargo de Juiz de Direito em Viçosa, desde 4 de junho de 1902, o pai do ex-governador de Minas Gerais, o pontenovense Dr. Milton Soares Campos, o consagrado jurista Rodrigues Campos, hoje nome do Palácio da Justiça, na capital mineira. Falecido a 10 de janeiro de 1939, em Belo Horizonte, filho de Faustino José Rodrigues Campos e Margarida Cândida de Castro Campos, Dr. Francisco de Castro Rodrigues Campos era mineiro de Angustura (Além Paraíba), nascido a 24 de julho de 1872. A exemplo do Dr. Francisco Machado, foram também promotor de Justiça de Leopoldina. Juiz municipal de Ponte Nova desde 1898. Diretor da Secretaria de Finanças e da Imprensa Oficial Rodrigues Campos exerceu ainda os cargos de procurador-geral do Estado. Em 1917, promovido a desembargador, presidiu o Tribunal de Apelação do Estado de Minas Gerais por oito mandatos, participando ainda da comissão do anteprojeto da Constituição Mineira de 1935.
Dr. Francisco Machado casou-se a 30/8/1888 com Dona Gragina Vaz de Mello, e a exemplo do ex-presidente da República, Dr. Arthur Bernardes foi genro do então principal chefe político local, senador Carlos Vaz de Mello. Foram filhos do Dr. Francisco Machado: Mário, José, Anna, Antônia, Vicente e Gerardo. Dr. Machado, ou Dr. Chiquinho, assim era conhecido na cidade, foi um dos militantes do Partido Republicano Mineiro (PRM). Nasceu em Furquim de Mariana a 25/2/1855, filho de Francisco Machado de Magalhães e de Dona Antônia Felícia Machado. Iniciou seus estudos em Congonhas do Campo, no colégio do Pe. Machado e foi aluno do Colégio Caraça e do Seminário de Mariana. Bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais na legendária Faculdade do Largo de São Francisco a 10/11/1881 e aqui manteve banca de advocacia juntamente com o sogro.
Outras informações sobre este governante municipal na postagem "Educando a mocidade" e "De distrito à autonomia administrativa", neste blog.



Arthur da Silva Bernardes (1906-1907)



Conforme assento paroquial subscrito pelo padre Manoel Felippe Neri, antigo Vigário de Viçosa, documento conservado no arquivo do Santuário de Santa Rita de Cássia, a 8/8/1875 nasceu Arthur da Silva Bernardes na Freguesia de Santa Rita do Turvo, filho do tenente-coronel Antônio da Silva Bernardes, advogado provisionado e Promotor de Justiça, natural de Castanheira da Pera (Portugal), que viera de São Caetano do Xopotó (atual Cipotânea) e falecera em Viçosa em 1910, e de Dona Maria Aniceta Bernardes, uma descendente do tronco dos Vieira de Souza, família pioneira do atual município de Rio Casca (MG), antigo Arraial dos Bicudos, falecida em Viçosa em 1919. O pequeno Arthur, que viera à luz numa casa que existiu antes da que pertenceu ao médico Raymundo Lopes de Faria, e que também já não existe, outrora situada exatamente onde há um edifício na esquina da rua Senador Vaz de Mello com travessa Presidente Tancredo Neves, foi batizado na Igreja Matriz de Santa Rita. No livro de Batismo nº 4-B, página 76, consta que foram padrinhos Antônio José Gomes e Maria Luíza Gomes de Jesus. Quarto filho de uma família de nove irmãos, Carolina (Cota), Antônio (Totone) - este também batizado em Viçosa em 1872, também conforme assento paroquial da Matriz de Santa Rita - , Alfredo, Isolina (Isola), Ana (Ninica), Angelina, Olívia e Olegário, a infância de Arthur foi marcada pelo trabalho. As melhores fontes dão conta da figura de um menino, conhecido de todos na cidade, “de calças curtas, de tecido riscado”, que entregava o leite todas as manhãs, proveniente do sítio que pertenceu a Otávio da Silva Bernardes, no local onde está o Clube Parthenon, no bairro Santo Antônio (Cantinho do Céu), onde até há pouco tempo havia vestígios de uma antiga construção. É exatamente nesse local que estaria a sede, ao tempo em que Artur Bernardes era leiteiro. "A antiga sede ficava na elevação em frente a este local, onde existem algumas palmeiras (a casa atual é de construção mais recente. Posteriormente, meu tio construiu uma casinha lá no canto, no final da rua, à esquerda, onde minha avó (Cota) passou a residir", conforme relatou José Bernardes Raposo, seu sobrinho-neto, a este blogger.
Aprendeu as primeiras letras em sua terra natal com mestres-escola. A 6/11/1887, a fim de estudar Humanidades, matriculou-se, na região de Ouro Preto, no Colégio Caraça. Devido aos poucos recursos financeiros de que dispunha, deixou, em 1889, o legendário educandário dirigido pelos padres Lazaristas. Trabalhou na firma Pena e Graça, do ramo intermediário de compras e exportação de café, estabelecida em Coimbra, distrito de Viçosa, tornando-se depois empregado da Casa Adriano Teles e Cia., um armazém de secos e molhados da cidade de Visconde do Rio Branco, onde, a partir de 1894, foi guarda-livros (contador). Valendo-se de pequenas economias, no mesmo ano, matriculou-se no Externato do Ginásio Mineiro, em Ouro Preto, concluindo exames preparatórios, em 1896, tendo se inscrito, inicialmente, como aluno ouvinte do 1º ano da Faculdade Livre de Direito de Minas Gerais, onde, simpatizante da política do Marechal Floriano Peixoto, incorporou-se ao Batalhão Patriótico Bias Fortes e foi redator do jornal estudantil Academia, órgão criado em comemoração da data da Abolição da Escravatura, além de trabalhar, naquele período, como estafeta dos Correios na então capital mineira.
Antes mesmo de se formar, em 1889, atuou na defesa de um réu no Tribunal do Júri do Fórum de Viçosa, numa sessão na qual seu próprio pai fora quem atuara na acusação. Transferiu-se para a Faculdade de Direito de São Paulo, capital em que se empregou como revisor do jornal Correio Paulista, órgão político partidário, tempo em que também pertenceu, como afirmam alguns historiadores, à Burchschaft, sociedade estudantil. Em São Paulo também foi aprovado em concurso para lecionar Português e Latim no Instituto de Ciências e Letras, servindo tal atividade para o custeio de seus estudos. A 2/12/1900 recebeu o título acadêmico de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e retornou a Viçosa, onde montou banca de advocacia em parceria com seu progenitor. (15/11/1905). Do Indicador de Viçosa constava que eram advogados, naquele tempo, além dele, Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, seu pai Antônio da Silva Bernardes. Dr. José Theotônio Pacheco, Dr. Emílio Jardim de Resende, o sexto cidadão que governou Viçosa; Francisco José Alves Torres, Joaquim Phellippe Galvão e José Augusto Nicácio. Em 1901 publicou no jornal Cidade de Viçosa um artigo, em duas séries, acerca da revisão constitucional. Foi nomeado promotor de justiça da Comarca de Manhuaçu, entretanto, não quis assumir este cargo. Em 1903, a 15 de julho, casou-se em Viçosa com Da. Clélia Vaz de Mello, falecida em 1971, no Rio de Janeiro, filha do senador e industrial Carlos Vaz de Mello, que fora o grande chefe político de Viçosa no Império e nos primórdios da República. Com ela teve os filhos Clélia (1904), Arthur (1905), Maria da Conceição (1906), Dhalia (1908), Rita (1909), Sylvia (1911), Geraldo (1912) e Maria de Pompéia (1922). Dhalia, Geraldo e Sylvia faleceram jovens e solteiros. Clélia, vivendo mais de século, casada com o embaixador Carlos Alves de Souza Filho; Arthur, casado com Sofia de Azeredo; Maria da Conceição com José Domingos Machado; Rita com o Dr. Cristiano Freitas Castro; e Maria de Pompéia com Roberto Flous. No ano seguinte Arthur Bernardes foi designado pelo agente executivo Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, de Viçosa, seu concunhado, para saudar o Dr. Francisco Sales, presidente de Minas, na Estação Ferroviária de The Leopoldina Railway. A 1º/11/1904 foi eleito vereador especial pelo distrito viçosense de Santo Antônio dos Teixeiras, tendo sido edil por pouco tempo: menos de dois anos. A 4/11/1904, por falecimento de seu sogro, substituiu-o no comando político de Viçosa, a 8/11/1904 (?). Juntamente com ele foram eleitos vereadores e juízes de paz os seguintes cidadãos: Cidade – Major Antônio Manoel de Freitas; Coimbra – capitão Arnaldo Dias de Andrade; São Miguel do Anta – José João Carneiro; Herval – Francisco Assis Bello; Araponga – João Jacovini; e São Vicente do Grama – João Ferreira da Silva. E vereadores gerais o Dr. José Theotônio Pacheco, o Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho e o capitão Augusto José Nicácio, além dos juízes de paz da cidade, Joventino Octavio de Alencar e Pacífico Pires da Costa. Em janeiro de 1905 tornou-se diretor do jornal Cidade de Viçosa, órgão do Partido Republicano, onde se impôs “pela elevação de suas idéias”. Conforme LIMA ( nº? ), foi o seguinte o seu comportamento ao assumir a chefia da redação: “Doutrinando sem paixão, fazia ele o jornal de interior, vazado em linguagem elevada e veemente. ‘A Cidade de Viçosa’ dos anos de 1905 a 1910 era um jornal tolerante, que publicava até os nomes dos adversários de seu redator-chefe. O mesmo autor transcreveu o seu primeiro editorial, exarado, entre outros, nos termos seguintes: “Não desconhecendo os salutares ou perniciosos efeitos que uma imprensa é capaz de exercer sobre os costumes e os destinos de um povo, e consagrando amor profundo a essa terra, onde nascemos e onde nos sorriram os primeiros devaneios da juventude, cujo futuro, cujo progresso, não nos podem ser, por isso mesmo, indiferentes, sentimos não nos ser dado recusar nosso recurso para publicação de uma folha como esta, que durante doze anos só procurou nobilitar e engrandecer a Pátria, o Estado e esse Município. Há de ela, pois, continuar a ser o mesmo jornal sensato e criterioso de até aqui. As suas colunas continuarão franqueadas e sempre abertas a todas as causas nobres e justas que serão por nós esposadas e também defendidas com ardor e zelo. Nem a liberdade, nem o direito, de quem quer que seja, serão aqui sufocados pelo rancor de paixões inconfessáveis e más, as quais, deturpando as mais das vezes a verdade, só servem para desvirtuar o papel e contrariar os fins de uma imprensa patriótica, honesta e séria”.
A 9/6 do mesmo ano, indicado para presidir a Câmara Municipal de Viçosa, declinou do cargo, para aceitar entretanto sua eleição à vice-presidência, período em que exerceu, interinamente, a presidência da Casa. Em 1906 foi eleito presidente efetivo da Câmara, assumindo também os encargos de agente executivo, tornando-se, destarte, o quinto homem a governar Viçosa, até 1907, quando foi eleito deputado estadual pelo Partido Republicano Mineiro (PRM). A 17/6, escolhido 1º secretário da Mesa da Câmara Estadual, reeleito no ano seguinte. Entre 1909 e 1910 foi deputado federal. E de 1910 a 1914, secretário estadual de Finanças, revelando-se um autêntico municipalista. De sua autoria foi a lei nº 546, de 27/9/1910, que proporcionou ao Estado fazer empréstimos aos municípios para obras de saneamento “e outras de manifesta necessidade”. Sua política era baseada na preocupação com os municípios desde o início de sua carreira política. Ele costumava pleitear verbas bastante generosas para a Zona da Mata e Sul de Minas, concedendo-lhes empréstimos a longo prazo. Suas votações para os diversos cargos que disputou eram muito grandes nesses municípios. Quando foi secretário estadual de Finanças, “auxiliou imensamente os municípios através de empréstimos. Foi a Lei nº 546, de 27 de setembro de 1910, que facultou ao Estado fazer empréstimos aos municípios para obras de saneamento e outras de manifesta necessidade.[...] Essa lei foi a mais sábia combinação legislativa posta ao serviço do progresso municipal em nosso Estado. Graças a ela uma súbita transformação operou-se na vida dos municípios, despertados ao seu influxo para vários melhoramentos, aos quais consagram energias novas e criadoras que vão fazendo o desenvolvimento do interior”, diz uma publicação do Senado Federal. Como deputado estadual ele fez pelo menos onze discursos que tinham como tema a Agricultura, entre os anos de 1907 e 1910. Em 1913 a imprensa registrava os seguintes melhoramentos em Viçosa: variante da Estrada de Ferro Leopoldina, instalação de força e luz elétrica, esplêndido e copioso abastecimento de água potável, rede de esgotos, passeios cimentados em todas as ruas e praças, grupo escolar em vasto e majestoso edifício, jardim público, Colônia Agrícola no distrito da cidade, hospital em prédio próprio, a fundação do Gimnasio em prédio remodelado para tal fim, além da ligação de duas partes da cidade por aterro e nivelamento de uma rua.
O que agora é o velho galpão da antiga Rede Ferroviária Federal e depois da Ferrovia Centro-Atlântica, na praça Marechal Deodoro, foi um dia o grande marco do progresso regional, graças à eficiente e prestigiosa ação da Política Bernardista. Em 1914 concluía-se uma variante da via férrea entre as estações de Cajuri e Teixeiras, atravessando a sede do município de Viçosa, uma extensão de 18 quilômetros. Os trilhos e dormentes da ferrovia The Leopoldina Railway haviam chegado a Viçosa em 1885, numa realização do senador Carlos Vaz de Mello. A primitiva estação fora edificada a seis quilômetros do centro da cidade, na localidade rural depois denominada Estação Velha. Os nativos não poderiam deixar de encarar senão com simpatia essa perspectiva de progresso acelerado. Inclusive o prestigioso político de tendências monarquistas que fora seu ferrenho adversário em Viçosa desde que Bernardes se elegera à presidência da Câmara Municipal. Dr. José Theotônio Pacheco, que havia sido agente executivo de Viçosa por 9 anos, e que fez toda a questão de comparecer à festividade inaugural. Logo em seguida se retirou definitivamente da vida pública, encerrando uma oposição iniciada havia dez anos. Foi, para todos, uma melhoria de grande alcance, a cuja chegada uma multidão testemunhou a 31 de agosto de 1914. Da estação do atual centro da cidade partia uma linha férrea. Não é difícil imaginar que foi uma enorme felicidade assistir a realização dessa distenção ferroviária, o alongamento de uma estrada já existente, e que colaborou, estimulando o empreendimento não só agrícola, mas ainda o industrial e o comercial. A estrada de ferro, a cuja inauguração os filhos de Viçosa assistiram na administração de Dr. Arthur, com perspectivas de futuro oferecidas a seu amado torrão, foi digna, portanto, da mais sincera e unânime acolhida e do louvor de entusiasmo popular. O instante da chegada do trem de ferro à cidade foi um motivo demasiado significativo e impossível foi alguém silenciar, deixando de manifestar os parabéns ao principal propulsor de tão faustosa obra pública.
Entre 1915 e 1917, Bernardes foi deputado federal e em 1918 foi eleito presidente de Minas, quando viajou muito nesta estrada de ferro, sendo sempre recebido com calorosas manifestações, foguetes, ramalhetes de hortências, discursos e retretas musicais não só em sua terra natal mas nos diversos lugares em que desembarcava. “Asseguram testemunhos da época, que Bernardes fazia toda a viagem de trem, de Belo Horizonte ao Rio e vice versa, sentado na sua poltrona sem se mexer. Muito bem composto, de colarinho duro e ‘pince-nez’, nem sequer ajeitava o casaco. Somente os solavancos do trem abalavam, de quando em quando, a sua postura petrificada, fiel à forma modelada nos tempos do Caraça. Os adversários de Bernardes costumavam dizer que a sua vitória foi o triunfo do paletó abotoado” Revista Manchete de 2/4/1955). Uma dessas viagens especiais foi a de 28 de agosto de 1926, já como presidente do Brasil, e o jornal Cidade de Viçosa assim noticiou a chegada de um comboio a Viçosa: “Às 8 horas chegou à Escola o primeiro trem especial, conduzindo parte das comitivas presidenciais, do qual desembarcaram o senhor deputado Celso Machado, comandante Dodsworth Martins, ministro Camilo Soares, Dr. José de Almeida Campos, jornalistas da Gazeta de Notícias, Jornal do Comércio, A Manhã, Agência Americana, O Brasil e Vida Doméstica”. Cidade de Viçosa também descreveu a chegada do comboio presidencial: “Deu entrada este na Escola às 9 horas da manhã indo estacionar em frente ao Edifício Principal. Feito o desembarque dos senhores presidente do Estado e da República, ministro da Viação, secretário da Agricultura e suas comitivas, ao som do Hino Nacional executado pela Banda da Escola e fanfarra da Cavalaria da Brigada Policial do Rio que aqui chegara às vésperas. Compunham as comitivas as seguintes pessoas: excelentíssima senhora D. Clélia Bernardes digna esposa do senhor presidente da República e suas gentilíssimas filhas Rita e Conceição Bernardes; esposa do excelentíssimo senhor Ministro da Viação; deputados Francisco Valadares, Fidelis Reis e Oscar Loureiro; Dr. Noraldino Lima, general Antenor de Santa Cruz, chefe da Casa Militar do senhor presidente da República; Dr. Washington Vaz de Mello e senhora; Cel. Vieira Christo. José Vaz de Mello, Dr. José de Mello Machado, José Machado Filho; José Domingues Machado e Dr. Góis, da Casa Civil da Presidência da República. Após a missa campal, celebrada pelo Revmo. Pe. Álvaro Corrêa Borges, procedeu-se à bênção do Edifício Principal. A seguir teve lugar o ato oficial da Inauguração da Escola Superior de Agricultura e Veterinária (Esav). Duodécimo brasileiro a ocupar a Presidência da República dos Estados Unidos do Brasil, antes de atingir a suprema magistratura da nação, sofrera no período eleitoral intensa campanha caluniosa e difamatória. Entraram então em cena os forjadores das cinco famigeradas cartas, depois desmentidas em acurado exame grafotécnico, que atribuíam a Bernardes, em plena disputa presidencial, declarações insultuosas, “de próprio punho”, a oficiais do Exército, que provocaram violentas reações contrárias à sua eleição. De acordo com nota do Jornal do Brasil de 24/3/1955: “sua campanha presidencial foi processada num clima de irreprimível agitação, pelo episódio das ‘cartas falsas’, que prosseguiu durante todo o período do seu governo [...] Sua firmeza de chefe de Estado, servido por invulgar inflexibilidade de caráter e notável coragem cívica, fê-lo resistir a todas as conjunturas políticas do momento e dominar as crises militares”. Nessas correspondências o presidente do Clube Militar, Hermes Fonseca, era classificado, dentre outras coisas, de “sargentão sem compostura” e “canalha”. Quanto a isso, Gustavo Capanema disse ter conhecido bem Arthur Bernardes “em horas de grave perigo”, realçando que “ele era, em tais momentos, homem corajoso, impávido, renhido. Não conheci, sob esse aspecto, ninguém maior do que ele”. E como lembrou em discurso de paraninfa na UFV a Profa. Maria de Pompéia da Silva Bernardes Flous, sua filha caçula, ele “não conhecia o medo, mesmo nas horas mais difíceis de sua trajetória política. Rememoro três momentos de grande significado histórico: Não abandonou o Catete, nem mesmo quando revoltosos para lá se dirigiam a fim de bombardear o Palácio”. O Estado de Sítio, em 15 estados, durou 40 meses. As palavras seguintes, a ele atribuídas, revelam o perfil administrativo de quem foi denominado Representante da Autoridade Absoluta: “Quando se me apresenta um assunto, começo a estudá-lo, só e a fundo, ajudado pela minha experiência; depois reúno meus amigos, especialmente os de maior preparo na matéria; ouço as suas opiniões, analiso-as, observo ou aceito e, por fim, adoto a resolução que mais diretamente contribua para realizar o que aquele assunto exige do Governo. Tomada, assim, depois de longos e minuciosos estudos, uma resolução, levo-a à prática sem atender, na maior parte das vezes, nem o artigo do jornal da oposição, nem ao discurso do deputado adversário da minha política, porque sei que nem o jornalista, nem o orador se deram ao trabalho de estudar, tão seriamente como eu e meus amigos, o assunto de que se trata. Esta é uma das razões da inflexibilidade das minhas resoluções de Governo”. Eleito com 66.877 votos x 317.444, números homologados pelo Senado contra o escore 325.325 x 302.576, reivindicado pelo opositor Nilo Peçanha, em seu governo, a fim de assegurar vitórias eleitorais de correligionários regionais, chegou a anular atos da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e a enviar tropas à Bahia, visando sua reconstituição política, expurgando também opositores do Congresso Nacional, como Irineu Machado, senador da República. De acordo com a revista Veja de 12/6/2002, foi ele o primeiro presidente a construir uma prisão especial para adversários políticos, a Clevelândia, na região Norte do país, que chegou a abrigar 1.200 presos políticos, entre os quais os que em Foz do Iguaçu, oficiais gaúchos, se uniram na maior marcha guerrilheira da história humana: 25.000 quilômetros percorridos. Foi a Coluna Prestes (movimento tenentista) com 1.500 rebeldes, inclusive mulheres. Determinou o fechamento do jornal Correio da Manhã e a prisão de seu diretor, Edmundo Bittencourt, considerado seu adversário na campanha presidencial. Na Revolta de 1924, conflito bélico sem precedentes na cidade de São Paulo, que durou 23 dias, comandado pelo general Isidoro Dias Lopes, quando foi deposto o governador Carlos de Campos, atacado o Palácio dos Campos Elíseos e tomadas diversas prefeituras do interior paulista, Bernardes mandou bombardear, por aviões, os bairros da Mooca, Brás e Perdizes, obrigando rebeldes a se retirarem para Bauru, celebrizando-se a derrota de Três Lagoas, quando morreu um terço da tropa revoltosa. Durante 15 dias, 1.800 prédios foram danificados, 11 mil casas destruídas sendo registradas 503 mortes e 10 mil prisões. A tranqüilidade dos lares, as classes produtivas e trabalhadoras, a rigorosa economia administrativa e a emancipação econômica do Brasil, a severa fiscalização na arrecadação das rendas, o equilíbrio orçamentário, o regime penitenciário, a siderurgia, a produção nacional, o fomento à cultura do algodão e do carvão, obras contra as secas, o ensino técnico profissionalizante, a qualidade do transporte coletivo, o prestígio do poder público, a defesa da propriedade industrial, a carestia dos meios de subsistência, a educação da mocidade, a descentralização administrativa dos municípios foram algumas de suas maiores preocupações. De Viçosa manifestou sua preocupação inclusive com a beleza das flores de seus jardins públicos. Criou o Conselho Superior de Indústria e Comércio, o Conselho Nacional do Trabalho e as caixas de aposentadoria dos ferroviários, dando início ao Trabalhismo. Em seu governo houve a revisão constitucional que regulamentou a intervenção federal e permitiu uma melhor definição de atribuições dos três poderes da República, assegurando-lhes “perfeita harmonia de ação” e dando-lhes “o devido traçado do raio de independência”, na avaliação do próprio presidente. Tendo sido para Viçosa um administrador “metódico, progressista e financeiro”, o foi também para todo o Brasil, mantendo forte a moeda nacional, o equilíbrio orçamentário, das taxas de câmbio e a severa fiscalização da arrecadação das rendas. “Recebeu o país em angustiante situação econômica com déficit's orçamentários assustadores, dívidas externas onerosas, mas não permitiu que o país engolfasse no abismo. Providências tomadas com presteza equilibraram as finanças nacionais”, de acordo com o Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho.
Em diversas épocas, muitos homens públicos, entre os quais Raul Soares de Moura, se preocuparam com o empirismo e a imprevidência das práticas agrícolas em Minas Gerais, particularmente com a miséria da população rurícola. Mas foi Arthur da Silva Bernardes quem lançou as bases para a solução do problema agrário. Para ministrar ensino teórico e prático e experimentais, para o progresso da ciência, ele determinou que se criasse a Esav. Referindo-se à finalidade desta escola, disse o presidente Bernardes: “A agricultura tem necessidade de técnicos e peritos. À exploração da terra tem que ser dada, cada vez mais uma orientação científica. Aperfeiçoando-se os métodos de cultura, o Brasil, antes de tudo, tem de ser um grande país agrícola. Sem dúvida, temos que cuidar das indústrias manufatureiras em que tão grandes capitais estão empregados, tamanho interesse criaram à sombra das leis, devendo-se a tais indústrias a proteção necessária à sua conservação e crescimento sem sacrifícios. O grande interesse do Brasil está ainda na agricultura, está no aumento da produção, está na solução de todas as nossas dificuldades financeiras. O problema da produção está intimamente ligado à mão-de-obra. É preciso portanto fixar o interesse do trabalhador, tornar o meio mais agradável e próprio à vida, arrancando ao trabalhador a sedução da cidade; dar-lhe assistência e proteção; associar o trabalho ao capital, criando a harmonia e solidariedade dos interesses”. Data de seu governo a criação da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira e a semeadura da Esav, que se agigantou, floresceu e frutifica na pujante Universidade Federal de Viçosa, cidade detentora de alto índice cultural em seu estado. “Estadista de larga visão, compreendeu que se tornava indispensável e urgente que se modificassem métodos e práticas ultrapassados, no trato da terra e dos animais, em benefício da riqueza de Minas e dos mineiros. Homem de cultura polimorfa, sabia que só o conhecimento científico e o aprendizado sistemático poderiam alcançar os objetivos de uma agropecuária eficiente, racional e rentável”, destaca o escritor viçosense Prof. Tarcísio Gomide. Bernardes viu satisfeito a realização de sua antevisão, o funcionamento pleno da instituição. E resolveu elaborar de próprio punho uma missiva exarada em caracteres filigranados, e em bom vernáculo, manifestando regozijo com a obra que ele concebeu. A jubilosa correspondência está ainda a ressoar no espaço e no tempo. A festejar a Escola de Viçosa, são suas estas palavras: “Impressionado, na Presidência do Estado de Minas, com o fato de já contar o Brasil um século de vida política independente sem cuidar seriamente do ensino profissional, em que deve alicerçar sua futura grandeza industrial, criei-a com o alto objetivo de abolir o empirismo agrícola, a que tantos mineiros consagram suas energias, no amanho diuturno da terra como na criação e pastoreio dos seus rebanhos. Tendo me cabido a fortuna de criá-la como Presidente de Minas e tendo tido a satisfação de assistir, como Presidente da República, à sua inauguração oficial, regozijo-me ao vê-la, hoje, em pleno funcionamento e já despertando novos estímulos nas gerações moças, empenhadas, agora, numa atividade racional e científica, que há de conduzi-la a maior e mais fácil prosperidade. É o alvorecer de uma nova era que se abre nos destinos econômicos do Estado e do País, já se podendo antever uma larga messe e uma próxima e pujante colheita. Satisfeitos e contentes devem sentir-se quantos colaboraram nesta iniciativa, sobretudo os governantes que me sucederam, com os quais me congratulo ainda uma vez”. Como bem realçou o sociólogo Edgard Vasconcellos Barros, antigo docente da Uremg, “aí está hoje a obra de Arthur Bernardes, desdobrando-se em Universidade, crescendo à medida que passam os anos, nos quais se agigantará o seu vulto, projetando, para o futuro, o seu ‘pensamento reformista’”. Quando deixou a presidência, foram suas últimas palavras esta belíssima oração: “Rendemos graças ao Criador por ter nos dado a necessária fortaleza de ânimo no cumprimento do nosso dever para com a pátria. Dela, podemos dizer, como Cícero, que nos foi muito mais cara do que a própria vida”... “Quanto em nós se continha de amor à Pátria e à República, de energia moral e resistência física, demos, sem reservas, ao serviço da Nação”.
Empossado senador, sob apupos, em março de 1927, indo logo após para a Europa, retomou sua cadeira em maio de 1929, da qual afirmaria ele na sessão de 12 de setembro de 1929, como se transcreve à página 89 de AMORA (nº?): "A pena de morte é uma proteção à vida dos bons cidadãos, porque no Brasil os maus é que têm todo o privilégio em detrimento daqueles. Eis porque me parece justo o pensamento em estabelecê-la". Apoiava, então, sugestão do deputado Adalberto Correia. Ocupava ainda este cargo quando participou ativamente da Revolução de 3 de outubro, opondo-se à Concentração Conservadora, apoiando, portanto, a Aliança Liberal, ajudando a instalar o governo provisório. Em 1931, logo após o surgimento da milícia denominada Legião Liberal Mineira, Bernardes chegou a ser detido a mando da ditadura, enquanto ele articulava, com correligionários, a convenção para a reorganização de seu partido. Ao final daquele ano defendia ele a fusão da Legião com a sua antiga agremiação, o PRM, sendo que, em fevereiro de 1932, o chamado Acordo Mineiro decidiu pela criação do Partido Social Nacionalista (PSN), integrando ele a sua direção, mas que logo, em maio do mesmo ano, seria dissolvido. Insatisfeito com a dissolução do PSN e porque se procrastinava o advento da Constituinte, a 8/8/1932, lançou, por escrito, um Manifesto à Nação, no qual lamentou o “espetáculo doloroso da guerra civil” em São Paulo, aderindo à Revolução Constitucionalista, decepcionado com os “resultados negativos” do período discricionário de Vargas. Bernardes, do alto do varandim de sua residência, na praça Silviano Brandão, 69, manifestou-se solenemente convocando os viçosenses, que aderiram, incondicionalmente, ao movimento, pegando em armas, integrando batalhões de forças voluntárias nos diversos distritos. Dois de seus correligionários presentes ali no instante do discurso, relataram a este blogger detalhes do momento do pronunciamento de Bernardes e os graves episódios que se seguiram a este fato na microrregião de Viçosa. São eles José Simião da Cunha, ex-delegado regional de capturas e juiz de paz da Comarca de Viçosa e o economiário João Maffia Filho. Ambos estiveram entre os cidadãos que participaram, respectivamente em Porto Seguro e no distrito de Cajuri, do levante que Bernardes liderou, uma tentativa armada, e malograda, de deposição do interventor mineiro Olegário Maciel. Com o fracasso do movimento, pela precipitação de voluntários do Integralismo, que também aderiram ao levante, tropas policiais revistaram casas em Viçosa a procura de armas. A exposição das idéias do estadista motivou alguns atentados contra a vida dele e a sua conseqüente prisão, em 23 de setembro, na Fazenda da Luíza. A cavalo, andando de uma fazenda a outra, inclusive em Calambau, Bernardes acabou preso na citada fazenda, propriedade do casal Cornélio de Paula Lanna e Cândida de Paula Miranda, pais do professor Oswaldo Lanna, que relatou-me ter fortes lembranças do episódio. Disse-me ele recordar-se do dia de sua infância em que viu o vulto do presidente se ocultar sob um alcapão, na fazenda de seu progenitor. De acordo com TAFURI, “as famílias viçosenses sempre estiveram muito envolvidas emocionalmente nos fatos ocorridos em 1930, 32 e 37, seguindo seu líder Bernardes [...] O apoio da comunidade viçosense não faltou, também, a Bernardes, nos episódios que marcaram o golpe getulista, com a conseqüente instalação do Estado Novo, em 1937. Nessa ocasião, as famílias viçosenses, em quase sua totalidade, viram seus chefes e parentes saírem presos, entre os soldados, lotando a cadeia local. O grande crime: ser Bernardista”. Preso, Bernardes foi transferido para o Rio de Janeiro, e a 1º de novembro conduzido para o Forte do Vigia, no Leme, embarcando com sua família, a 4 de dezembro, no navio Astúrias, após tomarem uma lancha no cais da Polícia Marítima para se chegar à embarcação. Chegou em Lisboa no final de dezembro. Anistiado a 28/5/1934, retornou à sua Pátria, desembarcando no Rio de Janeiro a 12 de agosto e no dia 21, chegou a Belo Horizonte, tendo sido recepcionado em Viçosa no dia 3 de novembro do mesmo ano. Subscrito por Dr. Cyro Bolivar de Araújo Moreira, Dr. João Braz da Costa Val, Benjamim da Silva Araújo, José da Silva Araújo Júnior, Dr. Raymundo Torres, Dr. Juarez de Sousa Carmo, Verano Lopes de Faria Franco, Daniel Lourenço Baêta, José Jannotti Primo e Alino Corrêa Borges, um panfleto circulou na cidade desde 1º de novembro, com os seguintes dizeres, anunciando uma programação festiva: "Dr. Arthur Bernardes - Após dois annos de exilio chegará a Viçosa, no dia 3 do corrente, o grande viçosense Exmo. Sr. Dr. ARTHUR BERNARDES. Os amigos e conterraneos do eminente chefe, a quem Viçosa tudo deve, rejubilando-se com o auspiciosos acontecimento vão promover significativas festas, cujo programma é o seguinte: Dia 3 - Ás 4 horas da manhã - Alvorada com musica e fogos. Às 12 horas -Partida de um trem especial conduzindo amigos do homenageado a Ponte Nova, os quaes deverão acompanhar S. Excia. até esta cidade. De passagem por Teixeiras, receberá o Exmo. Sr. Dr. Arthur Bernardes os cumprimentos e votos de boas vindas de amigos e correligionários ali residentes. Em Silvestre, o eminente brasileiro será aguardado por uma commissão de viçosenses, que se juntará à comitiva. A partida do especial da estação de Silvestre será anunciada por foguetes, que serão soltos nos altos dos morros que circundam a cidade. Às 12 horas da tarde - Chegada do trem especial à estação de Viçosa, onde estarão commissões de senhoras, senhorita e cavalheiros de nossa sociedade, que receberão o ilustre viçosense e sua Exma. Família. Falará, no momento do seu desembarque, em nome do município de Viçosa, o Sr. Dr. João Braz da Costa Val. Em seguida seguirá para sua residencia, acompanhado pelo povo e ahi será a Exma. Sra. Da. Clelia Vaz de Mello Bernardes saudada pela senhorinha Anna Lopes de Castro, que falará em nome da mulher viçosense. Dia 4 - Ás 9 horas da manhã - Missa em acção de graças pelo feliz regresso do homenageado e de sua Exma. Família. Durante o resto do dia, as diversas bandas musicaes presentes tocarão, alternadamente, na praça Silviano Brandão. Às 9 horas da noite - Recepção nos salões do Viçosa Club. o Exmo. Sr. Dr. Arthur Bernardes será, ahi, saudado, em nome do Club, pelo Revdmo. Sr. Padre Álvaro Corrêa Borges. Diversos bailes serão organizados nos dias 3 e 4. Tomarão parte nos festejos as bandas de musica da cidade e dos districtos de Teixeiras, S. Miguel, Araponga, Calambau, Amparo do Serra e Conceição do Turvo."
A Razão, de 2 de setembro de 1934 (nº 29), editado em Viçosa, reproduziu trecho da reportagem d’O Estado de Minas que registrara a presença de 80.000 pessoas em Belo Horizonte, oriundas de todos os municípios mineiros, que “acclamaram, numa indescriptivel apotheose, o maior dos viçosenses”. A Razão, que estava em seu primeiro ano de circulação, e que tinha escritório de redação na praça Silviano Brandão, nº 32, hebdomadário, relatou “uma verdadeira apotheose que superou, sob todos os aspectos, as singulares festas com que o povo mineiro recebeu, em epochas differentes, Santos Dumont, Ruy Barbosa e Alberto I da Bélgica. Cerca de 80.000 almas acclamaram o ex-presidente Arthur Bernardes por occasião da sua chegada à Capital do Estado.
“Alguém já disse que a deportação do dr. Arthur Bernardes, em vez de fazel-o decahir na solidariedade e na estima dos seus correligionários, serviu para cimentar taes sentimentos dos chefiados para com o chefe, porque o exilio tem os seus elementos poeticos e estimula a imaginação popular. E um conductor de homens da tempera do dr. Arthur Bernardes ganha, sem o querer, com a proscripção, esses outros traços romanticos que falam, directo, ao fundo mystico da multidão. Por isso, o seu tão desejado regresso ao torrão bemdito da Patria que elle tanto ama, foi, sem sombra de exaggero, uma consagração. Por que? Que poder enfeixa elle nas mãos? Que auctoridade official se encarna na sua personalidade? Que homem poderoso é esse, que as élites e o povo envolvem no esplendido tumulto das acclamações? A resposta é muito simples.
Antes de um grande servidor da nação, Arthur Bernardes é um grande homem de bem, cuja culminancia moral, cultural e civica basta para garantir-lhe o domínio e a irradiação. A dictadura, visando a cortar-lhe a rota, embora não logrando attingil-o, premiou-o com o exílio. Mas, nem por isso, no seu animo, sobranceiro aos revezes em que a injustiça se desentranhe, não cabe o travo do odio, não se agasalham os resentimentos, que são o apanagio das indoles vulgares. Um espirito com a sua robustez de equilibrio, uma alma com o seu destemor sereno só pode atordoar, como tem atordoado, os phariseus liliputianos que corvejam cynicamente sobre a carcassa podre da Nação. E se lhes restasse uma pontinha de vergonha e de caracter, como deveriam sentir-se, nesta hora, diminuidos os homens que cometteram a inepcia de prendel-o e deportal-o! Arthur Bernardes é, para o Brasil, na hora que passa, um symbolo de liberdade e um grito de redempção,” realçou J. Pinto Coelho, na matéria de capa, intitulada “A triumphal ecepção do dr. Arthur Bernardes em Belo Horizonte”, reproduzindo ainda a minuciosa reportagem d’O Estado de Minas, que relatara a manifestação feita pelas classes conservadoras da capital e do interior mineiro.
“Sem nada ter para offerecer-vos, venho ainda perdir-vos para desatrelar Minas do carro da dictadura, pelo qual foi arrastada durante quatro annos.
Eu espero ver demonstradas a altivez e a independencia do povo mineiro a 12 de outubro, data desse desatrelamento”, concitou Dr. Arthur em seu pronunciamento, no Grande Hotel. “Pela praça Ruy Barbosa, na avenida Santos Dumont, na amurada da rua Sapucahy e adjacencias, estendia-se a multidão”, descreveu o Estado de Minas, acrescentando que o povo o ovacionava entusiasticamente., sendo que senhorinhas ofertavam-lhe e à esposa Dona Clélia, ramalhetes de cravos e outras flores naturais.
“Todos queriam ver os ex-presidente. As palmas e os ivas eram ouvidos a todo momento. Com grande dificuldade, conseguiu s. excia. chegar á porta do hotel e subir a escadaria, onde era aguardado pelas senhorinhas com vivas e flores.” (id. ibid). O Estado de Minas informou, ainda, que à frente dos oradores, no hotel, exibiam-se os brasões de Minas e São Paulo e uma larga faixa na qual se lia a célebre frase do estadista: “Quanto a mim, fico com São Paulo, porque para lá de transportou a alma cívica da Nação”.
A primeira sessão do Congresso após a Revolução de 1930 foi iniciada a 3 de maio de 1935, quando foram organizadas as chamadas Oposições Coligadas. Bernardes articulou desde setembro de 1934 a formação de partido nacional. A eleição de 17 de julho de 1934 foi indireta. Em 3 de maio de 1933 haviam sido eleitos os deputados à Assembléia Nacional Constituinte e, após a votação da nova Constituição, o pleito que reconduziu Getúlio Vargas à presidência, teve um total de 248 votos, dos quais 1, certamente de protesto, foi para Arthur Bernardes, que teve a mesma quantidade de sufrágios de Raul Fernandes, Plínio Salgado, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, Afrânio de Melo Franco, Oscar Weinscheck, Paim Filho e Levi Carneiro. Getúlio Vargas teve 175 votos (70,58%), Borges de Medeiros, 59, Pedro Aurélio de Góis Monteiro, 4 e Protógenes Guimarães, 2 votos. Já em 1935, Bernardes foi o deputado federal mais votado, com 38.025 votos, e quando da adoção do Estado Novo, em 1937, ligou-se à União Democrática Brasileira (UDB). O Estado de Sítio de 1935, de 60 dias, foi por ele apoiado, a despeito de suas graves divergências ideológicas com o chefe da Nação. Transformado em estado de guerra, e prorrogado em 1936, já não teve mais o apoio do mesmo Bernardes que, exatamente um lustro antes da criação da Companhia Vale do Rio Doce, opositor ferrenho de um projeto de revisão de contrato da empresa Itabira Iron Ore, alertou seus pares em pronunciamento a 18 de julho de 1937, na Câmara Federal: "Em vez de darmos a concessão, abramos nós mesmos saída ao nosso minério para os mercados, aparelhando a Vitória - Minas, os cais e as companhias nacionais de navegação. Os navios brasileiros nos trarão de retorno o carvão necessário ao nosso consumo, inclusive para o fabrico do ferro e do aço". Em 1939 foi obrigado a confinamento (prisão domiciliar) na Fazenda Santa Helena, de sua família, em Viçosa, onde mantinha atividade empresarial. quando sua locomoção foi limitada a viagem entre sua terra e o Rio de Janeiro. No ano anterior, fora também exilado em seu lugar, Arthur Bernardes Filho.
Os viçosenses que viveram até a metade da década de 50 do século passado estiveram, de braços abertos, com flores, foguetes, vivas e bandas de música, para recebê-lo diversas vezes. Os moradores de Viçosa - assim dizem os mais velhos - aqui estiveram com o coração agradecido para testemunhar a sua solidariedade a Arthur Bernardes, e apresentar boas vindas ao ilustre comunícipe visitante. Seus regressos à sua cidade querida foram como que vida nova enxertada nos viçosenses, especialmente seus partidários do PRM. A proximidade dele trazia alegria aos corações dos viçosenses, que lhe estendiam suas mãos num gesto amigo, para lhe dizer: “Sêde benvindo!”
A 24/10/1943, assinou, em favor da redemocratização, o Manifesto dos Mineiros, como registra a História do Brasil. Em 1945, no novo Partido Republicano, e ao lado da União Democrática Nacional (UDN), apoiou um ex-aluno da Escola Militar de Realengo, criador do Correio Aéreo Militar, major-brigadeiro Eduardo Gomes (1896-1981), como candidato à presidência do Brasil, então derrotado. Em 1946, Bernardes foi eleito deputado federal constituinte, o menos votado de Minas Gerais. A 23/3/1955, quando morreu, exercia mais um mandato de deputado no parlamento brasileiro. Da biografia deste paladino do nacionalismo genuíno, opositor ferrenho da dilapidação, pelos estrangeiros, da hematita brasileira e dos três milhões e meio de quilômetros da Bacia Amazônica, consta que presidiu o Centro de Estudo e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional (CEPDEN), sempre como um fiel cumpridor da advertência filosófica segundo a qual “o exercício dos direitos políticos deve sempre ter em mira não o interesse e o bem-estar de qualquer classe ou de um partido, mas um interesse e um bem-estar geral do Estado”. De acordo com depoimento do ex-deputado Cyro Maciel, "a participação de Bernardes nos debates da questão do petróleo brasileiro seria o grandioso remate de sua atuação na vida pública do País. Os anais parlamentares, as colinas dos jornais, os recintos de instituições onde se fez ouvir, guaram os ecos ainda vivod, de sua palavra de combatente pela solução monopolística na exploração dessa riqueza que ele acreditava existir em abundância no Brasil. Sua campanha residiu, primeiro, na teimosa afirmação, por muitos contraditada, da existência do petróleo em nosso teritório e, segundo, em que o próprio País deveria explorá-lo com recursos próprios, como indesviável exigência de nossa Independência econômica e de nossa soberania. O nosso interesse, dizia ele, é o de explorar monopolisticamente o petrólio, para que seus lucros fiquem no País, nele circulem, fomentem seu desenvolvimento, criem riquezas que proporcionem bem-estar aos brasileiros." Prosseguindo, Cyro Maciel disse também em relação a esta luta de Bernardes: "Era uma voz autorizada ecoando no cenário em que se debatia a histórica opção, o Congresso Nacional, onde ele dedicava no maior problema econômico do País suas derradeiras energias, convencido do grande serviço que prestava ao povo brasileiro. A votação da lei que criou a Petrobrás, consagrando a exploração estatal do Petróleo, foi a vitória final da vida do notável brasileiro. Ainda aó teve de defrontar incompreensões, de ouvir insinuações solertes, de superar resistências suspeitas. Mas hoje os poços petrolíferos que vão. a cada dia revigorando nossas esperanças nesse setor, vão também retificando o julgamento de muitos daqueles que antes o combateram. Pelas posições que assumiu na defesa das causas mais importantes para o progresso nacional, porque vinculou sua vida e seus esforços aos temas permanentes do País, porque tinha fé nas possibilidades do Brasil, porque confiava no seu destino, sua memória só tende a engrandecer-se na gratidão do País. A cada dia permanece atual. As lutas que enfrentou parecem ser as de hoje e de sempre numa Nação empenhada em devassas os caminhos de seu desenvolvimento e que, a cada êxito conquistado, a cada etapa transposta de sua emancipação, haverá de lembrar a ação precursora de seu grande filho... É já um septuagenário, mas mistura-se aos mais jovens e com eles arrosta os trabalhos da campanha." Dr. Juscelino Kubitschek de Oliveira, por ele apoiado na campanha presidencial de 1955, definiu-o: “Bernardes jamais foi um homem de atitudes repentinas, de posições graciosas e nele a preocupação nacional pairou sobre todas as outras”. E referindo-Se a mensagem de Bernardes ao Congresso Nacional em 1925, o mesmo JK disse o seguinte: “A mudança da capital federal para o planalto central é uma de suas preocupações, e não fossem as agitações que lhe perturbaram o quatriênio, quero crer que a esse objeto teria dado mais ênfase”.
Como realçou o jornalista Simão Cirineu Ladeira em mensagem a este blogger, “Arthur Bernardes - registram as biografias - era o Catilina Montanhês, homem que não errava, do dever, da vontade, vida limpa, alma forte, vencedor, que sabia escutar, jacobino, austero, severo, veraz, tímido, de raro riso, passo vagaroso, e, iluminado pela fé, de terço diário, assim como, mesmo em casa, marcavam-lhe o paletó e a gravata. O informal gênio Einstein, no Rio, obriga-se a comprar terno e a tomar gravata emprestada para se ter com ele...Para os adversários era: Seu Mé, sicário de Viçosa, Presidente do sítio, criatura deflorada, Lampião de Viçosa, calamitoso, carrasco de Clevelândia, bandido público, réprobo, rolinha, autoritário, chefe de polícia, inimigo das Forças Armadas etc. Maior que toda sua história repressora e algumas idéias descartáveis, como a defesa da pena de morte, subsiste, no entanto, sua imagem de nacionalista, que nos defendeu a Amazônia, no caso da Hiléia, enfrentando a Unesco, o petróleo, com “o petróleo é nosso”, ante a cobiça das petrolíferas estrangeiras, e o minério, encarando, como ninguém, os trustes de Percival Farquhar e sua Itabira Iron. Ou, na síntese de Gilberto Amado:“homão, o mineiro Bernardes, amante da autoridade, com quem casou para ser respeitado”. Este o mais ilustre filho de Viçosa”.
Um de seus biógrafos, Paulo Amora, assim o retratou: “Alto, esguio, de nariz aquilino, testa larga. Olhos castanhos, pequenos e irrequietos lhe boiavam no rosto comprido. Fixavam-se no interlocutor, ora em lances rápidos, ora com reflexos de doçura, como a lhe espelharem as reações da alma. Na mocidade, bigodes à Guilherme Hohenzollern. Apenas sorria, não ria. Vestia-se com esmero e certo requinte de elegância. Porte ereto, atitude impecável em qualquer circunstância. Apesar da austeridade do seu físico, era ele afável e ameno, acessível e cortês. A sua prosa era agradável, porém, severa, a dicção perfeita, escandindo bem as palavras, a voz cheia. Educado e cavalheiro, deixava sempre à vontade os que o procuravam, pois herdara a arte rara de saber ouvir”. Em derradeiro manuscrito que se tornou o seu epitáfio, dirigindo-se a amigos, correligionários e “brasileiros de boa vontade”, o grande patriota que foi Arthur da Silva Bernardes, em palavras de fé e esperança, afirmou que a sua preocupação de todos os momentos foi a grandeza e a felicidade do Brasil. Ele pôde dizer, às vésperas de completar 80 anos, ter sido o seu viver “mais para a Pátria”.



Emílio Jardim de Resende (1908-1912)



O major-coronel Dr. Emílio Jardim de Resende, que pertencera à Guarda Nacional em Viçosa e presidiu a Assembléia Legislativa de Minas Gerais em 1918, era filho da cidade mineira de Paracatu, nascido a 22 de janeiro de 1874, onde estudou na Escola Normal. Era filho do ilustre desembargador João Emílio de Resende Costa, de tradicional família mineira, e de Dona Virgínia de Oliveira Jardim. Casado em primeiras núpcias com Dona Emília Dias de Carvalho, com ela o Dr. Emílio teve os filhos Emílio, Lydia, Christiano, Dinah, Esther, Violeta e João. Casou-se depois com Dona Carolina Gonçalves Coelho, de cuja união nasceram Caio, Yolanda, Célia, Odette, Cícero, Sylvia e Carlos. Lecionou no Gymnasio de Viçosa e fora professor e diretor da Escola Normal, sendo ele um dos principais responsáveis pela vinda, para Viçosa, da Congregação das Irmãs Carmelitas da Divina Providência, que por sua vontade passaram a dirigir a Escola Normal Oficial.
Na Câmara dos Deputados, Emílio Jardim foi membro da Comissão de Orçamento da receita e despesa do Estado, sendo reconhecido por sua inteligência lúcida, operosidade e idéias ponderadas. As páginas 125 e 126 de SIMÕES (nº ?) trazem-nos o fac-simile de uma datilografada epístola de Dr. Arthur Bernardes, já na condição de ex-presidente do Brasil, ao seu dileto amigo Dr. Emílio. Neste documento, o tema é Viçosa e o Brasil:

"Paris, 5 de Dezembro de 1927.

Meu caro Emilio,

Vae este dirigida para a nossa amoravel Viçosa, onde já V. deverá se encontrar ao tempo de sua chegada no Brasil. É o que presumo por sua ultima, que não trouxe data. Não avalia como lhe invejo a sorte de voltar ao seio tranquillo dessa boa terra, ninho meu paterno, onde devaneiámos na mocidade e onde passámos dias alegres e felizes.
Depois de rude experiencia, adquirida em centros de maior civilização e cultura e no convivio com as mais altas camadas sociaes, terá V. julgado que mais felizes são ainda os que vivem na obscuridade e pacatêz das pequenas cidades do interior, onde se homiziam as virtudes e onde a ambição e a inveja não dispõem de vasto campo para exercer sua actividade damninha. Thomaz Ribeiro já dizia: Quem quizer vida suave, amor divino, feche na mansa aldeia o seu destino. Quantas vezes não me tenho lembrado desse conselho ante a illusão, desfeita, do que seja, em nosso paiz, servir a Patria, de verdade, promovendo-lhe o bem e agindo honradamente!
É forçoso, porém, considerar que, se deixarem, todos, se conduzir pelo egoismo da commodidade e não se dispuzerem aluns ao sacrificio de velar pelos supremos interesses da Nação, será peior e sorte da grande família brasileira e insustentavel nossa situação de povo no exterior.
Mas, por isso mesmo que é difficil a tarefa, e são mui poucos os politicos que lealmente a desempenham, não há fugir à lucta pela salvação nacional, a que temos vivido acorrentados pela força do destino.
Suggeriu-me estas considerações o trecho final de sua carta, com cuja conclusão concordo inteiramente: 'O tempo que aqui' (no Rio) 'passei, aproveitei-o bastante: aprendi alguma cousa de util a mim e a outros; estudei, observei homens e cousas, e, pelo conhecimento que adquiri destas e daquelles, cheguei á conclusão de estarmos num paiz infeliz'.
Elle retrata sem duvida a sua desillusão; mas é preciso não ter desfallecimentos! Meu pezar de ver o Brasil MAL ORGANIZADO, mal dirigido e agora anarchizado, já era profundo; e augmentou muito aqui, ao observal-o de fóra de de longe. Daqui se tem uma melhor visão de conjuncto e se avalia melhor o seu desprestigio perante o mundo!
Adeus! até por lá. Seja muito feliz nessa terra de enlevos e recordações... Remommende-nos aos seus, e amim aos bons amigos da cidade e municipio. Abrace por mim ao Tito e receba também um abraço, grande e affectuoso, do amigo de sempre

Arthur"

Veio o Dr. Emílio de Ouro Preto, onde prestou exames para exercer o Magistério, após formar-se em Direito, em 1919, na Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Lecionou Direito Civil na Faculdade de Direito de Juiz de Fora e em Viçosa foi diretor do jornal Cidade de Viçosa e Juiz de Direito, tendo sido deputado estadual pela 2ª Circunscrição para a 6ª Legislatura (1911-14), reeleito para 1915-18e deputado federal por 4 mandatos, entre 1919 e 1929. Eleito vice-presidente da Câmara Municipal a 11/1/1908 e presidente a 15/9/1910, terminou o mandato a 31/5/1912um dos próceres do Partido Republicano Mineiro (PRM). Á época de seu governo contavam-se em oitocentas as casas e não existindo ainda a Companhia Viçosense de Força e Luz, da qual o Dr. Emílio viria a ser advogado, o querosene era o combustível empregado em setenta bruxuleantes lampiões belgas que, à noite, tremeluziam em esquinas de nove ruas e cinco praças, como mostra a foto do edifício da praça Silviano Brandão, nº 5, sede da Câmara Municipal, construído durante seu período administrativo.
Data de sua administração, também, a assinatura de um importante convênio, para fornecimento de força e luz para os seus municípes. Um dos mais significativos dias para os viçosenses foi, sem dúvida, o 5 de novembro de 1912. Marcou aquela data a melhoria da qualidade da infra-estrutura dos serviços públicos, porque a Câmara firmou contrato por um período de cinco lustros com a Companhia Mercantil e Industrial "Casa Vivaldi", cuja rescisão contratual viria por força da Resolução Municipal nº 369, de 13/12/1917, no governo do Dr. José Ricardo Rebello Horta, conforme escritura de 10/11/1917, lavrada no Cartório Roquette, no Rio de Janeiro. Desde então, conforme a Resolução Municipal nº 369, a presidência da Câmara contratou com a Companha Fiação e Tecelagem "S. Silvestre' o serviço de fornecimento de força e luz elétrica ao município, concedendo-lhe o privilégio, também, pelo prazo de cinco lustros. O reservatório municipal de água naquele tempo comportava 200 mil litros, conforme registra CAPRI ( Nº ?). Captado na Fazenda da Conceição, descia, por gravidade, o líquido precioso ao Largo de São Francisco (praça Dr. Christóvam Lopes de Carvalho), atravessando o pasto dos Barros (avenida Santa Rita)com destino ao Morro do Cruzeiro (rua Pe. Serafim). Naquele tempo, à "Grande Viçosa" pertenciam os rios Turvo Sujo, Turvo Limpo, Casca, Turvão, Sant'Anna e São Domingos, as cachoeiras Alegre, Escura, Grande do Casca, São Silvestre e Varadouro e também a Lagoa do Herval. Sobre este assunto leia no presente trabalho a postagem intitulada "Força, Luzes e Comunicações"
O Dr. Emílio Jardim veio a falecer em Juiz de Fora (MG), a 9 de outubro de 1948.



José Ricardo Rebello Horta (1912-1915/1916-1918/1933)



De outro administrador, Dr. José Ricardo Rebello Horta, chegaram aos nossos dias as informações de que ele, antes de administrar Viçosa, fora aqui Juiz Municipal e Promotor de Justiça em Campo Belo, São José do Paraíso e Viçosa, nesta última cidade desde 27/2/1908 até o ano de 1912.
Eleito presidente da Câmara para o período 1912-1915, foi reeleito de 1916 a31/12/1918. Dr. Horta, falecido a 5/6/1948 e sepultado em Viçosa, era casado com Dona Maria Noemi de Andrade Horta, nascida a 15/3/1885 e falecida também em Viçosa, a 23/12/1973. Bacharelou-se o Dr. Horta em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de Minas Gerais a 2/12/1906. Nascera em São Domingos do Prata (MG) a 21/4/1879. Foi também parlamentar à Assembléia Legislativa de Minas Gerais.
Desenvolvia-se em Viçosa, e bem, à época do governo de Dr. Horta, um outro tipo de ndústria, que não a do ensino. Aqui predominava o beneficiamento pastoril. Havia a Companhia de Tecidos e Fiação S. Silvestre, em Silvestre, esta de propriedade do Dr. José Felipe de Freitas Castro, que passou a ter o seu regulamento de fornecimento de energia elétrica para a população viçosense desde 15 de abril de 1918(conforme a Resolução Municipal nº 373, de 23/9/1918, arquivada na Câmara Municipal e folhas 46 e seguinte 1 a 3v. do livro de notas nºs 62 e 63, que versa sobre o contrato por escritura pública lavrada no Cartório do 2ª Ofício da Comarca de Viçosa) e a Fábrica de Tecidos de Santa Maria, na Rua Municipal ou antiga Rua das Vassouras (na atualidade, a rua Virgílio Val), ambas de efêmera existência.
O verdadeiro progresso viria com a extensão da via férrea até o atual centro da cidade, em 1914. Até então a passagem da via-férrea era pelo trecho original, na conhecida Estação Velha, bem longe do atual centro urbano de Viçosa.
No Artigo 3º da Resolução nº 345 de 17/1/1914, o Dr. Horta determinou o seguinte:
"É o presidente da Câmara auctorisado a promover a abertura, nesta Cidade, de uma avenida, que se denominará 'Bueno Brandão', ao longo da via férrea em construcção, entre a praça Emílio Jardim e a rua de Santa Rita, celebrando para este fim os accordos necessarios e determinando o respectivo alinhamento.
Os prédios que se construirem na referida avenida deverão ter as fachadas encimadas por platibandas, não podendo ter menos de dezoito palmos de pé direito, nos termos da resolução nº 319 de 4 de junho de 1912." As obras de abertura da avenida Bueno Brandão tiveram início na gestão de seu sucessor, Dr. Antônio Gomes Barbosa.
Data da administração de Dr. Horta também a Resolução nº 346. De 17 de janeiro de 1914, esta dispõe sobre o contrato para o funcionamento do Gymnasio de Viçosa (anexo a Escola Normal), criado em 1913, e que recebeu já naquele ano uma subvenção de 2:000$000. Em seu artigo 1º a resolução reza o seguinte:
"Fica approvado o contracto celebrado pelo Presidente da Camara com o Sr. professor Alipio Peres, director do Gymnasio Santa Cruz de Juiz de Fóra, para o estabelecimento e funccionamento do Gymnasio de Viçosa, nesta cidade."
O primeiro Grupo Escolar (atual Escola Municipal Coronel Antônio da Silva Bernardes) também surgiu em sua gestão à frente dos destinos administrativos de Viçosa, em 1916. Existia, no tempo do Dr. Horta, na área cultural, a Biblioteca da Sociedade Recreativa 3 de Junho, a Orquestra de Laureano Gouvêa e a Lira dos Paladinos do maestro Randolpho Sant'Anna.
O primeiro coreto e o ajardinamento primitivo do Largo da Matriz (atual praça Silviano Brandão) também vieram em sua segunda gestão, em fevereiro de 1915. Com seu artístico zimbório, inesquecível aos viçosenses saudosistas, era o coreto o coração da cidade e a melhor expressão perenizada da cultura popular no Largo da Matriz. Construído por Domingos Rigotto e sempre povoado de melodias e pelo passaredo, num dia triste foi substituído por um caramanchão. O mítico coreto reinara entre canteiros bem ajardinados e dois piscosos tanques. Fôra o centro gravitacional para o qual convergia toda uma mocidade de chapéu, que, sobre arenosas passarelas, ali caminhava, plácida, para o namoro, e também uma infância feliz que, nas manhãs domingueiras do ontem, ali se habituou a contemplar, silente, o nadar, em límpidas águas, de peixes policromáticos. Tal como o conhece a geração presente, pelo olhar imortal de um esmerilado fotógrafo, Nicolau Caríssimo, o tão festejado monumento de magnífico domo, de estilo francês, tem sido, em epicédios, inutilmente recordado. Era ele belo tanto ou mais que o de Rio Pomba, figura central e incólume da praça Dr. Último de Carvalho.
O clássico espaço musical que dominou a praça viçosense foi a jóia rara lançada fora. Com seu ocaso se tornou o doce objeto da nostalgia do tempo dos tranqüilos crepúsculos, enfim, a dorida lembrança em branco e preto, ensombrado por ramalhosas velhas árvores da antiga praça. "Não podemos continuar vendo nossas obras desaparecerem apenas pelo fato de que foram edificadas por outrem. O que um Prefeito constrói passa a ser patrimônio de todos e é necessário que outros prefeitos preservem o que o povo construiu",escreveu, certa feita, sobre casos como este, o professor Edson Potsch Magalhães.



Antônio Gomes Barbosa (1919-1927)



Em 1925 existiam no distrito da sede do município fábricas de bebidas, meias, manteiga, conservas, móveis, torrefação de café, beneficiamento de café e arroz, serrarias, etc. movidas a eletricidade. Nos distritos, fábricas de aguardente de cana, açúcar, rapadura, bebidas, laticínios, tecidos, macarrão e móveis, todas essas também movidas a eletricidade. Seus produtos de exportação eram o café, o açúcar, o algodão beneficiado, cereais, gado vaccum, manteiga, macarrão, couros, etc. Eram 65.837 os seus habitantes. Suas principais lavouras eram as de café, cana de açúcar e cereais, além de algodão e fumo. As suas indústrias eram as de beneficiamento de algodão, arroz, café, aguardente de cana, açúcar, rapadura, farinha de mandioca, laticínios, serrarias e pastoril, esta a mais desenvolvida. A agência do telégrafo nacional já se encontrava instalada na atual rua Virgílio Val, em 1925, em prédio particular. O comércio local sempre foi considerado fraco, mas era de cereais, tecidos de algodão, gado vaccum e cavallar, madeira, couros, etc.
Uma reportagem do ano anterior, 1924, sobre a cidade, é bem o retrato da administração do Dr. Antônio Gomes Barbosa. O jornal O PROGRESSO DO BRASIL, cuja data exata da edição desconheço, versa especialmente sobre a administração municipal, então capitaneada por Gomes Barbosa, que foi o administrador público de Viçosa no longo período 1919-1927. Falecido em 1945, na capital mineira, este parlamentar estadual e federal e advogado mineiro, filho da cidade de Alto Rio Doce, teve como uma de suas grandes realizações administrativas obras como a pavimentação da praça Silviano Brandão e a abertura de algumas das mais importantes artérias do atual centro da cidade: a avenida Santa Rita, no antigo Pasto dos Barros, a avenida Bueno Brandão, seguindo as metas de seu antecessor imediato, Dr. José Ricardo Rebello Horta, e a avenida que leva o seu nome: Gomes Barbosa. Esposo de Dona Carmen Graça Barbosa, sobrinha do ex-presidente Arthur Bernardes, com ela teve os filhos Antônio, Carmen, Diva e Fausto.
É bem verdade que durante o governo de Gomes Barbosa, a cidade tinha o referido Arthur Bernardes ocupando elevados postos na vida pública do país, entre os quais a suprema magistratura da nação, o que contribuiu para que houvesse, dada a sua política municipalista, grande progresso no interior mineiro, o que não poderia ser diferente em sua terra natal. As realizações administrativas de Gomes Barbosa, transcorrida, portanto, num período ímpar da vida viçosense, foram vultosas. Pela Resolução nº 463 de 14/10/1925 ele reviu o contrato de fornecimento de energia elétrica ao município, tendo desta feita como cessionária a Companhia Viçosense de Força e Luz (CVFL). Contratos anteriores haviam sido celebrados com outras companhias, primeiramente pelo Dr. Emílio Jardim de Resende, e depois pelo Dr. José Ricardo Rebello Horta, seus antecessores no governo do município. Na cláusula 1ª do Artigo 2º desta resolução, Gomes Barbosa determina:

"A Companhia Força e Luz Viçosense terá previlegio para explorar neste municipio, durante vinte e cinco annos, a industria de fornecimento de energia electrica para illuminação publica e particular, força motriz, em todas as suas applicações, inclusive a de transporte, aquecimento e quaesquer fins industriaes"

O texto infra também nos dá uma idéia do surto progressista que então se experimentou e também do perfil do bem sucedido administrador público de então.

A reportagem:

“O PROGRESSO DO BRASIL

Minas Geraes
E a sua grande vida commercial, industrial e agricola
Uma febre intensa de progresso invade toda uma população de cerca de sete milhões de habitantes

Viçosa, a joia da Zona da Matta

As sensacionais reportagens do ‘O PROGRESSO DO BRASIL’

A desonestidade dos escriptores sem escrupulos, e a falta de criterio com que elles baratearam a applicação dos adjectivos, tem convertido, no mais das vezes, o elogio justo, em uma repugnante lisonja, que quasi sempre infama o elogiado e mostra bem claro a subserviencia de caracter do bajulador.
Essas considerações nos accudiam ao cerebro ao termos que tratar de Viçosa, e de por em relevo a meritoria actuação do Dr. Antonio Gomes Barbosa nos destinos dessa cidade.
Felizmente para nós, escoimada de suspeita, sahira a nossa apreciação sobre tão digno e operoso administrador, porque mais elogiaveis que as nossas palavras de elogio gritarão os melhoramentos feitos em Viçosa pelo sr. Dr. Antonio Gomes Barbosa e falarão, eloqüentemente, a linguagem da verdade, os algarismos que attestam o sempre crescente progresso desse municipio.
É portanto limpo de interesse, é portanto expressão lidima de justiça, tudo quanto aqui for dito sobre o incansável administrador que tem transformado Viçosa em um modelo de cidade administrada em intelligencia e probidade.
Para o momento que atravessa Minas, não basta fazer administração simplesmente com honestidade. O que acima de tudo é preciso, é que, aos administradores, tenham a contrastar seus actos a classica honradez do mineiro, mas, o que é indispensavel é que a ella esteja alliado o espirito da evolução que realisa o progresso transformando as cidades.
Esse typo raro de administrador foi que Viçosa teve a fortuna de encontrar na pessoa do Dr. Antonio Gomes Barbosa.
Mas toda essa competencia, e todas as virtudes que nos forçam a enaltecer a personalidade do Presidente da Câmara de Viçosa, são ainda accrescidas de uma qualidade que o faz raro entre os mais raros administradores, já não dizemos em Minas mas em todo o Brasil.
O Sr. Dr. Antonio Gomes Barbosa conseguio evitar essa cousa inaudita que faz a desgraça do Brasil, a intromissão das canalhices da politicalha no negocio da administração.
Saber dos melhoramentos realisados em Viçosa pelo Dr. Antonio Gomes Barbosa, era de prompto se justificar todos os elogios a esse administrador mas ao saber-se que esse mesmo administrador tem a força do animo, tem a firmeza de caracter de não alliar á administração a politica, é reconhecer que o Presidente da Camara de Viçosa realisou, integralmente, o administrador que, além de intelligente, é probo, além disso é um justo.
Graças á essa triplice virtude, é que, Viçosa, vae realisandoo seu surpreendente progresso, vivendo os seus municipes naquelle congraçamento harmonico que só se sabe conseguir quando impera a serenidade da justiça, liberta dos odios e das violencias da politicalha.
É nesse ambiente de trabalho e justiça, creado pelo Dr. Antonio Gomes Barbosa, que Viçosa progride.
E vejamos agora o que tem realisado, como progresso, esse encantador recanto de Minas que justifica o nome que talvez, por acaso tem – Viçosa.
Mostra-nos a observação que toda a iniciativa de progresso, nascida da iniciativa particular se anulla si a sua origem não é a resultante da iniciativa dos governos.
O caso de Viçosa documenta cabalmente essa asserção.
Pelo muito que a iniciativa particular do commercio, da industria, da agricultura, tenham feito em pról de Viçosa, tudo se anullaria, ao fim de certo tempo, caso o seu progresso não fosse propulsionado inicialmente pela acção fecunda do Dr. Antonio Gomes Barbosa.
Progredindo materialmente a cidade, facil foi a iniciativa particular nella se estabelecer todo o cortejo das realisações progressistas. E foi isso que exactamente aconteceu com Viçosa.
Quando se quer verificar o gráo de civilisação e de progresso de uma cidade basta que se indague, antes do mais, da maneira porque se distribue a justiça, qual dos elementos com que conta a instrucção, qual o gráo de elevação moral da imprensa, e de como se diverte o povo.
Examinemos os indices de civilisação que nos pode fornecer Viçosa, por que nelles encontraremos a explicação para o seu progresso.

A Justiça

A justiça de Viçosa encontrou nos seus integros representantes, Drs. Francisco Machado de Magalhães Filho e José Alcides Rodrigues, respectivamente juiz de direito e promotor publico, a garantia maior.
Verdadeiro juiz, pautando dentro da rigorosa justiça, todos os seus actos, é o factor da tranquilidade dessa ideal tranquilidade que se baseia no culto incorruptivel do Direito.

A Instrucção

Vejamos agora o que encontramos como instrucção em Viçosa.
Temos que avaliar o carinho que se dispensa á instrucção, a Escola Normal, dirigida pela piedosa dedicação da congregação religiosa das Irmães Carmelitas.
Estabelecimento modelo, a Escola Normal é, sem favor nenhum, um fóco de dissiminação de ensino, baseado nas modernas exigencias da pedagogia.
O Grupo Escolar, bastava que se dissesse estar na sua direcção entregue a alta competencia desse educador que é o Sr. João Baptista de Lima, para quem” .......(TRECHO ILEGÍVEL)....... “ainda o Gymnasio de Viçosa cuja reputação é assegurada pelo renome que em materia de ensino já conquistou o seu digno director, Dr. Arnaldo Carneiro Vianna.

A Imprensa

Viçosa tem dois orgãos de publicidade que reflectem o nivel de sua boa e honesta imprensa.
‘Cidade de Viçosa’ dirigida actualmente pelo Sr. Luiz Peres, conta 32 annos de existencia o que mostra bem claro o amparo que lhe dispensam os leitores de Viçosa, como mostra também, a confiança que lhe merece a intelligente orientação que lhe dá o seu redactor-chefe.
O ‘Jornal de Viçosa’ mais moço que o seu colega, sob a direcção do Sr. Sylvio Loureiro, nem por isso deixa de gosar do favor publico, esse orgão de publicidade que vae, dia a dia, dilatando a sua circulação.

Theatros e Cinemas

Viçosa para divertir os seus habitantes tem varias casas de diversões destacando-se o Theatro Paladino e o Cinema.
Bastava a existencia do Theatro para se avaliar o amor que os viçosenses dispensam ás manifestações de arte.
Agora, para mostrar o progresso de Viçosa, deveriamos ainda dizer que esta cidade tem agua, luz electrica e esgotos.
Tem um lindo jardim publico e tem um hotel já bem confortavel.
Mas o que a todos deve surpreender, e aqui nos queremos referir aos outros municipios do Brasil, é haver, Viçosa, resolvido o problema da habitação para operários.
Viçosa tem cerca de 170 casas para operarios em construcção, em terrenos doados para esse fim pela Camara Municipal.
Ajuntemos a meritoria acção do Dr. Antonio Gomes Barbosa mais este inestimavel serviço.
Como precisamos justificar todas as referencias feitas ao transformador de Viçosa, melhor do que as nossas palavras vão dizer o Relatorio e os Orçamentos que abaixo publicamos.
Agora vão falar os fatos e os algarismos".

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(Seguem os Orçamentos de 1924 e de 1925, na referida publicação, O Progresso do Brasil...)

Comentário deste blogger: alguns números, diga-se de passagem, da publicação, não coincidem com os livros originais, por mim consultados nos arquivos da Câmara Municipal de Viçosa.



João Braz da Costa Val (1927-1932/1937-1943)



Até o princípio do século XXI, ninguém suplantara, em tempo de permanência no cargo de governante viçosense, ao Dr. João Braz da Costa Val. Foi ele um recordista à frente da chefia do município. Nascido a 11 de julho de 1894, em Viçosa, e falecido a 13 de setembro de 1957, em Belo Horizonte, era de uma família de nove irmãos. João Braz era filho do alfaiate, tabelião do 2º Ofício do Judicial e Notas e solicitador (advogado provisionado) no Termo da Cidade Viçosa de Santa Rita, e seu homônimo, João Braz da Costa Val, também ex-secretário da Câmara Municipal de Viçosa, e de Dona Francisca Bernardina Avelina dos Reis (Dona Chiquinha), ambos mineiros de Piranga, que se estabeleceram em Viçosa desde 1873. Casado com Dona Vicencina Martino, imigrante italiana, natural de Rivello, na Basilicata, filha do também alfaiate Nicola Martino e de Dona Giovanna Blasi Martino, tiveram os filhos José Aloísio, João Braz, Ruy, Nicolau, Paulo Antônio, Maria Teresinha, Vicente de Paulo, Heraldo e Marcelo, cujos descendentes pertencem, dentre outras, às famílias Solha, Pimenta, Seabra, Araújo, França, Lentine, Orsini, Ferreira e Maciel.
O menino estudioso e trabalhador que fora aluno do Asilo do Patrocínio, colégio de São José das Três Ilhas, próximo de Juiz de Fora, e depois aluno do Gymnasio de Viçosa, funcionário do Ministério da Viação, tipógrafo e professor em colégios particulares, bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1918, no Rio de Janeiro, exerceu a advocacia e o jornalismo em sua terra natal e foi diretor da Gazeta da Viçosa. Eleito vereador em Viçosa na primeira metade da década de 1920, exerceu a secretaria da Câmara. Foi nomeado, pela primeira vez, prefeito, a 14 de janeiro de 1931. Candidato a deputado estadual em 1934, pelo Partido Republicano Mineiro, quando conseguiu uma suplência, seu segundo mandato, por nomeação, de prefeito de Viçosa, estendeu-se a 1943, quando se exonerou, tendo exercido o comando administrativo de Viçosa, desta feita, desde 1937. Dr. João Braz exerceu ainda o cargo de Juiz dos Feitos da Fazenda e Juiz Municipal da 1ª Vara Criminal em Belo Horizonte.
Logo que deixou a presidência da República (15 de novembro de 1926), Dr. Arthur da Silva Bernardes, acompanhado da esposa Dona Clélia e de duas filhas, partiu rumo à Europa, tendo visitado a Alemanha, a Áustria, a Bélgica, o Egito, a França, a Grécia, a Inglaterra, a Palestina, Portugal, Síria e a Turquia, retornando à sua pátria em 1928. Enquanto no exterior, Bernardes enviou ao presidente da Câmara e agente executivo Dr. João Braz, a seguinte missiva, que espelha minuciosas preocupações do estadista em relação à sua cidade natal e o relacionamento amistoso com o administrador de então:

“Paris, 30 de agosto de 1927,

Meu caro João Braz,

Fazendo cordiais votos por sua saúde e felicidade, faço-os também pela de sua Exma. Família e de todos os seus parentes, aos quais peço o favor de recomendar-me. Venho agradecer-lhe as felicitações enviadas na minha data natalícia, tanto em seu nome como em nome do nosso município, as quais além de me penhorarem, evocaram vivas saudades de nossa terra e de nossa boa gente. Não me esqueço nem de uma nem de outra, pois um dia não se passa sem que o meu pensamento voe até aí, pousando ora sobre lugares, ora sobre pessoas. É preciso consagrar um pouco de seu tempo e de seus cuidados à administração municipal, para que não desande o progresso aí realizado. A conservação do jardim público é necessidade que se impõe, pois dá realce à praça e faz o embelezamento da cidade. Sem ele, ou com ele mal conservado, a cidade valerá 50% menos. Cometerá falta imperdoável a administração que relegar ao segundo plano nas suas cogitações, o jardim da praça principal. Cumpre-lhe não deixar a cidade decair. Não sei se V. estudou a possibilidade de uma reforma tributária, visando alcançar para a Câmara acréscimo de renda. Com algum aumento de sua receita, poderá esta empreender a abertura de boas estradas de automóveis, à semelhança da que se fez no distrito de S. Miguel. As boas estradas representam papel tão importante no desenvolvimento comercial e econômico de um município, de um Estado ou de um País, que não temo de dizer que o progresso da cidade estará agora nessa dependência. Ainda agora acabei de percorrer a França, de automóvel, de nordeste a sudoeste (sendo esta a razão de responder com atraso o seu telegrama de felicitações), e pude apreciar o que é e o que vale a boa estrada. São “routes” tão bem feitas que não diferem das avenidas asfaltadas do Rio de Janeiro, inclusive em largura. Além do asfalto, empregam muito aqui um betume, e a madeira, preparada em forma de paralelepípedo. Para Viçosa, porém, é ainda muito cedo para se falar nesta espécie de estradas... Faço ponto aqui, desejando-lhe muitos triunfos na administração do nosso amado torrão, que precisa ficar a dever-lhe grande número de bons serviços. Recomendo-me também aos nossos bons amigos. Não nominalizo para evitar omissões involuntárias.

Creia-me sempre col. A e am. O

Arthur Bernardes”

De acordo com “Ilustração Municipal” de setembro de 1938, citada por COSTA VAL FILHO (Nº ?), edição que noticiou a inauguração, em maio do referido ano, da nova represa com mais de 300.000 litros para abastecimento de água em Viçosa, o Dr. João Braz tinha o seguinte perfil: “cavalheiro em todo o sentido do vocábulo, seja no exercício das funções que tanto honra, seja no seio da sociedade onde vive cercado de carinho e simpatias. Homem para o qual o dever constitui um imperativo de dignidade e não apenas o exercício de um mandato outorgado por outrem, o Prefeito de Viçosa possui atributos de caráter e de espírito superiores à craveira vulgar. Faz do trabalho um sacerdócio, do cargo uma missão sacratíssima e do serviço público um evangelho. Distinto, laboriosíssimo, tenaz e conhecedor profundo dos segredos administrativos, S.S. opera com ciência de causa nos magnos problemas ligados à administração, não se limitando, porém, a agir com critério, decisão e presteza quanto às obras a realizar ou as iniciativas a planear, mas igualmente ao trato dos interesses gerais, no que respeita ao público, por ele atendido com gentileza, sem distinção de classes ou de categorias. Solícito, afável e prestimoso, o Dr. João Braz da Costa Val a todos recebe delicadamente, satisfazendo, dentro das possibilidades e dos limites da justiça, as pretensões defendidas pelas partes ou reclamações que por ventura se façam sentir. Daí, o vasto círculo de estima, a ampla popularidade, a afeição, mesmo, que o povo viçosense dispensa ao benemérito edil.”
Dentre outras realizações, ficou patente a sua preocupação com a ampliação do cemitério da sede, o ajardinamento da Praça do Rosário (Largo do Rosário), o calçamento, em paralelepípedos, da praça da Estação (atual Marechal Deodoro) e da travessa 10 de Novembro (atual Dr. João Carlos Bello Lisboa) e à portuguesa, da Rua dos Passos, na cidade, e a conservação dos jardins de Teixeiras e Herval, conforme as resoluções e decretos por ele assinados até 1º de março de 1943 (Decreto-Lei nº 73), seja como presidente da Câmara ou prefeito, o primeiro a 19 de setembro de 1927 (Resolução nº 468), data esta em que ficou definida nova tabela de impostos que vigoraria desde 1º de janeiro de 1928 e a primeira receita do município sob sua administração, quando este era composto por outros distritos além do da cidade (sede), num total de sessenta contos e trezentos mil reis (60.300$000). A cidade ficou então contemplada com 11.300$000, Teixeiras com 8.200$000, Coimbra e Herval com 7.900$000, Pedra do Anta com 6.600$000, São Miguel do Anta com 6.100$000, Araponga com 5.100$000; e São Vicente e Chanaan (Canaã), antiga Santo Antônio da Palestina com 3.600$000.
Tão logo assumiu o governo viçosense, João Braz concedera o privilégio, por 25 anos, para o fornecimento de força e luz elétrica às povoações de Cajuri, Coimbra, São Miguel do Anta, Herval e Araponga a empresas particulares que nesses distritos viessem a fazer instalações hidrelétricas (Resolução nº 470) e doou à Casa de Caridade de Viçosa o terreno e benfeitorias pertencentes à Câmara, na praça Emílio Jardim, para a nova sede do Hospital São Sebastião (Resoluções nº 472 e 534), colaborando com a sua construção. O concerto (abaulamento e alargamento) de ruas de Herval, além do reparo no cemitério; e Coimbra (sendo construída a praça principal deste distrito nesta gestão administrativa), auxílios às sociedades construtoras das estradas de rodagem para Ubá, Ponte Nova e Piranga, a do povoado de Cachoeirinha (então distrito de São Miguel do Anta) e Porto Seguro (Porto Firme), a de Pedra do Anta a Viçosa, a de Coimbra a Visconde do Rio Branco (localidade de “Queimados”), declarando-a de utilidade pública e proibindo ali o trânsito de carros de bois (Resolução nº 535); reformas de pontes e a construção de outras em Teixeiras, nos limites com Pedra do Anta, e outras como as do rio Vargem Alegre, estrada de Coimbra, na estrada ligando o município a Muriaé, Miraí e Visconde do Rio Branco, no ribeirão São Domingos, nas Fazendas dos Maurícios e na barra do ribeirão Sant’Anna com o São Lourenço, ambas no distrito de Araponga; no rio Casca, distrito de Canaã, e em Coimbra, feitas de encontro de alvenaria e estrado de madeira de lei, acordos e empréstimos com o Banco de Crédito Real para a ampliação de redes de água e esgoto na cidade e nos distritos como São Miguel do Anta, construção do cemitério de Canaã e reforma do de São Vicente do Grama, esgotos em Araponga, Teixeiras e São Vicente, posteamento (15 unidades) na iluminação pública de Teixeiras e outros em Herval e Coimbra, esgotamento de lagoas, charcos e cachoeiras em São Vicente e Herval para escoamento de águas, aquisição de carroça para recolhimento do lixo na cidade, incentivo a empresa organizadora da construção da estrada de automóveis de São Miguel a Araponga e abertura da rua em seguimento à rua Gomes Barbosa (Rua da Conceição). João Braz obrigou proprietários de terrenos na cidade e com testada para as ruas e logradouros públicos a fazerem os passeios em frente às suas casas, determinando a abertura de uma rua do Largo do Rosário à avenida Bueno Brandão. Na área de comunicações, subscreveu acordo com o estafeta de Pedra do Anta a Teixeiras e fazer a mala do correio de dois em dois dias, auxiliou a empresa telefônica para prolongamento das linhas até a sede do distrito de São Vicente do Grama, passando pelos distritos de Canaã e Araponga, além de ter mandado reformar a tipografia de propriedade da Câmara. COSTA VAL FILHO (nº? ), à página 36, informa que “o presidente da Câmara de Viçosa e Agente Executivo desempenhava seus encargos administrativos, notando-se que havia bom entendidmento da sua administração com as dos municípios vizinhos. Assim, na ‘Cidade de Piranga’ - ´Órgão do Poder Municipal filiado ao P.R.M. – Direção do Presidente da Câmara.’ – de 1 de janeiro de 1929, esta notícia: ‘Ligação telefônica Piranga – Viçosa. Dentro de um mês, se tanto, devemos ter a nossa cidade ligada à de Viçosa pelo telefone’... ‘Faltando pouco para o levarmos a Viçosa, ainda mais que o Governo do Estado concedeu a esta Câmara permissão para colocar fios telefônicos nos postes do telefone da Colônia Vaz de Melo até àquela cidade, telegrafou o senhor Presidente da Câmara ao seu digno colega de Viçosa – o Dr. João Braz, pedindo intervir para a imediata ligação do telefone de Viçosa ao nosso, tendo do Dr. João Braz recebido o telegrama que publicamos abaixo.

‘Presidente da Câmara Amantino Ferreira Maciel.
Piranga.

Viçosa, 18-12-1928.

Com prazer intervirei ligação telefone Viçosa ao de Piranga, conforme seu telegrama Saudações. João Braz.’

... Teremos, pois de estrear mais um útil melhoramento dentro de poucos dias, e desde logo estaremos ligados aos telefones de Ponte Nova e Rio Branco, ligados aos de Viçosa’.

Constante se fazia a apresentação de proposições do Presidente da Câmara ao governo estadual. Animava-o o intuito de atender as manifestações dos habitantes do município e de prestigiar os representantes viçosenses nas Assembléias.”

É ainda COSTA VAL FILHO (n°?) quem informa que, naquele tempo, “a casa do Presidente da Câmara dispunha de telefone, daqueles fixos na parede, com uma manivela lateral” e que “eram precárias as condições dos telefones da época, de maneira que informações sigilosas nem sempre deixavam de ser ditas em voz alta... gritos diante dos aparelhos...”


Ainda no aspecto de suas realizações administrativas, João Braz tomou iniciativas em prol da reforma necessária dos mananciais para o aumento do abastecimento de água da cidade, tendo, em 1942, incluído na proposta orçamentária para o exercício de 1943 a dotação de verba, própria, até a importância de vinte mil cruzeiros para a execução dos serviços. A 8 de maio de 1938 já havia inaugurado nova represa de água para abastecimento, conforme já referido, com mais de 300 mil litros, sob a direção técnica do Dr. Francisco Seno, diretor da Obras da Prefeitura. Em 1942 regulamentou o serviço de distribuição e consumo de água na cidade e distritos, então regulada obrigatoriamente pelo sistema de penas, sendo que, pelo artigo 15 do Decreto-Lei nº 63, do referido ano, todos os prédios deviam ter depósito de caixas de zinco ou ferro galvanizado, higienicamente instalado e com capacidade nunca inferior a 300 litros d’água. Entrou ainda em acordo com o Governo do Estado para a criação de um posto permanente de higiene no município e criou a taxa escolar de higiene e o imposto sobre estabelecimentos rurais, pela indústria agrícola ou pastoril, revertendo-o integralmente em benefício das propriedades rurais, a fim de atender “aos interesses vitaes da lavoura do município”, conforme o Decreto nº 11, já como prefeito, em 27 de março de 1931.
Nos tempos do Estado Novo, desde 15 de novembro de 1937, quando ele foi novamene empossado prefeito, os municípios haviam perdido grandes fontes de renda por força de disposições estatuídas pela Constituição da República ao passo que os encargos das municipalidades foram muito aumentados, obrigando-o a instituir a taxa municipal de conserva de estradas e pontes, alterando-se, portanto, o regime tributário municipal. Na ocasião, suprimiu-se da receita municipal o imposto cedular sobre a renda de imóveis rurais.
Com dezenove mantidos pelo município desde 1941, um total de trinta estabelecimentos de ensino, incluídos os municipais e estaduais, sendo dois os grupos escolares, o prefeito João Braz restabelecera, em 1938, as escolas rurais mistas como as de Mãe Tonica, Colônia Vaz de Mello, Córrego dos Nobres e Silvestre (na cidade), de Boa Vista (Coimbra), São Francisco das Chagas e no Casca (Herval), Monte Sinai e Cachoeirinha (São Miguel do Anta), Laranjeiras (Pedra do Anta) e Estouros (Araponga) e transferiu as de Santa Izabel e São Pedro (Teixeiras) para a Barrinha e Contendas; a de Muqueca (São Miguel) para o Bom Jardim e as da Piúna e do Paraíso para Lemos e São Benedito e ainda criou as de Macela (Canaã), Estouros (Araponga) e Ramos (São Vicente do Grama). Havia ainda e então, duas escolas rurais em Silvestre e as de São José do Triunfo, Bom Sucesso, Córrego Fundo, Bom Jardim e Capivara (São Miguel), Macela (Canaã), São Venâncio e Marengo (Coimbra) e Paraguai (Cajuri). O Ginásio de Viçosa e a Escola Normal Nossa Senhora do Carmo também recebiam subvenções em valores diversos (que variavam de um a cinto contos de reis) em troca de aceitarem duas direções, gratuitamente, um mínimo, respectivamente, de quinze e de dez alunos em condições de pobreza. Igualmente a Associação de Tuberculosos Proletários, a Sociedade São Vicente de Paulo e a Sociedade de Proteção aos Lázaros eram subvencionadas pelo poder público municipal na administração de João Braz. As sociedades desportivas filiadas ao Conselho Nacional de Desportos eram isentas de tributos em suas exibições durante a sua administração.
Pelo Decreto-Lei nº 24, de 23 de maio de 1938, ele redefiniu a demarcação do perímetro urbano da cidade de Viçosa e de seus distritos. O perímetro suburbano da cidade passou a ser, então, o seguinte: começava nas “quatro colunas” [Quatro Pilastras, na entrada principal do atual campus universitário da UFV – comentário do blogger], na divisa da então Escola Superior de Agricultura, “e pelo rumo das mesas, atravessando o ribeirão S. Bartolomeu, segue até a rua Tiradentes [atual Rua do Pintinho – comentário do blogger]; sobe por esta rua, até o alto da divisa direita do córrego da Conceição. Segue por este abrangendo todas as nascentes do córrego da Conceição e do córrego do Bananal; corre pelo divisor esquerdo do ribeirão S. Bartolomeu até descer pela divisa de Sebastião Álvares, ao córrego que vem dos Nobris; atravessa o córrego e sóbe ao alto fronteiro; deste em linha reta desce ao ribeirão São Bartolomeu na ponte dos Abreus; segue pelo ribeirão abaixo até a fóz do córrego do Pau de Paina e por este córrego acima até defrontar o valo de divisa entre Alino Corrêa Borges [região do atual bairro Nova Era – comentário do blogger] e Lindolfo Sousa Lima [atual região do bairro Santo Antônio – comentário idem]; segue por este valo do alto do divisor direito do ribeirão S. Bartolomeu; por este á esquerda até encontrar a divisa da Escola Superior da Agricultura; e por esta até as quatro colunas tomadas como ponto de partida”.
Por sua vez, o perímetro urbano de Viçosa (distrito da sede) iniciava no ponto mais elevado do primeiro morro fronteiro à estação da Leopoldina e seguia em linha reta ao Cruzeiro situado à margem “da estrada que vai para Mãe Tonica, conforme o referido Decreto-Lei nº 24/1938. Saía em linha reta até a ponte da rua do Muzungu e “d’esta segue pelo ribeirão São Bartolomeu abaixo até o fim da rua dos Passos onde defronta uma boeira da estrada de ferro Leopoldina, na margem esquerda; deste ponto sóbe em linha reta a uma gargantazinha no divisor direito do ribeirão S. Bartolomeu; dai, segue pelo divizor á direita até defrontar a ponte dos Martins, na rua dos Passos; desce em linha reta até o ribeirão S. Bartolomeu na ponte dos Martins; segue pelo ribeirão até a Coeira da Avenida 7 de Setembro [atual avenida P. H. Rolfs, que também já se chamou Benedito Valadares – comentário do blogger] e desta em linha reta até a capela do Cemitério, que fica incluido; deste ponto em linha reta a um outro ponto situado cincoenta metros do lado de cima da encruzilhada das ruas Santa Rita e Dr. Gomes Barbosa; distancia esta medida perpendicularmente ao alinhamento da rua Dr. Gomes Barbosa; dai em linha reta ao pondo de partida”.
Na década de 1940, tempo em que a Prefeitura funcionou no prédio de número 136 da rua Arthur Bernardes, inclusive aos sábados, das 9 às 12 horas, e nos dias úteis, entre 11h30 e 17 horas, João Braz instituiu, outrossim, o Diretório Municipal de Geografia, como órgão do Conselho Nacional de Geografia, diretamente articulado com o Diretório Regional do Conselho do Estado de Minas e organizou o quadro dos funcionários municipais (Decreto-Lei nº 50 de 28 de novembro de 1940), composto então pelo secretário, contador e seu auxiliar, agente municipal de estatística, porteiro, coletor tesoureiro e seu auxiliar, inspetor de rendas, fiscais dos distritos de Coimbra, Cajuri, São Miguel e Canaan, diretor de higiene, zelador de mananciais, diretor de obras e fiscal geral de obras. Os serviços da administração tiveram definidas em repartições: Gabinete e Secretaria, Serviço de Estatística, Serviço de Fazenda, Serviço de Contabilidade, Serviço de Patrimônio (incluindo os serviços de Matadouro, de Cemitérios e o de Água e Esgoto), Serviço de Obras, Serviço de Educação e Saúde. Pelo Decreto-Lei nº 65, de 18 de agosto de 1942, o quadro de funcionários municipais passou a ser constituído por um secretário, um auxiliar de datilografia, 19 professoras de ensino rural, uma enfermeira, um guarda sanitário, um porteiro contínuo, um almoxarife, um agente municipal de Estatística, um chefe do Serviço de Fazenda, um chefe do Serviço de Obras, um fiscal geral e cinco fiscais distritais, prevendo-se ainda a contratação de extranumerários mensalistas para as funções de encarregados dos serviços de água, matadouro e cemitério, na cidade. Obras por empreitada passaram a ser postas em concorrência pública ou administrativa, conforme o artigo 20º do retro referido Decreto-Lei nº 65/1942 e os operários municipais não eram considerados funcionários. Seus salários eram fixados por dias úteis e pagos quinzenal ou mensalmente, podendo ser, de acordo com o mesmo decreto, dividido por horas, para ser pago de acordo com a assiduidade, “sendo essa divisão obrigatória em se tratando de horas extraordinárias”.
A 19 de março de 1943 era publicada a exoneração do prefeito João Braz, a pedido, sendo ele nomeado, na mesma data, Juiz Municipal na capital mineira, cargo em que veio a falecer na retro referida data de 13 de setembro de 1957, sendo sepultado no Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte.
“Talento de primeira ordem, erudito e profundamente versado em direito, foi a modéstia em pessoa, o que lhe punha, por entre os louros da fronte ateniense, um ar marcante de extraordinária simpatia”, ressaltou-se num Memorial subscrito por belorizontinos que conviveram com este ex-prefeito de Viçosa.



Anelio de Salles (1932-1933)



Anélio de Salles foi prefeito de Viçosa, sucedendo ao Dr. João Braz, entre novembro de 1932 e abril de 1933, no período que se sucedeu aos violentos acontecimentos ligados à Revolução Constitucionalista, durante os quais Viçosa e distritos transformados no terrível palco de uma guerra civil. Olegário Maciel era mantido no governo de Minas e Anélio ligava-se à Legião Liberal Mineira, agremiação com a qual Arthur Bernardes defendia fusão com o antigo Partido Republicano Mineiro (PRM). No início daquele ano de 1932, criava-se o Partido Social Nacionalista (PSN), de duração efêmera, e o PRM, oposicionista, só ressurgiria nas eleições de 3 de maio de 1933, e com minoria de parlamentares, numa bancada cuja maioria era governista, do Partido Progressista (PP). Coincidentemente na mesma data em que Bernardes era levado ao Forte do Vigia, no Leme (RJ) - a 1º de novembro - , de onde sairia para o exílio em Portugal, Anélio assinava o seu primeiro Decreto (nº 26), nomeando secretário da Prefeitura um tradicional adversário político de Bernardes, o contador José Basílio de Figueiredo Júnior, mantido nesta função pelos três prefeitos seguintes (Dr. Horta, Arnaldo Andrade e Antonelli Bhering), durante todo este periodo de proscrição, até 1936, quando se instalou o governo municipal biorgânico.
Nascido a 8/9/1864 em Araponga, filho de Francisco Antônio de Salles e Joaquina Cândida de São José, 19º filho dos 21 do casal, Anélio casou-se a 3/7/1895 com Etelvina Penna Salles, filha de Domingos José Alves Penna e Vicencia Rodrigues Alves Penna, segunda filha dos 10 filhos do casal. Morou algum tempo em Teixeiras e em 1899 mudou-se para Herval (hoje Ervália). O casal teve 12 filhos. A família do casal era bastante influente na região, com destaque ao sogro de Anélio, Domingos Penna. A esposa Etelvina, ainda menina foi enviada a Portugal para estudar e ao voltar a Araponga se dedicou a criar escola primária para a população.
Anélio se formou em Farmácia, exercendo a profissão desde cedo. Em 1934 mudou-se para Belo Horizonte, onde foi Tesoureiro Geral do Estado. Veio a falecer a 1º/9/1954. Além de farmaceutico sempre se dedicou a política na qual se destacou pela honestidade, austeridade e honradez. Em Ervália, até há pouco, uma de suas escolas públicas tinha o seu nome.
Seus familiares fizeram chegar a este blogger a seguinte mensagem, lida na Rádio Cultura por ocasião da morte de Anélio, e que nos traz um retrato deste ex-governante municipal:

"A nossa página hoje é de saudade: é a nossa despedida a Anélio de Salles, ontem falecido em Belo Horizonte e sempre ligado à nossa terra, à nossa sensibilidade, à nossa estima, ao nosso respeito e à nossa admiração.
Anélio é para nós um valor de família: é nosso, está preso à nossa casa, ao Herval e ao Guiricema de outros tempos. Desde menino, aprendemos a querer-lhe muito bem. O tempo fez maior essa amizade, estreitou-a para sempre. Daí a intimidade com que o tratávamos. Nesse Anélio ia muito do nosso afeto, do nosso coração. Era assim em nossa casa e na casa do tio João Batista lá no Anta.
Anélio fora moço para o Herval. Era farmacêutico e médico ao mesmo tempo. Receitava, aviava, curava. Viveu atendendo aos que batiam à sua porta. Foi assim a sua vida. Era o homem de todos os lares: nas horas boas e más estava presente, era a palavra amiga, a palavra de confiança, a palavra que trazia alívio e consolo. Homem de inteligência e de coração, Anélio soube influir nos amigos, nos valores da sua terra e influiu sempre no sentido do bem, da paz, da harmonia e do progresso de Herval. Foi esse um dos traços de sua vida. E porque foi homem de bem, para confirmar a regra geral, teve que sofrer a injustiça dos homens.
A política sempre encontrou em Anélio de Salles um colaborador nutrido dos melhores propósitos, das melhores idéias, dos melhores sentimentos. Um homem acima do comum. Superior aos que então detinham as rédeas do poder.
No seu tempo, a política era diferente da que se faz hoje e bem poucos tinham coragem de enfrentá-la, tais as ameaças que pesavam sobre os que se dispunham a combater os erros e os desmandos das tiranias municipais, estaduais e federais. Pior ainda: a conquista eleitoral era uma farsa, uma mentira, e se processava sempre numa atmosfera política carregada de ódios, de vinganças e de perseguições. Espoletas e beleguins constituíam a família numerosa dos que intrigavam e envenenavam o ambiente. A capangagem política desse tempo escreveu os episódios mais tristes da nossa vida municipal. Por isso mesmo o clima em que viveu Anélio de Salles foi o da oposição: viveu resistindo ao poder, sem ceder nem recuar, sempre no mesmo lugar, na mesma posição, na mesma linha de combate.
A Revolução de 30 veio buscá-lo numa hora delicada para ser o prefeito de Viçosa. Deixava Anélio a sua velha tenda de trabalho, a sua casa, o seu piano, a sua flauta, os seus saraus familiares, os amigos, os compadres, o meio, a terra, a paisagem, para servir ao seu município e ao espírito de renovação política com que era saudada a revolução vitoriosa. Aí é que Anélio mais sofreu, para sair maior com a sua consciência e o seu dever cumprido.
Foi esse homem, foi esse amigo, foi esse cidadão que perdemos ontem em Belo Horizonte.
Nesse registro, feito às pressas, hão de faltar muitos aspectos dessa vida, mas o que aqui fica diz que ela foi útil, nobre, digna, e que transcorreu, nos seus melhores anos, ali, no alto da serra, na hoje florescente cidade de Ervália, no meio daquela gente boa e simples, que deve estar sentindo, como nós, a presença de Anélio de Salles na sua vida, no seu passado, na sua história.

Gastão de Almeida"



Antonelli de Carvalho Bhering (1934-1936)



O viçosense Antonelli de Carvalho Bhering nasceu a 5 de agosto de 1882, era o primeiro filho de Antônio de Carvalho Bhering e de Dona Maria Cândida Galvão Bhering, sendoos outros filhos desta união, Lamartini, Feijó e Ovidia. Antonelli iniciou seus estudos em sua própria residência com um professor particular. Na juventude foi para o Rio de Janeiro, ingressando na Escola Militar de Realengo (RJ) e, posteriormente, prestou serviço militar em Pelotas (RS). Após concluir estudos no Exército Brasileiro, mudou-se para Santa Rita de Cássia, no Sul de Minas, onde trabalhou como coletor federal. Voltando para a terra natal, onde se tornou fazendeiro e dedicou-se, por quatro décadas, ao comeécio de café, era proprietário das fazendas Tico-Tico, na Estação Velha (Viçosa), Santo Antônio, em Cachoeira de Santa Cruz (Viçosa), em Araponga (Serra dos Arrepiados) e a Fazenda do Gongo, em Ervália. De acordo com depoimento de seu neto Prof. José Muanis Bhering Nasser a este blogger, Antonelli era um fazendeiro “dedicado, inovador, caprichoso e conservador, e supervisionava pessoalmente o dia-a-dia das atividades no campo e, ao usufruir das terras, exercia e difundia conceitos de preservação ambiental, sempre preocupado com a qualidade dos produtos obtidos nas fazendas - batata, café, cana-de-açúcar, feijão, milho, cachaça, rapadura, açúcar mascavo e leite. Introduziu na região de Araponga a técnica de despolpamento do café, visando a excelência da bebida. Dedicou-se ao cultivo de frutas, como: pêssego, marmelo e uva fina de mesa. Criava bovinos de duplo propósito - leite/corte. À frente do seu tempo e dos costumes da época na região, preocupou-se em introduzir material genético para melhoria do rebanho animal – para isso, adquiriu, através de compra e aluguel, matrizes bovinas de alta linhagem dos governos estadual/federal.”
Contraiu primeiras núpcias com Ana Martins Chaves Bhering, com quem teve a filha Ana Maria, Do segundo casamento, com Maria da Conceição Pacheco Bhering, filha do Dr. José Teothônio Pacheco Pacheco, um dos chefes políticos locais ao tempo do império, e de Maria Cândida Galvão, nasceram Maria de Nazareth, Martha Sílvia, Maria do Rosário e Antônio. Antonelli foi abastado fazendeiro e comerciante de café por mais de oito lustros.
Foi nomeado prefeito quando Benedito Valadares governava Minas Gerais. Faleceu aos 84 anos, a 3 de junho de 1967, em Viçosa, “deixando, para muitos, exemplos de trabalho, respeito ao próximo, fé em Deus e amizade e, para amigos e familiares, saudades eternas”, conforme realçou o Prof. José Muanis. Faleceu a 3 de junho de 1967, em Viçosa, assim a ele se referiu Folha de Viçosa em seu necrológio, de 18/6/1967:
"Com o falecimento, ocorrido a 3 do fluente, do Sr. Antonelli de Carvalho Bhering, Viçosa perdeu um dos seus mais prestimosos cidadãos.
Figura tradicional dos nossos meios comercial e agrícola, foi o Sr. Antonelli fazendeiro progressista e comerciante de café relacionado em toda a nossa região. Prefeito de Viçosa, muito lhe deve a cidade, pela administração ativa em obras e tranqüila no trato com os servidores e munícipes.
Mas do ilustre finado queremos, especialmente, ressaltar uma faceta não conhecida de todos e que, tomada isoladamente, bastaria para definir o espírito do homem. Reservado por natureza, econômicamente independente e próspero, não houve, durante muitas décadas, uma pessoa ou família em dificuldades que, recorrendo a seus préstimos, não fôsse socorrido, prontamente.
Mais do que isso: Seu coração generoso não esperava que as aflições batessem à sua porta. Inúmeras vêzes, por iniciativa própria, problemas angustiantes foram solucionados porque o Sr. Antonelli mandava chamar os que se debatiam em preocupações ou lhes mandava levar aquilo que podia abrir-lhes a porta para a paz deespírito.
Sua característica mais simpática, entretanto, não se marcava só pelas citadas atitudes.
O que nos fazia mais admirá-lo em vida e, agora, reverenciar sua memória é o fato de ter sido êle grande protetor dos estudantes pobres, naqueles tempos em que estudar constituía privilégio das classes abastadas. Numerosos moços e môças, em Viçosa, conseguiram realizar o ideal de sua vida porque o Sr. Antonelli lhes abriu a mão generosa."
Durante o governo Antonelli, Viçosa contava 8.000 eleitores. “O enthusiasmo do povo de Viçosa pelo alistamento eleitoral”, foi notícia de A Razão (Semanário Independente), tendo como diretor-gerente J. Pinto Coelho, número 29, Anno I, edição de 2 de setembro de 1934: “Cerca de 2.000 alistandos do P. R. M. deixaram de ser attendidos – Viçosa só tem um desejo: fazer eleitores. Nada a distrahe. Nada a preoccupa. Nem sequer o que vae pelos outros municípios desde e de outros Estados lhe desvia a attenção do principal – que é preparar-se paa a lucta eleitoral que se approxima.
Ella está integralmente, heroicamente, fazendo a guerra do voto livre que há de restaurar no Brasil o regimen da lei. E’ a missão histórica que a si mesma se impoz com vontade nabalavel, e dessa missão nada a afastará.
Viçosa vive dias gloriosos. Numa unanimidade edificante, que por si só já conforta e enthusiasma, o povo não tem outro pensamento e outra preoccupação senão ir ao bureau do P. R. M. e ao cartório eleitoral para se tornar eleitor. Todos, homens e mulheres, estão absorvidos, empolgados pelo pleito de outubro proximo, a que Viçosa se vae lançar num arranque de incomparavel belleza, que será talvez a mais bella pagina historica que aqui se escreverá. A própria natureza parece commungar com as almas dando-lhes como augúrio feliz dias de sol esplendido e profundo azul. E por toda parte ha um trabalho intenso, num vae-vem incessante e estonteante, em que se harmonizam e integram os esforços de todos os seus habitantes, na faina gloriosa de varrer do município a récua de opportunistas que nos flagellam e diminuem aos olhos do extrangeiro civilizado.
Quem será o historiador inspirado desde momento único, fixando, num estylo de bronze, todos os aspectos grandiosos do drama que se desenrola em nossa terra?...
Até ante-hontem, á hora em que terminou o alistamento, os que tiveram a fortuna de se approzimar, do bureau eleitoral, installado no palacete do dr. Arthur Bernardes, nesta cidade, devem ter tido os olhos rasos de lagrimas, deante do espectaculo permanente de patriotismo e abnegação do povo, espectaculo que equivale a um verdadeiro juramento pela salvação da patria. O aspecto que offerecia o alistamento naquele bureau era deveras impressionante. Homens e mulheres, envolvendo todas as dependências do referido palacete, espraiavam-se pelas calçadas, na ancia incontida de serem attendidos. O numero de alistandos crescia de instante a instante. Apesar de longa e extenuante a espera, ninguem desanimava.
Perto de nós, um observador resumiu a licção da scena edificante:
- Pode lá ser vencido um povo assim valente e patriota?...
E´ lastimavel, entretanto, que cerca de 2.000 alistandos, que tudo fizeram para se inscrever a tempo de poder votar em outubro proximo, não o tenham conseguido, ficando, por isso, o P. R. M. desfalcado, nas suas fileiras, desse grande contingente eleitoral. Apesar dos pesares, o numero de eleitores do municipio deve orçar actualmente por mais de 8.000. Já é uma victoria.”
Pela Lei nº 4.897, de 2/2/1931, o interventor mineiro Olegário Dias Maciel decretou a dissolução das Câmaras Municipais e instituiu os Conselhos Consultivos, formado por 5 membros, entre os quais os dois maiores contribuintes de impostos em seus municípios e 3 cidadãos de livre escolha do chefe do governo municipal. O primeiro a assinar resoluções como "Prefeito" foi o Dr. João Braz da Costa Val. Mas só em 1934, é que Antonelli foi o primeiro viçosense a exercer a chefia da administração municipal sob o título de prefeito, com a promulgação de nova Constituição naquele ano. Eleições diretas aconteceram somente a partir de 1947, quando foi eleito para o cargo o advogado José Lopes de Carvalho. Nomeado prefeito interinamente em duas ocasiões, quando Benedito Valadares governava Minas Gerais, Antonelli promulgou, dentre outros decretos, o de nº 88, a 21 de dezembro de 1935, que regulariza o serviço de distribuição e consumo de água na cidade e nos distritos, o de nº 92, passando a considerar como pertencentes à zona urbana os povoados de São José do Triunfo e "Estação de Silvestre", além de ter criado diversas escolas rurais mistas nos vários distritos, como Herval e Teixeiras. A 2 de fevereiro de 1934, o Decreto nº 57, que instituiu os Regulamentos de veículos e do trânsito público em geral, foi por ele assinado. Outro seu legado, como prefeito de Viçosa, foi o Decreto nº 86, de 21 de dezembro de 1935, o Código Tributário Municipal.



Cyro Bolivar de Araújo Moreira (1936-1937)



Em 1936, os viçosenses viveram o atípico "ano dos três prefeitos", quais sejam Antonelli de Carvalho Bhering, Arnaldo Dias de Andrade e Cyro Bolivar de Araújo Moreira. Naquele ano abria-se novo livro, rubricado por este último, para que o primeiro presidente da Câmara Municipal após a instalação do governo municipal biorgânico, assinasse as resoluções próprias do Legislativo desde 24 de junho daquele ano, até a implantação do "Estado Novo", em novembro de 1937, quando reassumiu a Prefeitura o Dr. João Braz da Costa Val. Ligado ao Partido Republicano Mineiro (PRM), depois PR (Partido Republicano) e à Aliança Renovadora Nacional (ARENA), filho do também político Benjamim Augusto do Carmo, marianense, presidente das câmaras de Ponte Nova e de Raul Soares, e Dona Teolinda de Souza Carmo, o advogado Juarez de Sousa Carmo, nascido a 30 de abril de 1907, no então distrito pontenovense de Amparo da Serra, ex-aluno do Gymnasio de Viçosa, formou-se pela Faculdade Nacional de Direito do Brasil em 1934. Foi deputado federal na legislatura 1959-1963. Secretário do Interior do Estado de Minas (1959-1961), no governo Bias Fortes, de sua iniciativa foi a instalação, em Viçosa, de dois semáforos na praça Silviano Brandão, nas esquinas da rua Senador Vaz de Mello e da rua Arthur Bernardes. Presidiu a Associação Comercial de Viçosa, dirigiu a Companhia Telefônica local e o jornal Cidade de Viçosa. Participou, com sócio fundador da Sociedade da Usina Santa Rita. Na Revolução Constitucionalista de 1932 liderou um dos batalhões de forças voluntárias no distrito viçosense de Araponga. Inaugurou a segunda usina hidrelétrica de Pedra do Anta e esteve envolvido diretamente em obras como a construção da Cadeia Pública da rua Dr. Brito e da Colônia Agrícola Vaz de Mello na gestão do prefeito José da Costa Vaz de Mello. Exerceu também a advocacia geral do Estado de Minas Gerais. Em Viçosa lutou para transformar o austero edifício de nº 337 da avenida Santa Rita, pertencente ao município desde 1933, na sede da Escola Ministro Edmundo Lins, inaugurada a 10/3/1962. A reformulação foi executada pela conceituada firma do viçosense Jacob Lopes de Castro, por força de um convênio entre o Município e Governo do Estado, por intermédio do Dr. Juarez, na Campanha de Reforma e Recuperação de Prédios Escolares (CARRPE). Secretário da Agricultura, Indústria, Comércio e Trabalho no governo de Juscelino Kubitschek, secretário interino da Saúde, e de Viação e Obras Públicas em 1955, membro do Conselho Superior das Caixas Econômicas Federais, no Rio de Janeiro, diretor-presidente da Companhia Habitacional de Minas Gerais (COHAB) entre 1971 e 1974, vice-presidente do Banco Real de Minas Gerais S. A. (1976-1978), deputado constituinte, integrou as comissões para elaboração do projeto da Constituição do Estado em 1947; Comissão Executiva da Assembléia, onde também exerceu o cargo de segundo-vice-presidente em 1967, além da Comissão de Constituição, Legislação e Justiça (vice-presidência em 1947), e a presidência em 1950, a Comissão de Leis Complementares: vice-presidente, em, 1947, a Comissão de Agricultura, Indústria e Comércio: vice-presidência, em 1947, Comissão de Energia e Transporte; de Serviço Público e Civil; de Finanças, Orçamento e Tomada de Contas: (presidente, em 1954) e a Comissão de Segurança Pública. Foi ainda membro do Conselho Superior das Caixas Econômicas Federais (1967-1969) e do Conselho de Administração do Banco de Crédito Real de Minas Gerais (1975-1978), participando de missões oficiais em Angola e Portugal, como representante da Câmara dos Deputados, respectivamente em 1959 e 1962. Casado com a pedagoga Violeta de Sousa Carmo, filha do farmacêutico Sebastião de Vasconcelos Barros e de Dona Maria Graça de Vasconcelos, sobrinha, pelo lado materno, do ex-presidente da República, Dr. Arthur da Silva Bernardes, com ela teve apenas um filho, Dr. Eduardo de Souza Carmo, advogado e professor da Faculdade Milton Campos, em Belo Horizonte.Muitas escolas da região homenageiam-lhe com o nome.
O médico Cyro Bolivar, o prefeito de então, fora provedor do Hospital São Sebastião. Havia, naquele tempo, o Hospital Regional Federal da Matta, na atual rua Afonso Pena, junto ao Posto de Profilaxia Rural, que fora dirigido por Dr. João Batista Ferreira Brito (falecido aos 39 anos, em 1924), e pelos também médicos Mário Barreto e José Felicíssimo de Paula Xavier. Dr. Cyro fora também seu diretor. O Hospital São Sebastião estava também sob os cuidados das Irmãs Carmelitas da Divina Providência, na atual praça Emílio Jardim.
Numa época em que a iluminação de Pedra do Anta era de carbureto e querosene, usando-se lampiões a querosene e gasômetro a carbureto para distribuição de gás em bicos para a iluminação da Igreja Matriz de São Sebastião (a usina só viria em 1962, aproveitando-se a água do rio Casca), Dr. Cyro assinava a Resolução 58/1937, para instalação elétrica daquele distrito. A Resolução nº 5, de 6 de outubro de 1936, regulava o perímetro urbano da cidade, que ficou então constituído da praça Silviano Brandão, praça do Rosário, praça São Francisco, praça Emílio Jardim, avenida Santa Rita, avenida 7 de Setembro, ruas do Cruzeiro, Gomes Barbosa, Arthur Bernardes, Senador Vaz de Mello, Municipal, do Comércio, dos Passos, Capitão José Maria Sant’Anna, 15 de Setembro, Cel. Bernardes, São José, Tiradentes e travessas 22 de Junho e Carlos Gomes, além de todas as edificações existentes ou que viessem a ser construídas a uma distância de 200 metros de quaisquer desses logradouros. O subúrbio ficou limitado ao “arraial de S. Silvestre, o Pau de Paina, S. José do Triunpho, Conceição e rua Nova”.
Várias pontes foram construídas em sua administração, nos distritos de Teixeiras, São Miguel do Anta, Coimbra e Cajuri. A construção de estrada desde a ponte do Rio Casa a São Miguel também data de seu governo, que promulgou o orçamento para calçamento, em paralelepípedos, da rua do Comércio e a construção do jardim “no largo da Egreja, na séde do districto de Pedra do Anta” e para a estrada de Canaã a São Bento. Atento à Cruzada Nacional de Educação, criou escolas rurais mistas no na Fazenda da Muqueca (São Miguel), no Casca (distrito do Herval), na Capivara (São Miguel), em Cachoeirinha, em São Pedro e na Fazenda de Santa Izabel, no Bom Jardim (Teixeiras); nos Estouros, Boa Sorte do Ramos e Pouso Alegre, na fazenda da Lage, no Sertão, Laranjeiras e Jacutinga, Pedra do Anta, no Bom Sucesso, distrito de Canaã, no Córrego dos Nobres, distrito da cidade, e no distrito de São Vicente do Grama, onde foi também instalado, em sua gestão, o serviço d’água. Preocupou-se também ele com os requisitos indispensáveis para que a permissão de abertura de ruas, que deveriam ter largura mínima de 14 metros, nas ruas centrais e 10 metros nas ruas laterais, traçadas em linha reta, quando possível, e niveladas, além de facilidade para a construção de redes de água e esgoto, requisitos de salubridade. “As praças terão a área de 50m x 50. As travessas preencherão os requisitos da ruas e não serão largura menor de 8 metros”, reza um de seus decretos. Considerou de utilidade pública, sem ônus para o município, a estrada que liga a antiga do Macuco à Nova, em Cachoeirinha, então distrito de São Miguel
Pela Resolução nº 18, de 8 de outubro de 1936, Dr. Cyro Bolívar autorizou verba de 3:000$$000 (três contos de réis) para a construção da estrada de Canaã a Araponga, além de melhoramentos na rua da estação de Coimbra. A Resolução nº 34, de 10 de outubro de 1936, regulamentou as construções, com 165 artigos. Regulamentaram-se ainda, sob seu comando administrativo, as funções dos empregados municipais, fixando-lhes os vencimentos (Resolução nº 36/1936). Em sua administração se chegou a conceder, em janeiro de 1937, redução de 50% a contribuintes em atraso e fixar em 40% a taxa relativa ao valor locativo da propriedade rural, o imposto cedular sobre a renda de imóveis rurais, bem como a taxa de aferição de pesos e medidas por casa comercial em 7$000. Pôs-se ainda, em hasta pública, a construção e exploração do “matadouro modelo” da cidade, e se decidiu pela aquisição de terrenos com mananciais de água para abastecimento de Viçosa e Coimbra bem como terrenos para o aumento de seus cemitérios. O prefeito Dr. Cyro foi quem criou o Departamento Municipal de Agricultura, pela Resolução nº 57/1937.
Falecido em Rolândia, no Paraná, a 15 de agosto de 1994, até hoje não é nome de um simples beco na cidade. Nascido na Fazenda das Taúbas, em Ubá, num dia 4 de dezembro de 1897. Foi aluno do Ginásio São José em sua terra natal. Era filho do primeiro diretor do Patronato Agrícola de Viçosa e ex-fiscal de fronteiras em Passa Cinco, Ouro Preto e Frutal, Carlos de Araújo Moreira, itabirano que fora também gerente dos Correios de Ubá, e de Dona Rita Malaquias Bolivar, viçosense. Dr. Cyro teve os irmãos João Carlos, Maria Luíza, Carlos, Cândido, Mauro e Cora. Casou-se duas vezes, primeiro com Dona Maria Teixeira Vidigal, de tradicional família portofirmense, com quem teve os filhos Abelardo Carlos, Wanda, Fernando Carlos, Rita Maria e Murilo Carlos. Viúvo, convolou núpcias com Dona Virgínia Gomes (Dona Zizinha), de tradicional família de Santo Antônio do Grama. Com ela gerou as filhas Heloísa e Cira. Formado pela Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, sempre trabalhou em Viçosa, onde foi um dos maiores benfeitores de toda a história do Hospital São Sebastião, um dos líderes da construção de sua nova sede, entre 1928 e 1930. Cirurgião, foi o primeiro a operar em Londrina, no Paraná, para onde se mudou. Em Rolândia, no Paraná, fundou a Casa de Saúde Rolândia, tendo fundado duas outras casas de saúde em Arapongas e em Jaguapitã, moderno hospital psiquiátrico dirigido por um de seus filhos, também médico.
Sobre Dr. Cyro Bolivar, ALVES (págs. 107-108) escreveu: "Nas frias manhãs desta terra, sempre um cidadão madrugador caminhava rumo ao Hospital para ajudá-lo a crescer. Sem medida, prodigamente, prestou dia a dia tributo consciente à profissão que honra e dignifica. Sua presença à cabeceira de um doente é sempre tranqüila segurança. É santo milagreiro, sem hora e sem preço, bondade que se dá ao próximo sem medida e sem tempo. Sabiamente suas mãos operam milagres. Suas lembranças hão de ser, se contadas, a crônica desta cidade a quem deu o melhor de sua vida, por anos e anos [...]
[...] Com a mesma simplicidade com que se achegava aos grandes e poderosos – ele mesmo um deles – provava das convivências humildes, sem pose e sem demagogia. Natural e simples de nascença. Comedido e sóbrio, não guardo dele atitude que demonstrasse vaidade.
Nas tardes gostosas, no pátio do Hospital, papeando com um e outro, vivia e ajudava a viver, libertando-se do tédio, da solidão, quebrando a monotonia de uma vida nada rotineira. Cada manhã era sempre um novo dia para ser útil a alguém. Quantos dias emendavam-se com as noites em constante vigília a uma vida bruxuleante. De qualquer um: sem escolha de cor ou posses."



Sylvio Romeo Cezar de Araújo (1943-1945)



Barbacenense, outro que também chegou ao parlamento mineiro foi o Dr. Sylvio Romeo Cezar de Araújo, exercendo mandatos entre 1951 e 1958. Não pertencia ao grupo político do presidente Arthur Bernardes e fora nomeado prefeito local em plena ditadura Vargas. Governantes municipais que além dele exerceram cargos parlamentares no Estado desde o final do século XIX até meados do século XX foram sete: José Ricardo Rebello Horta (1919-1926), Antônio Gomes Barbosa (1927-1930), Arthur da Silva Bernardes (1907-1910), Carlos Vaz de Mello (1882-1889), Carlos Vaz de Mello Megale (1951-1955), Emílio Jardim de Resende (1911-1918) e Juarez de Sousa Carmo (1947-1959). Integraram igualmente o parlamento mineiro, além do viçosense Arthur Bernardes Filho, também embaixador, ministro e vice-governador, outros cidadãos com raízes familiares, ou laços profissionais, em Viçosa, como Antônio Nunes Galvão (1864-1869), Cordovil Pinto Coelho (1919-1939), Cornélio Vaz de Mello (1899-1914), Lacyr Dias de Andrade (1986-1989), Milton Soares Campos (1935-1937), Leopoldo Bessone (1979-1999), Cristiano de Freitas Castro (1955-1963), José Felipe de Freitas Castro (1895-1906), Paulo José de Araújo (1983-1987), Paulo Piau Nogueira (1995-2006), Danilo de Castro desde a década de 1990 e seu filho Rodrigo de Castro já no século XXI, Edgard de Vasconcellos Barros (1967-1975), Elias de Sousa Carmo (1947-1951) e Ruy da Costa Val (1967-1982). A história registra que, entre os principais nomes de políticos especialmente lembrados, ao longo das décadas, nas urnas viçosenses com poucos ou muitos sufrágios, originários das mais diferentes agremiações e ideologias, e que captaram a simpatia e o apoio de cabos eleitorais na cidade de Viçosa, figuram, dentre outros, os seguintes: César Medeiros, Cyro de Aguiar Maciel, Diogo Luiz de Almeida Pereira de Vasconcellos, Dnar Mendes Ferreira, Ermano Batista Filho, Euro Luiz Arantes, Fábio Vasconcellos, Francisco Silviano de Almeida Brandão, Genesco Aparecido de Oliveira, Genésio Bernardino de Souza, Ibrahim Abi-Ackel, Ibrahim Jacob, Irani Vieira Barbosa, Israel Pinheiro Filho, Itamar de Barros, Jaime Martins do Espírito Santo, João Carlos Siqueira, João Leite da Silva Neto, Jorge Carone Filho, Jorge Ferraz, José Bonifácio Tamm de Andrada Filho, José Francisco Bias Fortes, José Sette de Barros, Juarez Távora, Júlio Bueno Brandão, Levindo Eduardo Coelho, Levindo Ozanan Coelho, Mário Assad, Mauri Torres, Nilmário de Miranda, Oscar Dias Corrêa, Paulino Cícero de Vasconcelos, Paulo César de Carvalho Pettersen, Paulo Delgado, Paulo Romano, Pedro Maciel Vidigal, Raul Soares de Moura, Ronaldo Vasconcellos e Último de Carvalho.
Cunhado do ex-governador de Minas, Benedicto Valadares Ribeiro, sob a administração do Dr. Sylvio Romeo foi que se calçou pela primeira vez a avenida Santa Rita e também a Rua dos Passos, além de terem sido construídas as arquibancadas do Viçosa Atlético Clube (VAC). Sua última esposa chamava-se Vera Saraiva Ribeiro Araújo. Aqui em Viçosa fora também titular do Cartório do 2º Ofício de Notas e estivera por algum tempo à frente de um dos jornais da terra, a Gazeta da Viçosa, passando-o depois a outro ex-prefeito municipal, José da Costa Vaz de Melo, o Parrique, destacado membro da Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP) e um dos mais apreciados cronistas da história jornalística de Viçosa.
Ainda sobre o Dr. Sílvio Romeo, ficou célebre o "Bilhete para Viçosa", que ensejou comentário deste blogger em carta ao "O Popular de Viçosa", edição nº 94, Ano IV, dada a sua publicação, na edição anterior, de 17/7/2008, pelo escritor José Levy de Oliveira, sob a epígrafe "Viçosenses de ontem", trazendo-o mais uma vez à lume. O “bilhete” bem reflete a psicologia do eleitorado viçosense dos tempos de Dr. Arthur Bernardes. Levy encontrou o "bilhete', perdido entre folhas de um livro adquirido num sebo, e antes de sua publicação do referido jornal, o documento fora cedido a este blogger. Panfleto de caráter político, subscrito por Alberto Deodato Maia Barreto (1896-1978), deputado federal entre 1947 e 1951, foi dirigido ao então superintendente municipal ("prefeito"), quando da campanha presidencial que culminou na vitória, para a presidência da República, do General Eurico Gaspar Dutra. O viçosense Arthur Bernardes apoiava então a candidatura do Major-Brigadeiro Eduardo Gomes. Deodato, autor do "bilhete", ocupou uma das cadeiras da Academia Mineira de Letras. Nascido em Maruim, Sergipe, ex-aluno do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e da Faculdade Nacional de Direito. Promotor de Rio Pardo de Minas, advogado e professor da Universidade Federal de Minas Gerais, jornalista e líder da União Democrática Nacional (UDN), signatário do Manifesto dos Mineiros.
Transcrevo o

“BILHETE PARA VIÇOSA

Meu caro Sílvio:

Tenho sabido da sua ação aí na Prefeitura de Viçosa. Todos os que aparecem por aqui me dão notícias e afirmam que você é um homem trabalhador. Já renovou vários calçamentos. Já endireitou pontes. Já abriu estradas. Já cumpriu, afinal, com o seu dever. Por isso, os viçosenses não desgostam de você. Tratam-no bem. Passam-lhe as mãos pelos ombros. Tomam café em sua companhia e, de quando em quando, lhe fazem uma festinha, com cerveja e discurso. Você se embala nos agrados. Toma o trem e dá um pulo até aqui, conversa com o tio postiço e lhe garante, bravamente, que, nas eleições, o general Dutra vai dar uma lavagem no brigadeiro. E, para seguir o cortejo oficial, pontifica:
- Vamos ganhar em Viçosa com 80%.
Esse é o número patente do Partido Social Democrático. O inventor foi o meu prezado dr. Melo Viana. E quem patenteou foi o Governador.
Você tem razão. Quando a gente está no Poder se embebeda e não vê virtudes na oposição. Começa a ter um dom divinatório. E se acha sempre o salvador e o único. Você acha o dr. Artur Bernardes um pinto diante de seu trabalho. A Escola de Viçosa, por ele ideada e construída, é uma obrasinha á toa. E o que o ex-presidente da República fez por sua terra, com inveja das outras e protestos dos próprios correligionários, nada representa. Acha que o povo se esquece disso. Qualquer de nós pode apontar defeitos no chefe do P. R. M. Mas ninguém pode negar que tudo ele deu á sua terra. Certo adversário dele já me falou que o presidente Artur Bernardes age em razão de Viçosa. A expressão, que parece pejorativa, diz bem da presença permanente, no coração, da terra natal.
O viçosense, meu caro Sílvio, é um bom mineiro. Desconfiança e malícia são traços característicos dos montanheses. Eles lhe dão o coração, mas o voto é do Bernardes...

Do:

ALBERTO DEODATO”

Ainda sobre o destinatário do bilhete de Deodato, em correspondência a este blogger, escreveu o professor José Dionísio Ladeira:
"Conheci-o muito bem! Entreguei muito telegrama a ele ali na Bueno Brandão, onde acabei morando quase 10 anos, numa casa hoje derrubada e construído um edifício, aliás, na esquina com a Sílvio Romeu, não existente naquele tempo e batizada com esse nome exatamente em homenagem a ele. Quando do ‘Centenário’ de Viçosa, em 1971,
entrevistei em Juiz de Fora um senhor que conviveu muito com Bernardes e depois com o Sílvio Romeu. Veja em 'Viçosa, uma Saudade', p. 227, na transcrição da tal entrevista: 'A uma pergunta de como deveria recebê-lo (ao Dr. Sílvio), o Presidente é lacônico, incisivo e profético: ´Receba-o bem. É um moço bom e trabalhador: fará muito por Viçosa.´ Depois o próprio Bernardes confidenciaria ao Seu Tonico: ´Oliveira, esse moço fez por Viçosa mais do que os prefeitos desta terra. É preciso que os administradores do futuro mantenham esse ritmo. Viçosa tem condições de se projetar na Zona da Mata".
Este político, em 1958, três anos antes de sua morte, ficaria em segunda colocação (1590 votos) nas eleições para o mesmo cargo de prefeito, concorrendo pelo Partido Social Democrático (PSD) contra o médico Raymundo Alves Torres, do Partido Republicano (PR), este com 3341 votos. Os vários decretos subscritos pelo prefeito Dr. Sylvio Romeo, em seu efêmero governo, demonstram a sua constante preocupação com o bem estar dos servidores públicos municipais, com a concessão de abonos provisórios. Tendo extinguido os cargos de auxiliar datilógrafo da Secretaria e contador, criou ao mesmo tempo os de chefes dos serviços de Patrimônio e de Contabilidade, auxiliar contador, arquivista e o de fiscal geral de rendas. Em sua administração concederam-se favores aos funcionários chefes de família, com mais de dois anos de exercício, com um abono mensal de 2% sobre o vencimento ou remuneração, por filho menor de 18 anos. Tal benefício foi estendido a funcionárias viúvas ou que tivessem maridos inválidos. Dando prosseguimento às suas metas, seu sucessor, J. Martins Palhano, que governou por apenas cinco meses, incluiria os funcionalismo e operariado municipal como contribuinte do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado. Em 1943, foi Dr. Sylvio quem criou, pelo Decreto-Lei nº 74, a taxa de calçamento e conservação. Em maio de 1944, ele assinava o Decreto-Lei estabelecendo a cooperação financeira do município com as entidades privadas, regulamentando assim a concessão de subvenções municipais a instituições assistenciais das seguintes modalidades: assistência médica, amparo à maternidade, proteção à saúde da criança, assistência a qualquer espécie de doentes, a toda sorte de necessitados e desvalidos, à velhice e à invalidez, amparo à infância e à juventude em estado de abandono moral, intelectual ou físico, educação pré-primária, primária, profissional secundária e superior, educação e reeducação de adultos, educação de anormais, assistência a escolares, amparo a toda sorte de trabalhadores, intelectuais e manuais. Cuidadoso com o setor educacional, criou oito escolas rurais no distrito da sede (duas), em Capivara, distrito de São Miguel do Anta, Fazenda da Lage, distrito de Canaã, Morro Grande, distrito de Cajuri, com as denominações de José Canuto Torres, Padre Álvaro Corrêa Borges, Joaquim Delveaux Pinto Coelho, Egídio da Silva Pontes e Antônio Dias de Andrade, respectivamente, bem como na Cascatinha, Paraíso e Quartéis, distritos de Canaã, Cidade e Coimbra, denominadas Professor Alípio Peres, 22 de Janeiro e 7 de Setembro. Outras seis seriam criadas por seu sucessor imediato, J. Martins Palhano, no ano seguinte, 1945, no Marreco, Poiaia e na sede dos distritos de Coimbra, Cajuri, São Miguel do Anta e Canaã, com as denominações de Capitão Rafael da Silva Araújo, José Valladares da Silva, Joaquim Toledo da Silva, Major Sebastião Pereira Santiago, Silvestre Lopes de Faria Reis e Joaquim Pedro de Oliveira. Naquele tempo, além dessas citadas, divididas pelo então administrador público em escolas de primeira classe (regidas por normalistas ou professoras diplomadas por estabelecimentos superiores) e de segunda classe (regidas por professoras não tituladas), eram os seguintes estabelecimentos educacionais mantidos pelo município, os quais passavam a ter, desde então, as seguintes denominações: no distrito da cidade: Barão do Rio Branco; e Dr. Francisco Machado de Magalhães em Silvestre; Dr. José Theotônio Pacheco, na Colônia Vaz de Mello; Senador Vaz de Mello, em Córrego dos Nobres; Dr. Silviano Brandão, em Lemos; Padre Francisco José da Silva, em Mãe Tonica; José Antônio Rodrigues, no Silêncio; Heráclito da Costa Val, em Córrego Fundo; Presidente Getúlio Vargas, em São José do Triunfo; Governador Benedito Valadares Ribeiro, em Cachoeirinha; Dr. Francisco Leite da Costa Belém, em Bom Sucesso. No distrito de São Miguel do Anta: Dom Viçoso, em Monte Sinai; Manuel Bernardes de Souza Silvino, em Santa Rosa; José Lopes de Faria Reis, em Capivara. No distrito de Canaã: Joaquim Gonçalves Fontes, em Macela; e Padre José Bonifácio de Souza Barradas, em Tombo da Cachoeira. No distrito de Coimbra: Antônio Guido de Miranda, na Fazenda da Boa Vista; e Pedro Nolasco da Fonseca, em Marengo. E no distrito de Cajuri: Joaquim de Oliveira Ribeiro, no Paraguai.
Falecido em Belo Horizonte em 1961, aos 50 anos de idade, Dr. Sylvio Romeo também foi prefeito da cidade mineira de Bomfim.



José Lopes de Carvalho (1948-1950)



Viçosa vivia o ano de 1947 quando, em outubro, foi seu primeiro prefeito escolhido pelo voto direto: o ilustre advogado Dr. José Lopes de Carvalho, do Partido Republicano (PR), com 4233 votos, tendo como vice Carlos Vaz de Mello Megale (PR), com 3705 votos. José Miguel Pacheco (PSD), foi adversário derrotado, com 1372 votos. Falecido a 15 de fevereiro de 1994, aos 85, Dr. José era casado com a professora riobranquense Erotides Silva de Carvalho. Com ela teve 4 filhos: César Augusto, Maria Amélia, José Eugênio e Eliane. Seu lema governamental foi "Estradas e Educação". Empossado a 4 de janeiro de 1948, juntamente com o vice-prefeito Dr. Carlos Vaz de Mello Megale (Nenê Megale), inaugurou uma reformulação do jardim da praça Silviano Brandão naquele mesmo ano. Construiu o campo de aviação, com linha aérea de Viçosa a Belo Horizonte, murou o Cemitério Dom Viçoso e doou o terreno para construção da sede da agência de Correios e Telégrafos, na avenida Bueno Brandão. Pioneiro do trabalho de ressocialização dos presidiários, empregava-os em obras municipais. Realizou significativas melhorias no serviço de abastecimento de água de São Miguel do Anta e Cajuri. Em sua gestão, graças a seus esforços, alunos de Viçosa puderam a partir de então matricular-se no Patronato Agrícola, até ali direcionado exclusivamente a alunos do Rio de Janeiro. Seu primo, Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, da Academia Mineira de Letras, assim o definiu: "Inteligência fulgurante, Dr. José de Carvalho, no exercício da advocacia foi um talento a serviço da justiça. Seu verbo florente e florido, imaginoso e rutilante honrou a oratória forense. Na defesa era impenetrável, na réplica fulminante. Brilhante como promotor público, brioso causídico, a Ordem dos Advogados o teve por diversas ocasiões como vice-presidente na Subseção de Visconde do Rio Branco. Atividades superavisadas por altos talentos e enobrecidas por extraordinários serviços o projetaram no cenário jurídico nacional a tal ponto de ser cogitado para advogado da Embaixada Inglesa no Brasil e para cargos elevados no país. A tudo declinou, pois suas delícias eram curtir esta região, sua gente, seu destino. [...] Foi um adail excepcional, um líder indiscutível. O culto da ordem, da honestidade, do trabalho marcaram sua ação política. Jamais laborou pro domo sua e se fez o paradigma do autêntico político, cuidando com êxito e esmero da coisa pública. Célebres as inaugurações de suas obras e sua pose característica que se vê em tantas fotos indicam um guia cônscio de seus objetivos. Notável seu gesto: mão direita erguida como a apontar sempre novas metas, novos horizontes, semblante sereno dos que têm a consciência do dever cumprido. Nele havia um político estreme, inteiriço de bronze, de autoridade, de competência sem rival. O amor à advocacia falou mis alto e mesmo instado não voltou a tais lides que, por certo, o levariam aos mais altos postos. Para um vulto como o Dr. José de Carvalho a campa é um altar sobre o qual se desfolham as flores da gratidão e das mais justas homenagens. Seus feitos haverão de ser recordados. No proscênio da vida viçosense ele será sempre destacado como varão elevado e culto, incorruptível e útil, prestimoso e reto." De fato ele realizou uma boa administração num período difícil, principalmente pelos problemas decorrentes da inundação de 17 de fevereiro de 1948. Naquela ocasião o viçosense Dr. Arthur Bernardes Filho encaminhou ao prefeito uma verba de mil e quinhentos contos de réis, como ajuda no socorro aos desabrigados, tendo sido necessária inclusive a reconstrução de uma nova represa de água potável, que se arrebentou por força das águas.
Foi no governo dele que a legislação municipal começou a ser regulamentada. Como realçou o ex-presidente da Câmara Municipal, Prof. Euter Paniago, o primeiro prefeito após a ditadura Vargas foi o autor da Lei número 1 de Viçosa, datada de 18 de janeiro de 1948, que "dá bem o sentido da preocupação do prefeito que acabara de assumir o governo municipal, uma vez que ela regula o serviço de abastecimento d'água de então, cobrado ainda sob pena d'água, ao preço de 65 cruzeiros por ano. Outra característica marcante de José Lopes de Carvalho foi sua preocupação constante em incentivar a implantação de indústrias no município. Como prefeito, sua contribuição foi traduzida na isenção de tributos àqueles que pretendiam iniciar qualquer atividade que redundasse em aumento de emprego de mão-de-obra. Prova disso é que 13% do total de projetos enviados à Câmara, durante os três anos de governo, versaram sobre a matéria." Quanta mudança Viçosa experimentou, por exemplo, desde a Lei nº 26, que autorizava o prefeito incorporar o bairro Conceição ao perímetro urbano. Paniago lembrou que "a Lei nº 30 autorizava a abertura da rua Silva Pontes e a Lei nº 93 autorizava a receber doação de terreno para abertura da travessa Sagrados Corações.
Contribuição extraordinária ao desenvolvimento do município foi, seguramente, a aprovação da Lei 91, que estabelece o Código de Posturas Municipais. A Lei é completa e regula toda a vida do município. Contendo 559 artigos e ocupando 145páginas do livro de registro de Leis, ela disciplina a venda de terreno, as construções, o uso das vias públicas, a abertura de estradas e caminhos públicos, a venda de inflamáveis e explosivos, o controle das queimadas, a extinção dos insetos nocivos, dentre outras." Neste caso, mencione-se aqui a Lei nº 32, que torna obrigatória a construção de muros nos lotes urbanos. Assinada em 29 de novembro de 1948, determinação que continuou a ser descumprida anos afora, não obstante vigorada em diversas outras oportunidades. Ela vale, porém, na avaliação do ex-vereador Paniago, "como marco histórico a indicar o interesse do prefeito de então em disciplinar tão importante fato na vida de Viçosa.
No setor educacional, o governo José Lopes de Carvalho deixou marcas profundas, construção e reparo de escolas no município e nos distritos de então, como Cajuri e São Miguel do Anta; compra de ações do Colégio de Viçosa; criação de bolsas de estudos para viçosenses carentes, estudantes da então Universidade Rural do Estado de Minas Gerais, nossa atual Universidade Federal de Viçosa, são exemplos que demonstram isso.
Doação de terreno para a agência dos Correios e Telégrafos, contribuição financeira para a construção do Santuário de Santa Rita de Cássia, ajuda financeira ao Hospital São Sebastião são alguns dos atos do prefeito José Lopes de Carvalho, que mostram sua preocupação com as instituições de Viçosa", destacou Paniago, que acrescentou ser "digno de menção o teor da Lei nº 31, segundo a qual a Câmara autorizava o prefeito a coprar uma motocicleta para uso do serviço de fiscalização. Tal era o rigor, o senso de responsabilidade e o respeito às prerrogativas do Poder Legislativo que até mesmo para adquirir uma simples motocicleta o prefeito se curvava à autorização dos vereadores. Pena que esse tipo de comportamento não se verifica com tanta freqüência", realçou Paniago. "Além de as leis daquele período demonstrarem grande apoio também ao setor rural, com a construção de pontes, matadouros, estradas e escolas, vale mencionar o teor da Lei nº 84, sancionada no mês de agosto de seu último ano de governo, pela qual é disciplinado o processo de aposentadoria dos servidores do município. É bom frisar, contudo, que a avaliação de desempenho de qualquer governante com base apenas nas leis por ele editadas não esgota a possibilidade de análise sobre outros aspectos do processo administrativo. Todavia, as leis são, de modo geral, excelentes indicadores das características de quem as propôe", conclui o Dr. Euter Paniago.
O vice-prefeito, Dr. Carlos Vaz de Mello Megale (Nenê Megale), havia chefiado o Poder Executivo local, entre março e agosto de 1947, tendo subscrito, dentre outros, o Decreto-Lei nº 103, regulatório do serviço de abastecimento de água da cidade. Advogado como o prefeito e também reconhecido popularmente com um dos grandes tribunos de seu tempo, faleceu aos 81 anos, em Belo Horizonte. Nascido em Viçosa a 22 de fevereiro de 1910, filho do capitão Luiz Megale e de Dona Cota Vaz de Mello Megale, foi chefe de Gabinete da Secretaria de Estado da Educação no governo de Milton Campos. Membro do Conselho Diretor da Universidade Federal de Viçosa, deputado estadual (1951-1055) e suplente de deputado (1963-1967), ocasião em que assumiu por diversas vezes o cargo, integrando ou presidindo comissões legislativas. Megale foi o relator da Lei Estadual nº 3.508, que criou o Colégio Estadual de Viçosa, de Ensino Fundamental e Médio, depois designado de “Dr. Raymundo Alves Torres”. Entre 1955 e 1956 dirigiu o Banco do Crédito Real de Minas Gerais e desde 1967 integrou a direção da Usiminas. Casado com Dona Edna Resende Megale, tiveram os filhos Mauro, Carlos Filho e Edna.
Dr. Octávio da Silva Araújo, professor de Pedagogia e Biologia no Colégio Normal de Viçosa, provedor do Hospital São Sebastião e um dos cidadãos que mais lutaram pela instituição do Colégio de Viçosa – Sociedade Anônima foi quem presidiu a Câmara Municipal durante o governo do Dr. José. Eleito por seus ilustríssimos pares para presidir a Casa Legislativa, num tempo em que a edilidade não era remunerada, deu início, como um verdadeiro magistrado, ao processo de regulamentação das leis municipais, sólida base do arcabouço legal hoje vigente. No dia 22 de abril de 2008, a sede própria da Câmara Municipal passou a ter o seu nome, fazendo justiça a um dos grandes vultos da história de Viçosa. Falecido a 11 de janeiro de 1993 este grande homem público nasceu em Viçosa a 6 de outubro de 1906, filho de José da Silva Araújo Júnior e de Francisca Batista da Silva. Médico formado em Belo Horizonte em 1934, foi fundador e presidente da Associação Médica de Viçosa e de seu posto de saúde. Casado com Dona Maria de Carvalho, pai do Pe. José Eudes, de Léa Maria, Eunice, Maria Teresinha, Eduardo, Célia, Dr. Lúcio Otávio, Dr. Paulo Henrique, Maria do Carmo e Roberto, sua ilibada carreira política pode ser avaliada ao se compulsarem os anais da Câmara. No âmbito religioso, foi o primeiro Ministro da Eucaristia em Viçosa. Como bem destacou o grande literato, filósofo e historiador viçosense Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho nas exéquias do Dr. Octávio, no Santuário de Santa Rita de Cássia, a sua vida foi "uma trajetória luminosa digna de um autêntico cristão e um insigne cidadão", daqueles que "não desaparecem, mas eternizam-se na memória dos que os conheceram e se beneficiaram de suas ações, seus exemplos". De fato foi a Câmara por ele presidida que colaborou com uma boa administração, num período difícil, principalmente pelos problemas decorrentes da enchente de 17 de fevereiro de 1948.



José da Costa Vaz de Mello (1951-1954)



José da Costa Vaz de Mello foi descrito por ALVES (pág 45), em 30 de abril de 1967, por ocasião de seu falecimento, aludindo a Antônio Frederico Ozanam, o fundador da Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP): "Desde quando Ozanam pôde contar com um braço direito para efetiva prática de caridade cristã, na pessoa do vicentino Parrique? A todos que busquei com esta indagação, tiveram uma e a mesma resposta: desde menino.
Esta deve ser mesmo a verdade. Desde menino, a simplicidade, a humildade e a cordialidade marcaram a vida do mais fabuloso Irmão que as confrarias se envaideceram de ter a serviço de Deus. A caridade foi moldura para destaque de uma vida de cristão autêntico. Desses que vivem o evangelho na ajuda ao próximo, no amor ao irmão precisado. Sem alardear promoções, escondendo-se na prática do bem, para melhor dar de si. Desde quando? Desde sempre.
Nas enfermarias dos hospitais, visitando enfermos, quanta ternura numa palavra de esperança e conforto a um doente agonizante! Quanta abnegação junto a um encarcerado revoltado! Que riqueza de qualidades cristãs num coração imenso! Desde quando? Desde sempre." Filho de Agostinho Vaz de Mello e de Anália Costa Vaz de Mello, nasceu em Viçosa a 22 de junho 1912. Aluno do Gymnasio de Viçosa, em Juiz de Fora estudou na Academia de Comércio. Titular do Cartório do Crime da Comarca de Viçosa, também trabalhou no Cartório Eleitoral. Casado com Dona Maria Mayer Vaz de Mello (Petita), Parrique teve sete filhos.
Jornalista, escreveu para jornais de Ponte Nova, Ubá, Juiz de Fora e inclusive para o Estado de Minas. Ator e diretor amador do teatro local, era também radialista, de sua gestão administrativa como alcaide municipal (1951-1953) surgiram o Cine Brasil, o Príncipe Hotel e a Colônia Agrícola Vaz de Mello, fazendo funcionar ali o Centro de Treinamento para Professoras Rurais. A primeira motoniveladora da microrregião aqui chegou em seu quadriênio. Sua colaboração para a implantação do Colégio de Viçosa S/A foi notável, em 1946, e o grande incentivo que lhe dera posteriormente, foram inestimáveis. Arnaldo Dias de Andrade, Clibas Vieira, Antônio Gonçalves de Oliveira, Deusdedith Lopes Nogueira, Dorvino Coelho Soares, Alfredo Soares do Carmo, Antônio Lopes Moreira, Antônio Pereira Soares, Geraldo Lopes de Carvalho, José Brumano, José dos Santos, José Fausto de Castro, José Lopes Soares, Mário Dutra dos Santos, Moacir Ladeira e Oscar Rodrigues Milagres, presididos pelo emérito educador e advogado Dr. Felício Brandi, foram os cidadãos que exerceram a vereança durante seu governo, e que, dentre outros projetos, criaram a Lei nº 186, de 16 de dezembro de 1953, sancionada pelo prefeito Parrique, de conformidade com o artigo 73, nº VII da então vigente Lei de Organização Municipal. Ela autorizou a construção do Matadouro Municipal, mediante concorrência pública ou administrativa, quando se autorizou o emprego da importância de cinqüenta mil cruzeiros. A lei vigorou desde 1º de janeiro de 1954, ocasião em que existia já um matadouro na Rua dos Passos, na esquina da atual rua Dona Gertrudes, em precárias condições de funcionamento. Antes que existisse na Universidade Federal de Viçosa, desde 2008, com área construída, de 583,27 metros quadrados, e seus dois currais para bovinos e suínos e respectiva estação de tratamento de efluentes, com capacidade de abate diário de 12 bovinos ou 25 suínos, ou 5 mil aves, e que trouxe significativa contribuição à sanidade da carne consumida em Viçosa, o abate clandestino de animais para o consumo humano foi um problema de saúde pública. Um barraco em precárias condições de higiene, localizado às margens da rodovia Viçosa/Porto Firme, ao lado da antiga Garagem Central da Prefeitura Municipal (antiga Usina Santa Rita), no bairro Nova Era (Pau de Paina), era o Abatedouro Municipal, até quando foi interditado, a 8 de junho de 1991, pela Justiça, em atendimento a uma ação promovida pelo Ministério Público.
Até então, açougueiros abatiam ali, diariamente, cerca de quatro bois, sem a mínima fiscalização, dividindo o barraco com cachorros e urubus, que ali ficavam para garantir sua alimentação e contaminar a carne. A interdição, naquela data, recebeu os aplausos da comunidade, porque parecia colocar um fim ao estado de calamidade pública de um dos serviços que a administração municipal vinha prestando à comunidade, mais a expondo a riscos do que zelando pela sua saúde. Além das irregularidades, em destaque a inexistência da inspeção sanitária, não havia ali nem mesmo água e esgotos. A interdição foi, portanto, recebida com regozijo pelos viçosenses, que chegaram a antever na sentença judicial de então, uma resolução próxima do problema crucial. À época, cerca de 90% dos açougueiros de Viçosa compravam e comercializavam carne de origem desconhecida, não se preocupando com a qualidade do produto. Pouco importava se o produto estava ou não causando risco aos consumidores. Pensava-se, então, que o fechamento do matadouro era um grande passo para se tentar resolver o gravíssimo problema do consumo de carne de origem duvidosa. A interdição judicial, antes de equacionar o problema, deu-lhe proporções ciclópicas, pois, ruim com ele que poderia ter sido remodelado pior sem ele, posto que os magarefes passaram a abater seus animais na roça, à beira da estrada, no pasto, sob as "mangueiras", onde prendiam seus sarilhos e içavam as carcaças dos animais abatidos e cujas sanidades passaram a ser atestadas pelo "olho experimentado" do açougueiro, conforme registrou o editorialista do Folha da Mata, professor Pélmio Simões de Carvalho, numa época em que até a lixeira municipal servia de alimento para a engorda de porcos comercializados em Viçosa.
Desde a bem intencionada interdição do abatedouro viçosense, de nefastas conseqüências, a campanha de sua reconstrução tornou-se constante de todas as campanhas eleitorais e, quando muito, intenção despretenciosa de realização, encenações na tentativa de construí-lo, muito discurso, editais, comissão de licitação e ninguém se interessou pela obra. Lavaram-se as mãos e não se resolveu o problema.
Discutiu-se muito se poderia se dar ao construtor do Abatedouro Municipal o direito de sua exploração, inclusive sobre os impostos próprios, por 10, 20, 30 anos, em período que poderia ser estabelecido por especialistas no assunto. Muitas idéias foram divulgadas, entre essas, a de se garantir, legalmente, real e intensa fiscalização sobre a comercialização de carne de suínos e bovinos, em Viçosa, inclusive na feira-livre, não oriunda do Abatedouro Público Municipal. Para que houvesse interessados pelo empreendimento seria absolutamente necessário que os empresários acreditassem no prefeito como autoridade que fosse a fiel garantia do cumprimento de leis e compromissos.
Mas o impasse do abate clandestino de reses continuou por esses anos todos, com o sério risco de a população ingerir carne contaminada em Viçosa, pois embora a imprensa tenha alardeado sobre o assunto, o Matadouro Municipal continuou funcionando ainda por muito tempo sem resguardar as condições básicas de higiene.
As secretarias municipais de Agricultura e Meio Ambiente (Seama), e de Saúde (SMS), em parceria com Governo do Estado, chegaram a iniciat preparativos para a construção do Abatedouro Regional em 2006, que teria capacidade para abate de até trinta bovinos e sessenta suínos por dia, com estrutura para ampliação. Na ocasião, técnicos do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), realizaram uma vistoria em área pertencente à PMV, na Colônia Vaz de Mello, que foi aprovada como o local de sua edificação, chegando a emitir o Laudo de Vistoria e Aprovação, mas esta última proposta também não vingou, embora a administração municipal tivesse entregado a documentação necessária para a realização do empenho para liberação dos recursos do referido convênio, ficando pendente a entrega do projeto técnico com o Plano de Trabalho e respectivo cronograma físico e financeiro.
Previa-se então, que uma vez liberados os recursos por parte do Governo do Estado, a PMV providenciaria a licitação para construção das obras, avaliados então em cerca de R$ 650 mil, o que dependia também de encontros com a Associação de Açougueiros de Viçosa, para discutir sobre a gestão do Abatedouro, cuja fiscalização de abate seria de responsabilidade do Serviço de Inspeção Municipal - SIM ligado à Secretaria Municipal de Meio Ambiente, ou do IMA, quando se tratasse de comercialização intermunicipal.
Parrique voltou a disputar a Prefeitura de Viçosa em 1962, quando foi derrotado por Moacyr Dias de Andrade. Cidade de Viçosa, de 15 de julho de 1962 (número 2072), ano LXX, publicou a crônica intitulada “Conversa ao pé do ouvido", de sua autoria. Ei-la:
"A minha aparente reserva, a indiferença que pareço dispensar à minha campanha de eleição ao cargo de Prefeito de Viçosa, tem implicado a muita gente que chega a dizer que não viu faixa com o meu nome, nem tão pouco boletins, fazendo propaganda.
Não sou avêsso a esta espécie de propaganda, mas confesso que papel pregado em postes ou em muros pode lembrar que determinada pessoa é candidata a este ou aquêle cargo, mas não penetra no coração de ninguém. Não se impõe um nome ao conceito de amigos através de farta e variada propaganda. O que adianta apregoar um disco como a última maravilha da arte musical, se ao ser executada não passa de um arranjo comum, numa orquestra de músicos esparsos e sem conjunto!
E na orquestra da vida não sou música clássica, não quero ser opereta nem tão pouco batucada. Prefiro levar a coisa ao ritmo de valsa lenta, mas bem orquestrada, de vez em quando passando para o compasso de samba, num misto de ternura e alegria. E assim vou solfejando, preferindo tocar minhas músicas ao pé do ouvido, numa sinfonia que não aborrece e nem chateia. E a minha charanga é o realejo da verdade. Música simples, mas executada com uma batuta experiente, pois os meus conterrâneos são acordes em reconhecer que não exagero ao tanger as cordas sensíveis da harpa do meu coração. Quando êle fala, a música executada é uma sonata de sinceridade.
Não se preocupem com propaganda. A orquestra de minha confiança jamais emudecerá. Pode não ir ao ar em tons berrantes e incomodativos, mas ela se fará ouvir, por todo os modos penetrando no lar de cada um, como uma mensagem de paz, até mesmo nos domínios adversários, onde tenho bons amigos, sabendo que sou incapaz de azucrinar os ouvidos alheios com músicas falsas ou barulhentas, preferindo, por isto, a harmonia suave e terna de uma orquestra suave e terna de uma orquestra modesta, mas que prima em executar acordes que enternecem pela poesia da verdade, pelas notas da sinceridade.
Não preciso fazer alarde da música que embalo no coração. Ela já é por demais conhecida, pois é sentida em todos os meus gestos simples e atos de afeição. Quando procuro burilar silhuêtas das beldades viçosenses, é uma balada de ternura para o coração da mulher, na sublimidade angelical de um amor de mãe, na dedicação de uma extremosa espôsa, no carinho de uma filha, na abnegação de uma religiosa, no estoicismo de uma enfermeira. Até mesmo quando busco imagens do passado, nas crônicas sôbre a velha Viçosa, é a música da saudade que sai, do coração em notas sentidas para enternecer os que se sentem felizes com a recordação de uma era que ficou para trás, na encruzilhada da vida.
E quem se apresenta com uma orquestra tão harmoniosa, não precisa recear apupos, pois tem certeza de que os amantes da boa música saberão bater palmas, estimulando os artistas que se apresentam, no concêrto da vida, executando apenas harmonias.
Se fôr preciso executar músicas marciais insuflando, animando o ambiente, saberei também tocá-las. Mas prefiro a melodia que embala o coração, pois não se pode executar músicas espalhafatosas, quando o povo, faminto está sofrendo, na sua própria carne, os efeitos danosos desta malsinada política de preços, capaz de provocar uma loucura coletiva, tirando a paz de espírito de que tanto necessitamos, a fim de que possamos, sob as bênçãos de Deus, vencer e levar nossa cruz e sofrimento, até ao calvário da velhice.
Continuarei, meus amigos, na minha elevada linha de conduta, executando músicas sonoras, dolentes, que não aborrecerão a ninguém, certo de que as palmas virão, na boca da urna, com os votinhos de meus conterrâneos. Depois, então, entoarei um hino de vitória, com a música do trabalho, continuando a executar peças que serão do agrado geral”.



João Francisco da Silva (1955-1958)



Nascido a 22 de junho de 1896, a exemplo dos dois primeiros prefeitos pós o Estado Novo, aquele que empresta seu nome ao estádio de futebol do Silvestre Futebol Clube, no distrito de Silvestre, era membro do Partido Republicano (PR). Descendia, pelo lado materno, de uma das mais tradicionais famílias do município: Jacob. Foram seus pais Henrique Silva e de Olímpia Lopes Jacob. Comerciante, João Francisco era casado com Dona Raimunda Tereza de Jesus e teve uma filha: Maria Aparecida da Silva Gomes. Foi vereador e secretário da Prefeitura, tendo sido também músico e dirigente desportivo. Em 1939 foi eleito vice-presidente do Viçosa Atlético Clube (VAC), na chapa de Carlos Barbosa, na ocasião em que era construído o campo do clube, no atual bairro Betânia, extinto em 2008 após sete décadas sediando memoráveis certames futebolísticos.
Vencendo as eleições de 1954 com 2457 votos, disputou o pleito com o emérito educador Prof. Alberto Álvaro Pacheco, do PSD, que obteve 1.093 sufrágios. Foram registrado 1.892 votos em branco. O vice, Arnaldo Dias de Andrade, obteve 2.375 votos. Dentre as obras legadas à posteridade pela administração de João Francisco o prolongamento da rua Gomes Barbosa e da avenida Bernardes Filho. Em seu mandato como chefe do Executivo municipal foi assinado convênio com a Escola Superior de Agricultura e Veterinária (ESAV) para reflorestamento e arborização do município. Autorizou-se também uma subscrição de ações da Cooperativa Agropecuária de Minas Gerais e promoveu-se a liquidação de débitos com a Companhia Viçosense de Força e Luz (CVFL). Resolução substancialmente importante foi a que deu ênfase ao sistema de arrecadação, contemplando todas as áreas de atividades empresariais. Moderno Código de Obras (Lei nº 283/1956), com 24 capítulos, e o Código Tributário (Lei nº 284/56) foram por ele sancionados.
Enquanto administrador público, João Francisco também se preocupou com a ampliação de barracas do Mercado Municipal, tomando iniciativas nesse sentido, com previsão orçamentária para este fim, o que, de fato, aconteceu. A inscrição dos servidores e operários municipais no Instituto de Previdência dos Servidores do Estado (Lei nº 3410), garantindo-lhes contribuir com a Taxa de Assistência (Lei Estadual 1587 de 15-1-1957), conStituindo assim o meio pelo qual o Ipsemg prestaria assistência médica, hospitalar e dentária ao seu contribuinte obrigatório, marcou a sua administração. Semeou escolas típicas em localidades rurais como o Paraíso, e incentivou a instalação de uma lavanderia moderna na cidade, posto de saúde e casas populares, a perfuração de poço artesiano no bairro de Lourdes para ampliação da área necessária à captação de água potável, tendo autorizado a abertura de edital de concorrência para a concessão de exploração de serviços telefônicos urbanos e inter-distritais, sendo que a empresa concessionária, conforme a Lei nº 312/1957, se obrigava a instalar uma rede do sistema automático, com capacidade inicial de, um mínimo, de trezentas linhas e possibilidade de aumento para até 600 assinantes.
Em seu governo foi aprovado o Plano Rodoviário Municipal, tendo sido também construídas várias estradas e pontes. Importante iniciativa de João Francisco foi doação, ao Estado, do terreno de 12.000 metros quadrados para a praça de esportes. no atual bairro de Lourdes. Com foco na modernização do campo, data do governo de João Francisco da Silva a Lei nº 256, de 19 de novembro de 1956, a assinatura de convênio com a Associação de Crédito e Assistência Rural (ACAR), atual Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (EMATER-MG), para a instalação e funcionamento do escritório desta organização em Viçosa. Desde então as realizações da empresa resultaram em ganhos de produtividade com importantes trabalhos desenvolvidos na área de bem-estar social, tais como como orientações para o uso do filtro doméstico e de fossas secas e estímulo para a formação de hortas e pomares domésticos para melhoria da nutrição das famílias rurais, com suas metodologias de gerenciamento, criatividade, inovação, busca por resultados e gestão participativa, contribuíndo para garantir que Viçosa se torne, cada vez mais, melhor para se viver. Em tais realizações foi fundamental ao administrador o apoio da Câmara, então presidida pelo Prof. Arlindo de Paula Gonçalves, benemérito ecologista, com relevantes serviços ao país. Filho de Joaquim de Paula Gonçalves e de Dona Ana Maria da Conceição, nascido em Pains (MG) a 25 de novembro de 1910, e que fez os estudos primário e ginasial em Formiga (MG), no Ginásio Antônio Vieira. Bacharel em Ciências e Letras em 1934, na Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa formou-se agrônomo em 1938, trabalhando no Departamento de Agronomia e chefiando o de Silvicultura. Delegado florestal no município de Viçosa, professor catedrático e doutor em Silvicultura Geral e Especial, diretor da Escola Superior de Florestas (ESF), foi o Prof. Arlindo o primeiro mineiro a receber a Medalha e Diploma do Mérito Florestal, conferida pelo Governo do Estado de Minas Gerais. Cidadão Honorário de Viçosa Ddesde 1963, foi, em 1970, eleito vice-prefeito de Viçosa e coordenou os festejos do 1º Centenário da Lei que elevou Viçosa à categoria de Vila, em 1971. Autor da Bandeira do município, assistente técnico agronômico do Sindicato Rural de Viçosa, foi ainda um dos colaborares na instalação do Colégio Estadual de Viçosa.
João Francisco determinou a construção do grupo escolar do distrito e Cachoeira de Santa Cruz, tendo sido concluídas, em sua gestão, as obras da antiga Praça da Bandeira, atual Dr. Mário Del Giudice, e a construção do primitivo terminal rodoviário e seu respectivo regulamento, tendo ele autorizado a permuta para a construção de um matadouro. A lei dispondo sobre a abertura de logradouros públicos e loteamento de terrenos (nº 280/1956) é originária do governo João Francisco, e previa que os interessados deveriam realizar às suas custas, sem quaisquer ônus para a Prefeitura, todas as obras de terraplanagem, pontes, pontilhões, bueiros, galerias, muralhas, pavimentação, meios-fios e redes de água e esgotos, que se tornarem necessárias à completa execução dos projetos aprovados. “A pavimentação dos novos logradouros será feita em asfalto ou concreto sobre base de concreto, ou sobre base de macadame aglutinado e comprimido em concreto hidráulico simples ou armado, em paralelepípedos de granitos com rejuntamento de betume e sobre colchão de areia e base de concreto ou de macadame comprimido; em macadame betuminoso com sarjetas de paralelepípedos de granito rejuntando a betume, sobre colchão de areia a base de macadame comprimido ou concreto; em macadame betuminoso com sarjetas de concreto ou em outro tipo de calçamento aperfeiçoado, aceito e especificado pela secção competente da Prefeitura,” diz determinado trecho da referida legislação.
Antes de completar-se uma década do fim de seu governo, João Francisco faleceu a 15 de janeiro de 1967, tendo recebido significativas homenagens póstumas de correligionários, amigos e centenas de conterrâneos.



Raymundo Alves Torres (1946/1947/1959-1962)



O dia 18 de julho de 1900 assinalou o nascimento, em Viçosa, de um dos filhos de Boaventura José Alves Torres (Quinca Barão), antigo delegado de Polícia e agente dos Correios em Viçosa, e de Dona Rita da Silva Torres. Órfão de pai aos 2 anos e de mãe aos 7, foi criado pela irmã, Dona Emiliana Torres, tendo trabalhado, ainda menino, vendendo doces e quitutes, ingressos no cinema e na Praça do Rosário, esquina com a rua Senador Vaz de Mello, na loja de tecidos, armarinhos, secos e molhados do capitão Joventino Octavio de Alencar. As primeiras letras, aprendeu-as do mestre José Macário Soares (Juca Soares), da Escola Pública Isolada do Sexo Masculino, em Viçosa, tendo estudado no Gymnasio de Viçosa, à época do Prof. Arnaldo Carneiro Viana.
Casado com a capixaba Dona Nair Fonseca Torres, com ela teve os filhos Maria Nair, Oneida, Rita Noeme, Carlos Raymundo e José Mauro. Formado em 1927, na capital mineira, pela Universidade de Minas Gerais¸ período em que trabalhou na Secretaria de Estado de Viação e Obras Públicas, sendo colega de turma do ex-presidente Dr. Juscelino Kubitschek de Oliveira, Dr. Raymundo exerceu a Medicina em Coimbra, por dois anos, e em Viçosa na Escola Agrícola Arthur Bernardes, do Ministério da Justiça, e no Hospital São Sebastião, ao qual dedicou toda a sua vida profissional, por mais de quatro décadas. Membro do corpo clínico do extinto Hospital Regional Federal da Matta, foi médico também da antiga Escola Superior de Agricultura e Veterinária (ESAV). Como ressaltou ALVES (nº?) “O Doutor foi a lembrança mais solicitada porquanto seu trabalho, sua arte eram partes integrantes, formadoras indissolúveis do seu caráter nobre, do seu coração samaritano. Solicitado em qualquer lugar, na rua, num hospital, em casa, aboletado num caminhão a caminho do seu serviço, era o Doutor pronto a atender. [...] Saía da pasta de amostras o remedinho para tomar quando precisar, ou uma receitinha mesmo sobre a pasta de trabalho, escrita às pressas [...] O tempo passava, a vida era rotineira, repetitiva, e as coisas tinham uma bênção divina que ajudava em tudo, porquanto acima de tudo estava o juramento Hipocrático a cumprir e, mais que o juramento, a vocação, dom com o qual nascera e fora incentivado pelos Torres todos: - temos de ter um médico, ao menos um, na família! E que médico abençoado! Daí ele comprometer-se com sua consciência, com seu bolso vazio, que faria de seus rebentos, médicos como ele”. Gazeta da Viçosa de 25 de junho de 1939 destacou sua atuação como provedor, afirmando que seu “esforço e dedicação tem valido ao estabelecimento uma situação de prestígio e utilidade não somente à cidade de Viçosa, como às vizinhas. Possuindo uma instalação moderna, dispõe de todos os recursos para satisfazer à sua finalidade, prestando grande serviço à pobreza, principalmente depois de fechado o Hospital Regional, para onde se dirigiam os que, de zonas diferentes, necessitavam de auxílio e caridade”.
Lecionou Ciências Naturais no Colégio de Viçosa, educandário do qual foi também um dos fundadores de sua Sociedade Anônima, na década de 1940. Presidiu a Comissão Central encarregada da terraplanagem e construção do campo de futebol do Viçosa Atlético Clube, depois denominado Estádio Carlos Barbosa, extinto em 2008, no lugar antes denominado Chácara do Chico de Sá Zeca, atual bairro Betânia. Em 1937 já se iniciava o plantio do gramado por empreiteiros, mas só concluído em 1939, com o fundamental apoio da administração do prefeito Dr. João Braz da Costa Val. Instituiu em 1961, enquanto prefeito, a Semana da Municipalidade, pelo Decreto nº 377, dando início à comemoração anual de 30 de setembro. Foi membro da comissão para a construção do Santuário de Santa Rita de Cássia. Ocupou a chefia do Executivo Municipal, pela primeira vez, interinamente, de 1946 a 1947, após o governo do Sr. José Martins Palhano, com a queda do governo de Getúlio Vargas, aliás o último por nomeação, sendo substituído então, num intervalo de cinco meses, no cargo, pelo advogado Carlos Vaz de Mello Megale. Neste período, pelo Decreto-Lei nº 112, assinado a 26 de dezembro de 1947, manifestou a sua preocupação com o problema da falta d’água, autorizando a aquisição de terrenos e mananciais no lugar denominado Represa São Benedito para o aumento do abastecimento. Dr, Raymundo foi eleito diretamente, o último prefeito pelo Partido Republicano (PR), para o mandato 1959-1962, tendo como vice o comerciante Moacyr Dias de Andrade, que o sucederia na chefia da administração municipal. Sucessor imediato de José Martins Palhano em seu primeiro mandato de prefeito de Viçosa e, portanto, um dos homens da transição - o último prefeito nomeado - para as eleições diretas, Dr. Raymundo mereceu uma coluna inteira da Cidade de Viçosa, edição de 4 de janeiro de 1948, página 4, que traz seu, da lavra de José Pinto Coelho (L. Couto & Pinho):
"Deixa hoje o cargo de prefeito dêste município o nosso querido e prestimoso conterraneo Dr. Raimundo Alves Tôrres.
Durante sua breve gestão, o ilustre viçosense pôs a serviço do cargo as qualidades que o distinguem, como a honestidade, a operosidade, a dedicação ao bem comum e, sobretudo, o espírito de bem servir á sua extremecida terra natal. Não é, pois, de admirar que haja realizado uma administração fecunda, podendo-se dizer, sem exagêro, que soube aproveitar ao maximo o periodo realmente curto em que esteve á frente da Prefeitura. E se nada mais fizesse em pról do município, uma coisa lhe ficariam eternamente a dever os viçosenses: o restabelecimento da paz, da alegria, da confiança e da tranquilidade, que os quinze anos de ditadura haviam varrido completamente do espírito do povo.
O dr. Raimundo Torres é um dos expoentes da inteligência, da cultura e da coragem da nossa raça e da nossa terra. A sua sinceridade e o seu desprendimento nos lembram a vida heroica dos guerreiros antigos no tempo em que a guerra era bela e empolgante pela bravura pessoal dos que lutavam. A êle nada faltou, como administrador, para dar-nos esta visão alegórica de herói antigo, pois teve elegância de atitudes, tino administrativo e patriotismo. O governo atendeu á voz do povo que o reclamava á frente dos seus destinos e êle não desmentiu a espectativa. Foi grande a sua coragem na sua serenidade e na sua obstinação em servir a causa pública.
Alma de antes quebrar que torcer, Raimundo Torres nem torce nem quebra. A doçura do seu semblante, dos seus sentimentos, do seu trato envolve um coração intrépido, uma vontade acirrada como a lamina do montante de um capitão de cruzadas.
Animado assim por tão fortes principios, jamais transigira deante da descrença dos preguiçosos, sempre hostís á ação, e não recuou deante da má fé dos invejosos que, incapazes de realizar, as contentam de impedir as construções alheias, para que a agua morta lhes equipare as homens capazes.
A vitoria ama a obstinação e é por isso que, ao deixar a administração do município de Viçosa, a alma do povo vem coroar-lhe a fronte e é ainda por isso que nós estamos aqui para bendizer-lhe o nome honrado e limpo.
Para o dr. Raimundo Torres, cuja personalidade sabe se impôr por onde anda, querer sempre foi poder, porque ele sabe persistir para vencer novas resistencias, conseguir novos colaboradores, conquistar novos amigos. Aos que dirige, quer seja no hospital, no exercício da medicina, quer seja como administrador, sabe prender pela segurança de sua justiça e pela sedução de sua bondade, pela força do seu idealismo realizador e aos outros êle domina pela serenidade, pela resistencia, pelo exemplo e pela coragem.
A premência de espaço não nos permite destacar, no momento, todas as realizações que s.s. levou a efeito, entre as quais não podemos deixar de mencionar, por sua elevada significação social e humana, a que se relaciona com o abastecimento d'água a esta cidade. Essa e outras iniciativas revelaram a preocupação do dr. Raimundo Torres pelos interesses do povo, que os responsaveis pela coisa têm o dever de defender com intransigência."
Indicado por duas vezes à vereança, Dr. Raymundo foi o que mais votos obteve nos pleitos em que disputou as eleições legislativas, nas décadas de 1950 e 1970. Em seu segundo mandato executivo, determinou a demolição do Mercado Municipal, doando o terreno ao Estado, para a construção do Posto de Saúde, na Praça da Bandeira. Adquiriu o imóvel e providenciou a sua doação também ao Estado, para a construção da nova Cadeia Pública, cuja despesa foi então efetuada pela Associação de Amigos do Progresso da Cidade de Viçosa. Também pertencente ao patrimônio municipal, foi legalizada em seu governo a situação do antigo edifício do Hospital Regional Federal da Matta, na rua Afonso Pena, com a doação do terreno ao Estado do terreno onde já funcionava, desde a década de 1940, o 3º Grupo Escolar da cidade. Data também da sua gestão a Lei nº 3471959, dispondo sobre o sistema tributário municipal. Em novembro de 1959 organizou os serviços da Prefeitura, que passou a compreender os seguintes órgãos: Gabinete, Conselho Consultivo e de Planejamento, Serviço Jurídico, Serviço de Administração Geral, Serviço da Fazenda, Serviço de Contabilidade, Serviço de Educação e Assistência e Serviço Público de Viação e Obras, regulamentando ainda as competências do Serviço de Água e Esgotos, o provimento dos cargos do serviço público municipal, na forma do Estatuto dos Funcionários Públicos Civis do Município e a progressão horizontal dos mesmos, dentre outras realizações administrativas, como a reforma de escolas e melhorias no abastecimento de água potável.
Foi já no final do segundo governo do prefeito Dr. Raymundo, em 1962, ano eleitoral, que idealizado por João Sidney Alves Affonso, acadêmico de Direito, e pelos secundaristas Francisco Simonini da Silva e Simão Cirineu Ladeira, com o apoio do comerciante Geraldo Andrade, surgiu o combativo jornal O Alfinête, que circulou de 1º de janeiro a 16 de setembro, em nove edições. “Poucos foram os números, mas abriram os olhos da população para coisas que lhe passavam naquele ínterim despercebidas ou que jamais iriam perceber”, como ressaltou seu diretor Simão Cirineu Ladeira. Eis alguns assuntos tratados: denúncia de concessão, pelo Estado, de subvenções a entidades inexistentes da cidade; necessidade de abertura da praça de esportes, cujas obras estavam de há muito paralisadas; qualificação de péssimos para os serviços da Companhia Viçosense de Força e Luz, com 227 postes apagados, mas com a qual a Prefeitura estava inadimplente fazia nove meses; acompanhamento de duas convenções da UDN, das quais surgiram dois grupos que se diziam os comandantes do diretório, com direito a baixarias como a falsificação de um pedido de renúncia dos dirigentes capitaneados pelo Padre Mendes; a revelação de que uma farmácia vendia amostras grátis; a sabotagem do fornecimento de energia elétrica a Viçosa por pessoas de Teixeiras; constatação de que a falta de água em Viçosa se devia a ausência de empenho da administração para aproveitar 3 milhões de cruzeiros liberados, ainda em 1957, pelo governo de JK; as péssimas condições do matadouro, a falta de higiene no abate e como se fazia o transporte das carnes: com o aproveitamento da mesma carroça que recolhia lixo; a assunção do cargo de Juiz de Direito pelo Dr. José Norberto Vaz de Mello, para pôr fim à "fábrica" de vitórias eleitorais, até então instalada na comarca; a situação da cadeia em funcionamento: piso de terra, paredes sem reboques, sem água (aproveitava-se as do São Bartolomeu...), iluminada com lamparinas a querosene, em parte sem teto e, por isso, infestada de pernilongos, proliferados pelo ribeirão de fundos; as graves irregularidades na Companhia Telefônica de Viçosa consistentes no superfaturamento das tarifas de interurbano e nelas a razão para que se tivesse impedido a posse de Nasser Simão Muanis, eleito para o cargo de Diretor-Tesoureiro da empresa; o fato de termos sido processados pela Telefônica, em razão da denúncia, e considerando a ação ajuizada o "primeiro troféu de um jornal de combate"; a exigüidade do cemitério que estava ocasionando ali algo macabro: momentos depois de um sepultamento o cadáver era recambiado para uma "sepultura geral", com capacidade de cinco a seis corpos adultos; a realização do curso de admissão do Raul de Leoni, com o qual Padre Mendes disseminava mais uma escola; a falta de calçamento da Gomes Barbosa, da Capitão José Maria e da P. H. Rolfs e de parte da Santa Rita e da Praça da Bandeira; a localização do mercado e a do posto de saúde, instalados em locais inversos ao bom senso (...) Quanto ao matadouro, dizia-se que abater animal ali era fácil: eles chegavam em estado tão mal, que bastava se tirar o couro...”, como ressaltou o jornalista Simão Cirineu Ladeira.
Falecido a 21 de agosto de 1981, o Prof. Sebastião Lopes de Carvalho, poeta viçosense nascido a 30 de março de 1925, filho de José Lopes Dias de Carvalho e de Dona Amélia Ferreira de Carvalho, foi o presidente da Câmara durante o segundo governo do prefeito Raymundo Alves Torres. Casado com Dona Maria da Glória Pereira de Carvalho, teve os filhos Ângela Maria, Paulo Márcio e Marcelo Eugênio, Lúcia Maria e Heloísa Maria. Ex- aluno do Seminário Menor de Mariana, professor de Português, Latim, Moral e Cívica, Religião, História e Filosofia no extinto Colégio de Viçosa, professor do Departamento de Letras e Artes da Universidade Federal de Viçosa, o Prof. Lopes presidiu ainda a Comissão Técnica de Comunicação e Expressão para Vestibulares, tendo sido membro da Comissão Permanente de Vestibular e assessor da Reitoria da instituição. POTSCH MAGALHÃES (nº?), em sua coluna no jornal A Cidade, que começou a circular em Viçosa em 1961, regozijou-se com a pavimentação da Av. P. H. Rolfs em 1962, ocorrida na última gestão do Dr. Raymundo como prefeito. O colunista lembrou que, até então, na sua definição, a via era “desgraçadamente poeirenta ou lamacenta”, e que se constituía num “desafio a todas as administrações municipais”, e que “parecia impossível para muitos e irrealizável num fim de administração municipal para outros”, referindo-se às festas de inauguração, também, da iluminação com luz fluorescente da referida artéria central. “O acendedor das lâmpadas foi um espetáculo quase emocionante. Houve, realmente, quem se emocionasse. A Avenida se apresenta feericamente iluminada, sem paralelo no interior das Minas Gerais. Fruto da esclarecida e generosa colaboração de um grupo de norte americanos e brasileiros de boa vontade”, e que “nada custou aos cofres da Prefeitura.
Grande massa popular cercou as autoridades presentes ao ato. Discursaram vários oradores: prefeito Raymundo Alves Torres, deputado Carlos Vaz de Melo Megale, professor José de Alencar, Arlindo de Paula Gonçalves e José Rodrigues de Sousa, o acadêmico Ruy Caldas, presidente do Diretório Acadêmico Arthur Bernardes e o jovem Antônio Araújo Filho.
Foguetes espocaram no ar, abundantemente, como de costume em ocasiões semelhantes.
A população encheu a Avenida e desfilou em todas as direções, apreciando a acalentada inauguração.
Os aplausos foram unânimes. E não poderiam deixar de ser. Realizou-se, em tempo recorde, uma obra que desafiou pelo menos 35 anos de administração. E nem se considerem questões ou acidentes de somenos.
Todos estamos desfrutando do grande benefício público.
A nossa Universidade Rural, tão reconhecida e afamada, tem agora uma via de acesso digna de sua grandeza e de sua importância”. POTSCH MAGALHÃES acrescentou valer sim “que nos lembremos dos que, menos afortunados, sofreram os percalços da Avenida que não se revestia dos elementos que agora a tornaram elegante e prezada.
Tudo isto é a vida em sua continuidade. O progresso, o desenvolvimento vai se estendendo o seu manto de conforto, deixando atrás apenas os sentimentos de lembranças e saudades.”
Estimado em vida por sua lealdade e simplicidade, Dr. Raymundo Alves Torres faleceu a 4 de maio de 1974, em Belo Horizonte, sendo sepultado em Viçosa, com profunda consternação da comunidade viçosense.



Moacyr Dias de Andrade (1963-1966)



"Cercado de admiração e de respeito gerais, termina seu mandato administrativo o prefeito Moacir Dias de Andrade.
Administrador fecundo, suas obras marcaram os quatro anos, indelévelmente, em tôda a cidade e na área do município.
Homem equilibrado e sereno, seu govêrno decorreu em paz imperturbada. Atritos e desavenças que costumam agitar os municípios pequenos, como os grandes, não houve em Viçosa. A justiça serena de suas medidas impressionou, favoràvelmente, à população.
Viçosa sentou-se feliz, principalmente, porque o prefeito, em sua honestidade de princípios, inaugurou um nôvo ritmo de trabalho, desconhecido, até então, em Viçosa.
O exemplo de operosidade de Moacir de tal modo foi convincente que estamos certos de que as administrações futura não poderão deixar de segui-lo. E com isso a cidade ganhará.
Felizes os administradores que, correspondendo à confiança do povo, saem de seus postos assim estimados e respeitados.

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Moacir, esta cidade terá sempre seu nome entre os daqueles que mais fizeram por ela.
Na galeria dos cidadãos viçosenses, V. Sa. ocupará um lugar de destaque incontestável.
E, no coração do povo bom e esclarecido de Viçosa, ficará, indelével, a imagem amável de um prefeito que tanto fêx obras quanto amigos" - "A GRATIDÃO DO POVO" - Editorial da Folha de Viçosa de 29 de janeiro de 1967.

Nascido no distrito de Cajuri a 27 de outubro de 1911 e falecido a 13 de maio de 1991, Moacyr Dias de Andrade era comerciante e cursou a Academia de Comércio de Juiz de Fora. Era filho de Dona Maria Lopes de Faria (Maria Doninha Andrade) e do capitão Arnaldo Dias de Andrade, tradicional político viçosense que fora vice-prefeito de Viçosa na década de 1959 quando o titular do cargo era João Francisco da Silva, e o vereador que por mais vezes exerceu o mandato, além de chefiar o Executivo local no ano de 1936. Moacyr era casado com Stella Maffia Andrade, também de tradicional família local, com quem teve 11 filhos.
Era vice-prefeito quando se elegeu primeiro prefeito da oposição ao Partido Republicano (PR), no qual iniciara sua carreira política em Viçosa. As eleições de 7 de outubro de 1962 deram-lhe 3.253 votos de um total de 6.424 sufrágios, quando ele concorreu com o ex-prefeito José da Costa Vaz de Melo (Parrique), quebrando uma hegemonia da velha legenda que representava o grupo político até então dominante e representante do "Bernardismo". Ele contou, na campanha eleitoral, com o apoio maciço de lideranças estudantis, sendo candidato pela coligação Partido Social Democrático/Partido Trabalhista Brasileiro (PSD/PTB), com apoio informal da União Democrática Nacional (UDN). Exercia então, em Viçosa, o cargo de Juiz Eleitoral, o Dr. José Norberto Vaz de Mello, itajubaense nascido a 30 de agosto de 1926, ex- Juiz de Direito da Comarca de Itamogy (MG), vindo de Monte Santo de Minas, que aqui permaneceu de 1962 a 1965. Fez rica carreira profissional, atuando como Juiz da 1ª Vara de Assistência Judiciária e de Acidentes do Trabalho, na capital mineira, Juiz-Membro do Tribunal Regional Eleitoral, do Tribunal de Alçada, tendo presidido o Tribunal de Justiça do Estado, e atuado ainda como Juiz da 2ª Vara da Fazenda Pública e Autarquias, chegando, em 1994, a governador interino do Estado de Minas Gerais.
Um dos maiores cabos eleitorais de Moacyr Andrade e assessor em todo o seu governo foi, incontestavelmente, o Cônego Antônio Mendes, um dos líderes religiosos e políticos de maior prestígio na época e disseminador de educandários em toda a Minas Gerais. Outro participante ativo da campanha de Moacyr, o jornalista Simão Cirineu Ladeira, em entrevista a este blogger, referindo-se ao governo do primeiro prefeito da oposição ao PR: “Lembro-me que se gravou na minha memória a imagem de uma cidade que se tornou bem mais limpa”. De como ele conquistou a Prefeitura, o jornalista analisou da seguinte forma o fato histórico da "virada" da política local em 1962, atribuindo-lhe os seguintes fatores: o “apoio decisivo” do irmão de Moacyr, Antônio Dias de Andrade Netto, “líder político inconteste do então distrito de Cajuri, que lhe ‘transferiu’ dali a quase totalidade dos votos; a estratégica candidatura à vereança do universitário Paulo Fernando de Souza, líder na então UREMG, que motivou os estudantes a permanecerem na cidade e a votarem nele e no Moacyr (até então eles aproveitavam a data para retornarem às suas cidades, onde justificavam a ausência às cabines eleitorais); a também valiosa candidatura à vereança de José Valentino da Cruz (Candinho), operário líder de seus companheiros na UREMG, cujos votos carreou para si e para o candidato a Prefeito; ao desatrelamento dos votos da juventude viçosense dos votos tradicionais de seu pais perristas, produto principalmente de inábil condução junto à administração municipal, por parte de apoiadores da candidatura situacionista, de pleitos do então florescente "Clube dos Nativos"; à assunção do cargo de Juiz de Direito por José Norberto Vaz de Melo que eliminou da justiça eleitoral viciosas práticas de favorecimento ao PR; ao fato de a administração estadual estar em mãos de Magalhães Pinto, à qual só no início de 1963 o PR viria a aderir, em razão do que a ação de ocupantes de cargos, como o de delegado de polícia, deixou de ser usada a seu favor; à novel legislação que permitiu à oposição o acesso gratuito a horário reservado pelo TRE junto à Radio Montanhesa, de propriedade de perristas tradicionais e, modéstia a parte, o papel desempenhado pelo jornal "O Alfinête" na denúncia de falhas da administração Raymundo Torres e anteriores e na divulgação dos propósitos da candidatura oposicionista.”
Um dos fundadores do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), vereador em duas Legislaturas, Dr. Altamiro da Conceição Saraiva presidiu a Câmara durante o governo de Moacyr. Era natural de São Pedro dos Ferros (MG), nascido a 6 de janeiro de1916, filho do riodocense Benevenuto Saraiva e de Dona Maria dos Santos Saraiva. Teve 12 irmãos: Maria José, José, Joaquim, Anna, Edith, Judith, Paulo, Pedro, Sílvio, José, Aurita e Antônio. Com a esposa Zenith Saraiva teve os filhos Vera Sônia, Luiz Sérgio, Paulo Sérgio e Altamiro Filho e a filha adotiva Suely. Dr. Altamiro cursou o primário no Grupo Escolar Coronel Antônio da Silva Bernardes, e no Rio de Janeiro o ginasial e o científico, no Instituto Lafayete. Em 1945, formou-se pela Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, tendo trabalhado no Ministério da Saúde, como chefe da criação de postos de saúde em Sergipe e Alagoas. Em 1963 instalou consultório em Viçosa, onde serviu à comunidade no Instituto Nacional de Previdência Social e na Fundação Nacional do Bem Estar do Menor (FUNABEM), estabelecimento profundamente ligado à sua família, dirigido por sua irmã Anna da Conceição Saraiva Brandi (Dona Nanete) por cinco lustros, e depois por sua filha Vera Sônia Saraiva, primeira mulher a presidir a Câmara Municipal, em 2004. Trabalhou também nos hospitais São Sebastião e São João Batista, de Viçosa.
A iniciativa da implantação do Serviço Autõnomo de Água e Esgoto (SAAE), o surgimento do Bairro de Ramos foi possível a partir da aprovação da Câmara, durante a gestão do prefeito Moacyr Andrade, bem como o início da urbanização da região conhecida como Cantinho do Céu, atual bairro Santo Antônio, a construção do Abatedouro Municipal, providências niciais para a implantação da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), o saneamento básico dos distritos de Silvestre e de Cachoeira de Santa Cruz, a abertura de dezenas de novas vias públicas, reformulação do jardim da praça Silviano Brandão, o calçamento da rua da Conceição e dos Operários e da Av. Bernardes Filho, além da conclusão das obras da Cadeia Pública, iniciada por seu antecessor imediato, Dr. Raymundo Alves Torres, foram algumas das obras de maior relevo em sua administração.
A tradição dos Andrade na política não se encerrou em Moacyr. Seu filho, o tabelião do Registro de Imóveis e farmacêutico Lacyr Dias de Andrade, foi um dos que seguiram-lhe os passos, exercendo igualmente a vereança, chegando a deputado estadual constituinte, na década de 1980, a exemplo de seus netos Roberto Dias de Andrade e Arnaldo Dias de Andrade, também vereadores, tendo este presidido a Câmara Municipal de Viçosa por ocasião da elaboração da 1ª Lei Orgânica Municipal, na década de 1990.



Geraldo Lopes de Faria (1967-1969)



Filho do casal Joaquim Lopes de Faria (Joaquim Celeiro) e Dona Geraldina Machado Faria (Dona Mulata), de tradicional família viçosense, Geraldo Lopes de Faria foi eleito prefeito municipal para o quadriênio 1967-1970. Fundador, em 1955, da Companhia Telefônica de Viçosa, tendo dirigido-a por seis anos, fundou e dirigiu também o jornal A Cidade. Escrivão e tabelião titular do Cartório do 2º Ofício de Notas da Comarca de Viçosa, Geraldo Faria, casado com Liana Nascif de Faria, teve três filhos: Guilherme, Maurício e Henrique. Em sua gestão foram realizadas obras marcantes para o desenvolvimento municipal, como a Estação de Tratamento e Distribuição de Água, a criação e instalação do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), e a vinda da Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG). Assinalou seu mandato uma realização ímpar: a aquisição de um prédio próprio para a Prefeitura. Em conformidade com o Decreto-lei 201, de 27 de fevereiro de 1967, Geraldo Faria adquiriu, por 100 mil cruzeiros, o prédio do Viçosa Clube, na Praça do Rosário, onde passou a funcionar a Prefeitura Municipal, com a devida autorização da Câmara. Foi em período administrativo que se realizaram uma das muitas reformulações da avenida Santa Rita, com alargamento das ruas, calçamento e reconstruções dos jardins, além da modernização da Praça do Rosário com novo calçamento de bloquetes e construção do jardim e de muro de arrimo ao longo da avenida Bueno Brandão (suporte do balaústre), a abertura da estrada Viçosa-Monte Celeste e do campo de aviação ao bairro Nova Era, no atual bairro Santo Antônio. Foi em seu governo que se construiu o monumento ao presidente Arthur Bernardes, na praça Silviano Brandão e se instalaram a feira-livre, a Biblioteca e Pinacoteca municipais no 3º pavimento do edifício da prefeitura. Calçaram-se também em sua administração, de bloquetes, as ruas Arthur Bernardes (atual calçadão), a praça Silviano Brandão, a praça Dr. Christovam Lopes de Carvalho, a Praça da Estação, a Vila Dr. Horta e parte da P. H. Rolfs. Faria também determinou a abertura dos bairros Santo Antônio, Fátima, Ramos e Clélia Bernardes.
Período do regime militar, a repressão tinha máxima importância, e a administração municipal de Viçosa sofreu uma intervenção federal, sob o comando de um militar de alta patente cujo progenitor teria sido desafeto do ex-presidente Arthur Bernardes, de quem o prefeito fora correligionário. Foram várias as denúncias por parte de adversários políticos do prefeito, inclusive relacionadas a dispensa de licitações por parte do chefe do Executivo, nunca assaz comprovadas, mas que geraram inquérito policial e ação do Ministério Público contra o administrador público, sendo ele afastado sumariamente de suas funções, sem que houvesse cassação pela Câmara ou decisão judicial desfavorável à sua administração, mas por força de uma intervenção federal. Houve, inclusive, uma manobra de treinamento militar em Viçosa, comandada pelo General Itiberê Gouvêa do Amaral, comandante da 4ª Região Militar, na verdade um acampamento, no campo de aviação, que durou alguns dias. Foi nomeado interventor Dr. Abel Jacinto Ganem Júnior, que veio de Belo Horizonte, e assessorado por Mário Calvão da Silveira, de São Lourenço (MG), até as eleições de 1970, quando se elegeu prefeito o médico Carlos Raymundo Torres.
Um cidadão cuja memória não será esquecida por sua caridade cristã no exercício de sua nobre profissão, a qual dedicou inteiramente e com o máximo desvelo ao povo de Viçosa e das cidades que hoje constituem a sua microrregião, o Dr. Sebastião Ferreira da Silva, ilustre médico viçosense formado pela Universidade do Rio de Janeiro, era o presidente da Câmara Municipal no governo de Geraldo Faria. Ligado, também, ao antigo Partido Republicano (PR), e por profundos laços de amizade ao ex-presidente Arthur Bernardes, após uma tentativa frustrada de manter diálogos com o referido militar no local das manobras, em companhia de colegas de vereação, resolveu pedir licenciamento do cargo, por tempo indeterminado, não mais retornando ao exercício do cargo, sendo então substituído pelo vereador Dr. José Antônio Rodrigues Dias na presidência do Legislativo. Conforme ressaltou ele a este blogger, “no período da ditadura, os Projetos de Leis que implicavam mudanças significativas já vinham prontas e a obrigação da Casa era votar ou ser também cassada. Ficavam por nossa conta outros projetos mais restritos a pequenos problemas locais. Mesmo assim, procuramos fazer uma política de boa convivência e relações com o interventor Dr. Abel Jacinto Ganem Júnior, vindo de Belo Horizonte, e seu principal assessor, Mário Calvão da Silveira, o qual, posteriormente, foi também pró-reitor da UFV. Essa atitude nos possibilitou conduzir em paz e equilíbrio o processo de intervenção”, por ele considerada desnecessária, e “que se findou nas eleições seguintes.” Nascido a 4 de junho de 1941, casado com Catarina Pimentel Dias, formado em Farmácia pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 1962, escritor, jornalista, professor, ligado ao Movimento Nacional de Defesa dos Direitos Humanos, participante ativo da Constituinte de 1988, o ex-vereador Dr. José Antônio procurou lutar contra a exploração e a miséria. Teólogo pelo Messianic Jewish Bible Institute, filiado à Associação Brasileira de Descendentes de Judeus da Inquisição, parapsicólogo pelo Centro Latino Americano de Parapsicologia (SP), é também membro da Congregação Har Tzion, em Belo Horizonte.



Carlos Raymundo Torres (1971-1972)



Dr. Carlos Raymundo, médico, era filho dileto dos saudosos Dr. Raymundo Alves Torres e de Dona Nair Fonseca Torres. Nascido em Viçosa a 14 de junho de 1931 e falecido em Viçosa a 23 de setembro de 2007, o inolvidável médico obstetra e clínico geral Carlos Raymundo Torres foi a personificação, no meu modo de ver e pensar, da máxima segundo a qual "só pelo amor vale a vida."
Foi quase meio século de uma fecunda existência devotada à Medicina e milhares de dias de muito carinho e respeito ao povo da comunidade viçosense e regional. Em entrevista órgão da imprensa viçosense, indagado sobre o perfil dos novos médicos, respondeu ele: "Todos que estão chegando que conheço são pessoas competentes. Pelas conversas que tenho com eles vejo que tiveram ótima formação. O que está faltando para os novos médicos é ter mais carinho com os pobres. Não é demagogia, pois nem político eu sou mais hoje. É preciso lembrar que foi com os pobres, internado nas enfermarias, e com os cadáveres dos pobres que nós médicos aprendemos. Repito! Mais respeito com o povo". Formado em 1961 pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Dr. Carlos Raymundo cursou o ensino fundamental em sua terra natal, no tradicionalíssimo Grupo Escolar Coronel Antônio da Silva Bernardes, da rede pública. O secundário iniciou-o no Colégio de Viçosa, concluindo-o em Belo Horizonte. Na Faculdade de Ciências Médicas do Rio de Janeiro especializou-se em Clínica Geral, Cirurgia e Obstetrícia. Aluno interno do Serviço de Obstetrícia do Instituto Fernando Magalhães e de Cirurgia na 13ª Enfermaria, após concursado, trabalhou nos hospitais Souza Aguiar e Getúlio Vargas.
Em Viçosa deu continuidade, no Hospital São Sebastião - ao qual dedicou todos os seus esforços humanos, seu patrimônio e sua vida inteira - aos extraordinários serviços de seu pai, Dr. Raymundo, também benemérito médico viçosense.
Chefe do Serviço de Cirurgia, provedor, por dois mandatos, da Associação Casa de Caridade de Viçosa, trabalhou também no Centro de Saúde de Viçosa, servindo ainda em sua arte hipocrática às cidades de Porto Firme (onde iniciou sua brilhante carreira médica - 1962-1963), Guaraciaba (1964-1965), além de São Miguel do Anta, Coimbra e Ervália.
Nesta última cidade o bloco cirúrgico leva o seu impoluto nome, sobretudo porque ali atendeu a indigência, enquanto foi possível, com todo o desvelo. Militante da Arena, PDS, PFL e por último do PSDB, vice-prefeito de Viçosa entre 1967 e 1970, foi prefeito no biênio 1971-1972, tendo como vice-prefeito o professor Arlindo de Paula Gonçalves, engenheiro-florestal, professor universitário, líder rural e sindical, autor da Bandeira de Viçosa. Suas prioridades como administrador público sempre foram a saúde, a educação e a agricultura. Eis aqui uma sua reflexão sobre esses temas: "De barriga vazia ninguém trabalha. Se o governo não der apoio à agricultura, como se quer uma boa saúde sem ter uma boa nutrição? Não existe desenvolvimento, não existe crescimento. Não existe geração de emprego se não tivermos educação e saúde de qualidade".
Dentre as vultosas obras de seu biênio administrativo, destacam-se a conclusão das obras do serviço de água potável do Serviço Autônomo de Água e Esgoto Saae), iniciado na administração de seu pai Raymundo Alves Torres, e que prosseguiu nos mandatos de Moacyr Dias de Andrade e de seu antecessor imediato Geraldo Lopes de Faria. Em seu governo comemorou-se com toda a beleza e dignidade o centenário da Lei que elevou Viçosa à categoria de Vila (30 de setembro de 1971). Construiu e manteve no melhor padrão muitas das atuais escolas rurais, construiu a sede própria do Colégio Estadual de Viçosa, antiga emcampação do Colégio de Viçosa, e que hoje leva o nome de seu saudoso pai. Iluminou o bairro Santo Antônio (Cantinho do Céu), dotou de excelente calçamentos, importantes vias centrais como a avenida Antônio Gomes Barbosa e incentivou a primeira Semana Santa ao Vivo. Data de seu governo o convênio com o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) para a chegada do asfalto da rodovia BR-120 (Viçosa-Ponte Nova), inaugurada na administração de seu sucessor imediato, Antônio Chequer, como pode ser visto na sessão iconográfica deste trabalho. Dr. Carlos também instituiu a Biblioteca e a Pinacoteca públicas, pela Lei nº 639/72, os dois grandes marcos culturais de sua administração.
Diz-se que o real valor das homenagens não consiste em recebê-las, mas em merecê-las. Foi justamente homenageado como cidadão honorário de diversas cidades da região e a Medalha da Inconfidência Mineira. Por último, em 2007, a Câmara Municipal de Viçosa lhe concederia o título de Cidadão Benemérito. Tal reconhecimento, tardio, não chegou às suas mãos. Mediador de muitas vindas ao mundo, ele definiu certa feita como sendo uma sensação de "orgulho" a que possuía por ter passado por suas mãos, gerações viçosenses.São palavras do pranteado Dr. Carlos Raymundo Torres: "Muitas delas são pessoas ligadas a mim e são gratas, pois reconhecem meu passado em Viçosa."
Dr. Euter Paniago, presidente da Cãmara durante o governo de Dr. Carlos, participou ativamente do desenvolvimento de Viçosa. Vereador por mais três lustros, faleceu a 3 de julho de 2007. De 1989 a 2000 foi vereador em todas as legislaturas, assumindo o mandato seguinte como suplente, até o dia 30 de março de 2004. Presidiu o diretório do PFL em Viçosa por vários anos e foi presidente de honra do Democratas (DEM). É sábia a assertiva de que "não há homens insubstituíveis”. É também muito certo que há aqueles homens que não podem, não devem ficar esquecidos. Casado com a professora Maria do Carmo Tafuri Paniago, com ela teve os filhos Valéria, Marina, Euter Júnior e Marcelo. Engenheiro-agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura (ESA) em 1954, Euter Paniago, PhD pela Purdue University (1969), ele era goiano de Jataí, onde nasceu a 27 de fevereiro de 1930. Cidadão honorário de Viçosa, para esta sua cidade querida mudara ainda jovem, como estudante do curso médio do Colégio de Viçosa. Indiscutível foi sua liderança política, estudantil e comunitária, para além de sua vida acadêmica. Vocacionado para o jornalismoa desde os bancos escolares, sua coluna semanal, por 18 anos, na Folha da Mata, marcou época, porque abordava temas de interesse político, histórico, literário, cultural, econômico, social e comunitário. Foi justamente considerado um dos vereadores mais prolíferos da história de Viçosa, tendo desempenhado seu papel de fiscal do povo, sempre levantando a sua voz coerente, lúcida, corajosa, equilibrada e independente, em defesa dos interesses de Viçosa. Ele que num de seus cinco mandatos de vereador, em 1991, desincumbiu-se com sucesso da tarefa de relator da 1ª Lei Orgânica Municipal e outras tantas vezes presidiu a Comissão de Justiça e Redação. Colaborou com inúmeras obras de benemerência em Viçosa. Seus gestos generosos surpreendiam. Quando da inauguração de sua foto na galeria dos ex-provedores do Hospital São Sebastião, a Casa de Caridade de Viçosa convidou este blogger a elaborar algumas palavras sobre ele, tendo quem escreve estas linhas tido a feliz oportunidade de citar um desses atos, que de fato nos marcou, porque ele não era mais candidato a qualquer cargo eletivo, em 2005, quando seu olhar volveu um túmulo.da atual quadra 2 do Cemitério Dom Viçoso, que havia desabado pela simples razão de seu ocupante não mais possuir familiares ou amigos residentes em Viçosa. Neste túmulo, no longínquo março de 1924, fora sepultado um jovem médico e grande benfeitor viçosense: Dr. João Batista Ferreira Brito, falecido na prematura idade de 39 anos, personalidade que denomina uma das principais artérias centrais de Viçosa, que se inicia no entroncamento da Rua dos Passos e termina na rua Tenente Kümmel. Tão logo o professor Euter Paniago tomou conhecimento daquela triste realidade, ele tomou a inusitada iniciativa de restaurá-lo no final de 2005. A conservação razoável de um jazigo é, sem dúvida alguma, uma das melhores formas de se preservar a memória de entes queridos. E o Dr. Batista Brito, como era popularmente conhecido, foi um viçosense adotivo, a exemplo de Paniago, extremamente benquisto pela população de então. A fama do nome de um homem, mais que o de um professor, do doutor, do político, do vereador e jornalista, não morre porque se faz presente na lembrança de seus coevos, que não medem esforços para transmiti-lo à posteridade. A memória deste cidadão que um dia se chamou Euter não será esquecida. No livro de ouro no qual se que inscreverá para sempre o nome dos grandes homens que construíram com muito amor a História de Viçosa, o dele figurará entre aqueles impressos em letras garrafais, como uma legenda de dedicação e altruísmo.



Antônio Chequer (1973-1976/1989-1992/1997)



Cidadão dinâmico, o empresário Antônio Chequer foi aquele que mais tempo governou o município pelo voto direto, marcando o seu populismo as últimas décadas do século XX.
Foram três os períodos governamentais em que chefiou o município. Em pleno exercício do cargo, falecera a 27/06/1997. Viçosa, sua terra natal, proporcionou-lhe o maior cortejo fúnebre de sua história. Da Praça do Rosário ao alto da rua Padre Serafim, só se viam cabeças humanas à hora de seu sepultamento. Altruísta, dedicou sua mocidade, conforme destacou o Presidente JK, "a serviço do engrandecimento de Viçosa". Foi o responsável, dentre outras obras públicas, pelo surgimento de diversos bairros em toda a periferia da cidade, nas décadas de 1960 e 1970. Sempre valorizou seus correligionários, sem se esquecer daqueles que não obtinham sucesso eleitoral. Exemplo dessa sua dedicação aos cabos eleitorais é a carta que redigiu do Gabinete da Prefeitura, datada de 26/10/1992, e que a seguir transcrevo na íntegra, como pequeno registro do que fora o perfil deste devotado homem público. Ei-la, dirigida a candidatos derrotados de sua agremiação partidária:
"Venho por meio desta, enviar-lhe sua folha de votação para que possa fazer uma avaliação de seus votos. O mais importante é que você participou e nossa cidade precisa de pessoas como você: não importa o resultado se foi ou não eleito, o que importa é que você hoje tem conhecimento do que existe em nossa cidade e do que tem que ser feito.
Uma só administração não resolve todos os problemas, eles existem e vão continuar a existir, os políticos nem sempre são compreendidos pelo povo, mas são eles os verdadeiros espelhos da Democracia. Você sacrificou, você lutou, deixando muitas vezes os afazeres e distanciou de seu lar para dedicar-se a sua campanha, por isso parabenizo, você foi útil, continue assim porque um dia o povo a de lhe agradecer".
Vereador e prefeito, ambos por três mandatos, empresário da construção civil, foi um seguidor de seu pai, nesta área de loteamentos, criando, com sua empresa, os bairros Santa Clara, João Braz (1975), Lourdes (1975), Clélia Bernardes e Fuad Chequer (1958), Carmo (1965), Dr. Raymundo Torres (1972) e Beira Linha (1960). Um dos dez melhores prefeitos do Brasil, conforme avaliação de um instituto de pesquisa em seu primeiro mandato, criou a Guarda-Mirim e não havia menores abandonados em Viçosa naquela época em que o município tinha 25.785, sendo 15.552 na sede (conforme dados publicados em 1º/9/1970), oito grupos escolares, cinco ginásios e colégios, três cinemas, quatro clubes sociais, quatro hotéis, um posto de saúde e cinco estabelecimentos de crédito. Ele patrocinou mais uma ampliação do Cemitério Dom Viçoso, trabalhou pela concessão de linhas urbanas de ônibus, e incentivou, a exemplo de seu antecessor, Dr. Carlos Raymundo Torres, a implantação da Indumel (extinta Indústria de Melaço localizada no distrito de Silvestre). Colaborou com a construção do Hospital São João Batista. Iluminou o distrito de Cachoeira de Santa Cruz. Além de inúmeras obras de infra-estrutura urbana, apoiou a construção, em convênio com a Carrpe (Campanha de Reparos e Recuperação de Prédios Escolares), da Escola Estadual Pe. Álvaro Corrêa Borges, no bairro Nova Era. Foi um semeador de educandários. Em seu segundo mandato construiu, também em convênio com o Governo de Minas, a Escola Estadual Raul de Leoni, do bairro Santo Antônio Iniciou a construção do novo terminal rodoviário, inaugurado em 1979, no governo de seu sucessor imediato, César Sant'Anna Filho. O antigo existira onde se encontra o jardim da atual praça Dr. Mário Del Giudice. Doou o terreno para a construção do prédio da Telemig, na Praça do Rosário. E promoveu, em seu primeiro mandato a festa do Centenário de Dr. Arthur Bernardes. O bairro Nova Viçosa foi um loteamento popular de sua iniciativa. Localizado na antiga Fazenda da Conceição, cujos lotes foram distribuídos à classe operária e a pessoas de baixa renda.
Toninho Chequer, como era carinhosamente conhecido pela maioria absoluta da comunidade viçosense, foi trabalhador desde a infância, na fábrica de calçados de seu pai, e não foi diferente como administrador público. Prefeito no período de 1973-1976, tendo como vice-prefeito o Pe. Antônio Mendes. Os impostos municipais então aumentaram e a imprensa local noticiava que a Viçosa de então não tinha menores abandonados, porque por ele fora criada a guarda mirim, que proporcionava ocupação às crianças e adolescentes. Entre 1989 e 1992, foi novamente prefeito, tendo como vice o médico Ary Teixeira de Oliveira. Eleito e empossado para o quadriênio 1997-2000, tendo como vice o funcionário público federal Fernando Sant'Ana e Castro, faleceu enquanto cumpria esse último mandato, conquistado a muito custo devido a diversos processos judiciais que intentavam a anulação de sua eleição, com a conseqüente posse do segundo colocado no pleito, professor Antônio Fagundes de Sousa, o que não se efetivou. Viçosa tinha 25.931 eleitores em 1988, quando foi eleito pela segunda vez prefeito o empresário Antônio Chequer (PMDB), que na ocasião venceu com o vice Ary Teixeira de Oliveira, médico, o também empresário Cláuzio Heitor da Silva (PFL) e o vice Carlos Raymundo Torres, médico, dupla segunda colocada. Os outros candidatos foram os professores Francisco Simonini da Silva e Adelino Mazzarolo (PDT), o advogado Francisco Tadeu de Sena Fernandes e o empresário Ricardo de Castro (PL) e Jurany de Castro Resende Andrade (PT). Em 1996, em sua terceira eleição à chefia do Executivo já eram 37.804 os eleitores viçosenses. Antônio Chequer, então filiado ao PSC, foi eleito com 12.019 sufrágios, tendo como vice Fernando Sant’Ana e Castro, quando disputaram o cargo de prefeito Geraldo Magela Gouveia e Antônio Coimbra, do PV, com 864 votos, Rafael Kopschitz Xavier Bastos com 4.247 votos, a dupla Luís José de Arruda Alves e Sérgio Cardoso Pinheiro (PDT) com 6.400 votos, e Antônio Fagundes de Sousa e Arnaldo Dias de Andrade (PFL/PPS), com 6.712 votos. Nesta última ocasião, 1996, foram registrados 559 votos em branco e 1.222 nulos. Em 1992, quando já eram 33.168 eleitores, Antônio Chequer não conseguiu eleger os candidatos por ele apoiados: a dupla Marco Antônio Maffia e Jurany de Castro Resende Andrade (PMDB/PDT), segunda colocada na eleição em que venceu Geraldo Eustáquio Reis (PTB), tendo como vice César Sant’Anna Filho, quando também concorreram os ex-prefeitos José Américo Garcia e Carlos Raymundo Torres (PFL), que ficaram em 3º lugar, além das chapas integradas por Aguinaldo Pacheco e César Augusto da Silva (PT) e Dirceu Teixeira Coelho e Maria José Margarida Fonseca Couto (PRN).
Toninho foi um dos principais responsáveis pelo surgimento do Hospital São João Batista. Tinha como um de seus muitos projetos a criação de uma penitenciária na cidade, no início de seu terceiro mandato de prefeito, o que suscitou grande polêmica. A industrialização do município era outro sonho do político que idealizou e chegou a doar os primeiros lotes para a construção do Distrito Industrial da Barrinha.
A memória do grande líder e articulador político regional sempre foi lembrada pela população, que o elegeu vereador na década de 1950, tendo exercido este seu primeiro mandato popular durante um dos governos do prefeito Raymundo Alves Torres (1959- 962). Presidiu a Loteria Mineira, por nomeação do então governador Tancredo de Almeida Neves, na década de 1980. Foi candidato a deputado estadual por diversas vezes, não sendo eleito. Sua personalidade controvertida foi naturalmente muito contestada pelos que lhe opunham em outras agremiações. Acusado de irregularidades administrativas por diversas vezes, denunciado outras tantas ao Ministério Público por suspeitas de falhas em seus relatórios de prestação de contas, chegou a ser submetido, pela Câmara Municipal, a um processo que pedia a cassação de seu mandato, em 1992, por conta de um episódio denominado jocosamente de "Maracutaia da Barrinha", sendo absolvido pelo plenário, a despeito de o relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito, então presidida pelo vereador Euter Paniago, ter sido aprovado. O relatório sugeria a perda do mandato de prefeito.
Carismática e popular, a figura humana de Toninho Chequer marcou profundamente a vida pública viçosense nas décadas 1970, 1980 e 1990. No âmbito municipal, como candidato, perdeu apenas uma eleição. Foi em 1982, quando o professor José Américo Garcia se elegeu prefeito, em 1982. Tinha uma comunicação muito fácil com todas as camadas sociais, o que contribuiu para que Toninho obtivesse quase sempre a maioria votos de pessoas de todas as classes sociais. Uma multidão de aproximadamente doze mil pessoas acompanhou-lhe o féretro na tarde de 27 de junho de 1997, até o Cemitério Dom Viçoso, onde se encontra o mausoléu nº 108, de sua família.
O Legislativo durante sua administração foi presidido pelo engenheiro agrônomo Mário Rocha Gomes, da ARENA, e pelo comerciante Ruy Barbosa Assis Castro, este falecido a 30 de dezembro de 2002, aos 81 anos de idade. Comerciário em sua infância, arrimo de família, Ruy Barbosa trabalhou no comércio de Francisco Alves da Silva e de Clóvis Clodoveu de Castro, até mudar-se para Silvestre onde manteve um pequeno comércio e trabalhou no então Patronato Agrícola Arthur Bernardes como inspetor de alunos, o que lhe valeu a aposentadoria como funcionário público. Bernardista, ingressara na vida pública pelo Partido Republicano (PR) e foi vereador por seis legislaturas, quando o vereador não era remunerado. Sua fé religiosa marcou sua vida. Nunca faltou à missa dominical, e a sua caridade não teve limites, o que fez dele um católico fervoroso e um vicentino que chegou a presidente do Conselho Particular de Viçosa.
Casado, por 45 anos com a saudosa Maria da Conceição Sant'Ana Castro, falecida em 1986, foi o amorável pai de Maria da Conceição, Maria das Graças, Maria Aparecida, Antônio de Pádua, Maria do Rosário, Maria José, Maria Eunice, Amantino, Ruy Júnior e Carlos Roberto e pai adotivo de Sônia Maria, Juliana e Sebastião Cassemiro. O título de cidadão honorário viçosense foi-lhe conferido em 2001, fazendo justiça ao amor de Ruy Barbosa por Viçosa, onde viveu mais de 70 anos, e soube fazer centenas de amigos.
Juiz de Direito da Comarca de Viçosa era o Dr. José Felismino de Oliveira. Nomeado juiz de terceira entrância, prestou à comunidade assinalados serviços. Nascido a 23 de abril de 1915, em São José do Barroso (Paula Cândido), era casado com Dona Eurides Nogueira de Oliveira, com quem teve doze filhos. Professor de Geografia, História do Brasil e História Geral no Colégio Estadual de Viçosa, nos colégios de Raul Soares e de Teixeiras, sócio fundador do Palestra Itália (Cruzeiro Esporte Clube, de Belo Horizonte), ex-aluno do Colégio São José, de Ubá, ex-coletor estadual em Senador Firmino, formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais a 10 de dezembro de 1946. Ex-promotor de Justiça em Santa Bárbara, advogado em Ubá, Raul Soares e Senador Firmino, juiz de entrância especial em Belo Horizonte em 1979, quando se aposentou, Dr. José Felismino foi também juiz em Teixeiras e Raul Soares.



César Sant'Anna Filho (1977-1982)



César Sant'Anna Filho nasceu em Viçosa no dia 15 de maio de 1916 e faleceu nesta mesma cidade a 2 de abril de 2010. Alguém disse que bendita é a terra "onde os valores valem" e tal assertiva representa a mais cristalina verdade. "Benditos os filhos que se põem, com amor, devoção e respeito, ao serviço das tradições éticas e culturais do torrão natal". Neste particular se enquadra perfeitamente a figura ímpar do ilustre cidadão que se chamou, em vida, César Sant'Anna Filho, pela dedicação de seus melhores esforços e pelo inegável legado de um rico acervo de obras e serviços. Nascido no meio rural, filho dos saudosos Cezar de Sant'Anna e Castro e Dona Maria Raimunda de Sant'Anna (Sá Sinhá), irmão de José, Augusta, Maria Aparecida, Joaquim, Maria das Vitórias, Maria Imaculada, José do Espírito Santo e Dulce, casado com Dona Maria de Lourdes Rosado e pai de 9 filhos, teve marcante participação em todos os setores da vida social de Viçosa, desde a juventude, quando iniciou carreira futebolística no Viçosa Sport Club, atuando no Viçosa Atlético Clube, no Tupi de Juiz de Fora e no Fluminense do Rio de Janeiro, neste até 1938, quando retornou a Viçosa, jogando novamente no Atlético. Foi também pistonista na Lira Santa Rita, fundada por seu avô, o maestro José Jacintho Dias de Sant'Anna (Juca Jacinto). Fazendeiro e empresário do ramo de torrefação de café, ingressou na vida pública como vereador, pelo PR, de 1955 a 1958, tendo sido vice-prefeito de Moacyr Dias de Andrade (PSD/PTB), desde 1963, e de Geraldo Eustáquio Reis (PTB), desde 1993, tendo, nesta última ocasião, assumido o governo interinamente, por dois meses, com o afastamento de seu titular por motivo de saúde.
Candidato a prefeito pelo PTB em 1958, disputou o mesmo cargo em 1966, pela Arena 2, em 1970 pelo MDB e em 1972 pelo MDB 2, sendo eleito prefeito para o período 1977/1982. Enquanto prefeito, mudou de legenda, filiando-se ao PDS, tendo recebido do governo, como contrapartida, a pavimentação asfáltica de várias ruas, trazendo progresso e desenvolvimento à cidade. De fato, aconteceu em seu governo a primeira pavimentação asfáltica de Viçosa, iniciada nas ruas Sant'Ana, Dr. Brito e Conceição. Até o final da década de 1980 era ainda o responsável por 95% do asfalto das principais ruas da cidade, especialmente nos bairros Bom Jesus, Fátima, Estrelas, Lourdes, João Mariano, Conceição e Nova Era. Foi ele um dos responsáveis pela instalação da agência do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Estadual, em Viçosa, tendo pertencido também à Sociedade dos Cooperadores da Comunidade de Viçosa e aos grupos que colaboraram nas as construções do Lar dos Velhinhos e do Cemitério Colina da Saudade. Um dos maiores marcos de sua administração foi a construção do calçadão da rua Arthur Bernardes. Cesinha muito contribuiu para a fundação do Sindicato Rural de Viçosa e da Cooperativa Agropecuária Mista de Viçosa. Como prefeito batalhou em favor do seguro de vida para o funcionalismo municipal e foi ele quem assinou o convênio com o Ipsemg para instalação de posto de atendimento médico-ambulatorial para os servidores municipais e estaduais. Implantou redes pluviais, num total de 7.000 metros lineares, construiu nove pontes de concreto armado e quarenta e duas de madeira, sendo cinquenta e oito utilizando tubulações de manilhas. Implantou 4.000 metros de rede de esgotos, beneficiando o bairro Santo Antônio, localidade para onde levou também água potável em cooperação com o Saae. Construiu quatro prédios escolares municipais e comprou um terreno de 5.000 metros quadrados para a construção da Escola Estadual Santa Rita de Cássia.
Em seu governo, instalaram-se também modernos equipamentos para captação de emissões da TV Globo e da TV Alterosa, além de ter sido uma de suas grandes preocupações de homem público a moradia popular e a construção de largas passarelas para pedestres.
Posteamento, esgoto, água, campo de futebol em São José do Triunfo (Fundão) e Cachoeira de Santa Cruz (Cachoeirinha) denotam a sua preocupação com os distritos, para com os quais teve dedicação especial, incluindo-se Silvestre, por sua administração dotado de infra-estrutura, serviço de saúde, educação e transporte coletivo. Carnavalesco e desportista nato, deu enquanto prefeito, incondicional apoio, com generosas subvenções às escolas de samba e aos times de futebol da cidade, tendo concedido 1.000 bolsas de estudo em seu governo. Comendador do Mérito Arthur Bernardes em 1991, pela Associação Comercial de Viçosa, Cesinha era também cidadão benemérito desde 1994, pela Câmara Municipal de Viçosa, cidade que amou a vida inteira, figurando o seu nome no rol dos grandes vultos viçosenses em razão dos relevantes trabalhos prestados em prol de sua terra.



José Américo Garcia (1983-1988)



Prefeito entre 1983 e 1988, tendo como vice o empresário José Borges Neto, que trabalhou durante todo o período de seu governo como eficiente e operoso chefe de Gabinete, de sua administração, sobretudo nos dias chuvosos, o viçosense se lembra de um grande presente, que foi, não há dúvida, a magnífica obra de dragagem do ribeirão São Bartolomeu, que entrou para a história porque pôs fim às suas "cheias cíclicas".
Os verões em Viçosa sempre foram chuvosos. A ata da reunião de 27 de janeiro de 1903 da Câmara Municipal, sob apresidência do Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, alude a uma representação dos moradores do distrito de Teixeiras, pedindo auxílio para "reparos dos prejuízos cauzados pela inundação que ali houve na semana finda". É o mais antigo registro disponível relativo às intempéries que conseguimos localizar. Fevereiro, nesta região, é muito quente, com muita chuva e muitas trovoadas. A média de temperatura desse mês, tido como “o coração” do Verão, nos primeiros anos do século XXI, foi de 28.5º graus Celsius. Março e abril são menos quentes; chove pouco, e o céu fica geralmente nebuloso, quando cresce a umidade e serão raras as trovoadas. A 649 metros de altitude, Viçosa, conforme pesquisas científicas, tem chuvas prolongadas, uma média de 1.341milímetros cúbicos por ano, devido a frentes frias estacionárias, porque sua região sofre considerável influência da massa atlântica. Em 2006 foram altos os níveis de radiação, considerando-se que a temperatura média anual é de 18.5ºC na região. Foram pouquíssimas chuvas, quando se sabe que a média para o mês é de 197mm³. Desde 1969, quando se atingiu a marca dos 35.5ºC, não fazia tanto calor em Viçosa. A temperatura máxima chegou a 35.2ºC no dia 6 de janeiro de 2006, conforme foi registrado pelo termômetro da Estação Climatológica. Pela média histórica, a temperatura relativa do ar vem variando de 31 a 60% ao ano. Entre 1931 e 1960, a mínima registrada foi de 0ºC, no dia 10 de junho de 1933; e a máxima, de 35,2ºC (a mesma de 2006), no dia 17 de janeiro de 1956.
Calor, quase sempre, é sinônimo de chuva. Em Viçosa é hábito se dizer que “esquentou, choveu”. É geralmente abundante a precipitação de chuvas após um dia de intenso calor nesta época do ano. As maiores chuvas de Verão ocorridas na cidade nas últimas décadas trouxeram grandes problemas. Em janeiro de 1997, por exemplo, ocorreu uma precipitação pluviométrica de 200mm³ por segundo, felizmente já sem as antigas “cheias cíclicas” do ribeirão São Bartolomeu, pois a obra de dragagem realizada no final da década de 1980 amenizou os transtornos causados por grandes enchentes como a de 1948, que deixou saldo de duas mortes (um adulto e uma criança). Naquele ano, na madrugada de 17 para 18 de fevereiro (de domingo para segunda-feira de Carnaval), o local mais atingido foi onde existiu uma velha ponte sobre o ribeirão São Bartolomeu, no exato lugar em que esteve, no século XIX, de acordo com ALENCAR (nº?) a antiga Fazenda São Bartolomeu, de propriedade de Pe. Manoel Ignácio de Castro (Quatro Pilastras). Naquele início de manhã, o aterro que originou a avenida P. H. Rolfs, concluído em meados da década de 1920, ligando o atual campus universitário à Praça do Rosário, foi levado de roldão pela correnteza que se formou com o arrebentamento da barreira da represa da Escola Superior de Agricultura e Veterinária (Esav). As águas arrastaram tudo o que estava à frente de seu percurso: casas, árvores, animais. Foram momentos dramáticos, conforme atestam testemunhas da época, durante os quais, estudantes, voluntários e policiais tiveram que nadar madrugada afora, seguros por cordas, para o resgate de famílias, especialmente moradores da rua Dona Gertrudes, os maiores atingidos pelas chuvas até a década de 80. Foram, naquele dia, segundo informações, quinze horas de intenso temporal, o que equivale a um mês inteiro de chuva (172mm³). Com o auxílio de uma verba federal no valor de mil e quinhentos contos de réis, a Prefeitura, então sob administração do advogado José Lopes de Carvalho, pôde reparar os danos, com a reconstrução da ponte da Rua dos Passos, que também ruíra com o temporal. Além de poder socorrer os desabrigados de então, a administração também reconstruiu um novo reservatório municipal de água potável, que, a exemplo da represa da Escola de Agricultura, estourara com a chuvarada. A cidade permaneceu por muito tempo isolada da Escola (atual UFV), sendo preciso passar pelo alto da Rua Seca (atual Rua do Pintinho, no Alto da Bela Vista) para que se pudesse ter acesso à vargem em que está situado atualmente o campus universitário. Quatro anos após a tragédia, em 1952, foi registrado novo altíssimo índice pluviométrico, mas não há casos conhecidos de vítimas humanas. Em janeiro de 1975, a região próxima a Novo Silvestre até Teixeiras ficou sob as águas.
Foram quatro as mortes por desabamentos de encostas e barrancos em 1986, no governo do professor José Américo. A chuva (uma tromba d’água), de nada menos que 184.8 mm3 por segundo, no Rèveillon, deixou desabrigados 592 moradores de Viçosa, tendo sido 463 os desalojados, que tiveram que ficar algumas semanas morando sob 70 barracas de lona BNH, nos fundos do antigo Colégio de Viçosa, até que se construíssem novas casas em Nova Viçosa ou se reformassem suas moradias de origem. Os córregos das Posses, do Paraíso, Buieié, Condé, Deveras, Fundo, Ferreira, São João, São Silvestre, do Silêncio, do Engenho e de Santa Catarina, transbordaram. O assoreamento do Córrego da Conceição provocou cheia ainda maior, que derrubou, na madrugada de 1º/1/86, um muro de arrimo da casa número 52 da Praça do Rosário, divisa com o atual Shopping da Moda, na rua Pe. Serafim, número 30, no centro da cidade. O andar inferior da citada casa foi inundado, bem como o Posto de combustíveis Trevo, arrastando carros para depois atingir a esquina da avenida P. H. Rolfs, no local em que está agora o “Shopping Chequer”, no início da Av. Marechal Humberto Castello Branco (BR-120), desaguando em cascatas por toda aquela manhã pelo ribeirão São Bartolomeu e invadir também os fundos da residência número 69 da referida praça. Dias após, ainda em janeiro de 1986 nova chuva forte provocou a queda da ponte do distrito de Vau-Açu (em Teixeiras), isolando Viçosa de Ponte Nova.
Em 1996 também houve forte tempestade no início do ano, causando pequenos danos. E foram 200mm³ de chuva intermitente que caíram sobre a cidade em dias de janeiro de 1997, resultando no saldo de 13 famílias desabrigadas. Segundo levantamento da Defesa Civil, em Viçosa eram nada menos que quarenta famílias morando em situação de risco naquela ocasião. Entre as conseqüências naturais ocorridas, um mar de lama que desceu de um desaterro feito num loteamento da parte alta do bairro Vau-Açu, próximo ao Alto das Amoras (bairro Arduíno Bolivar), escorrendo pela rua Francisco Marques e causando grandes transtornos aos habitantes próximos. A Prefeitura se viu na contingência de ter que decretar estado de calamidade pública no município por terem ocorrido 224 desabamentos (167 parciais e 47 totais), num total de sessenta e uma famílias desabrigadas, incluindo moradores da zona rural.
Em 2001, as chuvas trouxeram mais três mortes, entre essas, de duas crianças, que morreram soterradas em casa, nas proximidades da Barrinha. Cem viçosenses ficaram desalojados e outros quarenta desabrigados. E a 9 de janeiro de 2004, numa precipitação de 115.9mm³, o nível d’água subiu 40 centímetros acima do normal (que é de 10 centímetros) no vertedouro da barragem de captação (lagoa da UFV). Na comunidade da Barrinha, onde se confluem dois ribeirões, as águas se sobrepuseram à ponte, e houve soterramento de três pessoas de uma mesma família, entre as quais, duas crianças, na rua Alice Moreira Pinheiro, na parte alta do bairro Bom Jesus, resgatadas vivas, enquanto casas próximas permaneciam dependuradas sobre barrancos desabados. Em 2004, num único dia, 21 de janeiro, a precipitação pluviométrica foi de 161.4mm³. O resultado foi que quatro famílias ficaram desabrigadas, um total de 23pessoas, vítimas de deslizamentos de terra também nos bairros Sagrada Família, Estrelas, Posses, na parte alta do distrito de Silvestre. O tráfego entre Ponte Nova e Viçosa foi novamente interrompido, porque o nível dos cursos d’água adjacentes subiu dois metros acima do normal. No bairro São José (antigo Laranjal), a exemplo de 1948, trilhos da via férrea, devido a deslizamento de terras, ficaram suspensos no ar. De acordo com informações oficiais, no vertedouro da barragem de captação, a altura da lâmina d’água chegou a 65 centímetros.
Na administração do professor José Américo foi criada e inaugurada a Casa da Cultura, com biblioteca e pinacoteca, organizada, com esmero, pela artista plástica Stella Costa Val Brandão, e que foi o passo inicial para a criação de um Arquivo Público Municipal, assunto debatido vez por outra por legisladores de uma cidade que conta, inclusive, com um departamento universitário de História, um Departamento Municipal de Patrimônio e um Conselho Municipal do Patrimônio Cultural e Ambiental.
José Américo também dirigiu a Divisão Educacional Agrícola Arthur Bernardes (Deaab)entre 1997 e 2001, além de ter sido fundador e presidente da Associação dos Municípios da Zona da Mata Norte (AMMAN), por dois períodos consecutivos. O professor José Américo Garcia nasceu a 24 de fevereiro de 1936, na cidade mineira de Espera Feliz, filho do agropecuarista Francisco Garcia da Silva e da professora Áurea Horta da Silva, com quem cursou o seu primeiro grau, na zona rural. Completou o 2º grau no Colégio Carangolense, em Carangola (MG), em 1957.
Casado com Maria Emília Soares Garcia, a primeira dama que realizou excepcional trabalho na área da assistência social no Departamento de Desenvolvimento Social(DDS), durante o governo de seu esposo. Pai de Luciana, Adriana e José Américo. Engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Viçosa em 1962, mestre em Zootecnia pela mesma instituiçao em 1968 e doutor em Bioquímica e Nutrição na Universariante do Arizona (USA), em 1977, Professor assistente da UFV de 1963 a 1973, professor adjunto até 1975 e titular III de 1976 a 1991, por concurso público, José Américo se aposentou como pró-reitor de Administração da UFV. Chefe do Departamento de Zootecnia por um período de quatro anos, diretor do Centro de Ciências Agrárias em 1982. Durante sua vida acadêmica, recebeu muitas honrarias, orientou diversos alunos de Mestrado e Doutorado. Autor de vários trabalhos científicos publicados no Brasil e nos Estados Unidos. José Américo ainda presidiu o Rotary Club de Viçosa por dois períodos consecutivos.
Entre 1986 e 1988, durante portanto o governo de José Américo, exerceram o cargo de juiz de Direito da Comarca de Viçosa os Drs. Júlio Henrique Prado Bueno e Manuel Bravo Saramago. O primeiro, mineiro de Paraguaçu, e este, também mineiro, natural da cidade de Tombos. Dr. Júlio Henrique ingresssara na magistratura em 1976, tendo sido juiz auxiliar da Comarca de Ponte Nova e titular das Comarcas de Barão de Cocais e Santa Bárbara. Deixando a cidade, foi 9º juiz substituto da Comarca de Belo Horizonte, onde atuaria em varas Cíveis e da Fazenda Pública. Juiz do Tribunal de Alçada e seria promovido a desembargador. E o Dr. Manuel formou-se pela Faculdade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro, mestre em Direito Processual pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, este magistrado ocuparia também os cargos de desembargador do Tribunal de Justiça do Estado, além da promotor de Justiça das Comarcas de Eugenópolis e Conceição do Mato Dentro, tendo sido ainda juiz nas comarcas de Mar de Espanha, Conselheiro Pena, Mantena e Belo Horizonte, juiz do Tribunal Regional Eleitoral e do Tribunal de Alçada (MG).



Geraldo Eustáquio Reis (1993-1996)



Nascido em Viçosa a 11 de janeiro de 1952, filho de José Cruz Reis, admirado e respeitado como ativo militante do antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), e de Dona Mara Jannotti Silva Reis, de tradicional família viçosense, Geraldo Eustáquio Reis era casado com a professora Ângela Maria Santiago Reis e teve três filhos: José Cruz Reis Neto, João Santiago Reis e Pedro Santiago Reis. Geraldo cursou o Ensino Básico na Escola Estadual Ministro Edmundo Lins e o Ensino Fundamental e Médio no Colégio de Viçosa. Rapazinho, foi comerciário, na extinta loja A Exposição Viçosense, do ramo de móveis e eletrodomésticos, na rua Arthur Bernardes, 105, em Viçosa, propriedade de Adson Rodrigues Bicalho. Bacharelou-se em Ciências Contábeis na FACCO, onde foi presidente do Diretório Acadêmico e orador da Turma de Formandos de 1982, especializando-se também em Planejamento pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Funcionário público, ingressou na Universidade Federal de Viçosa por concurso público, aprovado em primeiro lugar para o cargo de auxiliar de Planejamento, cargo que ocupou, bem como o de assistente em Planejamento e técnico de nível superior, além de ter dirigido o setor do Registro Escolar daquela instituição federal de ensino superior e o de diretor assistente de Material e membro do Conselho Diretor da UFV por dois mandatos, representando o Governo do Estado de Minas Gerais.
Foi eleito vereador aos 24 anos de idade, em 1977, tendo exercido a presidência da Câmara, ocasião em que se elaborou o Regimento Interno daquela Casa, do qual foi co-autor, juntamente com o Pe. Antônio Mendes e o professor Francisco Machado Filho, legislação que vigorou até 2007, quando teve diversos de seus artigos alterados pela edilidade. Em 1990 foi o candidato a deputado estadual que obteve a maior votação em Viçosa. O prefeito Geraldo Eustáquio Reis, tendo como vice o também ex-prefeito César Sant'Anna Filho, foi eleito em 1992, pelo novo PTB, para governar no quadriênio 1993-1996, com 9.981 votos, num pleito considerado por cientista político como uma "rebelião da massa contra a elite". Naquele ano, em que eram já 33.168 os eleitores viçosenses, exercia, desde o ano anterior, o Juizado de Direito da Comarca, coordenando, portanto, todo o processo eleitoral, o Dr. Fernando Alvarenga Starling, natural de Belo Horizonte, formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Pós-graduado em Direito Público e em Metodologia do Ensino Superior, especialista em Direito Econômico e Comercial pela Fundação Dom Cabral, desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Dr. Fernando atuaria ainda como juiz de Direito nas comarcas de São João Evangelista, Governador Valadares, Sete Lagoas e Belo Horizonte, além de ter ocupado, também, dentre outros, os cargos de juiz corregedor e juiz de Direito titular da 7ª Vara Criminal e a presidência do 1º Tribunal do Júri da comarca da capital mineira, de professor titular de Direito Processual Penal e do curso de Pós-Graduação da Faculdade de Direito do Vale do Rio Doce, orientador do módulo de Direito Penal nos cursos de Formação Inicial de Juízes Substitutos da Universidade Federal de Minas Gerais, de membro do Conselho Científico, Consultivo e Fiscal do Instituto de Ciências Penais (ICP). Anseio histórico da região de Viçosa, então festejada como uma importante modificação acontecida, verdadeiro ato de Justiça para com os juízes, prevenindo a abdicação da progressão na carreira por parte daqueles já radicados na cidade, e permitindo que Viçosa pudesse ver seus magistrados permanecendo na Comarca até a aposentadoria, conquista histórica mesmo, foi a elevação da Comarca, que já era de grande porte, com alta carga de processos e ações de maior complexidade, à entrância final. Na ocasião aqui também aportava, no mês de maio, outro ilustre magistrado, mineiro de Januária: Dr. Omar Gilson de Moura Luz, formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais em 1984. Ex-monitor da Escola Judicial Desembargador Lopes da Costa, especialista em Direito Criminal, ele ingressou na magistratura em 1990. Ex-juiz da Comarca de Porteirinha, ele dirigiria o Fórum por sete anos, conduzindo praticamente todo o processo de construção de sua nova sede, inaugurada em 2005. Juiz eleitoral por oito anos e juiz da 1ª Vara Cível até os dias atuais, Dr. Omar, literato e autor de apreciados livros, atua ainda como professor em cursos de extensão e no Departamento de Direito da Universidade Federal de Viçosa. No governo de Geraldo Reis outro que ocupou o cargo de juiz de Direito da Comarca o Dr. Oswaldo Soares de Paiva, bacharel pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, que ingressara na magistratura em 1989, e que fora também juiz cooperador das Comarcas de Boa Esperança e de Carmo do Rio Claro. Dr. Oswaldo trabalhara também nas comarcas de Poço Fundo, Alfenas e Coronel Fabriciano.
Antônio Chequer, antecessor imediato de Geraldo Reis, que veio a ser também o sucessor imediato deste prefeito, apoiara a dupla Marco Antônio Maffia e Jurany de Castro Resende Andrade (PMDB/PDT), segunda colocada no pleito. Ele derrotou, concomitantemente, as forças representadas pelos ex-prefeitos José Américo Garcia e Carlos Raymundo Torres (PFL), que ficaram em terceiro lugar, além das chapas integradas por Aguinaldo Pacheco e César Augusto da Silva (PT) e Dirceu Teixeira Coelho e Maria José Margarida Fonseca Couto (PRN). Naquele pleito, Geraldo Reis, o prefeito mais jovem até então eleito no município, sobrepujou, com uma diferença de 1.962 votos o segundo colocado, e de 4.733 votos o terceiro. Em 1982, Geraldo Reis, em dupla com o ex-vereador Gilberto Valério Pinheiro, como vice, já havia disputado a Prefeitura, concorrendo como candidato do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), quando o professor José Américo se elegeu pelo Partido Democrático Social (PDS).
Foi o candidato a deputado estadual mais votado do município nas eleições de 1990. Defensor intrépido dos valores e bens culturais em suas mais variadas manifestações, sua gestão à frente do Poder Executivo Municipal foi assinalada pelo resgate cultural e também por memoráveis celebrações cívicas. Dentre as obras de seu governo o Programa Municipal de Defesa do Consumidor (Procon). Optando por um estilo eminentemente técnico de administrar, teve a iniciativa de realizar o I Simpósio Rural de Viçosa, definindo democraticamente as prioridades de cada comunidade. Construiu dezesseis pontes e setenta “mata-burros” de concreto e ferro, extinguindo praticamente a velha e obsoleta estrutura de madeira das estradas rurais. Foi de sua administração o projeto para atendimento de eletrificação em 23 propriedades das regiões do Cascalho, Córrego Santa Teresa e Posses de Cachoeirinha, tendo também criado o serviço de transporte público no Buieié e na Estação Velha da Violeira. Ainda na zona rural, determinou a realização constante de atendimento médico e de enfermagem itinerante, nas regiões as mais distantes, em convênio com a Escola de Medicina de Juiz de Fora, envolvendo estagiários daquela instituição. Crianças em idade escolar moradoras de regiões de baixa densidade populacional foram acolhidas num projeto especial desenvolvido pelo Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência (antiga Escola Agrícola Arthur Bernardes). Outro marco de seu governo no setor educacional foi o efetivo combate à evasão escolar, em parceria com o Tiro-de-Guerra local, reduzindo-a em praticamente zero.
No transcurso do governo de Geraldo Reis surgiram pouco mais de seis centenas de novas empresas em Viçosa, que geraram mais de dois mil novos empregos, tendo sido instituída pelo prefeito a Secretaria de Desenvolvimento Industrial e Comercial, tendo-se optado por criar condições favoráveis para a instalação, funcionamento e desenvolvimento de micro, pequenas e médias empresas, dotando de infra-estrutura básica fábrica de concreto de médio porte, de pré-moldados de gesso e de móveis tubulares. Havia no município 921 empresas formais e 488 informais, formadas, em sua quase totalidade, por famílias que produziam desde roupas até doces ou móveis, incentivadas pelo Programa “Uma indústria em sua casa”.
Geraldo Reis faleceu aos 46 anos de idade, no dia 6 de outubro de 1998, em Viçosa.



Fernando Sant'Ana e Castro (1997-2000/2001-2004)



Primeiro presidente da Comissão Provisória do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), em 1968, um dos treze filhos de José Sant’Anna (Zizito do Correio) e Dona Maria de Paula Sant’Anna, antes de assumir o governo municipal por motivo do falecimento do titular, Antônio Chequer, em 27 de junho de 1997, chegou a ser o vereador mais votado do município e presidente da Câmara Municipal. Casado com profesora Terezinha Azis Sant’Ana, pai de Said, Âmalin e Fernando Júnior, funcionário público federal, exerceu vários cargos nos departamentos de Serviço de Pessoal, Sessão de Preparo de Pagamento, Serviço de Telecomunicações e na Contabilidade da Universidade Federal de Viçosa. Revelando simplicidade e cortesia no trato com os munícipes, foi eleito prefeito tendo como vice Raimundo Nonato Cardodo, pela coligação PTB/PFL, para o quadriênio 2000/2004, numa campanha polarizada, tendo como adversários os empresários Luís José de Arruda Alves e Jorge Teotônio Teixeira Chequer da coligação PDT/PMDB. Viçosa tinha 42.871 eleitores no ano 2000 e se elegeram com 18.692 contra 15.360 votos. Foram 999 votos em branco e 2.537 nulos os registrados naquele pleito. Seus mandatos foram assinalados por realizações administrativas inegavelmente importantes. Foram construídas, reformadas e revitalizadas várias praças, ruas e avenidas do município, a exemplo da Praça do Rosário, que recebeu reforma total e uma fonte luminosa, Ricardo Alves, em Silvestre, Silviano Brandão, com abertura de tráfego em frente ao Santuário de Santa Rita, Dr. Mário Del Giudice, Alexandre Aad, em Cachoeira de Santa Cruz, a da Rua dos Passos, Levindo Coelho e Fernando Vidigal de Carvalho, ambas no bairro Santa Clara, Prefeito Antônio Chequer, em Nova Viçosa, José Sant’Anna, no bairro de Fátima, Frederico Vanetti e Alice Loureiro, ambas no bairro de Ramos, além da avenida Santa Rita. A iniciativa de restauração da balaustrada da avenida Bueno Brandão e a ampliação dos passeios e reforma da rua Benjamim Araújo, travessa Dr. João Carlos Bello Lisboa, travessa Sagrados Corações, Av. Marechal Castello Branco e rua Dona Gertrudes, além da construção da Via Alternativa BR-120-campus universitário foram marcos de seu governo, além do asfaltamento de ruas periféricas, com justo destaque para a avenida Jacob Lopes de Castro, no bairro Nova Era, e a Av. Dr. Altamiro da Conceição Saraiva, acesso a Nova Viçosa.
Implantou-se a política municipal denominada Pró Café, privilegiando-se a assistência técnica aos pequenos produtores rurais, com Mecanização Agrícola, construção de tanques de resfriamento de leite. Tais iniciativas vieram acompanhadas de abertura e melhoria de estradas interligando Santa Tereza da Varginha e Paiol a Cachoeirinha e São José do Triunfo, Nobres, Piúna e Duas Barras a Estiva, Córrego São João e Pau de Cedro, Paiol a Piúna, além de manutenção de várias pontes e construção de poço artesiano no São João. Quando assumiu a Prefeitura, 23% das propriedades rurais não possuíam energia elétrica. E quando a deixou, eram apenas 5% sem energia.
Outro marco relevante da administração de Fernando Sant’Ana e Castro foi a extinção do velho lixão com a conseqüente construção do aterro sanitário, numa área de 17 hectares no Siriqüite, aquisição da municipalidade. Com esta medida e investimentos de mais de um milhão e 500 mil foi que se pôde, outrossim, colocar a Usina de Reciclagem de Lixo em funcionamento. Fernando Sant’Ana determinou o início das obras de tratamento de esgoto do ribeirão São Bartolomeu e a elaboração de projeto para atender ao Córrego da Conceição. Criou e implantou as secretarias de Trânsito e a de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia, e em convênio com a Universidade Federal de Viçosa iniciou-se o processo para a implantação do Centev (Centro Tecnológico de Viçosa) nas antigas instalações do Patronato Agrícola, parque este que, com sua incubadora de empresas, é inegável conquista para Viçosa, com a possível geração de milhares de empregos no futuro.
Ainda no governo Fernando Sant’Ana foi incorporada ao município a Praça Municipal de Esportes, antiga sede da Associação Esportiva Viçosense (AEV) e Viçosa Tênis Clube (VTC), tendo ele determinado, ainda, aquisição de cotas do Colégio de Viçosa, incorporando seu patrimônio ao do município, no qual foram construídas garagem, almoxarifado, arquivo e a quase totalidade do edifício que seria destinado ao Centro Educacional, além do Fórum da Comarca, Quartel da Polícia Militar, sede do Consórcio Intermunicipal de Saúde, e onde passaram a funcionar, no prédio do Colégio, secretarias municipais e a policlínica, inclusive a Secretaria de Saúde. A própria sede da Câmara Municipal é considerada conseqüência de tal aquisição.
Viçosa obteve a “Gestão Plena de Saúde” em seu governo, servidores da Saúde conquistaram um Plano de Cargos e Salários dos Servidores da Saúde, bem como se criou e instalou o Instituto de Previdência dos Servidores do Município de Viçosa (IPREVI), com o qual se pôde fazer economia mensal de 10% do valor total da folha de pagamento dos funcionários, garantindo-lhes aposentadoria.
O prefeito Fernando tomou a iniciativa de elaboração do Plano Diretor de Viçosa (PDV), da Lei de Ocupação, Uso do Solo e Zoneamento (Lei nº 1.240/2000), do Código de Saúde (Lei nº 1.468/2001), do Código Ambiental (Lei nº 1.523/2002), do Código de Posturas e do Código Tributário Municipal (Lei nº 1.627/2004).
Implantou a Gestão Democrática nas escolas com eleições diretas para diretor e coordenador escolar, o “Pó de Giz” (gratificação de incentivo à docência) a GAM (Gratificação de Apoio á Docência), o Estatuto e Plano de Carreira do Magistério, em janeiro de 2000, com reposicionamento automático de todo professor, a efetivação das progressões dos educadores a cada 3 anos, a profissionalização do monitor de creche e a criação do cargo de assistente administrativo. Em 1997 a rede municipal de ensino atendia 1.640 alunos e em 2003, eram já 8.000, no ensino infantil e fundamental.
Transcorreu em seu governo a criação de escolas como a Anita Chequer e a aquisição de terreno e ampliação de outras, e a municipalização das escolas estaduais José de Paula Lana, Dom Bosco, Monsenhor Joaquim Dimas Guimarães, do Paraíso, Maria Eugênia de Freitas, João Francisco da Silva, Edmundo Lins e Coronel Antônio da Silva Bernardes. A administração sob seu comando re-implantou a Biblioteca Municipal, uma de suas realizações mais aplaudidas pelos munícipes na área cultural, a exemplo de seu apoio á ampliação das atividades da Escola Experimental de Artes. Já na área de saneamento Interligação das duas estações de tratamento d’água (ETA I e 2), melhoramento fundamental no abastecimento do município. Instalou ainda o Serviço de Inspeção Municipal, o Projeto Pingo D’água, de conservação do solo com proteção de nascentes e mananciais, em convênio com a Universidade, o Orçamento Participativo, a Farmácia Comunitária, incentivou a formação do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e a criação e instalação de um Núcleo de Assistência Judiciária gratuita aos menos favorecidos da sorte.



Raimundo Nonato Cardoso (2005-2008/2009-2010)



Quando se elegeu o prefeito Raimundo Nonato Cardoso, em 2004, Viçosa possuía 47.142 eleitores. Eleito com 17.380 votos, pela coligação PSDC/PTN, tendo como vice o advogado Wesley Augusto Salomé de Castro, viçosense nato, eles disputaram com quatro chapas. Foi grande a abstenção: 6513 ausentes às urnas. Compareceram 40.629 eleitores. A chapa segunda colocada foi a da coligação PDT/PMDB, da dupla Luís José de Arruda Alves e Marco Antônio Maffia, com 12.678 votos. Maria Emília Soares Garcia, tendo como vice Francisco Machado Filho (PFL) obtiveram 4.392 sufrágios. Rafael Kopschitz Xavier Bastos, tendo como vice William Francisco Alves (PT/PSB), 2.978 votos. E a dupla do PSTU, Cleverson de Mello Sant’Anna e Tiago Costa Ferreira, 355 votos, sendo registrados 784 votos em branco e 2.062 nulos. Em 2005, quando do primeiro ano de mandato de Raimundo Nonato Cardoso, Viçosa tinha população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 73.121 habitantes. Já quando de sua reeleição, em 2008, eram estimados 70.994 habitantes, sendo 50.583 os eleitores. Quatro candidatos disputaram a Prefeitura, sendo 16.841 os votos com os quais reelegeu-se Raimundo Nonato Cardoso, tendo desta feita como vice a professora Lúcia Duque Reis, do PT. O médico Celito Francisco Sari, do PR, tendo como vice o professor Dirceu Teixeira Coelho (PV), obteve 16.546 votos. O empresário César Augusto de Melo Felisberto, tendo como vice Nelson Miranda (PTC), 288 votos, e o funcionário público Sérgio Cardoso Pinheiro (PSB), tendo como vice o professor José Muanis Bhering Nasser, do PP, 5.570 sufrágios. Para apenas 10 vagas, na ocasião foram 152 os candidatos à vereação, dos quais 44 mulheres. Raimundo Nonato se tornou, então, o primeiro político a reeleger-se consecutivamente para o cargo de prefeito de Viçosa.
Nascido de uma família de pequenos agricultores, ele foi, desde menino, também agricultor. Trabalhou em São Paulo como montador de móveis durante quatro anos e funcionário da Universidade Federal de Viçosa (auxiliar de serviços gerais). Participante ativo da vida política de Viçosa desde 1984, como cabo eleitoral, o filho de Teresa Nascimento de Jesus e Benjamim José Cardoso foi eleito, pelo Partido da Frente Liberal (PFL), vereador, pela primeira vez, em 1988, com 477 votos, sendo o mais votado em todo o município. Reeleito por duas vezes, em 1992 (novamente o mais votado) com 464 votos, e em 1996, em terceiro lugar, com 505 votos. Na Câmara, foi membro da Comissão de Orçamento e Finanças, vice-presidente por dois mandatos e presidente no biênio 1999/2000, quando provou ser um bom administrador. O Legislativo tinha então uma dívida de 34 mil reais de INSS atrasado. Conseguiu resgatá-la, devolvendo R$ 40.000,00 para o Executivo comprar uma ambulância, no final do referido ano de 1999, e fechou o ano pagando todos os fornecedores, vereadores e funcionários, deixando ainda R$ 50.486,00 em caixa, além dos R$ 46.000,00 do repasse referente ao mês de dezembro. Com esse repasse, a Câmara contava então com R$ 96.486,00 em caixa. Naquela ocasião, era desejo dele que o então chefe do Executivo utilizasse bem o recurso devolvido pelo Legislativo, comprando, por exemplo, um aparelho de endoscopia para o Hospital São Sebastião, ou um micro ônibus para transportar estudantes da zona rural ou ainda um veículo Kombi para transportar os pacientes da hemodiálise do Hospital São João Batista, beneficiando diretamente as áreas da saúde e da educação. Trabalho, amizade e respeito sempre foram os ingredientes de sua receita para quem quisesse se eleger para cargos políticos. Raimundo Nonato sempre atribuiu suas maciças votações à grande amizade que deixou por onde passou e ao trabalho de socorrer pessoas enfermas. Quando não dispunha de carro conduzia enfermos em sua própria bicicleta.
Desde 1992, Raimundo vinha pleiteando sua candidatura à chefia do Executivo, pelo PFL, quando seu partido optou pela dupla José Américo Garcia e Carlos Raymundo Torres. Em 1996 tentou disputar novamente a convenção do PFL, como candidato a prefeito, ocasião em que a agremiação coligou-se com o PPS, lançando a chapa Antônio Fagundes de Sousa e Arnaldo Dias de Andrade. Nas eleições de 2000 foi lançado candidato a vice-prefeito pelo seu partido de origem, compondo chapa com Fernando Sant'Ana e Castro pela coligação PTB/PFL. Foi o vereador mais votado em 1988, com 477 votos, reeleito por duas vezes, em 1992, com 464 votos, e em 1996, com 505 votos. Ele obteve, em 2004, a segunda maior votação registrada até então para a chefia do Executivo viçosense. Seu mandato foi cassado pela Justiça Eleitoral em 2009, tendo permanecido no cargo até junho de 2010, quando foi substituído pelo médico Celito Francisco Sari.


Celito Francisco Sari (2010- )



Diplomado e empossado prefeito a 1º de julho de 2010, Celito Francisco Sari assumiu o comando administrativo de Viçosa por determinação da Justiça Eleitoral, pelo motivo da cassação do mandato de seu antecessor, Raimundo Nonato Cardoso e da vice-prefeita Lúcia Duque Reis, tendo então como meta governamental a promoção do crescimento e desenvolvimento. Os anos de 2009 e 2010 foram tumultuosos com a propositura de ações de investigação judicial eleitoral, questionando o recebimento de supostas doações financeiras em espécie e também estimados, em forma de serviços, provenientes de fontes vedadas pela Lei Eleitoral então vigente, dos comitês de campanha tanto de Raimundo Nonato como de Celito Sari, as quais pediam as cassações dos mandatos de um e de outro, Celito Franciso e de Raimundo Nonato, pelo mesmo motivo: arrecadação e distribuição de recursos de fonte vedada durante a campanha eleitoral de 2008. Raimundo Nonato foi cassado em primeira e segunda instâncias, e pelo acatamento de um recurso especial pelo desembargador Kildare Carvalho, então presidente do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), que admitiu que doação de fonte vedada não ensejaria, no caso, a imposição da grave sanção de cassação do diploma de prefeito de Raimundo Nonato e de sua vice Lúcia Duque Reis, o processo subiu para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em julho de 2010. Em 13 de outubro de 2009, fora proferida a primeira sentença, em Viçosa, cassando o diploma de prefeito Raimundo Nonato, e a confirmação da cassação aconteceu no dia 27 de maio de 2010, no TRE.
As ações administrativas de Celito Sari seriam pautadas, conforme seu programa de governo, em "três pilares de sustentabilidade": social, econômico e ambiental. Quarto médico a assumir a chefia do Executivo viçosense, Celito, filho dos agricultores Victor Sari e Onorina Sari, nasceu a 31 de janeiro de 1949. Gaúcho de Faxinal do Soturno, casado com Suely Carvalho, pai de Renata, Victor, Diana, Celitinho e Giovanna, ele cursou o ensino primário em escola municipal e o curso secundário em escola estadual. Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença – 1ª turma da Fundação Educacional Dom André Arco-Verde, em Valença (RJ), colando grau em 1973. Posteriormente, concluiu Residência Médica em Cirurgia Geral pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e cursou Cirurgia Geral (Mestrado) pela mesma instituição, atuando em Viçosa desde 1984. Recebeu título de cidadão viçosense em 1988 e foi diretor clínico do Hospital São Sebastião e chefe do Serviço de Cirurgia da mesma Casa, atendendo ainda no Centro Médico, no Centro de Saúde da Mulher e da Criança de Viçosa, no Consórcio Intermunicipal de Saúde da Microrregião de Viçosa, no Hospital São João Batista e no Hospital São Sebastião. Em 2004, seria candidato a vice-prefeito na chapa de Luís José de Arruda Alves (Tilu), quando, por acordos políticos de última hora, foi preterido pelo também médico Marco Antônio Maffia (PSDB), causando uma cisão do grupo político liderado por ambos, Tilu e Celito, que desde então se tornaram adversários, tendo Tilu e seu grupo apoiado, nas eleições de 2008, a chapa liderada pelo ex-prefeito Raimundo Nonato Cardoso.



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DE DISTRITO À AUTONOMIA ADMINISTRATIVA




“A história de uma cidade é feita pelo seu povo, pelos seus líderes e iniciativas por eles tomadas”, é consagrada assertiva. Diferentemente dos períodos em que predominou o autoritarismo, com concentração de amplos poderes nas mãos do Poder Executivo, a Câmara Municipal de Viçosa passou a se empenhar mais e melhor, na década de 90 do século XX, na discussão e aprovação de leis que antes passam pelo crivo de amplos debates de temas de interesse público e geral da comunidade viçosense. O passo inicial e decisivo para esta boa forma de se fazer política foi dado na instalação, a 30 de setembro de 1989, da Assembléia Orgânica Municipal, que veio substituir a Lei de Organização Municipal e o Estatuto da Câmara da Cidade Viçosa, e que resultou, após 172 dias de trabalho, na 1ª Lei Orgânica Municipal (LOM), definida como “o instrumento para a concretização das nossas aspirações”, pelo vereador Arnaldo Dias de Andrade, presidente da Câmara quando de sua promulgação a 31 de março de 1990. Contendo 211 artigos, o projeto da LOM recebeu inicialmente 221 emendas, 9 entre as quais, emendas populares. Foram vereadores constituintes, além do retro citado presidente do Legislativo: Euter Paniago(relator), João Paulino Gouveia Neto, Joaquim de Castro Rocha Filho, Jorge Rafael Ferraz, José Antônio Gouveia, José Chequer, José de Arimathéa Silveira Marques, José Ferreira Pontes, Ludovico Martino, Raimundo Nonato Cardoso, Raimundo Nonato da Silva astro, Reiner Martins, Roberto Proença Passarinho, Rosângela Sant’Ana Fialho, Rosemary Batalha Araújo e Wantuir Lopes Ferraz. “A partir de agora ter-se-á em Viçosa um Legislativo mais presente e mais participante na vida administrativa do município [...] Não mais seremos governados por leis escritas nos escritórios dos grandes centros, sem o devido conhecimento do que se passa numa pequena e pobre cidade interiorana de Minas Gerais”, destacou o relator por ocasião da publicação da lei.


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Em 1826, o padre Diogo Antônio Feijó já defendia a instituição do cargo de comandante ou subpresidente municipal, por escolha do governo provincial numa lista tríplice apresentada pelas Câmaras. Com a promulgação do Ato Adicional de 1834, São Paulo resolveu criar o cargo de prefeito, pela Lei nº 18, no longínqüo 11 de abril de 1835, seguindo-se províncias nordestinas como Alagoas e Pernambuco, por Força do Decreto Regencial de 9 de dezembro do mesmo ano, assinado por Pe. Feijó, que incentivou a adoção desse sistema administrativo pelas províncias. Desde 1862 já se pleiteava no Senado do Império a separação de atribuições deliberativas das administrativas pelos oficiais, almotacés, juízes e vereadores, agentes públicos que compunham os governos municipais. Os conselhos dos distritos-sede dos municípios foram extintos em 1898, e os outros conselhos por força da Lei nº 373 de 17/9/1903, que foi também o passo decisivo no tocante ao fim das Assembléias Municipais. Foi a Lei nº 110, de 24/7/1894, que separou do de Agente Executivo o cargo de Presidente da Câmara, quando o primeiro foi instituído. Anteriormente, era um só cidadão, ao mesmo tempo, o presidente da Câmara, o Agente Executivo e o Intendente. Com o advento da primeira Constituição Republicana, a Lei Mineira nº 2, de 14/9/1891, intentou organizar os municípios ao trazer em seu bojo a criação de Conselhos Distritais, de efêmera existência, constituídos cada de três membros cada. Numa grande concentração de poderes, seus integrantes eram autônomos nas votações dos orçamentos próprios. “Criava ainda, a mesma Lei, as Assembléias Municipais, instituições amorfas e inconscientes, espécie de tribunais de contas constituídos pelos próprios gestores dos dinheiros públicos; as Assembléias Municipais eram formadas dos vereadores em exercício, dos membros dos Conselhos Distritais e dos cidadãos residentes no município, que pagassem maior soma de impostos, em número igual ao daqueles reunidos”, informa-nos SANTIAGO (nº?). Tinham a atribuição de reunir-se anualmente, uma só vez, para julgamento de contas da Câmara e dos Conselhos, além de se cientificar de reclamações, tanto daquela como desses, e finalmente para sentenciar em seu próprio favor. E o Agente Executivo? Não passava, na prática, de mera peça de decoração.
Como já afirmamos noutra parte do presente trabalho - na qual tratamos de notícias de governantes municipais - no período republicano o cargo de prefeito só veio a ser regulamentados na Carta Constitucional de 16 de julho de 1934, quando se instituiu o denominado “governo municipal biorgânico”, ou seja, Prefeitura e Câmara, independentes e harmônicos entre si. Até ali a função era exercida por vereadores que presidiam a Câmara. Esta era constituída de edis gerais e distritais, que concentravam atribuições administrativas, judiciárias e deliberativas, administrando os bens do Conselho (Município), conforme determinação da Constituição Imperial. Pela Lei nº 4.897, de 2/2/1931, o interventor mineiro Olegário Maciel decretou a dissolução das Câmaras Municipais e instituiu os Conselhos Consultivos, formado por 5 membros, entre os quais os dois maiores contribuintes de impostos em seus municípios e 3 cidadãos de livre escolha do chefe do governo municipal. Em 1934, o fazendeiro e ex-aluno da Escola Militar do Realengo (RJ), Antonelli de Carvalho Bhering foi o primeiro viçosense a exercer a chefia da administração municipal sob o título de Prefeito. Eleições diretas aconteceram somente a partir de 1947, quando foi eleito para o cargo o advogado José Lopes de Carvalho. A 18/8/1935 foi instalada a Assembléia Legislativa de Minas Gerais, que pouco depois, a 10/11/1937, fora suspensa, ocasionando a contingência de os prefeitos serem nomeados pelo governo do Estado Novo. A democracia seria restabelecida a 2 de dezembro de 1945, até quando o prefeito funcionava como intendente ou superintendente municipal.



CÂMARA DA VILA DO POMBA



As origens político-administrativas de Viçosa estão na primeira Câmara da Vila de São Manoel da Pomba, primeira Vila e primeiro município criado na Zona da Mata mineira, ao qual integrou a atual cidade de Viçosa. Posteriormente, o antigo arraial de Santa Rita do Turvo passou a figurar no termo do segundo município criado: a atual cidade de Visconde do Rio Branco. De acordo com SANTIAGO (nº ? ), à página 99“a 7 de janeiro de 1837 assumiu o cargo de presidente da Câmara riopombense o fazendeiro Major Manoel de Oliveira, tendo como Vice-Presidente o Padre Manoel Antônio Brandão. Todo o vale do Rio Pomba até a sua foz no Paraíba, inclusive Santo Antônio de Pádua (hoje município fluminense) pertencia naquele tempo ao município do Pomba, que contava então com os seguintes distritos: Pomba (sede da vila); Santa Rita do Turvo (Viçosa); Presídio (Visconde do Rio Branco); Ubá; São José do Paraopeba (Tocantins); Santo Antônio do Porto (Astolfo Dutra); Dores do Turvo; Conceição do Turvo; Mercês; Bonfim (Aracitaba); São José do Paraíba; Madre de Deus do Angu (Angustura); Cágado (Mar de Espanha); Espírito Santo (Guarará); São João Nepomuceno; Conceição do Rio Novo; Descoberto; Tesouro do Feijão Cru (Leopoldina); Santa Rita da Meia Pataca (Cataguases) e São José do Barroso (Paula Cândido). – Total: 20.” Datado de 13 de outubro de 1831, a seguir transcrevo, ipsis verbis, o Decreto que criou a Vila e o Município do qual Viçosa foi parte integrante nos primórdios de seu povoamento.


“A Regência em nome do Imperador o Senhor Dom Pedro Segundo, Ha por bem sancionar e Mandar que se execute a Seguinte Resolução da Assembléia Geral Legislativa, tomada sobre outra do Conselho Geral da Província de Minas Gerais
– Artigo primeiro. – Ficão criadas Villas na Província de Minas Gerais as seguintes Povoaçoens
= 1ª - A Povoação de São Manoel da Pomba, comprehendendo no seo Termo a Freguezia do mesmo nome e a do Presidio de São João Baptista.
= 2ª - A Povoação do Curvello, comprehendendo no seo Termo a Freguezia do mesmo nome.
= 3º - A Povoação do Tejuco, comprehendendo em seo Termo a Freguezia do mesmo nome, a do Rio Preto, e as Povoaçoens do Rio Manso, Curimatahi, Pissarrão, Rebello e Cotonio.
= 4ª - A Povoação do Rio Pardo, comprehendendo no seo Termo a Freguezia do mesmo nome, e a de São Miguel de Jequitinhonha.
= 5ª - A Povoação de São Româo, comprehendendo no seo Termo, o Julgado do mesmo nome, e a do Salgado.
= 6ª - A Povoação de São Domingos do Arachá, comprehendendo no seo Termo, o Julgado do mesmo nome, e a do Desemboque.
= 7ª - A Povoação de Pouso Alegre, Camanducaia, Ouro Fino e Caldas.
= 8ª - A Povoação das Lavras do Funil, comprehendendo no seo Termo a Freguezia do mesmo nome, e a de Dores Pantano e dividindo com os termos das Villas de São José, a de São João d’El Rey pelo Rio Grande até a Barra de Capivari, e por este até a Freguezia de Cananeas.
= 9ª - A Povoação de Formiga, na Comarca do Serro do Frio, comprehendendo no seo Termo a Capella do mesmo nome, a do Bom Fim, e Contendas, e as Freguezias da Barra do Rio das Velhas, e Morrinhos. – Artigo 2º - Em cada huma das Villas do Artigo antecedente fica criada huma Camara Municipal, com a mesma autoridade, e atribuições da do Termo de que faz parte, dous Juizes Ordinários e hum de Orphans, quando ainda não tenhão = Artigo 3. – Os Julgados que fazem parte das Villas criadas continuarão a ter as mesmas Authoridades que presentemente, ficando unicamente sujeitas a Authoridade Municipal.

José Lino Coutinho, do Conselho do mesmo Imperador e Ministro e Secretario de Estado dos Negocios do Imperio o tenha assim entendido e faça executar. Palacio do Rio de Janeiro em treze de Outubro de mil oitocentos e trinta e hum decimo da Independencia e do Imperio.
Francisco de Lima e Silva. – José da Costa Carvalho. – João Braulio Muniz – José Lino Coutinho. – Rio de Janeiro. Na Typographia Nacional. Mil oitocentos e trinta e hum.”


Ainda conforme o mesmo autor, à página 473, “em 23 de agosto de 1832 teve lugar a installação da villa, assim como a posse da nova edilidade, cujos membros forão: - Presidente, Capitão Bento Joaquim Pereira, a quem o vigário João Bonifácio Duarte Pinto deferio juramento em virtude de ordens do Conselho da Provincia, Capitão Felisberto Vieira de Souza, Manoel Coelho de Oliveira, Revdo. Francisco da Silva Guerra, Sargento-mór João Bento Pereira Salgado, Francisco José Goulart e Capitão Francisco Leite de Magalhães Pinto, sendo designado o Vereador Goulart para servir de Secretário interinamente.”
Sobre o primeiro presidente da Câmara riopombense, no período compreendido entre 25-8-1832 e 7-1-1837, o mesmo historiador, à página 92 de sua monumental obra, nos informa que como vereador o Capitão Bento Joaquim “tomou parte em algumas sessões permanentes que a Câmara Municipal celebrou durante o período revolucionário de 1842.
Foi cidadão importante e como fazendeiro possuía boa fortuna.
Foi o primeiro Presidente da Câmara Municipal tendo por vezes exercido cargos de eleição popular e de nomeação do governo do qual era muito considerado pelas excelentes qualidades que possuía, sendo como político o Chefe do Partido Conservador do Município.
Conforme as notas que temos, além de outros cargos, exerceu o Capitão Bento também os seguintes: Juiz de Direito Interino da Comarca que compreendia então os termos de Barbacena, Baependy e Pomba, coletor da 39ª Coletoria parcial de impostos em São João Batista do Presídio, que compreendia as freguesias do mesmo nome e São José do Barroso, Santa Rita da Meia Pataca, Ubá, Dores, Formoso, Mercês e Conceição do Turvo, nomeado a 25 de junho de 1838; primeiro substituto do Juiz Municipal para o que, pelo Dr. Carlos Pereira Campos, foi nomeado a 9 de abril de 1842; terceiro substituto do Juiz Municipal dos termos reunidos de Barbacena e Pomba, para o que pelo presidente interino Francisco José Soares de Souza Andrade, foi nomeado a 7 de abril de 1843, e delegado de polícia do termo, por nomeação pelo dito presidente interino, feita a 7 de agosto de 1843."
O major Manoel Gomes de Oliveira foi o sucessor imediato de Bento Joaquim Pereira, desde o dia 7 de janeiro de 1837, na condição de vereador mais votado, cabendo a esse segundo presidente “não só aprimorar e consolidar o poder legislativo municipal, como realizar uma administração a contento geral dos habitantes da vila e dos distritos”, ainda conforme SANTIAGO (nº?).
Acrescente-se, ainda uma vez, o fato de que, naquele tempo anterior à promulgação da lei nº 134, de 23 de março de 1939 (que provocou o primeiro grande desmembramento territorial do Município do Pomba), que facultou ao então pequeno distrito e freguesia de Santa Rita do Turvo (Viçosa) integrar-se ao Termo de São João Batista do Presídio (Visconde do Rio Branco), o segundo município da Zona da Mata, Rio Pomba tinha suas divisas ao Norte com o de Mariana, iniciando na Serra dos Arripiados, hoje município de Araponga, prolongando-se, na nossa região, até a freguesia do Guarapiranga (Piranga) e sua capela filial de São José do Xopotó.


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A Câmara da Vila do Rio Pomba foi instalada obedecendo-se a regras estabelecidas na Lei de 1º de outubro de 1828, quando a legislação pertinente era da exclusiva competência do Governo do Império. A Câmara do Pomba foi a única da Zona da Mata instituída observando-se este velho sistema, que procurava dar uma configuração própria à organização municipal, regulamentando o funcionamento de vilas e cidades. As outras Câmaras, como a de Santa Rita do Turvo, foram constituídas por atos do Conselho Provincial. A instalação do Poder Legislativo em Minas se dera a 31 de janeiro de 1835, com o Conselho-Geral da Província.
Após a Proclamação da República, instalou- se, em 1891, o Congresso Mineiro com duas casas: a Câmara dos Deputados e o Senado do Estado de Minas Gerais. Em 1930, instituído por decreto o Governo Provisório dos Estados Unidos do Brasil, foram dissolvidos os parlamentos dos níveis federal, estadual e municipal. Anteriormente, uma Carta de Lei Provincial, datada de 12 de agosto de 1834, alterou a legislação que dispunha sobre a criação de distritos, competência que se transferiu para a presidência de Minas. As antigas resoluções das Câmaras Municipais foram então extintas. Estas observavam termos de um Decreto Imperial, de 11 de setembro de 1830, que as autorizava eleger juízes de paz nas “capelas filiais curadas” e dispunha sobre delimitações territoriais distritais, por essas Câmaras, demarcadas, nos casos específicos em que as capelas não tivessem construídas ainda no seu entorno mais do que 75 casas. Quando da instalação da Vila do Pomba, foram despendidos 40$700 (quarenta contos e setecentos réis), pelo capitão Bento Joaquim Pereira, que comprou os livros e financiou a estadia do referido ouvidor no Pomba, para os cerimoniais.
Tal importância só foi paga pela Câmara, 11 meses após (a 20 de julho de 1833), quando a província de Minas tinha já um novo presidente: Dr. Antônio Paulino Limpo de Abreu. Pela Resolução Provincial de 30 de junho de 1833, que criou a Comarca do Rio Paraibuna, o distrito de Santa Rita do Turvo ficou judiciariamente subordinado ao Termo da cidade de Mariana, da Comarca de Ouro Preto. O vocábulo “distrito” possuía sentido impreciso e designava uma região ou zona povoada, sem o propósito de indicação de subdivisão administrativa. E em face da Lei nº 134, de março de 1839, que elevou a Freguesia de São João Batista do Presídio à categoria de Vila, o distrito de Santa Rita do Turvo foi desmembrado da imensa região fisiográfica até então jurisdicionada pelo Pomba, passando a compreender no Termo desta que desde 1882 é a cidade de Visconde do Rio Branco (Paranhos).
Por um decreto datado de 30 de setembro de 1871, Santa Rita do Turvo foi elevada a Vila, sendo pertencente, nesta última ocasião, ao município de Ubá e à Comarca de Piranga, até que pudesse adquirir o prédio público da Câmara e cadeia, no exato local em que se encontra o imóvel de número 136 da atual praça Silviano Brandão (antigo Largo da Matriz), depois sede do Gimnasio de Viçosa, e que foi demolido no governo do prefeito José da Costa Vaz de Mello (1951-1954), na esquina direita da Rua dos Passos. A existência de tal prédio foi a garantia final da conquista da autonomia de um governo local. A tão almejada instalação oficial do município de Santa Rita do Turvo, com seu paço próprio, se efetivou ali, enfim, a 30/4/1873, sendo presidente de Minas, Venâncio José de Oliveira Lisboa. A inauguração da Vila (depois cidade de Viçosa) realizou-se a 22 de janeiro daquele mesmo ano (1873), tendo Joaquim Floriano de Godói à frente do governo da província mineira. Foi quando assumiu a presidência da Câmara santa-ritense o mestre-escola e coletor estadual Manuel Bernardes de Souza Silvino, conhecido como Neca coletor, que permaneceu no cargo, no primeiro de seus dois mandatos, até 1876, ocasião em que ocorreu a mudança do topônimo municipal para Viçosa de Santa Rita, a 3 de junho, já com o título de Cidade, pela Lei nº 2.216. O município, mesmo após criado em ato legislativo, passou a existir, de fato e de direito, somente depois de realizado o ato festivo de instalação, quando foi declarado oficialmente como órgão autônomo de administração, com as devidas formalidades legais. A data de seu registro é assim a que tem a maior importância histórica.



CICLO DE EMANCIPAÇÕES



Nosso mapa não é o mesmo de outrora (vide iconografia). Inicialmente, nos oitocentos, eram distritos viçosenses São Sebastião do Herval, Coimbra, Santo Antônio dos Teixeiras, São Miguel do Anta, São Sebastião da Pedra do Anta, São Miguel do Araponga e São Vicente do Grama, quase todos emancipados, com encargos de progressistas cidades. Apenas este último é ainda distrito, atualmente do município de Jequeri. É datada de 12/4/1877 e arquivada na Câmara Municipal de Viçosa a ata relativa à “primeira sessão legislativa da primeira legislatura”, sob a presidência do fazendeiro, advogado e industrial Dr. Carlos Vaz de Mello, que foi o segundo cidadão a governar Viçosa, em dois períodos distintos, entre 1877 e 1878 e de 1887 a 1891.
Em 1911, o município de Viçosa compunha-se de oito distritos: Viçosa, Teixeiras, São Miguel do Anta, Coimbra, Ervália, Araponga, São Vicente do Grama e Pedra do Anta, como consta no Recenseamento Geral de 1º/9/1920. Pela Lei Estadual nº 845, de 7/9/1923, criou-se o distrito de Canaã, com território desmembrado de São Miguel do Anta, passando a nove o número de distritos. Por efeito do Decreto-Lei Estadual nº 148, de 17/12/1938, Viçosa sofreu as seguintes alterações: perdeu o distrito de São Vicente do Grama para o município de Jequeri, ficando também sem os distritos de Ervália e Araponga, então transferidos para o recém-criado município de Ervália.
Viçosa perdeu os distritos de Teixeiras e Pedra do Anta, quando o primeiro se emancipou. Pedra do Anta só se emanciparia a 30/12/1962, pela Lei nº 2.764, ao se desmembrar de Teixeiras. Até então era seu único distrito. Na divisão administrativa de 1911, Pedra do Anta figurou como distrito de Viçosa. Oficializado como povoado por uma licença imperial de 1829, Pedra do Anta teve Santo Antônio dos Teixeiras como capela filial. Sua área é de 163.788 quilômetros quadrados. Foi elevada a distrito a 20/7/1843, pela Lei nº 247. No dia 9/10/1848 tornou-se Freguesia, com o nome de São Sebastião da Pedra do Anta. Já pertenceram à sua Paróquia os curatos de São Miguel do Anta, Jequeri e Teixeiras. Em 1869 a construção da Igreja de São Sebastião foi iniciada pelo padre Francisco de Paula Homem, um dos marcos de sua história. Sua primeira iluminação, a gasômetro de carbureto e lampiões de querosene, funcionou de 1927 a 1947. O primeiro telefone apareceu por lá em 1935. Pedra do Anta passou a pertencer ao município de Teixeiras em 1946. Seu primeiro prefeito foi Nilo Brandão Viana. Distrito desde o século XIX, Teixeiras foi elevada a esta categoria pela Lei nº 3.171, de 18 de outubro de 1883. Desde 1928, por dez anos, Teixeiras foi Vila. E até a promulgação da Lei Estadual nº 1.039, de 12/12/1953, o Termo (subdivisão de Comarca) de Teixeiras ainda era ligado a Viçosa. Dataria, segundo alguns pesquisadores, de 1840, a origem do povoado, com o nome primitivo de Ribeirão dos Teixeiras. Não há registros históricos relacionados ao ano em que se iniciou a formação do núcleo habitacional, que se desdobrou em povoado, arraial e distrito, com 179,22 quilômetros quadrados, e finalmente, na progressista cidade. Do tropeiro Alexandre Magno da Silveira foi a iniciativa de se construir o primeiro templo católico dos teixeirenses. Em 1922, quando Arthur Bernardes (que ali iniciara sua carreira política como vereador em 1905) ocupava a presidência da República e Antônio Gomes Barbosa exercia a chefia do município de Viçosa, ali chegou a tão sonhada energia elétrica, trazendo uma nova era de bem estar e prosperidade. O primeiro intendente teixeirense foi o Dr. Cláudio José Mariano da Rocha, nomeado em 1938, quando o governador de Minas era Benedito Valadares. Pérmio Fialho, em 1947, seria eleito o primeiro prefeito de Teixeiras.
Pelo referido Decreto-Lei nº 148, de 17/12/1938, Viçosa passou a constituir-se de 5 distritos: Viçosa, Cajuri, Canaã, Coimbra e São Miguel do Anta. E pelo Decreto-Lei nº 1.850, de 31/12/1943 foi constituída nova divisão judiciário-administrativa estadual, vigente de 1944 a 1948. A Lei Estadual nº 336, de 27/12/1948 estabeleceu outra nova divisão administrativa e territorial de Minas. Foi quando Coimbra se emancipou de Viçosa, restando, portanto, Canaã, Cajuri e São Miguel do Anta. Localizada numa altitude de 720 metros, Coimbra possui uma área de 107,12 quilômetros quadrados. A Lei nº 1.103 de 16 de outubro de 1861 elevara Coimbra a distrito, pertencente a Santa Rita do Turvo (Viçosa), após ter pertencido a Ubá e a Rio Pomba. Elevada a Curato em 1870, tornou-se paróquia pela Lei nº 2.031, de 1º de dezembro de 1873. Sua moderna toponímia é devida ao português Manoel Coimbra, proprietário do primitivo sítio, a Pousada, depois Rancho dos Coimbras, doador de uma sorte de terras ao patrimônio canônico, para ereção da Capela de São Sebastião. O outrora São Sebastião dos Coimbras teve seu topônimo reduzido para Coimbra pela Lei Provincial nº 843 de 14/9/1891, o que foi confirmado pela Lei Estadual nº 2 de 7/9/1923 após ter sido desmembrada do município de Ubá. Pela Lei Estadual nº 1.039 de 12/12/1953, que constituiu nova divisão judiciário-administrativa em Minas, São Miguel do Anta e Canaã passaram a formar o município de São Miguel do Anta, desmembrando seus territórios de Viçosa, ficando esta última apenas com o distrito de Cajuri, que também foi elevado à condição de município pela Lei n° 2.764, de 31/12/1962. Em 1940 eram somente 5 os distritos: Viçosa, Cajuri, Canaã, Coimbra e São Miguel do Anta. Em 1950 o território municipal era formado dos distritos de Viçosa, Cajuri, Canaã e São Miguel do Anta. E de acordo com o Censo de 1960, por apenas dois: Viçosa e Cajuri. Pela Lei n° 2.764, de 31 de dezembro de 1962 o distrito de Cajuri foi elevado a Município, criando-se os distritos de Cachoeira de Santa Cruz e Silvestre. São José do Triunfo se tornaria distrito por Decreto Municipal assinado pelo prefeito Antônio Chequer, na década de 1990.



O DISTRITO DA SEDE E A COMARCA



No referente ao distrito da sede, dois anos após o referido decreto de 30/9/1871 (a Lei da Vila) é que se pôde instalar o Termo da Vila de Santa Rita do Turvo, subordinado à Comarca de Muriaé, sob a direção do juiz Antônio Augusto da Silva Canedo. Minas Gerais contava, em 1872, dois milhões de habitantes, sendo 83 os seus municípios. A província dividia-se judiciariamente em 47 comarcas, ainda jurisdicionados pelo Tribunal da Relação do Rio de Janeiro. A instituição da Relação de Minas só se efetivaria pelo Decreto Imperial nº 2.342, de 6 de agosto de 1873. A primeira audiência do Termo de Santa Rita se deu a 3 de abril daquele 1873. A Comarca do Rio Turvo (depois Ponte Nova) foi instituída em 1875, da qual Viçosa figurou como Termo. Joaquim Deuveaux Pinto Coelho atuou então como Juiz de Direito. A Comarca foi criada pelo Decreto Estadual nº 230, de 10/11/1890, sendo pertencente até então (depois de pertencer a Ponte Nova) à Comarca de Piranga. Atualmente é constituída pelos municípios de Viçosa, Paula Cândido, São Miguel do Anta, Canaã, Coimbra e Cajuri e instala-se fisicamente na rua José dos Santos desde 2005, com quatro Varas Judiciais, duas Cíveis, uma Criminal/Infância e Juventude e um Juizado Especial (Cível e Criminal), e o Cartório da 282ª Zona do Tribunal Regional Eleitoral, que administra os eleitores da Comarca.
A Comarca de Viçosa, até a promulgação da Lei Estadual nº 1.039, de 12/12/1953, compunha-se dos Termos de Ervália, Teixeiras e Viçosa. Nesta última ocasião, 1953, os dois primeiros municípios foram também elevados à categoria de Comarca.



CÂMARA, PREFEITURA, FÓRUM E CADEIA



Firmado a 24 de abril de 2006, um convênio permitiu a transferência, do Estado de Minas Gerais para a Municipalidade, do tradicional edifício público da praça Silviano Brandão, nº 5, para abrigar a sede própria da Câmara Municipal. Em 2008 ele recebeu a denominação de Edifício Dr. Octávio da Silva Araújo, homenageando um ex-presidente da Câmara Municipal (1948-1951).
Conforme registros históricos, o Legislativo fora instalado aqui no dia 30 de abril de 1873, pelo presidente de Minas, Venâncio José de Oliveira Lisboa, meses após a inauguração da então Vila de Santa Rita do Turvo (a 22 de janeiro de 1873), no governo provincial de Joaquim Floriano de Godói. O primeiro edifício-símbolo dos poderes municipais existira na esquina direita da Rua dos Passos com a praça Silviano Brandão, depois sede do Gymnasio de Viçosa. Foi demolido na década de 1950. Em seu salão transcorreram diversas legislaturas, desde a primeira, chefiada pelo tenente-coronel e mestre-escola Manuel Bernardes de Souza Silvino (Neca Coletor), que deixou grande descendência em Viçosa, representada, dentre outras famílias, pelos Ferreira e Alves da Silva.
Documentação arquivada na Secretaria de Estado de Administração de Minas Gerais, chegado às mãos deste blogger por intermédio do ex-chefe da assessoria deste órgão estatal, o jornalista viçosense Simão Cirineu Ladeira, registra a transmissão do terreno para a primitiva sede dos poderes públicos municipais. É exarada da forma seguinte:

“Termo pelo qual diversos cidadãos, se comprometem a aprontar, digo cederem um edifício para servir de cadêa e casa da Câmara da Villa de Santa Rita do Turvo.
Aos nove dias de julho de 1872 perante o inspector e o procurador fiscal da thezouraria provincial compareceo o Dr. Carlos Peixoto procurador bastante que mostrou ser dos cidadãos José Lopes de Faria Reis, Antônio José Gomes, Joaquim da Silva Soares Cabral, Francisco Lopes de Faria Reis e Antônio Modesto da Silva e ahi declarou que usando dos plenos podêres que lhe foram conferidos na procuração que ficou archivada nesta Repartição, por este termo e na melhor forma e via de direito ratificava em nome daqueles seos constituintes a sessão que fazem todos e cada um de per si, de um edifício para servir de cadêa e casa de câmara da Villa de Santa Rita de Turvo, afim de que possa ter desde já a execução a lei nº 1817 de 30 de setembro de 1871, devendo reverter ao cessionário, digo, o prédio aos cessionários no caso de supressão da mesma Villa, ou a transferência de sua séde. E por firmeza lavrou-se o presente termo, pagou de direito 2$000 conforme talão nº 95 desta data.

(a) - F. Luiz da Veiga
(a) - Carlos Peixoto de Melo
O Procurador Fiscal interino
Antônio Luiz Maria Soares de Albergaria"

Trata-se do imóvel de número 136 da praça Silviano Brandão, esquina com a Rua dos Passos, que já não existe, demolido que foi na década de 1950, e que em 1913 fora cedido ao município de Viçosa, por força de dispositivo da Lei 617, de 18 de setembro de 1913:

"Art. 5º - Fica o Presidente do Estado autorizado:
...............................................................
b) – A ceder gratuitamente à Câmara Municipal de Viçosa o prédio sito à Praça "Silviano Brandão", na cidade de Viçosa e que servia de cadeia, para nele funcionar o Ginásio daquela cidade.
Dada no Palácio da Presidência do Estado de Minas Gerais, em Belo Horizonte, aos 18 de setembro de 1913.

Julio Bueno Brandão
Arthur da Silva Bernardes"

Quanto ao edifício de número 5 da praça Silviano Brandão, nova sede da Câmara desde 2008, e que abrigou o Fórum da Comarca, cartórios e coletoria, além da Cadeia Pública, passou no ano de 1964 por uma reformulação orientada pelo Dr. Nilon Gomes, engenheiro da Secretaria de Estado da Viação, por força de uma verba estadual, na importância de 5 milhões, conforme noticiou a imprensa de então. Construído numa área de 431,48 m², em 1912, na esquina da antiga Travessa 10 de Novembro (depois e antes 22 de Junho), atual Dr. João Carlos Bello Lisboa, o prédio confronta, por um lado e pelos fundos, com os terrenos outrora pertencentes ao capitão Alfredo Pinto da Fonseca e foi vendido por Viçosa ao Estado, pelos exatos cinco contos e quatrocentos mil réis, conforme certidão expedida pelo Cartório do 2º Ofício de Notas da Comarca de Viçosa em 23 de maio de 1962, lavrada pelo tabelião interino, Geraldo Lopes de Faria. Tal documento alude a remotos registros do prédio, à folha 25do Livro 3-E, datado de 5 de outubro de 1912 (sob o número de ordem 2193), do livro da transcrição de transmissões, lavrados pelo tabelião Virgílio Augusto da Costa Val.
A transcrição certificada é subscrita pelo tabelião Sylvio Augusto Loureiro. Ei-la:


"Certifico, a pedido da parte interessada, que, revendo em seu cartório os livros destinados à transcrição de transmissões, verifico constar do Livro 3-E, fls. 25, em 5 de outubro de 1912, sob o nº de ordem 2193, a transmissão de Escritura Pública de compra e venda do imóvel situado à Praça Silviano Brandão, nesta cidade de Viçosa, passada pelo tabelião Virgílio Val, no valor de Rs. 5:400,000, sendo adquirente o Estado de Minas Gerais e transmitente Câmara Municipal de Viçosa constituído de:- os terrenos nos quais o Estado de Minas Gerais construiu o edifício que serve de cadeia e forum, dividindo os muros com casa e terrenos do Capitão Alfredo Pinto Teixeira por um lado e pelos fundos e pelo lado oposto com um beco que dá passagem para o pasto do major Emílio Jardim de Resende. Não Houve condições."


O fato é que em 1964 a profunda modificação sofrida pelo prédio cúbico do início do Calçadão da Rua Arthur Bernardes, foi orçada em 21 milhões de cruzeiros. A sede da Prefeitura, que no governo do prefeito Geraldo Lopes de Faria, no final da década de 1960, foi transferida com a Câmara para a Praça do Rosário, nº 5, para o prédio adquirido do Viçosa Clube. Funcionara também, na década de 1930, durante governo do prefeito João Braz da Costa Val, em imóveis provavelmente alugados. O que tem o nº 86 na rua Virgílio Val; o de nº 47 da Praça da Estação (atual Marechal Deodoro); e o de nº 132 da rua Arthur Bernardes, dali se transferindo para sua sede, juntamente com a Câmara, desde a década de 1940, onde permaneceu até 1969, na Silviano Brandão, no prédio que logo após serviu como Escola Estadual Dr. Raymundo Alves Torres, demolido na década de 1980, onde se ergue o edifício antes da Minas Caixa, hoje da Caixa Econômica Federal, na esquina com a travessa Presidente Tancredo Neves.
Descaracterizado, portanto, de suas linhas arquitetônicas por mais de uma vez, em 1964 e em 2007, em favor deste edifício 5 da Silviano Brandão, esquina com a Bello Lisboa, foi proposta por diversas vezes e por vários modos às autoridades viçosenses, por arquitetos, a remodelação de sua fachada com a proposição de detalhes na entrada e de revestimento em faixas, com cerâmica, criando um desenho compatível com seu formato original. Antes de receber as profundas modificações, inclusive estruturais naquela década de 1960, com ampliação da edificação pelos fundos até o muro do Grande Hotel (atual Hotel Rubim), era belo tanto, ou mais, que os edifícios dos Fóruns da Comarca de Leopoldina e de Rio Pomba(MG), apenas para citar cidades da Zona da Mata mineira, tão antigos como o de Viçosa, com a diferença de serem aqueles intocados e mantidos com sua originalidade.
Obtido o contrato de permissão de uso do edifício público, até que houvesse a sua transferência definitiva ao município, o que ocorreu em 2007, foi a vereadora-presidente Vera Sônia Saraiva (2005-2006) quem determinou a reformulação da nova sede do Legislativo na Silviano Brandão. Conforme ressaltou o editorial da edição nº 1953 da Folha da Mata de 29 de julho de 2006, “juridicamente, tal imóvel é um bem imobiliário de uma entidade de direito público, no caso, o Estado de Minas Gerais, que o devolve ao seu primeiro possuidor, o município de Viçosa, na forma de comodato, ou seja, empréstimo gratuito de coisa não fungível, que deve ser restituída no tempo convencionado pelas partes. Como, no caso, o município de Viçosa cedeu ao Estado duas grandes valiosas e glebas de terra, onde ele ergueu o novo fórum da cidade e outra, onde a Câmara ergueria a sua sede, a transação tomou aspecto de permuta que, mais ainda, evidenciou o aspecto de transação comercial definitiva e inarredável” . O editorial destacou também o seguinte: “Engrandeceu-se o Estado com a construção de um magnífico prédio, com amplas, numerosas e modernas instalações, capazes de acomodar todos os trabalhos e servidores da Justiça e o povo da Comarca, confortavelmente, agora e, certamente, nas próximas cinco ou seis décadas, por mais que nossas cidades se desenvolvam, tanto mais que, agora, o novo fórum tem uma grande área contígua, para expansão”.
E quanto à Cadeia Pública, esta funcionou, além da praça Silviano Brandão, nos prédios 136 e 5, também no austero edifício de nº 337 da avenida Santa Rita. Pertencente ao município desde 1933, veio a ser o prédio da Santa Rita a sede da Escola Ministro Edmundo Lins, inaugurada a 10/3/1962. O Colégio Raul de Leoni ali também funcionou provisoriamente. A reformulação foi executada pela firma do viçosense Jacob Lopes de Castro, por força de um convênio entre o Município e o Governo do Estado, por intermédio do deputado Dr. Juarez de Sousa Carmo, na Campanha de Reforma e Recuperação de Prédios Escolares (CARRPE). Criado por decreto de 11 de abril de 1945, foi o Edmundo Lins segundo educandário de 1º grau da cidade (Ensino Fundamental), instalado a 17 de fevereiro de 1945, sendo prefeito João Francisco da Silva. O convênio que possibilitou seu funcionamento foi assinado entre o Governo de Minas Gerais e o prefeito José Lopes de Carvalho a 13 de junho de 1950. Inicialmente da Rede Estadual de Ensino, passou à Rede Municipal na administração do prefeito Fernando Sant'Ana e Castro. A Cadeia Pública transferiu-se da Santa Rita na década de 1960, para a rua Dr. Brito, até ser interditada judicialmente, e de lá novamente transferida, em 2006, para o bairro Bom Jesus, na rua José Rigueira, ficando o presídio da rua Dr. Brito a sediar a Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC), sistema prisional alternativo.



CEMITÉRIOS



Ampliado por pelo menos quatro vezes ao longo de seu tempo de funcionamento e ocupando hoje o terreno da antiga caixa d’água da cidade, o cemitério da rua Pe. Serafim, antiga Rua do Cruzeiro, tinha já, no princípio do século XXI, 1.200 jazigos de até 3 gavetas, distribuídos em 5 quadras de 235 túmulos.
Propostas de vereadores existiram várias, mas que não chegaram a ser votadas pela Câmara, para que tanto o Dom Viçoso como o Colina da Saudade, este funcionando desde maio de 1986 (hoje com bem mais de 3.000 corpos), fossem administrados pelos dois hospitais da cidade, que assim aufeririam a renda das taxas de manutenção, da limpeza e dos sepultamentos.
Em 1914, conforme registros históricos, o então administrador público de Viçosa, Dr. José Ricardo Rebello Horta demonstrava a sua preocupação com a necrópole, cercada ainda com estacas de baraúna e em vias de ser fechada por não mais estar comportando sepultamentos devido a sua pequenez. Pela Resolução nº 348, de 19 de janeiro daquele ano o Dr. Horta baixou normas para o perfeito funcionamento do cemitério municipal ali no alto da Rua do Cruzeiro, entre as quais a de que as sepulturas em forma de carneira teriam que ser subterrâneas e com "as mesmas dimensões das sepulturas ordinárias", não podendo as paredes serem feitas com argamassa impermeável e tendo o fundo constituído pelo terreno natural. Preocupou-se a Câmara, também, com a arborização, que deveria ser feita com árvores esguias, de tronco elevado, preferencialmente resinosas e de folhagem persistente.
O cemitério recebeu, portanto, o seu primeiro alargamento, por iniciativa daquela administração, dando-lhe área suficiente até então. Outros alargamentos se sucederam noutros governos. O muro de alvenaria só viria na administração do Dr. José Lopes de Carvalho, primeiro prefeito eleito, em 1947, muro que foi refeito parcialmente na administração de Fernando Sant'Ana e Castro já no princípio do terceiro milênio. Havia, no governo de Dr. Horta, grande preocupação com o aspecto sanitário e estético da velha necrópole viçosense. Quando havia hipótese de moléstia infecto-contagiosa, o enterramento deveria ser feito com o corpo do defunto "envolvido em um lençol embebido em solução de sublimado a 1 por 1.000."
Os artigos 2º e 4º da Resolução nº 348, de 19/1/1914, arquivada na Câmara Municipal, determinam, respectivamente, o seguinte: "O novo cemitério ou o alargamento do actual, de área bastante consideravel para conter sepulturas, deposito mortuario, arruamento e a necessaria arborisação sera provisoriamente cercado com arame, systema 'Page' de altura de 1m.22, até que a Municipalidade seja possivel cercal-o definitivamente por meio de muro ou gradil de ferro, com altura minima de 1m.80." "As sepulturas serão de 1m.70 de profundidade, 0m,80 de largura e 2 metros de comprimento, entre as sepulturas contiguas, um espaço de 0.60; não podendo ser socada a terra que lançar dentro das mesmas."
Conforme registros históricos, o cemitério do centro da cidade, que recebeu a atual denominação em homenagem ao bispo português Dom Antônio Ferreira Viçoso, foi construído em 1865 por iniciativa de missionários da Irmandade de São Francisco de Assis, os franciscanos, em terras doadas por familiares do major Cyriaco Severiano da Silva e Castro e pertencentes ao “Patrimônio de São Francisco”. O primeiro registro de sepultamento no Dom Viçoso é o de Joaquim Romão Moreira e Castro, ali enterrado a 12 de junho de 1866, conforme consta de um dos livros do arquivo paroquial do Santuário de Santa Rita.
Em 1893 o administrador público de Viçosa, Dr. José Theotônio Pacheco autorizou despesas da ordem de até 2:000$000 para a aquisição de cada um dos terrenos para os cemitérios dos distritos de São Sebastião da Pedra do Anta, Herval, Araponga e São Vicente do Grama. A Resolução oficial nesse sentido é datada de 3/7 do referido ano (Resolução nº 6). Em 1906 o agente executivo municipal Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, pela Resolução nº 201 de 15/4 no mesmo sentido autorizou 4:000$000 para a construção dos cemitérios dos distritos de Santo Antônio dos Teixeiras e de Araponga, a cargo dos respectivos conselhos distritais. Em 1909 o presidente da Câmara, Dr. Emílio Jardim de Resende se preocupou também em determinar a reforma do cemitério do distrito do Anta (atual cidade de Pedra do Anta), empregando, conforme a Resolução nº 274 de 2/10 a importância de 500$000. Em 1920 o Dr. Antônio Gomes Barbosa autorizou três contos de réis para a construção do Cemitério de São Miguel do Anta (Resolução nº 401) e 500$000 para um outro cemitério no povoado de Pouso Alegre, no distrito de São Vicente. Em 1927 o Dr. João Braz da Costa Val, na mesma condição dos dois anteriores, autorizou um conto de réis para a construção do cemitério de Canaã. À época, todos esses cemitérios deveriam estar ainda cercados com gradis de madeira.
Desde 1813, ano em que ocorreu a instalação da segunda Capela de Santa Rita no local onde hoje situa-se a esquina da rua Benjamim Araújo (antiga Rua do Comércio) com a praça Silviano Brandão, antigamente "Largo da Matriz”, à margem esquerda do ribeirão São Bartolomeu, os finados eram inumados no adro ou no interior do templo, e em cemitérios de propriedades rurais como a Fazenda do Macuco, inclusive escravos, conforme assentos subscritos pelos curas Pe. Manoel Gonçalves Fontes e Pe. Maximiliano José da Silva Castro, entre 1816 e 1819, período pesquisado por este blogger. Este primitivo cemitério da Capela de Santa Rita teria funcionado por 53 anos, após a suposta transferência da antiga Ermida da Rua dos Passos para o referido logradouro do atual centro da cidade de Viçosa. Sobre a extinta necrópole, que ficava à frente da capela, foi iniciada a construção, em 1851, da Igreja Matriz da Paróquia, demolida pouco mais de um século após, em maio de 1954, depois do término da construção do moderno Santuário. O pároco Pe. Carlos dos Reis Baêta Braga (1957-1999), ao iniciar a construção do Centro Social ao lado do Santuário e Casa Paroquial, mandou transladar para o campo-santo da rua Padre Serafim os restos mortais ali encontrados, quando já estava derribada a velha Igreja Matriz.



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A gênese toponímica e o Dia da Municipalidade


GÊNESE TOPONÍMICA


“Santa Rita do Turvo, Capela filial do Pomba elevada a freguesia pelo decreto de 14 de julho de 1832 com as filiais São José do Barroso e Conceição do Turvo. –Instituída canonicamente por provisão episcopal de 31 de agosto de 1833. Primeiro vigário (encomendado) Agostinho Isidoro do Rosário, promovido a colado por Carta da Presidência da Província de 23 de Fevereiro de 1837, colado a 1 de Abril; Manuel Filipe Néri, apresentado por Carta Imperial de 16 de Agosto de 1861 e colado a 11 do mês seguinte. É a cidade de Viçosa, nome que lhe foi dado em homenagem ao Bispo Dom Antônio Ferreira Viçoso.”

Texto de autoria do Monsenhor Raimundo Trindade, à página 277 do livro “Instituições e Igrejas no Bispado de Mariana”, editado pelo Ministério da Educação e Saúde em 1945, publicação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

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Muito antes de ter o título de Cidade, o povoado localizado numa latitude de 20º45'14" Sul e a uma longitude 42º52'55" Oeste, com altitude de 648 metros, e que em 2004 chegaria a uma população estimada em 71.624 habitantes, com uma área de 300,264 quilômetros quadrados, representando cerca de 0.051% do Estado, 0.0324% da região e 0.0035% do território nacional, era denominado informalmente, e até em documentos oficiais, de “Passagem do Turvo”. Depois passou a Santa Rita do Turvo, nome devido a Santa Rita de Cássia (Margherita Mancini Lotti), nascida na província de Umbria, Itália, em 1386, freira do convento agostiniano de Santa Maria Madalena, em Cássia, falecida a 22 de maio de 1457, beatificada em 1626, pelo Papa Urbano VIII, e canonizada em 24 de maio de 1900 por Leão XII.
O culto a Santa Rita vem dos primórdios do núcleo populacional. Desde o século XIX há uma devoção especial à sua célebre imagem, esculpida por um mestre da arte sacra do século XIX, e que do altar-mor do Santuário sai às ruas em andor ornamentado na Procissão das Rosas, anualmente, a cada 22 de maio. Fora benzida, segundo contam, por um missionário franciscano chamado Paulino quando de sua chegada a Viçosa. Provinda da Corte Imperial (RJ) por ocasião do término da Guerra da Tríplice Aliança, em 1870, a imagem foi adquirida na Corte Imperial e entronizada inicialmente numa capelinha que existiu próximo de onde se encontra o Hospital São Sebastião, num trono construído por escravos, na fazenda do capitão José Maria Sant’Anna.
A palavra Turvo, incorporada às primitivas toponímias, deve-se a um dos cursos d’água que atravessa o município, tendo como um de seus afluentes o São Bartolomeu, que separa a zona urbana da suburbana. Esta cidade de relevo montanhoso, sendo três por cento plano, oitenta e cinco por cento de montanhas e doze por cento ondulado, está na área da Bacia do Rio Doce. Seus cursos d´água principais são o Rio Turvo Sujo e o Rio Turvo Limpo. Por entre as vertentes do Rio Turvo Limpo e Casca, à outrora “Grande Viçosa” pertenceram, além desses dois cursos citados, o Turvão, o Sant’Anna e o São Domingos, bem como as cachoeiras Alegre, Escura, Grande, do Casca, São Silvestre e Varadouro e também a Lagoa do Herval. O São Bartolomeu, que atravessa a área central da cidade, recebe as águas dos córregos Santa Catarina, do Engenho, Paraíso e das Posses. Outro seu afluente é o ribeirão Santa Tereza, que recebe as águas dos córregos Pião, Buieié, Condé, Deveras, Fundo, Silêncio e da Posse; além dos córregos Pau-de-Cedro, São João, São Silvestre, dos Nobres e Ferreira. O rio Turvo Limpo corre na divisa Oeste do município e conflui com o rio Turvo Sujo na região de Duas Barras, nos limites de Viçosa com os municípios de Porto Firme e Guaraciaba. São afluentes do rio Turvo Limpo os córregos Mainarte, Pinhão, Estiva, Laranjeira, Seco, dos Bastos e do Leme. A Bacia do Ribeirão São Bartolomeu está situada numa área de 3.000 hectares, possuindo 440 nascentes em propriedades rurais do Córrego do Engenho, Paraíso e Palmital. Importante para a agricultura e indústria e abastecimento, além do turismo, é fundamental na formação de importantes Bacias Hidrográficas. Era o responsável, até 2006, por 60% do abastecimento de água da cidade e 100% da Universidade Federal.
E a moderna toponímia, coincidentemente, oficializou-se pouco tempo após a morte de Dom Antônio Ferreira Viçoso, que falecera a 7 de julho de 1875. A 3 de junho de 1876 às vésperas de se completar um ano de seu passamento foi a toponímia municipal alterada para Viçosa de Santa Rita. Detentor do título de “Conde da Conceição”, Dom Viçoso integra hoje, no Vaticano, na Sagrada Congregação para a Causa dos Santos, a relação dos que viveram em terras brasileiras e que estão sob processos de beatificação. Ele foi o 7º bispo de Mariana, criada em 1745 pela bula papal “Candor Lucis Aeternae”. Em 1906 se tornou Arquidiocese, pelo documento pontifício de São Pio X, “Sempiternam Humani Generis”. A data de 3 de junho nunca foi feriado municipal em Viçosa, mas sempre foi data especialmente respeitada no âmbito municipal. Inclusive existiu, no princípio do século XX, na cidade, uma sociedade recreativa denominada ‘3 de Junho”. E o fato de ser ele o epônimo do antigo cemitério viçosense, prova ser este Servo de Deus e candidato a bem-aventurado, o alvo de uma insofismável devoção popular em Viçosa. O cemitério da rua Pe. Serafim recebeu a denominação já no século XX, conforme dizeres constantes da placa que se afixou à porta da necrópole, por iniciativa da Câmara Municipal:

“Cemitério Dom Viçoso – administração Antônio Chequer – Denominação – Projeto Vereador Gilberto V. Pinheiro – 8/5/1973”.

É o seguinte o texto da Lei 2.216/1876, extraído da publicação As Denominações Urbanas de Minas Gerais:

“Eleva à categoria de cidade as Vilas do Santíssimo Sacramento e Santa Rita do Turvo. O Barão da Villa da Barra, do Conselho de S. M. O Imperador, Grande Dignitário da Imperial Ordem da Rosa, Comendador da de Cristo, e Presidente da Província de Minas Gerais: Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembléia Legislativa Provincial decretou, e eu sancionei a lei seguinte: Artigo único – Ficam elevadas à categoria de cidade as vilas do Santíssimo Sacramento e Santa Rita do Turvo; aquela conservará a mesma invocação, e esta terá a de cidade Viçosa de Santa Rita; revogadas as disposições em contrário. Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução da referida lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir tão inteiramente como nela se contém.
O Secretário desta Província a faça imprimir, publicar e correr.Dada no Palácio da Presidência da Província de Minas Gerais, aos três dias do mês de junho do ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e setenta e seis, qüinquagésimo quinto da Independência e do Império. Barão da Villa da Barra Para V. Exc. Ver, Luiz Nicolao de Abreo a fez. Selada e publicada nesta secretaria aos 3 de junho de 1876. José da Costa Carvalho”.


É inconteste o fato de ser devido ao 7º bispo de Mariana, Dom Viçoso, o topônimo do distrito da sede do município. Trata-se da adoção de um antropônimo, não obstante a patente adjetivação feminina da palavra Viçosa, que, diga-se de passagem, é um belo fonema que significa encanto, afago, gentileza, primor, perfeição, excelência, exuberância e vigor. Trata-se da onomástica posposta da linhagem familiar deste consagrado prelado. A adoção da letra A, de gênero feminil, e não a 14ª letra do alfabeto (a Viçosa, não o Viçoso), se tornou mote para altercações políticas, duelos titânicos, artigos de imprensa e debates de silogistas, que intentaram decertar contra a desinência patronímica. O nexo causal relativo ao atual nome da cidade foi contraditado por memorialistas, que reclamaram do não achado, em arquivo público, do arrazoado justificativo da alteração toponímica de Santa Rita do Turvo.
Provável é que este nunca fora escrito, sendo a justificação exclusivamente oral por parte do legislador mineiro que a propôs. Jamais se localizou tal documento, sendo sua improvável existência reclamada por pesquisadores da nossa história.
VIDIGAL (nº? (confira as referências bibliográficas deste trabalho), por exemplo, à página 75, Capítulo 14, de sua obra Minha Terra & Minha Gente, assim se expressou:


“Só quem sofre o tormento da miopia intelectual ou quem mostra sinais de debilidade mental ou quem é habilidoso na arte de inventar mentiras seria capaz de cometer o sacrilégio de efeminar ou de feminizar o nome de Dom Viçoso a fim de homenagear um bispo másculo, viril, forte, vigoroso, firme em suas atitudes, inabalável em suas sábias e prudents decisões, resistente às pressões do poder civil.
Seria insuportável injúria tal homenagem ridícula e repugnante que atentaria contra a dignidade da pessoa humana e contra a dignidade sacerdotal de Dom Viçoso. Seria violenta agressão à boa fama que aureolava o seu nome. A fama de cada homem é um sobrescrito e epígrafe que declara o que há nele. É o maior patrimônio dele. Honestus rumor; alterum est patrimonium, dizia Públio Mimo. É o perfume das ações heróicas, conforme o juízo de Sócrates, citado por seu discípulo Platão.
Qual é a vida, tal é a fama. Eis o que Petrarca (1304-1374) escreveu em um dos Diálogos que compõem o seu livro De Studio Famae.
A Justiça afinou os clarins para anunciar a boa fama e para a celebração dos merecimentos de Dom Viçoso. As boas obras dele são ecos que alentam sua boa fama.
Habituada a ouvir sem discreção tudo que ocorre à imaginação de alguns irresponsáveis que desprezam a pesquisa e o exame (pedras de toque da verdade histórica), houve gente (em alguns municípios da Zona da Mata mineira) que acreditou na balela ou no boato de que a Viçosa foi dado o nome, que ainda tem, só para homenagear Dom Viçoso.
Bispo, ele deixou aos pósteros a perpetuidade de seu nome honrado e glorioso, que não pode continuar afeminado na boca do povo, para explicar o inexplicável.
Na verdade, se houvesse quem quisesse homenageá-lo, deveria esforçar-se para que, ano novo município criado em 1871 e à cidade, que é sua sede, fosse dado o nome DOM VIÇOSO, digno de todas as homenagens.
VIÇOSA DE SANTA RITA tem a sua História que não pode ser ignorada”.


Dom Viçoso percorria grandes distâncias em suas visitas pastorais a cavalo ou carregado em liteira. Foi ele “o evangelizador por excelência do século XIX em Minas Gerais”, na abalizada avaliação do cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, viçosense que passou a integrar os quadros da Academia Mineira de Letras desde o cinqüentenário de seu sacerdócio, em 2006.
Diretor do legendário Colégio do Caraça e superior geral dos Lazaristas no Brasil, Dom Viçoso foi nomeado bispo de Mariana a 7 de janeiro de 1843. “Nenhum homem havia então melhor talhado pela Diocese nem mais feito para as suas precisões. Era vigoroso, robusto, sadio e de uma compleição que prometia viver um século”, destacou Dom Silvério Gomes Pimenta, seu sucessor e biográfo. Foram seus antecessores Dom Frei Manuel da Cruz (1748-1764), Dom Joaquim Borges de Figueiroa (1771-1772), Dom Frei Bartolomeu Mendes dos Reis (1772-1777), Dom Domingos da Encarnação Pontevel (1778-1793), Dom Frei Cipriano de São José (1797-1817) e Dom Frei José da Santíssima Trindade (1819-1835). Até 2007, sucederam-no no Áureo Trono Episcopal: Dom Antônio Maria Corrêa de Sá e Benevides (1877-1896), Dom Silvério Gomes Pimenta (1896-1922 – 1º arcebispo), Dom Helvécio Gomes de Oliveira (1922-1960), Dom Oscar de Oliveira (1960-1988), Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida (1988-2006) e Dom Geraldo Lyrio Rocha (2007- ).
Radicado no Brasil desde 1819, Dom Viçoso trabalhou na educação da juventude, em Jacuecanga. Professor de Filosofia em Évora (cidade próxima de Vila Viçosa, terra homônima da mineira da Mata, à qual pesquisadores querem atribuir a vera razão da nossa toponímia), e foi ainda missionário da Congregação da Missão, fundada por São Vicente de Paulo. O nobre antístite nasceu a 13 de maio de 1787, em Peniche, distrito de Leiria, filho de Jacinto Ferreira Viçoso e Maria Gertrudes e fez o curso primário com os carmelitas de Olhalvo, em Portugal.
Ainda sobre este príncipe da Igreja, se expressou tersamente o historiador Diogo de Vasconcelos: “Não há poeta verdadeiro que não seja um místico. Dom Viçoso, o professor de Filosofia, o teólogo que fundou colégios, era também um músico sacro, um poeta compositor como São Francisco de Assis, que ensinava aos passarinhos a letra de seus gorjeios, e tirava das flores metro para o hino da criação [...] Foi na Cartuxa que Dom Viçoso findou os dias, aos 88 da vida terrestre, na noite de 7 de julho de 1875”.
Coincidentemente - e são vários os sinônimos da palavra “coincidência” - tão logo finara este vulto da Igreja, Minas Gerais empreendeu diligências para alterar a toponímia de Santa Rita do Turvo, o que é tido como impassível e substancioso vestígio prevalecente, a razão realmente real para o lindo nome da cidade que homenageia, com perpetuidade, este ilustre clérigo.



Os santa-ritenses, especialmente os do distrito de São Miguel do Anta e de Pedra do Anta, tinham sobeja razão para homenagear Dom Antônio Ferreira Viçoso à época de sua intervenção nos acontecimentos relacionados ao recrutamento para a Guerra do Paraguai. Historicamente, sabemos que houve enérgica intervenção do prelado em prol da pacificação dos espíritos (especialmente das mulheres), conforme ALENCAR (nº?) e tal ato do bispo de Mariana fora publicamente reconhecido pela comunidade, em sua totalidade, católica. SANTIAGO (nº?) afirma que "na História como na Geometria, partimos, às vezes, de um ponto vago e indefinido, ou não raro de um mero acidente de viagem, para chegarmos ao desenho colorido das figuras e à descrição verdadeira da realidade dos fatos". De fato, não existe história local isolada, sendo fundamental contextualizar a análise, com o conhecimento de dados e fontes comparativas. É preciso que se estabeleça e se prove, evidenciando-se as relações entre os fatos, explicando-os.

O topônimo Viçosa teria explicação multi-causal? São meras analogias! Com o nome Viçosa, no Brasil existem, dentre outras, a do Rio Grande do Norte, topônimo que seria da autoria do português Miguel Caldas Caldeira de Pina Castelo Branco; e a do Ceará, cujo topônimo original, Vila Viçosa Real da América, remonta a 7 de julho de 1759. Durante a ditadura Vargas, por muito pouco Viçosa não voltara à antiga toponímia. A justificativa (justiçosa ?), de então, por parte do governo, era a duplicidade Viçosa do Ceará, etc).O Conselho Nacional de Geografia, na década de 1940, pretendeu retomar o antigo topônimo desta, Ibiapaba, devido à dualidade com a Viçosa das Minas Gerais. O jurista Clóvis Bevilácqua chegou à solução para o impasse, acrescendo-se, então, ao topônimo Viçosa, o "do Ceará". Já a Viçosa das Alagoas, um topônimo que é, ao que tudo indica, um adjetivo, retomou o nome original de Assembléia, dos seus tempos de Vila, por conta do referido impasse, mas já ao final daquela década de 1940, voltou a se denominar Viçosa. A norma ditatorial afetara as homônimas das Alagoas e do Ceará, mas não a do Rio Grande do Norte. A Viçosa do Ceará teria o direito de ter seu nome original preservado. Quando fora elevada à condição de Vila, em 1759 foi simultaneamente chamada de Vila Viçosa Real da América, sendo detentora do principal quesito previsto na norma bem antes da cidade homônima e mineira. A das Alagoas, a despeito de ter sido Vila já em 1831, só foi oficializada como cidade em 1892 e Comarca em 1893, depois da mineira. O nome original da cidade mineira, quando de sua elevação a cidade, como registrado, fora VIÇOSA DE SANTA RITA, mas, também como se sabe, foram suprimidos os nomes dos santos das localidades numa das divisões administrativas.
A interferência do governo de Getúlio Vargas nos topônimos homônimos rendeu trabalhos ao deputado Henrique Dodsworth para a manutenção do nome da cidade de Viçosa das Minas Gerais em detrimento das outras. Se no Ceará, conforme já referido, o jurista Clóvis Bevilácqua interveio em favor de sua terra, não teria sido menor o empenho do Dr. Emílio Jardim de Resende junto ao Instituto de Estatística, contrário à proposição do retorno à velha, Santa Rita do Turvo. A 21 de outubro de 1943, foi assinado o Decreto-Lei nº 5901, que, dentre outras determinações, constavam: “Ficam estabelecidas as seguintes normas para a eliminação, no País, da repetição de topônimos de Cidades e Vilas, a efetivar-se no novo quadro territorial em preparo: Quando duas os mais localidades tiverem a mesma denominação, esta prevalecerá para a de mais elevada categoria administrativa ou judiciária, na seguinte ordem de precedência: Capital, sede de Comarca, sede de Têrmo, sede de Município, sede de Distrito. No caso de haver mais de uma localidade da mesma categoria com o mesmo nome, êste será mantido naquela que o possuir há mais tempo. Como novos topônimos, deverão ser evitadas designações de datas, vocábulos estrangeiros, nomes de pessoas vivas, expressões compostas de mais de duas palavras sendo, no entanto, recomendável a adoção de nomes indígenas ou outros com propriedade local. Não se consideram nomes novos, e portanto não estão sujeitos ao disposto no item precedente, os casos de restabelecimento de antigas designações ligadas às tradições locais, vedadas, porém, as composições de mais de três palavras.
Parágrafo único. Exceções a essas normas, no que toca ao direito de prioridade na nomenclatura, serão admitidas, se ocorrerem motivos imperiosos, mediante acordo entre os Governos das Unidades Federativas interessadas".




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O DIA DA MUNICIPALIDADE


Lei nº 377


O povo do Município de Viçosa, por seus representantes, decreta e eu, em seu nome, sanciono a seguinte lei:

"Institui a 'Semana da Cidade de Viçosa'.
Art. 1º - Fica instituída a 'Semana da Cidade de Viçosa', que começará no dia 24 de setembro e terminará no dia 30 do mesmo mês.
Art 2° - Será considerado feriado municipal o dia 30 de setembro, data da Municipalidade.
Art. 3º - O senhor Prefeito Municipal deverá fazer com que participem das comemorações da 'Semana da Cidade de Viçosa' tôdas as entidades representativas do Município.
Parágrafo Único - Deverão ser criadas comissões de planejamento e organização das festividades, cada ano, sob a supervisão do Prefeito Municipal.
Art. 4º - Fica aberto o crédito especial de Cr$ 20.000,00 (vinte mil cruzeiros) para custeio de despesas dos festejos da 'Semana da Cidade de Viçosa'.
Art. 5º - Revogadas as disposições em contrário, entrará esta lei em vigor, a partir da data de sua publicação.
Mando, portanto, a tôdas as autoridades e a quem a execução desta lei pertencer, que a cumpram e a façam cumprir tão inteiramente como nela se contém.

Prefeitura Municipal de Viçosa, 20 de agôsto de 1961.

RAYMUNDO ALVES TORRES
Maria Rita Torres Simonini"

Das páginas 47 (verso) e 48, do Livro de Leis nº 13 da Prefeitura Municipal de Viçosa


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Na trajetória épica dos acontecimentos antecedentes e diretamente relacionados à criação do município de Viçosa, há fatos históricos que remontam à Era do Brasil Colonial. Em 1808 estabeleceu-se na região de Santa Rita do Turvo, a futura Viçosa, uma das divisões militares da Capitania de Minas, a mando de D. João VI. Em 1829, sendo imperador D. Pedro I e bispo de Mariana, D. Frei José da Santíssima Trindade, a Freguesia do Mártir São Manoel dos Sertões do Rio da Pomba e dos Peixes dos Índios Coropós e Coroados, com 39 casas, compreendia diversas capelas filiais, entre essas a de Santa Rita do Turvo. Por um decreto de 13 de outubro de 1831, a atual cidade de Rio Pomba, distante cem quilômetros de Viçosa, foi elevada à categoria de Vila, compreendendo a Freguesia de São João Batista do Presídio (a atual e vizinha Visconde do Rio Branco), conforme resolução da Assembléia Geral Legislativa. Expediram-se a 3 de março de 1832 as instruções para a instalação do município. E de 25 a 27 de agosto daquele mesmo ano, ocorreram os festejos, que se seguiram ao auto do levantamento do pelourinho, cerimônia comandada pelo ouvidor de Ouro Preto, Dr. Antônio José Monteiro de Barros, onde está a praça principal rio-pombense, hoje denominada Dr. Último de Carvalho. Presidia a província de Minas, por aqueles dias, o Barão de Pontal, Dr. Manoel Ignácio de Mello e Souza.
Dentre os 14 distritos que inicialmente (em 1837 chegaram a 20) ficaram compreendendo no Termo (subdivisão de Comarca) do Pomba, figurou a Freguesia de Santa Rita do Turvo, quando em Minas se contavam em seis as Comarcas. A extensão territorial do município do Pomba era enorme, pois abrangia as divisas de Araponga até Além Paraíba, no sentido Norte-Sul; e de Mercês a Santo Antônio de Pádua (este último é município fluminense e já foi mineiro), no sentido Leste-Oeste. Foram despendidos, na instalação da Vila, 40$700 (quarenta contos e setecentos réis), pelo capitão Bento Joaquim Pereira, que comprou os livros e financiou a estadia do referido ouvidor no Pomba, para os cerimoniais. Tal importância só foi paga pela Câmara, 11 meses após (a 20 de julho de 1833), quando a província de Minas tinha já um novo presidente: Dr. Antônio Paulino Limpo de Abreu. Pela Resolução Provincial de 30 de junho de 1833, que criou a Comarca do Rio Paraibuna, o distrito de Santa Rita do Turvo ficou judiciariamente subordinado ao Termo da cidade de Mariana, da Comarca de Ouro Preto. E em face da Lei nº 134, de março de 1839, que elevou a Freguesia de São João Batista do Presídio à categoria de Vila, o distrito de Santa Rita do Turvo foi desmembrado da imensa região fisiográfica até então jurisdicionada pelo Pomba, passando a compreender no Termo desta que desde 1882 é a cidade de Visconde do Rio Branco (Paranhos).
A Capela de Santa Rita (filial e distrito do Pomba) foi elevada a Freguesia pelo Decreto Imperial de 14 de julho de 1832, passando a ter como filiais os curatos de São José do Barroso (Paula Cândido) e Conceição do Turvo (Senador Firmino). Carta de lei provincial, datada de 12 de agosto de 1834, alterou a legislação que dispunha sobre a criação de distritos, competência que se transferiu para a presidência de Minas. As antigas resoluções das Câmaras Municipais foram extintas. Estas observavam termos de um Decreto Imperial, de 11 de setembro de 1830, que as autorizava eleger juízes de paz nas “capelas filiais curadas” e dispunha sobre delimitações territoriais distritais, por essas Câmaras, demarcadas, nos casos específicos em que as capelas não tivessem construídas ainda no seu entorno mais do que 75 casas. A primeira Câmara da Vila de São Manoel da Pomba foi instalada obedecendo-se a regras estabelecidas na Lei de 1º de outubro de 1828, quando a legislação pertinente era da exclusiva competência do Governo do Império. E foi a Câmara do Pomba a única da Zona da Mata instituída observando-se este velho sistema. As outras, como a de Santa Rita do Turvo, foram constituídas por atos do Conselho Provincial.
Por um decreto datado de 30 de setembro de 1871, Santa Rita do Turvo foi elevada a Vila, sendo pertencente, nesta última ocasião, ao município de Ubá e à Comarca de Piranga, até que pudesse adquirir o prédio público da Câmara e cadeia, no exato local em que se encontra o imóvel de número 136 da atual praça Silviano Brandão (antigo Largo da Matriz), na esquina direita da Rua dos Passos, para somente assim conquistar a autonomia de um governo local. Dois anos após, em 1873 é que se pôde instalar o Termo da Vila de Santa Rita do Turvo, subordinado à Comarca de Muriaé, sob a direção do juiz Antônio Augusto da Silva Canedo. A primeira audiência se deu a 3 de abril de 1873. E a tão almejada instalação oficial do município de Santa Rita do Turvo, com seu paço próprio, se efetivou ali, enfim, a 30 de abril de 1873, sendo presidente de Minas, Venâncio José de Oliveira Lisboa. A inauguração da Vila (depois cidade de Viçosa) realizou-se a 22 de janeiro daquele mesmo ano (1873), tendo Joaquim Floriano de Godói à frente do governo da província mineira. Foi quando assumiu a presidência da Câmara santa-ritense o mestre-escola Manoel Bernardes de Souza Silvino (Neca Coletor), que permaneceu no cargo, no primeiro de seus dois mandatos, até 1876, ocasião em que ocorreu a mudança do topônimo municipal para Viçosa de Santa Rita, a 3 de junho, já com o título de Cidade, pela Lei nº 2.216. O município, mesmo após criado em ato legislativo, passou a existir, de fato e de direito, somente depois de realizado o ato festivo de instalação, quando foi declarado oficialmente como órgão autônomo de administração, com as devidas formalidades legais. A data de seu registro é assim a que tem a maior importância histórica.
Nas primeiras décadas do século XX, o Dia da Municipalidade era feriado no 22 de janeiro, realmente a data de Inauguração da Vila de Santa Rita. A partir da década de 1960, entretanto, se convencionou comemorar, com festejos, a data da Lei que elevou a Freguesia de Santa Rita à categoria de Vila: 30 de setembro. Existe registro histórico de manifestação de regozijo público, em 1961, pelo 90º ano da assinatura desta Lei. Até então não havia festejos alusivos. Iniciada portanto uma contagem consensual por parte da intelectualidade viçosense, esta serviu como referencial para o planejamento e a organização de grandes festejos nos anos subseqüentes. Baseou-se possivelmente no Anuário de Minas Gerais, editado em 1909, e que traz o seguinte texto: “O município foi criado com sede na Vila de Viçosa (então arraial de Santa Rita do Turvo), por Lei 1.817, de 30 de setembro de 1871, ano da Lei do Ventre-Livre, ministério Rio Branco”. E fato é que tal celebração foi oficializada como Dia da Municipalidade em 1961, pela Lei nº 377, na segunda administração do prefeito Dr. Raymundo Alves Torres, que também governou Viçosa em dois mandatos (46/47 e 59/62). E até a edilidade erigiu em data cívica maior dos viçosenses (muito questionada, diga-se de passagem) o 30 de setembro, na 1ª Lei Orgânica Municipal. Permanecem portanto revogadas disposições contrárias à efeméride setembrina vigente. Comemoração considerada correta é a da cidade homônima, Nova Viçosa, na Bahia: a 27 de julho. Lá a Vila foi criada em 27/10/1768. O município foi extinto em 1931, sendo restaurado por Lei Estadual de 27/7/1962 , instalando-se automaticamente.
Nosso mapa não é o mesmo de outrora. Foram distritos viçosenses, inicialmente, São Sebastião do Herval, Coimbra, Santo Antônio dos Teixeiras, São Miguel do Anta, São Sebastião da Pedra do Anta, São Miguel do Araponga e São Vicente do Grama, à exceção deste último, hoje pertencente ao município de Jequeri, todos os outros emancipados, com encargos de progressistas cidades. Com a promulgação das leis nº 556/1911 (governo Bueno Brandão) e nº 843/1923 (governo Raul Soares), que versam sobre Divisão Administrativa Estadual, suprimiu-se grande parte de seu território de 2.102,69 quilômetros quadrados. A Viçosa de ontem (Santa Rita do Turvo), na ocasião de sua emancipação efetiva (30/4/1873), confrontava-se com Santa Luzia do Carangola, Piranga, Abre Campo, Ponte Nova, São Paulo do Muriaé e Visconde do Rio Branco. Atualmente, conforme avançado método de aferição, tem 300,15 quilômetros quadrados, limitando-se a Leste com Cajuri e São Miguel do Anta; a Oeste com Porto Firme; ao Norte com Teixeiras e Guaraciaba; e ao Sul com Paula Cândido e Coimbra. Hoje, além da sede, são três os seus distritos: o mais novo, surgido como tal na década de 1980, o de São José do Triunfo (antigo povoado do Fundão), o de São Silvestre e o de Cachoeira de Santa Cruz.
Nas primeiras décadas do século XX, o Dia da Municipalidade era feriado, portanto, no 22 de janeiro, realmente a data de Inauguração da Vila de Santa Rita. A partir da década de 1960, entretanto, se convencionou comemorar, com festejos, a data da Lei que elevou a Freguesia de Santa Rita à categoria de Vila: 30 de setembro. “Data que se convencionou como de sua elevação à cidade, embora naqueles dia, mês e ano de 1871, apenas se assinou um documento confirmando sua emancipação, e estabelecendo que o governo próprio (portanto a autonomia política) só seria instalado quando os viçosenses tivessem construído ou adquirido um sobrado próprio para se instalar sua Câmara e Cadeia, que não podia ser alugado ou emprestado. O prédio da Câmara era o símbolo e sede do poder municipal, assim como, os sapatos eram a identidade do negro livre (forro). E passaram meses e anos, até que o próprio municipal fosse erguido e, nele, o governo, instalado”, ensina-nos o historiador, professor e jornalista Pélmio Simões de Carvalho. Existe registro histórico de manifestação de regozijo público, em 1961, pelo 90º ano da assinatura da Lei de 30/9/1871. Até então não havia festejos alusivos. Iniciada portanto uma contagem consensual por parte da intelectualidade viçosense, esta serviu como referencial para o planejamento e a organização de grandes festejos nos anos subseqüentes. Baseou-se possivelmente no Anuário de Minas Gerais, editado em 1909, e que traz o seguinte texto: “O município foi criado com sede na Vila de Viçosa (então arraial de Santa Rita do Turvo), por Lei 1.817, de 30 de setembro de 1871, ano da Lei do Ventre-Livre, ministério Rio Branco”. E fato é que tal celebração foi oficializada como Dia da Municipalidade em 1961, pela Lei nº 377, na segunda administração do prefeito Dr. Raymundo Alves Torres. E até a política edilícia erigiu em data cívica maior dos viçosenses (muito questionada, diga-se de passagem) o 30 de setembro, na 1ª Lei Orgânica Municipal. Permanecem portanto revogadas disposições contrárias à efeméride setembrina vigente. O ilustre articulista Simão Cirineu Ladeira defendeu a tese, no jornal Folha da Mata, de que caberia ao prefeito ou a um vereador a iniciativa que “Viçosa culta” estava a requerer para “escapar da lambança histórica” em que a meteram, propondo três datas, entre as quais a de 22 de janeiro como sendo “sem dúvida”, a data da nossa emancipação política. Para este escritor, a promoção de Viçosa a cidade significou a “prova de prestígio dos nossos antepassados”, e que tal nada teria mudado “no dia-a-dia administrativo de Santa Rita do Turvo... A questão não era disciplinada. Se havia algum critério era o de que nobres de primeira grandeza só podiam residir em cidades. Lembrando-se de que, na união Estado-Igreja, os bispos tinham tal nobreza, justifica-se o fato de Mariana ter sido a primeira cidade de Minas, exatamente para sediar o bispado. Outras ‘Vilas’ só tiveram tal privilégio em 1892, já na República, quando todas as sedes de comarcas se tornaram cidades”, justifica o nobre escritor nativo.
De fato, segundo VASCONCELOS, “as terras do Brasil pertencendo ao senhorio da Ordem de Cristo nelas não poderiam erigir senão vilas. Às cidades cumpria fossem dentro de municípios livres, autônomos, e só se podiam criar e existir em terras próprias (ager sacrum); e só nelas em rigor a CIVITAS tinha razão. As vilas, porém, pertenciam particularmente a um senhor que as governava e lhes impunha a sua justiça. Se pois, no Brasil, o rei as governava diretamente, o fazia em seu caráter de grão-mestre da Ordem de Cristo, a cuja custa se ordenavam as navegações e conquistas sob o pretexto de nelas se propagar a fé. Mas o Papa não consentia bispado com catedral em vilas. O bispo não convinha fosse vilão e sim cidadão, quando mais que pelo cargo era nobre equiparado aos príncipes da casa real. Não podia ser vassalo de vassalos. Quando, pois, o rei queria instituir um bispado no Brasil, emancipava a vila e dava-lhe o título de cidade. Assim, para dar a São Paulo o NOME de cidade foi mister declarar que era para ter catedral com bispo (Carta de 6/4/1712, de Antônio de Albuquerque)”.
O ex-vereador Roberto Proença Passarinho chegou a propor a seus pares, na década de 1980, que o feriado municipal fosse o dia 3 de junho, mas a polêmica proposição foi descartada pela edilidade. Ele, diferentemente do articulista em questão, defendia o ponto de vista de que quem quisesse comemorar um ‘Dia da Cidade’, em Viçosa, com correção histórica, deveria fazê-lo nesta última data. O Centenário de Viçosa foi comemorado, com grandes festejos, a 30 de setembro de 1971, no governo do prefeito Carlos Raymundo Torres, e este agendamento da festa anual de 30 de setembro, na opinião do observador, “privilegiou o menos importante, deixando em brancas nuvens o 22 de janeiro, a data de maior importância histórica de Viçosa”, e relacionou a data de 30 de setembro com a do aniversário de emancipação de Viçosa, “um erro grosseiro, e chega ao título da Festa: ‘Dia da Cidade’”. Para ele “tudo resultou e vem se repetindo em decorrência de uma leitura apressada de documentos, feita no passado”. E faz analogias: “Marcado o gol, comemora-se. Esquece-se, então, daquele desarme magistral de meio de campo, iniciador da ‘tabelinha’ com a qual se conduziu a bola à rede. Nascida a criança, marca-se a respectiva data para, nela, pelos anos afora, soprarem-se as velinhas: a data da concepção só interessa à programação dos trabalhos obstétricos ou, ocasionalmente, à investigação de alguma fofoqueira.
Assim se passa com as cidades... Belo Horizonte comemorou seu centenário em 1987, lembrando os cem anos de sua instalação. Alguém ouviu falar em alguma grande festa belo-horizontina em 17 de dezembro de 1993? Pois é: naquela data tornava-se centenária a Lei Adicional 3, criadora da futura capital mineira”. E vai mais longe, ao plano federal: “a festa de Brasília lembra sua inauguração, não da data do compromisso de JK de construí-la”. Voltando à sua aldeia, o articulista, então, arremata: “Daí, nem sob a ótica da emancipação pode-se lastrear com seriedade tais comemorações. Em 22 de janeiro de 1873, realizou-se, por conseguinte, o evento de maior importância da história de Viçosa: sua emancipação. Ela é a data matriz de comemoração séria. 30 de setembro é apenas ‘Dia da Lei da Vila’. 1971 foi tão-somente o ‘Centenário da Lei da Vila’... Sob o aspecto histórico, quanta tolice! Não há razão para 30 de setembro ser ‘Dia da Cidade’, nem igualmente para se ter comemorado o ‘Centenário da Cidade’ em 1971... A emancipação de Santa Rita do Turvo efetivou-se em 22 de janeiro de 1873".
Manuel Bernardes de Souza Silvino foi Juiz Municipal em exercício, na condição de presidente da Câmara, quando da primeira audiência, em 3 de abril de 1873. E enquanto Termo integrante da Comarca de Muriaé, a primeira sessão em Santa Rita teve como presidente o Dr. Antônio Augusto da Silva Canedo, Juiz de Muriaé. A Lei nº 1817 de 30 de setembro de 1871, que elevou Santa Rita do Turvo à categoria de Vila DO MUNICÍPIO DE UBÁ, vinculou-a à Comarca de Piranga (artigo 4º desta Lei). Detalhe que merece observação especial é o artigo 3º, que diz: esta Vila "será" instalada somente quando seus habitantes apresentarem "uma casa que possa servir de paço". Ou seja: a 30 de setembro não houve instalação de município aqui. Antes, pela Resolução Provincial de 30/6/1833, o distrito (ou Curato) de Santa Rita ficou subordinado judiciariamente ao Termo de Mariana, da Comarca de Ouro Preto. Em 1839, São João Batista do Presídio (Visconde do Rio Branco) é elevada a Vila, em março, pela Lei nº 134, compreendendo no seu município a Freguesia de Santa Rita do Turvo e de Arripiados (Araponga), conforme o parágrafo 3º desta Lei.
Foram juízes municipais togados, a partir de 1873, quando foi instalado o Termo de Santa Rita do Turvo da Comarca de Muriaé os Drs. José Theotônio Pacheco, Guilherme Vieira da Cunha, Francisco Machado de Magalhães Filho e Joaquim Delveaux Pinto Coelho. Em 1875 foi criada a Comarca do Rio Turvo, depois Ponte Nova, da qual Viçosa foi Temo, a ter ser elevada a Comarca em 1890, tendo como primeiro Juiz o Dr. Joaquim Delveaux Pinto Coelho. O primeiro advogado foi o Dr. Carlos Vaz de Mello. A inauguração da Vila de Santa Rita do Turvo só se daria, de fato, a 22/1/1873, esta a data real de sua efetiva emancipação político-administrativa. E sua instalação foi a 30/4/1873. Sobre o título de Cidade, confira-se a Lei nº 2216, de 3 de junho de 1876).


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É ainda o jornalista viçosense Simão Cirineu Ladeira quem relata, em correspondência a este blogger, ainda sobre esse mesmo tema, algo mais que merece ser lido e analisado com a devida atenção:

"Em 2 de novembro de 1975, o intelectual Nelson de Figueiredo, então coordenador estadual dos festejos do centenário de Bernardes, comunicou ao prefeito Antônio Chequer a organização de uma poliantéia a respeito, para o ano seguinte. Disse, também, que não desistira da idéia (ele, não, mas a idéia não conjuminou...) de construir um panteón, ao lado da estátua do saudoso viçosense, em Viçosa, para receber os restos mortais do ex-Presidente e de sua esposa, "na histórica data de 3 de junho do próximo ano".
O "turco" ficou encucado. Que diabo de data seria aquela?
Informaram-lhe, então, que o intelectual referia-se ao centenário de Viçosa.
Mas como? Se Carlos Raymundo, em 1971, comemorara a centúria, fazendo Lulinha disparar a centenária perdeneira herdada pelo Cornélio Borges e colocando misses e bandas nas ruas e craques no Estádio Carlos Barbosa?
Toninho Chequer mandou a questão para o bispo. Parece que Dom Oscar não respondeu. Apelou para o nosso historiador Alexandre de Alencar que, se respondeu, não sei. Também me inqueriu, certamente porque se lembrou de que eu já houvera contestado publicamente as celebrações anteriores, posto que antecipadas.
Deveria ele, sabidamente festeiro, mas, no caso, politicamente precavido, o que não lhe era normal, bisar o centenário?
Se o Arcebispo e o historiador teriam ficado calados, eu, não, pois reiteirei-lhe toda argumentação que você conhece.
Disse-lhe que, se quiserem homenagear, com correção, o aniversário da emancipação política de Viçosa, todos aqueles que, anualmente, em 30 de setembro, publicam, por isso, descabidas manifestações a respeito, devem passar fazê-lo em 22 de janeiro. E
também ponderei, em relação a festejar-se "cidade": o título de cidade nada mudou na vida da população. O fato de ser vila, sim, pois representou-lhe emancipação. Mereceria, por conseguinte, festa a data de 22 de janeiro.
Aliás, que tal correlacionarmos as festas cívicas das atuais Sacramento e Viçosa(aquela perdendo o "Santíssimo" e esta, a nossa, se desprovendo da "Santa Rita", por obra da não-santa - está mais que provado - nossa república) irmãs-gêmeas, em termos de cidades?
Se Viçosa celebra a lei da "Vila", o que festeja sua irmã-gêmea?
Antes, vejamos que, segundo os historiadores sacramentanos, o Cônego Hermórgenes Casimiro de Araújo Brunswick, natural do Bispado de Mariana, erigiu um oratório doméstico, com o orago do Santíssimo Sacramento, na fazenda de seu pai, no distrito de Nossa Senhora do Desterro do Desemboque. Com autorização de D. João VI, o oratório foi transformado em Capela Curada, em 24 de agosto de 1820.
Tal é a data cívica de Sacramento.
Passa em brancas núvens qualquer lembrança a 13 de setembro de 1870, quando a Lei Provincial nº 1.637, criou o município de Sacramento, instalando-se a Vila em 6 de novembro de 1871. Também nada significam aos sacramentanos os foros de cidade conquistados em 3 de junho de 1876, junto com a nossa Santa Rita do Turvo.
É de se lembrar que, nessa pegada religiosa, o culto Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho já registrou sua preferência de comemoração cívica: a data em que se ergueu a capela destinada à Santa Rita de Cássia.
O problema é defini-la...
Ah! Existem os que, sucumbidos pela verdade histórica, defendem a manutenção dos festejos em 30 de setembro, em nome da tradição. E você registra o entendimento desses tradicionalistas: "Mudar o dia dedicado a Viçosa seria "arrancar do coração de cada viçosense" uma data que vem sendo cultuada desde 1961". Tradição? Ora, que tradição? A data, na verdade, presta-se às eleições, que, de dois em dois anos, se realizam no domingo seguinte...
Lembremos, para estabelecer-se um paralelo, que, proclamada a república, os positivistas no poder produziram decreto que, em 14 de janeiro de 1890, fixava um calendário das festas nacionais. E, nele, saltando o 22 de abril, reservava o dia 3 de maio para as comemorações da descoberta do Brasil. Aproximando-se, no entanto, os festejos do IV centenário da chegada de Cabral, estabeleceu-se a polêmica: a data fixada ou 22 de abril, data em que, em 1500, teria "caído" o Domingo de Páscoa", que se comemorava, quando se aportaram os portugueses?
Revogou-se o entendimento de 1890: 22 de abril, desde então, é a data!"
Até aqui o jornalista Simão Cirineu Ladeira.


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Comentário final deste blogger:

Mas há outros que defendem, neste caso, que “a versão é mais importante que o fato”, e que mudar o dia dedicado a Viçosa seria “arrancar do coração de cada viçosense” uma data que vem sendo cultuada desde 1961, quando se celebrou com avultados festejos e promoções o 90º aniversário. Tal polêmica faz-nos recordar uma frase do saudoso literato viçosense Elias Ibrahim: “Quando o passado não ilumina o futuro, a vida caminha nas trevas”.


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Forças, luzes e comunicações
FORÇAS E LUZES

Servida pela Usina da Brecha, de Guaraciaba, até que aqui passou a funcionar uma subestação da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), em agosto de 1968, até ali Viçosa dependia de um gerador de energia elétrica movido por força mecânica produzida pela queda d’água do rio Piranga, com capacidade normal de 17.000quilovolts-ampères (kVA). Folha de Viçosa de 22 de setembro de 1968 publicou o edital convocativo da Assembléia Geral Extraordinária dos acionistas, na qual a diretoria da Companhia Viçosense Força e Luz, pelo seu diretor gerente, José Ubirajara Euclides, no exercício da presidência, em consonância com o Decreto-lei nº 2.627 de 26 de setembro de 1940, deliberaria, 10 de outubro daquele mesmo ano, na sede da Cia., à Praça Silviano Brandão, 170, pela dissolução da sociedade, nomeação de liquidantes e a venda do patrimônio da empresa, tendo em vista o encerramento de suas atividades, como empresa concessionária de serviço público. ALVES (Nº?), em Páginas para serem lembradas, descreve a luz desta Companhia como “um tomatinho vermelho lá no forro da casa, iluminando pouco, acendendo e apagando quando bem entendia, a energia sendo desligada pela madrugada e só voltando depois das sete horas do dia...” Em 1966 estudavam-se opções de concessionárias do serviço na cidade. A imprensa alardeava a deficiência do serviço de energia elétrica em seus editoriais, segundo ela, muito deixando "a desejar quanto à iluminação", embora isto não representasse "o mais sério problema". De acordo com Folha de Viçosa, num de seus artigos no referido ano (1966), o problema "mais básico e de maior alcance", situava-se na energia. "Esta é escassa, ruim, intermitente, precária, limitada e limitante do desenvolvimento da cidade.
Que comunidade conseguirá progredir, se não conta com enérgica elétrica estável, segura e abundante?
O que se passa em Viçosa é o fenômeno da desatualização nesse setor. As pequenas companhias não têm mais probabilidade de sobreviver. Sua sobrevivência significaria para quem é servido por elas um entrave mais do que serviço.
Trata-se de setor tão vital que é inevitável a absorção das pequenas organizações por outras lastreadas de maiores recursos, de técnica mais apurada e garantias mais efetivas.
Houve possibilidade de escolhermos, para solução definitiva do caso, a seguinte alternativa: a CEMIG ou a Cataguazes-Leopoldina. Se optássemos por esta, brevemente, teríamos de recorrer à outra, porque constituiria a escolha um remédio transitório.
As numerosas cidades desta Zona da Mata servidas por aquela companhia, inclusive a da sede do consórcio, lutam com a mesma deficiência que nós!
Só restava, portanto, escolhermos o melhor caminho. Não importa que suas taxas sejam mais elevadas que as das demais. O que é melhor deve custar mais. Não preferir o melhor não nos parece só erro. Se não for pecado, será uma imperfeição grave.
Por isso, optamos pela CEMIG. Nossa cidade precisa do melhor. E merece, também. E que, sem sobra de dúvida. Porque quer desenvolver-se. Porque não pode parar.
Venha a CEMIG.
A mesma Folha de Viçosa, de 14 de junho de 1970 (Ano VII – Nº 148), noticiava:
"Visando a solucionar definitivamente o problema de energia elétrica no município, a CEMIG acaba de colocar em operação a nova linha de transmissão Usina de Brecha Viçosa, em tensão de 34,5 mil volts.
A nova linha possui uma extensão de 27 quilômetros e, para a sua construção, além de recursos próprios, a CEMIG contou com financiamento do BNDE e da ELETROBRÁS.

Progresso com Energia

O moderno sistema de iluminação pública de Viçosa está constituído por uma rede de distribuição de 34,7 quilômetros e em sua extensão foram empregados 977 postes de aço e concreto, 923 luminárias, sendo 805 comuns e 118 ornamentais, além de 83 transformadores – monofásicos e trifásicos – com capacidade de transformação de 2.760 KVA."


Um significativo dia para os viçosenses foi o 5 de novembro de 1912. Marcou aquela data a melhoria da qualidade da infra-estrutura dos serviços públicos, porque a Câmara, presidida por Emílio Jardim de Rezende, firmou contrato por um período de cinco lustros com a Casa Vivaldi, para fornecimento de forças e luz aos munícipes. O reservatório municipal de água naquele tempo comportava 200 mil litros. Captado na Fazenda da Conceição, descia o líquido precioso ao Largo de São Francisco (praça Dr. Christóvam Lopes de Carvalho), atravessando o Pasto dos Barros (avenida Santa Rita), com destino ao Morro do Cruzeiro (rua Pe. Serafim) A água foi fluoretada desde 1973, pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae), inaugurado em 1970, e que no princípio do século XXI contava com um moderno interceptor e duas estações de tratamento, nos bairros Bela Vista e Violeira.
E não existindo ainda a Companhia Viçosense de Força e Luz, cuja energia era fornecida pela Usina do Bananal, de Guaraciaba, o querosene era o combustível empregado em setenta bruxuleantes lampiões belgas que, à noite, tremeluziam em esquinas de nove ruas e cinco praças. O homem que os acendia, relata-nos o saudoso viçosense Raimundo Pires da Costa, era quem no lugar “mais contatos tinha com as pessoas, percorrendo de ponta a ponta, no começo da noite e por volta das nove horas, logo após as tradicionais badaladas do sino da cadeia. Acendendo na ida e apagando na volta os escassos lampiões que mal iluminavam as mal traçadas ruas da incipiente cidade, mas alegravam às vezes o coração de muita gente como se fosse uma saudação de boa noite [...] Para Antoniquinho a ordem para acender e apagar tanto podia vir da Sala da Câmara, em cima da cadeia ou de algum cômodo situado na cidade sede da comarca do Turvo. O importante é o que ele sentia, como testemunha ocular; alguma coisa de novo estava surgindo no território exíguo por ele percorrido todas as noites com a claridade e a sombra que seus lampiões produziam.
Não há nalguma parte do norte ou do nordeste um belo poema cantando o acendedor de lampiões? Se o cantor ou poeta daquelas bandas está agora fora de foco e meio perdido na memória, o dinâmico Antoniquinho que precedendo a luz elétrica iluminou as noites de uma porção da Mata, de um recanto do Turvo, com pavios imersos em querosene, tem ainda, quem sabe, um perfil bem vivo na lembrança de muitos que se não o conheceram dele tiveram algumas notícias. [...] No tempo dos lampiões, com o coração mais forte, comunicava-se com mais efusão sentindo que a cidade estava sempre começando com os sinais de aparecimento de uma nova geração visíveis em fisionomias jovens bem semelhantes a outras um tanto mais carrancudas, que agora se mostravam menos ou já estavam definitivamente sumidas [...]
O velho acendedor de lampiões, segundo COSTA, “conheceu meio mundo. Conviveu com gente da Outra Banda, com os hebreus da rua de Baixo, com os adventícios do Pasto do Barros. Mesmo com todas as luzes da cidade apagadas, havia sempre uma venda para os ‘mata-bichos’ retardatários. Como mariposas os notívagos eventuais ou efetivos sempre se aglomeravam em torno de um bico de luz mais acessível. Aí (podia ser na venda de um velho Jacó do alto do Cruzeiro, na de Chico Turco, no Largo da Matriz ou na do Cristiano, no começo da rua de Baixo) reuniam-se, não raras vezes, sobretudo aos sábados, três ou quatro gerações, jovens seresteiros, músicos de várias idades, andarilhos da noite, apenas curiosos, curiosos que além do interesse pelas novidades pitorescas do Antoniquinho, queriam também comprar tarecos e cobus, saborear um pão com sardinha ou bebericar o último golo da noite, alternado com pedacinhos de lingüiça de porco defumada.
Os homens da noite (fenômeno de todas as épocas) formavam um grupo flutuante, apareciam aqui e ali, uns mais, outros menos chegados aos vendeiros, sumiam, reapareciam, com exceção de três ou quatro, que eram veteranos e mais pontuais, como o Laurindo, o Porfírio, o Joãozinho Jacó... A notícia em primeira mão era quase um privilégio do homem dos lampiões numa época mais recuada, coisas como a partida inesperada do Pe. Boaventura, com a chegada de um grupo teatral vindo do Rio, o início dos trabalhos de construção do novo ramal da estrada de ferro, o casamento de Joel e a morte de Antão Fernandes.
A política também era notícia, assim como as festividades religiosas com divergências sempre presentes em relação aos candidatos aos cargos eletivos (mais ou menos na base do ‘bico de pena’) e aos encargos de festeiros para as festas de maior importância, estes por escolha, do vigário e de alguns assessores. Boas fontes de notícias foram sempre as vendas já de portas fechadas, os clubes, abertos e clandestinos, e as salas particulares de jogo, onde sapos e jogadores perdem e ganham, comem e bebem, discutem e se entendem, pois a terra natal é sempre boa mas não é ainda o paraíso”.

COMUNICAÇÕES

No referente às telecomunicações, foi em 1949, mais exatamente a 16/7, que foi ao ar pela primeira vez a Rádio Montanhesa AM, fundada por Alberto Daker, José Daker, Nagib Balut, Ney Sant'Anna, Paulo Pinto Coelho. Seu primeiro estúdio foi no andar superior do prédio de número 50 da praça Silviano Brandão, da família Rodrigues Araújo, no qual se instalaria a Caixa Econômica Estadual, embaixo, após abrigar a Confeitaria Brasil (padaria, chocolateria, choperia, bar, doceria, cafeteria e lanchonete), e também A Brasileira. A ZYV-4 - Rádio Montanhesa não poderia estar melhor localizada, bem no coração da cidade, e ao lado do prédio de número 36, onde funcionou, até fins de 2007, uma das lojas mais tradicionais de Viçosa, a Casa Araújo, que datava de 1915, fundada pot João José de Araújo, português que havia trabalhado em Juiz de Fora e em Belém do Pará. A Casa Araújo tivera sua origem na antiga Rua do Comércio, atual Benjamim Araújo (antiga rua Getúlio Vargas). A princípio era a Casa Araújo apenas de seu fundador. Mais tarde, associou-se ele um seu compatriota: Antônio Martinho. E a Casa Araújo passou a ser a firma “Araújo & Martinho,” que se dissolveu em 1932, voltando a pertencer unicamente ao seu fundador. Foi nos idos de 1928 que a casa se mudou para ali. Nela funcionou o primeiro escritório local do Banco do Brasil (Agência Correspondente) e, no passeio do jardim, defronte, um depósito subterrâneo de uma bomba de gasolina, também, de propriedade da casa. A primeira emissora radiofônica de Viçosa estava. ali naquele lado da praça, também próxima do Viçosa Clube (antes Automóvel Clube de Viçosa),e do Cine Theatro Odeon, este extinto em 1990, e que também estivera algum tempo sob administração de Araújo e Martinho. A firma, do ramo de ferragens e materiais para construção (e que se transformou num supermercado tal como o de grandes centros comerciais), chegou a trabalhar com gêneros alimentícios, conservas e bebidas e administrou o famoso Bar Astória).
A ZYV4, com seus 1.600 quilociclos, em ondas médias de 187 metros ponto meia dúzia, operou inicialmente com uma torre self suporting de 45 metros, mantendo uma hegemonia de quatro décadas, já que as outras emissoras locais como as FM’s, Rádio Viçosa 95, Universitária e Líder 97 e a TV Viçosa (Sistema de Rádio e Tv Educativa da Universidade Federal de Viçosa) surgiriam apenas a partir de 1992. Por último foi criada a Rádio Comunitária Quintal do Samba, que passou a funcionar no dia 18/12/2004.
Na década de 1960 circulava na cidade um panfleto com os seguintes dizeres:

"Esta é a Rádio Montanhesa de Viçosa

A Rádio Montanhesa instalada na cidade de Viçosa, considerada a cidade de nível intelectual mais elevado do Estado, com uma população de cêrca de 40.000 habitantes em sua séde, contando a Comarca com 112.000, sendo séde da Universidade Rural de Minas Gerais, possuindo as primeiras Escolas de Agronomia, C. D. e Eng. de Florestas de tôda a América do Sul, além de mais 58 escolas de todos os gêneros, pode ser considerada, sôbre todos os pontos de vista, instalada numa cidade privilegiada.

Parte técnica

A Rádio Montanhesa, está aparelhada com um transmissor Philips de alta fidelidade, o que lhe garante um som claro e perfeito; com uma tôrre de antena, tipo 'self suporting' de 60 metros de altura com capacidade para 10 Klwts., única tôrre do gênero em todo o Estado.

Zona de alcance

Êste é um dos aspectos mais importantes da Rádio Montanhesa, e para o qual chamamos a atenção dos senhores anunciantes. Viçosa está situada bem no centro da Zona da Mata, a mais populosa do Estado de Minas, e a zona de alcance da Rádio Montanhesa é de 200 quilômetros em linha reta, o que representa a cobertura de 40 municípios que totalizam uma população de 1.333.470 habitantes."


Seus primeiros locutores, sobre a extinta Confeitaria Brasil, no andar superior do edifício de nº 50 da praça Silviano Brandão, foram Bigão, Chico Maltema, Lalau, Nicolau Martino, Renato Sant'Ana e Renato Simplício, como nos informou o jornalista Simão Cirineu Ladeira. A primeira representante do sexo feminino a trabalhar como locutora foi Maria de Lourdes de Freitas Castro. O estúdio da primeira emissora radiofônica viçosense esteve, além da referida praça, também no andar superior do imóvel de nº 115, da rua Arthur Bernardes e na Rua dos Passos, nº 19, ainda na década de 1950. Na década seguinte transferiu-se para a avenida P.H Rolfs, nº 50, operando na freqüência de 1600Hz, como ZYV4. Seus anunciantes de então, agenciados por Nagib Balut, eram, de acordo com registros históricos, a Colchoaria Ideal, a Exposição Viçosense, a Relojoaria Megale, a LojaSantana, a Revendedora, a Estrela de Ouro, o Lambari, a Garotinha, a pomada Parisiense, a Sapataria São José, as pílulas de Lussen, além da veiculação de propaganda político-partidária, como as das campanhas à presidência da República encabeçadas pelos candidatos Jânio da Silva Quadros e seu opositor Marechal Henrique Teixeira Lott.
O transmissor de então era de 100 Watts, que atingia não apenas o atual centro da cidade, mas a periferia e zona rural do município. O programa de auditório denominava-se "A cidade é nossa". À "Hora Social" prendiam-se os ouvintes, do meio-dia até o encerramento das transmissões, às 19 horas. E quando a energia da Companhia Viçosense de Força e Luz teve que ser comprada da Usina da Brecha, de Guaraciaba, havia um sistemático apagão à tarde, em torno das 16 horas, ocasião em que criaram um programa, que se iniciava às 15h30, denominado jocosamente, como nos informou o jornalista Simão Cirineu Ladeira, de "Enquanto a luz não vai..."
Em 1972 a emissora foi filiada à Associação Brasileira de Rádio e Televisão, funcionando, desde, então, na ZYL 215, à freqüência de 1500 KHz, findando-se então o saudoso programa "Hora Social". Em 1966 o estúdio foi novamente transferido, desta feita para a rua Francisco Machado, 74, operando com 500 Watts. Após curto período fora do ar, retornou com seus 1000 Watts de potência, já em sua sede própria, na rua Floriano Peixoto, 31.
Priorizando transmissões jornalísticas e sobretudo esportivas, diretamente de grandes estádios nacionais, além da programação musical propriamente dita, a Montanhesa sempre se destacou por uma altamente relevante prestação de serviços à comunidade. Em 1979 foi para os 1000 Watts e em 1992 para os 5000, com seus 1500 kHz, operando em ondas médias. Hoje está na World Wide Web.

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Em novembro de 1973 foi implantada a Telemig, depois Telemar, com seu posto telefônico público na travessa Sagrados Corações, 70. Antes, onde está o imóvel de número 34 do calçadão da rua Arthur Bernardes, funcionou, desde 1925, a Companhia Telefônica de Cataguases, adquirida por Pe. Álvaro Corrêa Borges, inicialmente com 50 aparelhos. Esta Companhia atendia aos postos instalados em Araponga, Cajuri, Canaã, Coimbra, Pedra do Anta e Teixeiras. Posteriormente, a Companhia Telefônica Brasileira foi instalada no imóvel de número 9 da Praça da Estação Ferroviária, onde trabalhavam mensageiros. Conforme LAM-SÁNCHES "nada mais era que uma pequena central, daquelas antigas, movidas a manivela, onde era a coisa mais difícil comunicar-se com qualquer parte do Estado ou fora dele. Imaginem que naquele tempo, para se fazer uma ligação telefônica para o Rio de Janeiro, tinha que ser feita por meio de etapas, Viçosa-Ubá, Ubá-Cataguazes, Cataguazes-Leopoldina, Leopoldina-Petrópolis, Petrópolis-Rio. Era preciso manter 'vivas' as intermediárias, sem 'cair', para se completar a ligação desejada. Ficou fácil imaginar quanta demora havia para se conseguir uma ligação. Uma coisa que me intrigava era a facilidade com que os resultados do jogo do bicho (jogos 'veterinários') chegavam rápida e infalivelmente à cidade."
E antes disso, o telefone da Estação da Estrada de Ferro Leopoldina é o que existia até que, a 10 de maio de 1959, fosse criada, por 500 acionistas, a Companhia Telefônica Viçosense, instalando nos imóveis viçosenses seus primeiros terminais semi-automáticos.


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A SERVIÇO DA COMUNIDADE VIÇOSENSE



"Abrigando a dor. Sarando o doente. Ajudando a vir ao mundo crianças. Enfeitando de bondade a velhice que o busca. Engolindo, cada dia, num malabarismo improvisado, filas e mais filas de indigência que sofre e sai confortada. Sai medicada. Sai esperançosa de cura, pela palavra doce de médicos prestimosos, que a gente pensa que um dia aquela calma vai acabar, mas que, a cada dia, os encontramos calmos e bons. Enfermeiros e freiras que distribuem bondade e compreensão. Por que não contar à gente que nas enfermarias não sobrou um só leito o ano todo? Que os remédios da farmacinha foram poucos para ser distribuídos, mas que não foram negados enquanto existiram? Que o soro pedido para restituir a vida foi aplicado na veia mais pobre, desde que precisada? E não teve preço. A transfusão foi feita imediatamente, quando o indigente precisou e a prodigalidade dos doadores abasteceu o Banco de Sangue."

Norah

(A Cidade - 17 de janeiro de 1971)

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Monsenhor Raimundo Gonçalo Ferreira, a quem já demos escorço biográfico no capítulo sobre os sacerdotes que trabalharam em Viçosa, relembrou num de seus escritos o fato histórico de ter sido a casa de Fabíola, em Roma, o primeiro hospital, e que “no século 4º da Era Cristã, todas as cristandades da Europa dispunham de hospitais e asilos fundados pelos bispos ou sacerdotes. Na Idade Média, segundo o testemunho de Lalemand, a Igreja dispunha das mais diversas e numerosas instituições que correspondiam a toda sorte de doenças, necessidades e condições de vida”.
As principais casas de saúde de Viçosa, seus dois hospitais, hoje têm as melhores referências na Zona da Mata, principalmente por conta de seus CTIs modernos, de uma UTI Neonatal, de serviços de Litotripsia, dos centros de Quimioterapia e Hemodiálise e de outros serviços relevantes. A mais antiga, o Hospital São Sebastião (HSS) serviu a várias gerações. Como Irmandade (Casa de Caridade de Viçosa) foi instituída a 21/6/1908, mas há registros de que remonta a 21/9/1900 a sua existência, informal, anterior à adoção de estatutos. Acompanhando a evolução da medicina, ampliando a estrutura dos serviços e proporcionando saúde e qualidade de vida de seus clientes, em Viçosa também se pode contar, desde 14 de abril de 1975, com a Fundação Assistencial Viçosense (FAV), mantenedora do Hospital São João Batista (HSJB), inaugurado a 21/10/1984, na Rua dos Passos, nº 1000. Tornaram-se casas de tradição, profissionalismo, tecnologia, qualidade e competência, proporcionando atendimento de ponta, sem abrir mão, a exemplo do HSS, da relação humana entre a equipe de saúde e o paciente. Equipes especializadas, ambientes modernos e confortáveis, inclusive CTI’s, com equipamentos de última geração são o resultado de esforços constantes de abnegados cidadãos altruístas. Inúmeros foram os que colaboraram com ambas as casas, no mais absoluto anonimato.
Pela Resolução nº 214, de 1905, o presidente da Câmara e agente executivo de então, Dr. Arthur da Silva Bernardes, autorizou o dispêndio da quantia de cinco contos de réis (5:000$000) para a aquisição ou construção de um prédio destinado a servir de hospital ou casa de misericórdia, ocasião em que havia, anexo externo ao consultório do médico Sebastião Augusto Loureiro, o “Hospital de Caridade São Sebastião, funcionando das 8 às 10, e das 12 às 16 horas, exceto às quintas-feiras. Com o falecimento de Dr. Sebastião Augusto a 20/8/1905, assumiu a direção da casa o Dr. Júlio Gallo, que clinicou em Viçosa até 14/10/1906, atendendo a indigência com medicamentos gratuitos e cirurgias. Em seus primórdios, funcionaram nele gabinetes odontológicos de Lindolfo Sant’Anna e Sylvio Loureiro. A fim de fazer funcionar melhor o hospital, a 12/6/1908 o presidente Arthur Bernardes adquiriu, de Dona Maria Balduína Dias de Carvalho, casarão colonial de nº 3, de coloração ocre, com portas e janelas marrons, na atual praça Emílio Jardim/avenida Bueno Brandão, onde funcionara a segunda sede do Colégio Baptista.
A direção da Câmara Municipal tinha autorização, naquele 1905, de acordo com a resolução que foi a primeira assinada pelo político Arthur Bernardes em seu primeiro cargo público, para receber a escritura do terreno onde seria construído um prédio (o da rua Tenente Kümmel, nº 36), do qual poderia ceder o uso a uma irmandade ou associação de caridade que se propusesse a fundar, e manter, na cidade, um hospital, ou estabelecimento congênere. De acordo com o parágrafo 3º da resolução de Bernardes, o estadista santa-ritense, o prédio da Irmandade pertenceria sempre à Municipalidade e a esta deveriam reverter o uso e gozo, a todo o tempo, na hipótese de aquela se dissolver. A dotação orçamentária para sua construção correu por conta da verba “Obras Públicas”. Dr. Arthur Bernardes assinou tal resolução a 17 de novembro do dito ano, de 1905. Sua inauguração festiva se deu a 12/7/1908, sendo orador oficial das solenidades, Dr. Diogo de Vasconcelos. Pe. Belchior, vigário de Viçosa, teria sido, conforme nota jornalística, um dos oradores da ocasião, mas as palavras por ele proferidas desconhecemos. Não sabemos se foi de improviso. O pavilhão mais antigo do prédio do HSS, que passou a ocupar quase toda a extensão da rua Tenente Kümmel, foi construído em dois anos e concluído em 1930.
Correspondência datada de 30/9/1929, dirigida a um certo coronel José Ildefonso e subscrita por uma comissão composta por Joventino Octavio de Alencar, Emílio Jardim de Rezende, Benjamim da Silva Araújo, João Braz da Costa Val, Raymundo Alves Torres, José Canuto Torres e Cyro Bolivar de Araújo Moreira” (há uma assinatura ilegível), noticia a prestação “aos necessitados de toda esta zona”, de “constantes beneficios. Obra de finalidade altamente humanitaria, o nome do Hospital S. Sebastião é bendito pelos nossos patrícios menos favorecidos da sorte.
Tendo funcionado até agora em um predio acanhado e impróprio ao seu destino, levantou-se com o auxílio de todos um novo e explêndido edificio, que se destina ao funcionamento do Hospital. Para a acquisição, porém, dos meios necessários ao seu funccionamento, precisa o Hospital valer-se da boa vontade e do auxílio dos amigos de Viçosa e de todos os que possam concorrer com seu generoso obulo para alliviar as dores dos infelizes patricios que diariamente lhe batem ás portas. Organizaram-se diversas comissões para a realização daquelle desideratum e dentre estas uma ha que se encerra em conseguir 300 pessoas que concorram com 100$000, cada uma, para tão humanitario fim. Tomamos a liberdade de inscrever o nome de V. Excia. como um dos benemeritos do Hospital, esperando envie ao sr. major Benjamim da Silva Araújo, thesoureiro, a quantia acima solicitada. Os jornaes desta cidade têm publicado, semanalmente, o nome das pessoas que já contribuiram. Certos de que V. Excia. se dignará de consentir que se effective o registro do seu nome na lista dos bemfeitores, antecipamos os nossos sinceros agradecimentos”, conclui o ofício escrito em papel timbrado da Casa de Caridade. Incontáveis vidas nela buscam a cura de enfermidades. Milhares de seres humanos encontraram, desde os seus primórdios, da parte de médicos humanitários, de enfermeiros competentes e das freiras carmelitas da Divina Providência, remédio, agasalho e conforto. Foram provedores, como Pe. Belchior, até 2007, Francisco José Alves Torres, Virgílio Augusto da Costa Val, Cyro Bolivar de Araújo Moreira, Álvaro Corrêa Borges, Raymundo Alves Torres, José Felicíssimo de Paula Xavier, José Sant’Anna, Sebastião Ferreira da Silva, José de Alencar, Octávio da Silva Araújo, José Mauro Torres, Carlos Raymundo Torres, Francisco Machado Filho e Jorge Antônio Ferez.

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Alguém escreveu que o fato de “resgatar a história dos lugares é fazer renascer as condições que lhe proporcionaram existir”. Nesse sentido, como mostra uma das fotos deste trabalho, no exato lugar do imóvel de número 97 da rua Afonso Pena, divisava-se ao fundo do HSS, no alto, o extinto Hospital Regional Federal da Matta, anexo a um Posto de Profilaxia Rural, que foi a outra casa de saúde a marcar época em Viçosa, sob a direção de notáveis médicos que aqui viveram e trabalharam, com profundo humanismo e elevada devoção à nobilíssima arte hipocrática, como José Felicíssimo de Paula Xavier, Mário Barreto, Cyro Bolivar de Araújo Moreira e João Baptista Ferreira Brito, quatro nomes imperecíveis, como tantos outros profissionais da saúde, na memória das gerações viçosenses, por terem lhes concedido remédio, agasalho, conforto e, sobretudo, uma grande amizade. Os outros nomes sempre recordados são o da farmacêutica e poetisa Cora de Araújo Moreira Ferreira da Silva, que ali trabalhou anos a fio, e da professora e parteira Alice Vaz de Mello Loureiro, que viveu 83 anos, falecida a 30/9/1951, celebrada como Mulher-Símbolo entre as desveladas senhoras que, em Viçosa, desempenharam o sublime ofício caritativo de colaborar, com a chegada, à luz, de centenas de vidas.
O Hospital Regional localizava-se na atual rua Afonso Pena, nº 97, no centro. Instituído pelo governador Arthur Bernardes (1918-1922) como parte integrante de um plano de saúde pública considerado “perfeito e racional”, possuía unidades congêneres em Patos, Pirapora e Pouso Alegre, atendendo a casos clínicos e cirúrgicos de toda a região. Quando encerrou seu mandato, para assumir a presidência da República, Dr. Bernardes plajenajs construir pelo menos mais oito unidades do gênero no interior de Minas. Foi dirigido inicialmente por Dr. João Batista Ferreira Brito, que é nome de uma das principais artérias centrais de Viçosa, falecido prematuramente, a 11/3/1924, quando contava 39 anos de idade. Viçosense adotivo dos mais benquistos pela pequena população de então, com sua morte assumiu o hospital foi assumido, primeiramente, por Dr. Mário Barreto, e depois por Dr. José Felicíssimo de Paula Xavier. Este último foi o primeiro cidadão a presidir o Rotary Club de Viçosa. Ambos médicos. O nome de Dr. Brito, impresso em letras garrafais, foi manchete principal do Jornal de Viçosa, na primeira edição que se seguiu à sua morte. Datada de 15/3/1924, ao ilustre médico se referiu aquela edição, dentre outros termos, nos que aqui seguem: “Caridoso, modesto ao extremo, amigo de todos e, sobretudo dos pobres e dos humildes, desprovido de ambição e vaidade, o Dr. Brito teve, na sua pobreza evangélica, a vida serena e cheia de dignidade e de nobreza, dos que podem olhar para trás sem receios, sabendo escrever ainda, na consciência da pátria, uma página de altivez, de honra e de bondade [...] Não deixou fortuna, mas deixou amigos. Deixou um nome de ouro, incrustado no coração agradecido de cada viçosense”. A poetisa viçosense Cora de Araújo Moreira Ferreira da Silva, farmacêutica do extinto Hospital Regional, falecida a 10/8/1998, fez o panegírico dos médicos que ali trabalham. Eis um trecho de seu poema Aos Médicos:

“Já os tenho visto...
exaustos, alquebrados, vencidos,
após noites de vigília,
insones e de si mesmos esquecidos,
olhos marejados
a contemplar, alheios,
o corpo inerte, de cuja fronte, num derradeiro gesto,
enxugam o suor gélido
que precede a última jornada.
Mas, há também
Esplendores de alvorada:
quantas mães
salvam para os filhos;
quanta fronte esmaecida
trazem de novo à vida,
como raios de sol que deslumbram,
abrindo o tênue colorido
das frias madrugadas.
Como o Mestre divino,
com o toque de suas mãos,
fazem voltar a luz
às retinas apagadas.
Quanta felicidade
se lhes inunda
a nobre alma fecunda
quando descansam
no regaço da jovem mãe
a esperada criancinha”.



ASSOCIAÇÃO COMERCIAL



Constituiu-se, em 1924, a Associação Comercial de Viçosa (ACV). A primeira sede provisória da ACV existiu no extinto sobrado de número 46 da rua Arthur Bernardes (via transformada em Calçadão na década de 1980, na administração do prefeito César Sant’Anna Filho), onde funcionava uma Escola de Comércio e Contabilidade, acompanhadas de um consultório jurídico, inaugurados a 1º de junho de 1925, ambos com freqüência gratuita para os filhos, empregados e auxiliares dos sócios. A primeira diretoria da velha ACV (depois Associação Comercial e Agrícola) foi eleita a 19 de outubro de 1924, no Cine-Theatro Paladinos, na Praça do Rosário. O Jornal de Viçosa, de 25 de outubro de 1924 (ano 11 – nº 11), noticiou: “Associação Commercial de Viçosa – Realizou-se, no domingo, 19 do corrente, no Cine-Theatro Paladinos, a eleição da primeira directoria da Associação Commercial de Viçosa, conforme noticiamos na nossa edição passada. A assembléia foi presidida pelo sr. Orlando Vieira de Andrade, industrial residente no visinho districto de Teixeiras, tendo como secretarios o nosso director e o sr. Lauro Andrade, commerciante nesta cidade, tendo à mesma comparecido commerciantes e industriaes desta cidade, Teixeiras, Coimbra, Cajury, Canaan e Paraguay. A primeira directoria da Associação Commercial de Viçosa, ficou constituida dos srs. Capitão Joventino Octavio de Alencar, Alberto Alvaro Pacheco, Sylvio Loureiro e capitão Luiz Megale, respectivamente presidente, vice-presidente, 1º e 2º secretários e thesoureiro. Para a Commissão Fiscal e de Syndicancia foram eleitos os srs. Altivo Ferreira de Mello, capitão Augusto Gonçalves Fontes e José Rolla membros effectivos e supplentes os srs. Celso Coelho, João José de Araújo e João Martins de Oliveira Chaves. A posse da directoria realizou-se logo depois da eleição. De accordo com os estatutos podem fazer parte da Associação todos os commerciantes, industriaes, banqueiros e agricultores residentes neste município.
A Associação tem por fim promover dentro da lei, por todos os meios ao seu alcance, o interesse geral, desenvolvimento e prosperidade das classes conservadoras do nosso município; manter uma escola de commercio e um consultório jurídico, gratuito para os associados bem como representar perante os poderes públicos o nosso commercio, industria e lavoura. Promoverá o congraçamento de todos os seus associados dando assim ao nosso commercio o prestigio que lhe é devido, fazendo realizar em futuro bem proximo o desenvolvimento e progresso da nossa industria e lavoura”. O jornal dirigido por Sylvio Loureiro, na mesma edição, informou sobre uma reunião da Comissão Fiscal e de Sindicância para a escolha de um relator, no dia seguinte, e anunciou a publicação dos estatutos da entidade, legalmente registrados, acrescentando, na mesma nota, que “o sr. dr. secretário da Agricultura deste Estado, transmitiu ao presidente da Associação o seguinte despacho telegraphico: ‘Joventino Octavio de Alencar Presidente Associação Commercial Viçosa. B. Horizonte, 23 outubro 1924. Agradeço, gentileza communicação fundação dessa sociedade e formulo votos sua prosperidade ponto Saudações cordiaes, Daniel de Carvalho”.
Conforme registros históricos, funcionou entre 1941 e 1952, com interstícios entre 1957 e 1967, sendo consolidada a 17 de dezembro de 1968 com seu registro público. A edição de 22 de setembro de 1968 da Folha de Viçosa noticiou o seguinte acontecimento: “No dia 17 último, teve lugar no salão do Viçosa Atlético Clube a 1ª reunião da Associação Comercial de Viçosa. Presidida pelo Juiz de Direito, Dr. José Felismino de Oliveira e secretariada pelo prefeito local, compondo a mesa os presidentes do Rotary Clube e Lions Clube e demais representantes do Comércio Viçosense. Nesta reunião foi eleita e empossada a diretoria da Associação Comercial de Viçosa, que ficou assim constituída. Presidente: José Bernardes Santana, 1º vice-presidente: Manoel Rodrigues da Silva Pontes, 2º vice-presidente: Mário Dutra dos Santo, secretário-geral: Paulo da Silva Dantas, 1º secretário: Ney Sant’Anna, 2º secretário: Joaquim Resende Fontes, bibliotecário: Adson Rodrigues Bicalho. Conselho Diretor: José Duarte Filho, Josefino de Sena Campos, Alexandre Braz de Carvalho, Adão Ladeira de Carvalho, Sebastião Milagres, Antônio Carvalho Bhering, Francisco Sant’Anna Maia, Antônio Lopes de Andrade, Oswaldo de Paula Lanna. Conselho Fiscal: Geraldo Carneiro Vidigal, José Olinda de Andrade, Sebastião Lopes da Silva. Conselho de Contas: Octacílio Ferreira Maciel, Sebastião Soares da Silva, Raimundo Vidigal Fernandes Filho. Até o ano de 2010 haviam presidido a ACV: Clóvis Clodoveu de Castro (41-43), João Maffia (44-45), Juarez de Souza Carmo (46), Mário Dutra dos Santos (47-48/49-50), Nilton Clóvis de Castro (51), Nasser Simão Muanis (52), Antônio Lopes de Andrade (57), José Bernardes Sant’Ana (68-70), Manoel Rodrigues da Silva Pontes (71-72/83-85), José Borges Neto (73-74), Antônio Dias de Andrade Neto (75), João Bosco Torres (76), Braz Rozado Costa (77-78), Flávio Márcio Andrade (79-80), Lacyr Dias de Andrade (81-82), Francisco Tadeu Sena Fernandes (87-88), Pélmio Simões de Carvalho (89-90), Luís José de Arruda Alves (91-92/97-98), Jorge Antônio Ferez (93-94), Ricardo Luís de Castro (95-96), Roberto Dias de Andrade (99-2000), William Francisco Alves (00-02), Ivone Maria Pires de Barros (02-06) e Eustáquio Roberto Gomes Sant'ana (07-10).
Com participação garantida na elaboração do Orçamento Municipal anual, em faculdades e centros educacionais, hospitalares e de comunicação social, cadeiras conquistadas em diversos órgãos representativos da sociedade civil organizada, como o conselhos municipais de Cultura, Patrimônio Cultural e Ambiental, de Trânsito, de Segurança Pública, de Emprego e Renda, de Alimentação Escolar, de Saúde, de Habitação e no Centro Vocacional Tecnológico, produzindo destacadas campanhas promocionais que fortaleceram o comércio local, promovendo cursos gerenciais de apoio a pequenos negócios, por meio de capacitação em gestão, bem sucedidos encontros empresariais para troca de experiências, instituindo láureas como a Comenda do Mérito Arthur Bernardes, desde 1983, realizada em agosto, o Prêmio Mérito Empresarial, instituído em 2001 pela CDL, e entregue ao final de cada ano, desenvolvendo competências individuais e grupais ao proporcionar atualizados conhecimentos a empreendedores por destacados profissionais e pensadores do Brasil, a ACV, em 2010, já congregava o expressivo número de 580 empresas. E tendo aprimorado ao máximo os seus serviços de apoio e fomento à classe empresarial e, conseqüentemente à comunidade viçosense e regional, seus associados puderam contar, desde 2009, com uma Agência do Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil (Sicoob), fruto da união com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), que também geraram, em 2001, a Casa do Empresário, reunindo, num único espaço, na rua Dr. Milton Bandeira, nº 215, além de ambas as entidades, outras cinco: Ponto de Atendimento do SEBRAE, a Agência de Desenvolvimento de Viçosa (ADEVI), o Arranjo Produtivo Local de Biotecnologia para o Agronegócio e o Meio Ambiente (APL Biotec), o Arranjo Produtivo Local da Tecnologia da Informação (APL TI) e o Circuito Turístico Serras de Minas.



CLUBES DE SERVIÇO



O Lions Clube de Viçosa foi fundado a 28/10/1967. O atuante clube de serviço teve como sócios fundadores Adson Rodrigues Bicalho, Alexandre Braz de Carvalho, Antônio Lopes de Andrade, Eduardo José Mendes del Peloso, Flávio Araújo L. do Amaral, Geraldo Lopes de Faria, Gilberto Pereira de melo, Guy Capdeville, João da Cruz Filho, José Alberto Gomide, José Aníbal Comastri, José Mauro Torres, José Rodrigues Costa, José Pataro Machado, Josué Leitão e Silva, Kepler Euclydes Sant'Anna, Luiz Maria Ramos, Milgar Camargos Loureiro, Osmar Ribeiro, Sebastião Lopes Soares e Sebastião Moreira Silva. Ao longo de 4 décadas haviam sido seus presidentes os seguintes cidadãos: Antônio Lopes de Andrade (1967/68), Milgar Camargos Loureiro (1968/69), João da Cruz Filho (1969/70), Ruy Franca (1970/71), José Oscar Gomes de Lima (1971/72), Antônio Lopes de Andrade (1972/73), Osmar Ribeiro (1973/74), Adolfo Egídio Reis (1974/75), Mário Rocha Gomes (1975/76), Onofr Christo Brumano Pinto (1976/77), José Borges Neto (1977/78), Dilermanio Carlos Ferreira (1978/79), Claudeni Siridol Pereira (1979/80), Dilermanio Carlos Ferreira (1980/81), José Borges Neto (1981/82), Delci Mendes da Rocha (1982/83), Adson Rodrigues Bicalho (1983/84), Antônio Fernando Gomes (1984/85), Dilermanio Carlos Ferreira (1985/86), José Borges Neto (1986/87), Cláuzio Heitor da Silva (1987/88), Luís José de Arruda Alves (1988/89), Sebastião Heleno Dini (1989/90), Sebastião Heleno Dini (1990/91), José Luiz Baltazar (1991/92), Edney José de Oliveira (1992/93), José Maria (1993/94), Daniel Lopes (1994/95), Maria Antônia Toneguzzo (1995/96), Álvaro César Sant'Anna (1996/97), Frank Paiva da Cunha (1997/98), Dilermanio Carlos Ferreira (1998/99), Luiz Fernando T. Albino (1999/00), Luiz Fernando T. Albino (2000/01), José Mauro S. P. Coelho (2001/02), Luzia Borges da Cunha (2002/03), Frank Paiva da Cunha (2003/2004), Claudeni Siridol Pereira (2004/05), Luiz Fernando T. Albino (2005/06) e Milgar Camargos Loureiro (2006/2007) e Marcos Azevedo Magalhães.
Dentre as muitas realizações do clube ao longo de suas primeiras quatro décadas, destacam-se a campanha vitoriosa pela aquisição e doação de terreno para a construção da Escola Estadual Madre Santa Face, a criação do primeiro Banco de Sangue de Viçosa, a formação da Incubadora do Hospital São Sebastião, a construção da Capela Mortuária do Hospital São João Batista, a idealização e organização de brinquedotecas, o patrocínio e a organização jurídica da Creche São João Batista, a conclusão das obras do Centro de Tratamento Intensivo do Hospital São João Batista, reforma da Cadeia Pública e construção de cela para albergados, a doação de US$ 4.000 para a Campanha Sight Firts (Visão), o plantio de novecentas árvores na avenida Marechal Castello Branco(BR-120), além de inúmeras atividades e campanhas em prol da cidadania, contra as drogas e o câncer de mama.
Também tiveram muito sucesso as suas feiras de saúde, campanhas de doação de alimentos no Natal, bailes beneficentes, projeto esportivo "Leãozinho Bom de Bola", além de doações de óculos, medicamentos, aparelhos ortopédicos, exames de Raio X, agasalhos, bolsas de estudo, material escolar, empréstimos de cadeiras de rodas, beneficiando entidades como o Lar dos Velhinhos, a Associação Cristã Espiritualista Allan Kardec, a Sociedade São Vicente de Paulo, a Associação Assistencial e Promocional da Oração de Viçosa, a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, dezenas de creches, a Lira Santa Rita, escolas estaduais e municipais, associações de moradores, a Associação Mão Amiga, o Serviço de Obras Sociais, a Casa do Caminho Bezerra de Menezes e a Associação dos Cegos de Juiz de Fora, dentre outras. O Lions de Viçosa ainda teve participação ativa na fundação do Lions Clube Ponte Nova Leste, do Lions Clube de Ervália, do Clube dos Castores e do Leo Clube de Viçosa.
Integrando o Distrito 4580 de Rotary International e tendo como clube padrinho o sediado na cidade de Ubá, e com grande incentivo do rotariano ubaense José Campomizzi Filho, a 21 de junho de 1957, no Viçosa Clube, então localizado no edifício nº da praça Silviano Brandão (onde foi sede o Cine Theatro Odeon) foi a primeira assembléia para a fundação do Rotary Club de Viçosa. Viçosa tinha então menos de 10.000 habitantes. Tendo recebido o número 8.365, a sua Carta Constitutiva veio a 1º de agosto daquele mesmo ano. Os sócios fundadores foram 25 ilustres cidadãos da comunidade viçosense. N??? ... Desde então o Rotary teve marcada participação na vida social, cultural, econômica e comunitária do município, tendo atuado em realizações as mais importantes, entre as quais o apoio à construção da sede do Tiro-de-Guerra e na iluminação da praça Silviano Brandão, feita por intermédio do senador Arthur Bernardes Filho, ilustre filho da terra. Rotary obteve adoação de todo o material elétrico para a iluminação, a mercúrio, do principal logradouro central, além de ter contribuido na construção de uma rampa de acesso no Hospital São Sebastião.
Memoráveis campanhas de vacinação com o fornecimento da vacina contra a poliomielite, inclusive com a manutenção de um um Posto de Vacinação de crianças foram também um marco nos primeiros anos. Foi no Rotary que teve início o movimento social, em 1965, para a fundação de uma cooperativa agropecuária no município, tendo sido seus principais líderes Arlindo de Paula Gonçalves, Divino Vitarelli, João Maffia Filho, Joaquim Aleixo, Vincenzo d'Antonino e Geraldo Carneiro Vidigal, culminando na fundação da Cooperativa Agropecuária Mista de Viçosa (Camiv).
O ocaso da Companhia Viçosense de Força e Luz e sua substituição pela Cemig teve também grande impulsionamento por parte das lideranças rotárias, além dos asfaltamentos das rodovias Viçosa/Ponte Nova e Viçosa/Visconde do Rio Branco. Em 1968o clube se empenhou na reorganização da Associação Comercial de Viçosa, já que os rotarianos José Bernardes Santana, Mário Dutra dos Santos, Geraldo Carneiro Vidigal, Eloy Gava e Joaquim Campos "foram os que mais se empenharam neste empreendimento", conforme ressaltou a este blogger o rotariano Braz Rozado Costa.
Em 1967, Mário Dutra dos Santos e outros idealistas iniciaram "um trabalho lento e persistente para a construção do Lar dos Velhinhos", ainda de acordo com Braz Rozado Costa, que acrescenta os seguintes fatos: "No dia 4 de abril de 1981, na sede do Clube Campestre de Viçosa, às 21 horas, estávamos reunidos os companheiros Antônio
Fagundes de Sousa, Gerhardus Lambertus Voorpostel, João Bosco Torres, José Bernardes Santana, Pélmio Simões de Carvalho, este companheiro, e vários companheiros da época, junto com pessoas da comunidade, assinando a Ata de Fundação da Apae de Viçosa. E a Apae hoje atende mais de 330 crianças de Viçosa e região."
Coordenado por Cid Martins Batista, mais de 1.700 palestras por todo o país e a produção de um vídeo orientaram pais e adolescentes sobre o perigo do uso das drogas. Tal atividade do Rotary culminou no lançamento do livro: "Drogas: ilusão transitória, desgraça permanente; o que você precisa saber para ajudar um dependente". O Clube promoveu duas jornadas anti-drogas. E por intermédio da rotariana Esmeralda Thomaz Afonso foi desenvolvido um projeto para restauração do Colégio de Viçosa. Este projeto contou com recursos da Fundação Rotária e promoveu orientação vocacional para cem crianças, com fornecimento de uniformes, ensino de pintura, restauração e serviços de pedreiro. Estes aprendizes iniciaram a restauração do balaustre nos anos de 2002/2003.
A Casa da Amizade é uma organização das esposas de rotarianos e que recebe a colaboração de diversas senhoras da comunidade. Desenvolve desde 1979 um programa denominado Obra do Berço, que fornece enxoval para recém-nascidos e um curso de orientação para as mães. Ao longo desse tempo já foram distribuídos mais de 8.000 enxovais para recém-nascidos.
Até a data de seu cinqüentenário o Rotary mantinha um convênio com os principais cursinhos pré-vestibulares da cidade. Os cursinhos disponibilizavam um determinado número de bolsas e o clube fazia a seleção criteriosa dos candidatos, baseada em dois fatores: renda familiar e aptidão acadêmica. Um curso de corte e costura em parceria com a Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Este programa já havia oferecido, até 2007, mais de sessenta cursos com aproximadamente 3.500 horas/aula, sendo dedicado principalmente a mulheres de baixa renda. Adelson Tinoco, outro rotariano de escol, coordenava, até o mesmo período, o Programa Municipal de Assistência à Terceira Idade, que havia chegado até então a uma participação de mais de 2.000 idosos. No Núcleo de Arte da Violeira notou-se a presença de rotariano prestando atendimento odontológico, sem nenhum ônus, a 35 crianças. Em convênio com a Prefeitura Municipal (Secretaria da Saúde), a cargo do rotariano José Carlos Silva, o Programa de Acuidade Visual é outra grande realização rotária, consistindo em fazer exame de vistas em todas as crianças das escolas, resultando em 340 consultas a oftalmologistas e, na maioria das vezes, no fornecimento de óculos para as crianças carentes.
Ainda conforme relatou a este blogger o rotariano Braz Rozado Costa, em 2005 o Rotary Club planejou, organizou e executou um Fórum de Segurança Pública envolvendo toda a sociedade organizada de Viçosa. O evento contou com a participação do Lions Club, Associação Comercial de Viçosa, Associação dos Professores da Universidade Federal de Viçosa, Associação dos Servidores Técnico-Administrativos da Universidade Federal de Viçosa e demais entidades, tendo um impacto significativo que já resultou em mudanças no quadro de segurança pública da cidade. Os resultados alcançados até agora são a elevação da PM para Companhia Especial, o que implicou no aumento do efetivo da Polícia Militar, e o aumento também de viaturas para as polícias Militar e Civil. O clube participa ativamente das atividades no Distrito 4580 e já contribuiu com três de seus sócios na função de governadores distritais. Foram eles: Cid Martins Batista, 1986/1987; William de Albuquerque, 1992/1993; e Luiz Carlos Dantonino, 2003/2004.
A Loja Maçônica Acácia Viçosense, por sua vez, também com incalculáveis serviços à comunidade viçosense, esteve sob as seguintes administrações, aqui representadas por seus Veneráveis Mestres: Sérvulo Batista de Rezende (1973-1975), Neri Gomide (1975-1977), Sérvulo Batista de Rezende e Valney Antônio de Oliveira (1977-1979), Valney Antônio de Oliveira (1979-1981), Valney Antônio de Oliveira (1981-1983), José Carlos dos Santos (1983-1985), Neri Gomide ( 1985-1987), Ary Teixeira de Oliveira (1987-1989), Renato Teixeira Moreira (1989-1991), Adalberto Rigueira Viana (1991-1993), Evaldo de Oliveira Fernandes (1993-1995), Frank Paiva da Cunha (1995-1997), Evaldo de Oliveira Fernandes (1997-1999), Adalberto Rigueira Viana (1999-2001), Frank Paiva da Cunha (2001-2003), Luciano Esteves Pelúzio (2003-2005), Celso Guimarães Pereira (2005-2007), Francisco Vitarelli de Carvalho (2007-2009) e Jorge Luiz Martins Rezende.
Como bem ressaltou o saudoso médico Altamiro da Conceição Saraiva, instituições como o Lions e o Rotary, nenhum lucro visam “senão proporcionar aos homens de boa vontade oportunidade de servir, de se tornarem úteis aos seus semelhantes, no exercício diuturno de suas profissões, contrastando com um mundo, onde se situam, de tendência nitidamente materialista”.



ASSISTÊNCIA SOCIAL



Filiadas ao Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS), criado pela Lei nº 1104, de 7 de dezembro de 1993, são várias as entidades beneficentes de Viçosa .Todas necessárias e muito importantes porque, como destacou Norah, “nossa Viçosa pobre, é pobre demais. Precisa de muito. Muito mesmo e sempre. Amiúde. Dar hoje, repetir amanhã. Oferecer serviço, assistência, conforto moral, carinho. Ajudar a vida de alguém para mais um dia, mais um amanhã de esperança”. Em 2006 estavam cadastradas no CMAS as seguintes instituições: Associação Assistencial e Promocional da Pastoral da Oração de Viçosa (Apov), Associação Beneficente Altamiro Saraiva (Abas), Associação Casa de Caridade de Viçosa (Hospital São Sebastião), Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), Associação dos Artesãos e Produtores de Produtos Caseiros) (Adapac), Associação dos Portadores de Necessidades Especiais (Apone), Associação Mariana Beneficente (Amarben), Associação Odontológica Jesus é o Caminho (Aojec), Associação Viçosense dos Renais Crônicos (Avirc), Casa Assistencial São Francisco de Assis (Casfa), Casa da Amizade das Senhoras dos Rotarianos de Viçosa, Casa de Promoção e Caminho Bezerra de Menezes, Centro de Educação São João Batista, Centro de Promoção do Desenvolvimento Sustentado (Census), Centro de Tecnologia Alternativa (CTA), Centro Espírita Camilo Chaves, Colégio Normal Nossa Senhora do Carmo, Confederação dos Irmãos Beneficentes Evangélicos de Viçosa (Cibev), Creche Maria João de Deus, Creche Maria Tereza, Creche Pingo de Luz, Creche Santa Teresinha, Creche São Sebastião, Fundação Assistencial Viçosense (Hospital São João Batista), Grupo de Apoio para Ação Comunitária (Gaac), Lar das Meninas Flor de Acácia, Lar dos Velhinhos, Mobile, Projeto Amor, Rebusca (Ação Social Evangélica Viçosense), Serviço de Obras Sociais (SOS), Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP), União Municipal das Associações de Moradores de Bairros e Distritos de Viçosa (Umam), todas registradas no Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS). Outrossim, estão organizadas no município diversas associações de de classe, que congregam contabilistas, médicos, farmacêuticos, garçons, professores, alunos. Não discorreremos aqui sobre a ficha técnica de cada uma dessas entidades, mas tão somente trazer um resumo da origem de algumas das mais antigas do município como são os casos do Viçosa Clube e da Liga Operária Viçosense, os dois mais tradicionais clubes recreativos, da Associação Comercial e do principais clubes de serviço, como Rotary e Lions, além da União Municipal das Associações de Moradores de Bairros e Distritos de Viçosa (Umam), cujo resumo histórico segue logo abaixo:



ASSOCIAÇÕES DE MORADORES



Viçosa tinha sessenta e seis bairros em 2007. E outro movimento social de alta relevância em Viçosa é a União Municipal das Associações de Moradores de Bairros e Distritos de Viçosa (Umam), que tinha já, filiadas, naquele ano, 40 associações e conselhos comunitários urbanos e rurais: Arduíno Bolivar (Alto das Amoras), Barrinha, Bela Vista, Belvedere, Betânia, Boa Vista (Morro do Escorpião), Bom Jesus, Cachoeira de Santa Cruz (Cachoeirinha), Cidade Nova, Córrego do Engenho, Fátima, Conceição, Fuad Chequer, Rua dos Passos, Inácio Martins (Grota dos Camilos), Inconfidência, João Braz, JK, Lourdes, Maria Eugênia, Marques, Nova Era (Pau de Paina), Nova Viçosa, Posses, Novo Silvestre, Paraíso, Palmital, Pau de Cedro, Romão dos Reis, Rua Nova, Sagrada Família, Estrelas, Sagrados Corações (Rebenta Rabicho), Santa Clara, Santo Antônio (Cantinho do Céu), São José do Triunfo (Fundão), São José (Laranjal), São Sebastião (Morro do Café), Silvestre, União, Vale do Sol, Vau-Açu e Violeira. Os líderes de bairros e distritos foram dentro desta organização do município de Viçosa, verdadeiros “líderes de discussão”, como são definidos por BARROS (). Segundo ele “tão importante papel” costumam esses “desempenhar no debate dos problemas fundamentais da comunidade. Inúmeras questões, antes de serem postas em equação, nas organizações públicas e privadas, precisam, primeiramente, passar pelo crivo da discussão dos grupos. Ora, esses para serem eficientes em qualquer trabalho, não podem prescindir da ação catalisadora dos líderes. Daí a função dos líderes de discussão. São eles que planejam e conduzem, com segurança, o debate dos problemas de interesse comunitário. Muitas soluções propostas pelos grupos para os problemas que os afligem, não chegam ao resultado esperado porque, na fase da discussão, são seriamente deformados por interesses privados ou pessoais, que poderiam ter sido afastados, se, à frente do debate, se encontrasse um perfeito líder de discussão”. Dentre outros líderes comunitários, Antônio Raimundo Charrão Rodrigues, Divino Amaral, Francisco Antonino da Cunha Vilela, Geraldo de Castro Souza, Ismael dos Santos Damásio, Jeanne Maria Cupertino Ferraz, José Marinho Messias, Lídson Lehner Ferreira e Marlene de Souza Campos desempenharam com eficiência o seu papel, não só na maneira de preparar, mas também na de conduzir as reuniões da União. A Umam congregou sempre um tipo muito específico de lideranças, definidas pelo referido autor, como “mais do que um símbolo inanimado”. Para Edgard, tais agentes são “a própria vida do grupo, naquilo que ele tem e afirmação, de força e de dinamismo atuante”.



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DESCORTINANDO A VIÇOSA ANTIGA



"O passado teu Viçosa
reverencio e me curvo,
cantando a lira saudosa
da Santa Rita do Turvo."

Ary Teixeira de Oliveira



O poeta viçosense Raimundo Pires da Costa sentenciou: "Mesmo na história maior, envolvendo gente importante, nem todos os acontecimentos são conhecidos com a desejada exatidão: há interregnos entre um acontecimento e outro que a crônica não registra e a memória nem sempre pode guardar." Tendo como base o trabalho de excelentes cronistas nativos, falamos um o pouquinho do velho núcleo do antigo distrito da sede do município. Alexandre de Alencar, por exemplo, em Fatos e Vultos de Viçosa (página 60), assim se expressa: "Iniciava o ano de 1865. As ruas do arraial de Santa Rita do Turvo continuavam a crescer ao longo do ribeirão de São Bartolomeu, que corria, múrmure, no seu fundo leito. Os aguaceiros daquêle verão haviam lavado os telhados coloniais e a caiação do casario que, contrastando com o fundo verde da relva, de que eram recobertos os "largos" do Rosário e da Matriz, emprestavam ao quadro, em que se estampavam, o aspecto de um afresco magnífico, que acabasse de sair da paleta de um pintor. Matizava a copa do denso arvoredo das colinas, que emolduravam a paisagem, a farta floração, de que a natureza caprichára ornar êstes recantos e que a mão do homem ainda não havia conseguido destruir. Nas pequenas clareiras dos capoeirões, das encostas adjacentes, alinhavam-se milharais, já pendoados.
A população do lugar era feliz na simplicidade da vida que levava. Nêle, os dias se escoavam sempre iguais. Nessa monotonia residia, aliás, a felicidade que se aninhava nalma de suas poucas centenas de moradores".
Às páginas 169 e 170, CAPRI (nº? ), em sua cartilha editada em 1916, descreve um minúsculo centro da cidade de Viçosa, dentre outros termos, nos seguintes: "A sua topographia obedece as exigencias de construcções modernas, com ruas largas, planas e bem niveladas. Há 5 praças denominadas: 'Silviano Brandão', 'Emilio Jardim', 'Rosario', 'Estação', e o 'Largo de S. Francisco', 9 ruas, sendo as principaes as denominadas Senador Vaz de Mello, Dr. Arthur Bernardes, do Commercio e Municipal.
O numero de predios é actualmente de 330, dos quaes muitos de elegante e solida construcção. Entre os edificios publicos, destacam-se o Forum, o Grupo Escolar, o Gymnasio de Viçosa e a Matriz de S. Rita, todos na Praça Silviano Brandão. O Hospital de S. Sebastião na Praça Emilio Jardim; a Egreja do Rosario e o Theatro 'Paladinos do Progresso' na Praça do Rosario. A Fabrica de Tecidos S. Maria, na Rua Municipal. O Açougue e Matadouro Municipal na rua dos Passos, a Bibliotheca, pertencente á Sociedade Recreativa '3 de Junho'.
Um gracioso e lindo jardim se admira na praça Silviano Brandão, devido á iniciativa municipal. Foi iniciado em Fevereiro de 1914, e solemnemente inaugurado em Fevereiro de 1915. Tem no centro um elegante corêto de musica, e muitas plantas ornamentaes."
Restam raras imagens daquele tempo, a quase totalidade de autoria do Nicolau Carissimo Photo Studio. Em 2006, graças a iniciativa do professor José Marcondes Borges, nascido a 29 de junho de 1922 e falecido a 8 de janeiro de 2009, organizador do Arquivo Central e Histórico e primeiro diretor do Sistema de Vídeo da Universidade Federal de Viçosa, chegou à cidade, procedente da Universidade da Flórida (EUA), a Rolfs Collection, fotografias como a da Praça do Rosário com a sua antiga Igreja, retratando uma cena muito comum nos tempos de outrora, como a descrita em "CHÃO – meu chão" (Memória e romance), pelo tabelião COSTA (nº? ), na página 83: "o candieiro guiando três juntas de bois pretos, com o carreiro que gritava nomes e aferroava os animais e com o carro que subia rangendo sob o peso de uma lenha encarvoada."
O mesmo COSTA (n° ?) , dentre outras nostálgicas descrições (especialmente às páginas 14, 24, 34, 49, 111, 112, 116, 117, 152 e 153), vai às minúcias das adjacências e (inclusive descrevendo as cores do casario: cor-de-rosa seco, amarronado, o sobrado amarelo, o verde escuro, etc...) do que fora, nas décadas iniciais do século XX, os largo principal de uma "cidade menina" que ele bem vivera em sua meninice, e que um dia foi transformada na praça de Silviano Brandão.
Comecemos pelo miolo do velho jardim: "...os dois tanques com peixinhos vermelhos, a grama aparadinha, as palmeiras suntuosas, o cascalho branco e farto freando a boa caminhada..."
Descrevendo a praça: "...os quatro cantos do Largo, para os velhos, ou os quatro cantos da Praça, para os novos, vistos nas horas de calmaria ou nos momentos de maior agitação: os sobrados, o forum, a cadeia, a farmácia, os bares, a tipografia, a fábrica, o ginásio, as magnólias, as palmeiras, o coreto... Personagens? Todos! Vivos e mortos, uns vistos, outros relembrados nos seus devidos filmes histórico. O Cirilo no centro, no porão do coreto (é o que mais se movimenta), sempre com o bafo do último gole. E não podemos esquecer o Carlos Pieri, de cabeça erguida, o Chico Turco, com o seu jeito humilde, o Turco e a Turca da esquina da Travessia, a farmácia da esquina com a rua de Cima, o Etelvino, o Lulinha, o Chico Alemão, o Brás Caldeireiro, o Cristiano, o Manoel Coelho..."
"... na verdade já não era o Largo de mais largueza, de que ouvira falar tantas vezes no sobrado e na chácara como espaço vazio (sem as magnólias e as palmeiras imperiais, que vieram depois), apenas marcado por um XIS maiúsculo, estando a grama mais verde traçando rumos da rua Direita para a rua de Baixo, e da rua do Pastinho para a rua de Cima.
Esse traçado ou cruzamento era designado pelos antigos como Cruz de Santo André.
As "cambianças" (pode ser?) eram lentas, anos e anos: primeiro a arborização irregular, magnólias nos quatro cantos, palmeiras no centro, dentro das cercas bem guardadas do grande jardim de surgia, sob a vigilância do folclórico Cirilo de Sá Maria da Paixão.
Vale a pena os detalhes: comecemos pela meia-água habitada por dois sírios misteriosos Abraão e Salomão, no beco ao lado da matriz que se situava em frente, quase no alinhamento, que ia da venda à residência de João Chaves até o casarão colonial, que foi o Hotel do Barão na esquina da rua do Pastinho. No mesmo alinhamento da rua do Pastinho, duas ou três moradias razoáveis com opções para comércio até passar pela entrada da rua dos Passos, rota do sobrado e da Outra Banda.
Seguindo o mesmo alinhamento da rua do Pastinho e da rua de Baixo, vinha logo o pitoresco sobrado azul, um alvoroçado ginásio que tinha sido fórum e Cadeia, vindo logo outro, de estilo contemporâneo, que foi fábrica de tecido, sede da municipalidade e Grupo Escolar. Aí, desse lado, encontramos o sobrado do Manoel Coelho e a casinha, tipo meia-água, com alguma coisa de histórico por ser considerada das mais antigas do Burgo. Estamos na venda do Cristiano Lopes Gomes, solteirão assumido, olhos vermelhos e arregalados, bebendo e vendendo sua excelente cachaça, estando sempre à venda um toucinho especial.
Passando pela entrada da rua de Baixo, damos na esquina com a casa que foi residência e negócio de Patrício Couto, pai de Júlio, depois caldeiraria de Brás Caldeireiro, ficando do lado oposto ao da Matriz, casas baixas até a esquina da rua de Cima, com exceção do sobradinho do bar do Lulinha (Luiz Lopes Gomes) de saudosa memória como nativo longevo. As casas velhas e baixas, sempre conjugadas podiam ser moradas propriamente e simultaneamente comércio: caldeiraria, bar, tipografia, padaria e farmácia, na boa época da farmácia de Chico Eugênio, boa lembrança da geração anterior. Estamos aqui na rua de Cima 'a mais festiva' como sentimento geral. No alinhamento da rua Direita (a que tem sempre a direção da Matriz), está o mais novo sobrado, e o mais terrível por ser o centro de todo o poder local: a Cadeia, a Delegacia de Polícia, o Fórum e a Câmara Municipal. Logo aqui está a entrada da travessa da Estação. Ponto sugestivo por ser uma espécie de roteiro para todos os caminhos do mundo... Na outra esquina, em seguimento, mais um novo sobrado, as alternâncias, mais uma casinha esmirrada entre o prédio da esquina e sobrado da família Bernardes, a velha casa verde do presidente, terminando com os pardieiros dos turcos, já um tanto decadentes."
Noutro ponto, COSTA assim fala das adjacências da Silviano Brandão:
"...uma zona urbana, já bastante animada, apenas a dois passos da passagem (representada pelo ribeirão, encostada, portanto numa zona rural, a Mata, numa fase de grande depressão. Havia muita vida rural nas cercanias do Largo. Com cincerros e berrantes, ouviam-se mugidos de vacas e bezerros tangidos para a ordenha matinal nos terreiros de alguns casarões. Um deles, de saudosa memória, e de boa aparência, pertencia ao velho Bitarães, o Barão, que era o Hotel do Barão, bem situado na esquina da Praça da Matriz com a estreita rua da Vassoura, antigo Pastinho. Ali, no fundo do Hotel, os fregueses mais íntimos podiam tomar seu copo de leite tirado na hora e oferecido como cortesia da família, sem nenhum acréscimo na diária do hóspede"...
E COSTA também nos conta do cotidiano: "... o trem de ferro estava para chegar. Depois da passagem do cometa Halley, aquele seria o acontecimento mais importante. A 1ª guerra mundial estava próxima, mas os rumores sobre a terrível catástrofe chegavam ao burgo ou ao aconchego da cozinha muito atenuadas. Muita gente gostava de arte. O gramofone entusiasmava..."
"... para os ociosos do burgo, efetivamente, os fins de tarde eram propriamente nas horas dos ócios, já que o dia de trabalho ou de negócios estava terminando. Saíam então pelos arredores para ver o mundo de Deus na sua maior intimidade: as plantas na sua fabulosa variedade, aves revoando despedidas vespertinas e fisionomias de tantas pessoas diferentes. Para a Outra Banda convergiam, com raras exceções, as figuras mais destacadas do Largo, das ruas de Cima e de Baixo e do Pastinho; para o Pasto dos Barros e caminhos da rua Nova, a gente do largo do Rosário e adjacências.
Mas é claro que revesavam, havendo mudanças alternativas de rotas determinadas pela curiosidade do momento, necessidades de encontros afetivos ou comerciantes. Os passeantes da Outra Banda (alguns alcançavam o Pau de Paina, outros ficavam na rua dos Passos e arredores do Muzungu), passavam sempre, na ida ou volta, pelo sobrado..."
"... a rua de Cima continuava a do Cruzeiro, era apenas meio caminho: é que abstrações feitas de outras ruas e de algumas pequenas curvaturas, partindo do Cemitério até alcançar o Morro do Seu Zeca, no caminho do Patrimônio, tendo a Matriz como ponto de referência, tudo poderia afinal ser considerado como rua Direita..."
Com relação àquela que aprendi em idade tenra a chamar de Pracinha do Rosário, COSTA lembra a existência, ali, de nosso primitivo cinema, o Cine Theatro "Paladinos do Progresso", denominação, diga-se de passagem, bem ao gosto dos republicanos das primeiras horas. A foto da fachada do dito confortável e aconchegante "Paladinos do Progresso", está na seção iconográfica deste blog. Sobre ele escreveu COSTA: "... Casa simples, espigão alto sobre o telhado escorrendo dos dois lados com jeito e aspecto de cangalha. O homem adulto e o jovem adolescente contemplavam o casarão com impressões diferentes: o primeiro como um castelo musical, o segundo, como um recanto de sonho e de magia onde o cotidiano perdia vez e o coração permanecia em paz saboreando um momento de arte"...
"os pioneiros fincaram aqui uma bandeira, imitando com simplicidade o feitio de todas as casas de espetáculos do mundo"...
Ainda sobre a Pracinha do Rosário: "Mundo estranho aquele concentrado no Largo do Rosário com as sombras da pequena igreja e do grande Cruzeiro sendo projetadas pelo sol da tarde."



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A Rua do Cruzeiro depois passou a se chamar Padre Serafim. O Largo de São Francisco é a Praça Dr. Christóvam Lopes de Carvalho, no início da avenida Santa Rita. A Rua da Vassoura (antigo Pastinho a que se refere COSTA) depois se chamou Rua Municipal. É a atual rua Virgílio Val. A Rua de Cima é o atual calçadão da rua Arthur Bernardes. A Rua de Baixo é a atual Senador Vaz de Mello. Pau-de-Paina é o bairro Nova Era, no caminho para a cidade de Porto Firme.
O Fórum e a Cadeia estavam então num mesmo prédio, que desde 2008 é a sede própria da Câmara Municipal, na esquina da Silviano Brandão com a travessa Dr. João Carlos Bello Lisboa, antes denominada 22 de Junho e 10 de Novembro, antigamente conhecida como Beco que dava acesso ao pastor do Dr. Emílio Jardim. Muzungu era a denominação dada à antiga zona boêmia, localizada na esquina direita da atual rua Dona Gertrudes com a rua Dr. Brito. E o Pasto dos Barros é nada menos que a ampla e arborizada avenida Santa Rita.



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Era uma vez um lindo coreto, de ferro batido, em cuja escadaria com corrimãos crianças brincavam e onde bandas enchiam com o som de alegres retretas as adjacências da praça Silviano Brandão, antigo Largo da Matriz. Com seu artístico zimbório, inesquecível aos viçosenses saudosistas, era o coração da cidade e a melhor expressão perenizada da cultura popular no Largo onde o traçado original fora em forma de xis e que um dia virou uma praça tantas vezes objeto de cambianças de toda sorte. Domingos Rigotto fora o escultor do coreto. Inaugurado em 1915, no governo de Dr. José Ricardo Rebello Horta, sempre povoado de melodias e pelo passaredo, num dia sombrio da década de 1940, ele foi substituído por um caramanchão, e vendido, provavelmente, a uma cidade do interior paulista.
O mítico coreto reinara entre canteiros bem ajardinados e dois piscosos tanques ao redor de passarelas de cascalho branco. Fôra o centro gravitacional para o qual convergia toda uma mocidade de chapéu, que, sobre arenosas passarelas, ali caminhava, plácida, para o namoro, e também uma infância feliz que, nas manhãs domingueiras do ontem, ali se habituou a contemplar, silente, o nadar, em límpidas águas, de peixinhos vermelhos. Tal como o conhece a geração presente, pelo olhar imortal de um esmerilado fotógrafo, Nicolau Caríssimo, o tão festejado monumento de magnífico domo, de estilo francês, tem sido, em epicédios, inutilmente recordado. O grande escritor Elias Ibrahim lamentou em artigo: “Nunca perdoei a falta de gosto daqueles que destruíram nosso antigo jardim e coreto”.
O clássico espaço musical que dominou a praça viçosense foi a jóia rara lançada fora. Com seu ocaso se tornou o doce objeto de um tempo que ficou como nostalgia de antigos crepúsculos, enfim, a dorida lembrança em branco e preto. Deixou aquele canto, agora ruidoso, por onde desfilam poucos rostos familiares e bizarras máquinas automotivas. Costuma-se dizer que “a saudade é a felicidade que ficou”. E ficou mesmo na lembrança do poeta, “o jardim da pequenina praça, que era o oásis fresco, sossegado, sereno, onde os espíritos atormentados e os corpos exaustos encontravam o bálsamo suave para as suas preocupações e cansaços”, segundo o cronista L. Couto & Pinho.
Gazeta da Viçosa de 20 de agosto de 1939, da qual possuo um único exemplar, veículo de comunicação fundado a 31 de março de 1912 pelo capitão Heráclito da Costa Val, trouxe outra crônica especial, intitulada "MINHA TERRA", assinada por "JOVAME", que assim se expressou:
"Quem não gosta de ver enaltecidas as belas virtudes e predicados morais de sua mãe? E por que não também de nossa mãe - pátria, da terra que nos serve de berço? E é justamente o que vou fazer; não vou elogiar a minha encantadora Viçosa, vou lhe fazer justiça... Viçosa, o nome já indica, não é uma metrópole de arranha-céus e parques monumentais, nem de cabarés luxuosos, que o mundo elegante chama de civilização, mas, é uma cidade menina dotada de todo o conforto, para aqueles que vieram ao mundo viver com recato e lutar honestamente pela vida, não passar por ela inertes sendo parasitas da sociedade. Aqui temos de tudo. Nos extremos temos dois estabelecimentos que recomendam o torrão natal. De um lado se levanta magestoso o gigante de cimento, descortinando aos forasteiros que nos visitam uma bela visão, um panorama de trabalhos e atividades. É a Escola Agrícola, onde a juventude aprende a tirar proveito de nosso solo tão rico. Do outro lado está colocado o Patronato de menores, que ensina a criança do Brasil a ser útil à sua Pátria. Temos uma sociedade vicentina que vela pela causa do pobre e uma agremiação esportiva que tem sabido levantar o nome esportivo de Viçosa. Os filhos desta terra, todos católicos, são bons e comunicativos e tem amor próprio à sua cidade. Ainda agora o nosso dinâmico e incansável Prefeito Dr. João Braz da Costa Val, desmentindo os céticos que achavam que com o desmembramento do município, Viçosa seria esfacelada e até desapareceria do mapa, tudo tem feito para elevar o nome da terra que o viu nascer. Aí estão os grandes melhoramentos por ele feitos e que falam melhor do que as minhas palavras, tornando a nossa cidade do coração, uma cidade catita, um pedaço do céu na terra. Quem ousa me desmentir? Para que, pois, melhor terra do que esta para viver? Para terminar esta crônica eu quero dizer uma verdade; quem quiser saber o quanto isto é bom, passe fora de Viçosa uma semana, pois ela é a cidade saudade".



O primeiro automóvel



É o referido cronista (L. Couto & Pinho) quem nos conta o que aconteceu em Viçosa quando a primeira dessas máquinas chegou à pequenina cidadezinha do interior mineiro, atualmente com a quarta maior relação veículo/habitante de Minas Gerais, numa estimativa de um carro para cada quatro habitantes: “Foi em 1920, época da Quaresma, se não nos falha a memória. A propósito, não resistimos à tentação de contar os episódios comentados naquele época, resultantes da aparição dessa carruagem misteriosa e fantástica, em correria louca, desatinada, rua abaixo, rua acima, gelando de pavor a matuto ingênuo e crédulo.Havia nos narradores do fato arredios de assombro, contrações de medo que lhes torciam a fisionomia e esbugalhavam os olhos. Contavam o caso, perplexos, varões ‘que nem por brincadeira mentiam’, como Chico Marreco, Manuel Gregório, Zezé da Estiva, Vicente Surdo e Juca de Sá Zeca. Corajosos, inimigos de patranha, nunca tiveram medo de careta e ‘viram com os próprios olhos’.
Naquele fim de marco começara a chover logo à tardinha e o vento sul soprava com rajadas violentas e geladas. A luz fraca das lâmpadas elétricas, trepidantes, mal resistia à tempestade e, bruxuleando aqui e acolá, agonizava na grande noite sem estrelas. Às 10 horas aproximadamente, tiritando friorenta, a população ia fechando as portas para recolher-se e momentos depois, a pacata cidade adormecia açoitada pelo chicote impiedoso da ventania. Somente na mansão patriarcal, do Nico Lopes, onde habitualmente se jogava víspora, notava-se um rumor desusado. Já na antevéspera, ele dizia, afiando navalhas e epigramas, que a Quaresma daquele ano prognosticava surpresas inenarráveis e, por isso, andava, sorumbático, pelos cantos, exorcismando... A família, sobressaltada, já lhe havia prescrito um vomitório de poaia e chá de folhas de funcho. A verdade, porém, é que naquela noite, os da casa não puderam dormir com as ‘crises’ do Nico...
Fora, a noite, como uma enorme essa armada sobre a terra, infundia pavor. Os relógios marcavam, exatamente, meia noite, quando se produziu a ‘desgraça’: Aqueles que, dentro de casa, velavam, ou por insônia ou à espera que saíssem os parceiros, foram abalados pelo ruído de uma carruagem misteriosa, correndo a toda a brida. O Lulinha, autor intelectual da ‘assombração’, premeditada com todos os requintes diabólicos, foi o primeiro a ouvir os ‘bufos’ e o rumor dos cascos da ‘mula’. José Caboclo, oficial de diligência, que desconhecia a palavra medo, foi o único a arriscar os olhos e o nariz, portas a fora, para ver. Negar o que santo Deus? -dizia enfaticamente. ‘A mula era maior do que um touro, tinha a cor de um caixão de defunto, rinchava como uma égua braba e vomitava fogo pela boca e pelos olhos’... E encazinava-se de raiva quando alguém o desmentia.
A verdade é que ela galgou o morro até a casa do Vitarelli, voltou, tornou a subir até a porta do Cemitério, rodeou o Santo Cruzeiro, desembestou rua abaixo, passou em frente a Igreja de Santa Rita, desceu rumo à ponte, e não mais foi vista quando atingiu as proximidades da casa onde vivia o velho Antônio Martins, afamado rezador de ladainhas... O cabo do destacamento foi acordar o Barão, delegado de polícia, demandando o local, acompanhado de praças, para averiguar o fato. De lá voltaram arrepiados, trêmulos, cabisbaixos. Afirmavam que nada haviam encontrado, mas sentiram no trajeto, cheiro de enxofre queimado – satélite do capeta... O notívago Honorino de Mello sustentava que o animal era mesmo do outro mundo. Já o Totônio Costa Val, cético, irônico, murmurava sorridente: ‘Isto tem dedo de algum Jacó’. No dia seguinte corria a notícia que o Joaquim Ilhéu, cabra desabusado, alvejara a tiros de garrucha, na estrada da Piúna, a ‘mula sem cabeça’, tendo o ‘chaffeur’ Aristides Silveira, que dirigia o veículo, escapado ileso por milagre”.



Estradas e transportes



O prefeito Dr. João Braz da Costa Val (1927-1932) foi responsável por construir estradas de rodagem consideradas "magníficas" para a época, entre essas se destacando as que ligam Viçosa a Ponte Nova, Ubá e Piranga. LADEIRA (nº?), referindo-se à década de 1940, informa que "na época não havia ônibus de Viçosa para São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Ubá, Ponte Nova. Nada. O meio de transporte para o além não muito além era só a Leopoldina Railway." COSTA VAL FILHO (nº?), à página 45, relata o fato de que "duas vezes por semana o 'noturno', procedente do Rio, de Barão de Mauá, com destino a Ponte Nova, passava por Viçosa, cerca de dez horas e, antes de chegar à estação dessa cidade, parava, por alguns minutos, com a locomotiva estacionada junt a uma caixa d'água" (...)"As locomotivas eram numeradas. A '318' era a mais barulhenta nos jatos de vapor, que escapavam dos cilindros e a mais estridente nos apitos. Vários passageiros usavam guarda-pó", conforme COSTA VAL FILHO.
Onde se situa o jardim da Praça Dr. Mário Del Giudice, inaugurada festivamente no governo do prefeito João Francisco da Silva, existira um minúsculo terminal rodoviário, que ali permaneceu desde a década de 1950, até ser demolido na década de 1980. O novo terminal fora inaugurado em novembro de 1979, na BR-120 (avenida Marechal Humberto de Alencar Castello Branco). Havia, naquele tempo, as peruas, também chamadas "jardineiras", com bancos de madeira, para os distritos de Araponga, Canaã, Estêvão de Araújo, Pedra do Anta, Porto Firme e São Miguel do Anta. Da velha e precária estação se recordou LAM-SÁNCHES (nº ?), descrevendo-o, dentro outros termos, nestes aqui:
"Como em outras cidades interioranas mineiras, a estação rodoviária costumava ser ponto referencial da cidade.
Localizava-se na pequena praça, junto à linha férrea, e nela se fundiam a parte de cima da rua Bueno Brandão, o balaústre, e a inferior, em nível da estação ferroviária [...] Na parte central desta praça, estava a pequena rodoviária, quase só área livre quadrada de apenas uns 3 por 4 m, se tanto, usada para embarque e desembarque, onde havia duas bilheterias para a venda de passagens".



Praças e Avenidas



Na velha praça por onde outrora pouquíssimos carros desfilavam, eram constantes os cuidados de um desvelado Cirilo, “que por mais de 50 anos cuidou, com mãos calosas e leves, das flores mimosas e belas do nosso jardim – jardim que, para vingança dele – Cirilo, morreu antes do jardineiro... Cultivava papoulas e chamava-as braboletas e as pétalas pareciam mesmo asas de borboletas. Ele sabia traduzir na sua linguagem rude as comparações mais ternas. Manacá ele chamava mistura fina. E era finíssima a combinação de roxo e branco brotando da raiz ao topo da árvore numa floração belíssima. Ipê florido, à noite, ele dizia: fróco de argudão. E ver os Ipês do jardim, à noite, contra o céu, à luz e à lua, é ver um só capucho de algodão aberto para alegria e encantamento nossos”, na primorosa descrição de Norah.
Na década de 1940 surgia a belíssima avenida que ostenta o nome da padroeira da cidade e do município de Viçosa, que ainda é um dos mais belos logradouros centrais de Viçosa. No princípio do século XX o local era conhecido como Pasto dos Barros. Ampla e aprazível, como a Bueno Brandão, onde na década de 1920 se construiu a balaustrada, é um dos espaços mais nobres do centro da cidade, onde diversas espécies de árvores nativas estão plantadas em seus canteiros centrais. Seu traçado atual, com jardim em declive, foi projetado e construído durante o governo do prefeito Sylvio Romeu Cezar de Araújo, que governou Viçosa de 1943 a 1945, num tempo em que o cuidado com os jardins públicos eram verdadeira prioridades dos administradores de Viçosa. O extenso jardim foi o lugar preferido para brincadeiras infantis de outras épocas, quando este ainda era carinhosamente zelado pelo jardineiro Pintinho, de saudosa memória.
No dia 30 de setembro de 1973, um marco comemorativo foi descerrado pelo Vigário de Viçosa, Pe. Carlos dos Reis Baêta Braga e por Dona Alice Moreira Pinheiro, festejando uma das inúmeras reformulações do jardim. Retirado, o valioso marco foi levado a lugar desconhecido, tomou destino incerto como ocorreu com tantos outros monumentos de espaços públicos, patrimônios comuns do povo, como a praça Silviano Brandão, de onde fizeram desaparecer a placa do Sesquicentenário da Paróquia de Santa Rita, o medalhão do benemérito médico Raymundo Alves Torres e o busto do jornalista Mário Vaz de Mello. Trata-se de um velho mau costume de sucessivas administrações públicas em Viçosa.



O ribeirão



O São Bartolomeu é o curso d’água que atravessa o centro da cidade. E a imagem de um riacho vivo e cristalino permaneceu na lembrança do menino Gerson Cunha: “O ribeirão de São Bartolomeu vinha lá das bandas do Paraíso. Em tortuoso caminho, passava pelo capinal, entre a encosta – a da caçada de borboletas – e a alameda de palmeiras e magnólias. Daí, atravessando o bueiro, por baixo da alameda, saía entre o pastinho da Máquina de Café, e – à direita – a chácara do To. Depois de passar por outro bueiro, abaixo da linha do trem, saía no remanso, onde as águas, silenciosas, disputavam a primazia da bela e ruidosa cachoeirinha. Caindo, escumavam nas pedras e enchiam, abaixo, largo remanso à sombra de um verdejante taquaral. Seguia, dali, para o Chachá, entre as touceiras imensas de bambu-imperial: belo, de colmos amarelos com listas verde-claras.
Ia e vinha naquele vale arenoso, em remansos e enseadas por entre o imenso bambual. Até parecia, que matreiro, gostava dali e refreava suas águas, tentando burlar a atração perene, inexorável, do longínquo e portentoso mar... Seguia por outros meandros, deixando nas margens: o quintal do ginásio, depois o matadouro e o Muzungu. Bem mais adiante, na Barrinha, desembocava no Rio Turvo. Em suas margens, as trilhas sinuosas por entre ramagens e moitas de capim levavam, aqui e ali, aos barrancosos pesqueiros. Em tardes mornas e bonançosas, graciosas libélulas de asas membranosas e transparentes, bailavam tocando as águas ou teimosamente pousavam na ponta do caniço.E os lambaris, prateados e buliçosos, vinham, um a um, ambicionados troféus, encher, dia a dia, de mais orgulho ingênuo, aquele pequeno e ágil pescador. Em noites de Lua, de caniço e bornal a tiracolo, ia pescar mandi-pintado ou mandi-chorão”.



Ode ao meu viçoso vale



Joaquim Manoel de Macedo, autor de "A Moreninha", prosador da Fase Contemporânea (século XIX, depois de 1820), falecido em 1882, deixou-nos antológico texto intitulado "O Torrão Natal", no qual destaca, entre outras coisas, que "dessa árvore majestosa que se chama a nação, o país, não há quem não sinta que a raiz é a família e o berço pátrio. Há nesse santo amor uma escala ascendente, que vai do lar doméstico à paróquia, da paróquia ao município, do município à província, da província ao império: ama-se o todo porque se ama cada uma de suas partes. Com efeito, é impossível negar que em suas naturais e suavíssimas predileções o coração distingue sempre, em todos os distritos, cidades e diversos pontos do país, o torrão limitado ao berço pátrio; pobre ou mesquinho, esquecido ou decadente, agreste ou devastado, é sempre amado por nós e sempre grato para nós". Inúmeros seres humanos amararam, amam e amarão esta velha Terra de Santa Rita do Turvo. São amores que não cabem nesta cidade oitocentista da Mata Mineira, agora mini-metrópole. Isto porque, como ressaltou em seu estro um trovador de saudosa lira, esta afetividade que tanta gente chega trazendo e parte levando consigo e também deixando as suas saudades, é cultivada diariamente e está a se espalhar por todo o mundo.
Os habitantes de outrora em Viçosa de Santa Rita também sonharam com dias futuros, evidentemente diferentes dos nossos. Uma dessas acalentadas aspirações era a de ouvir um dia o forte apito de um expresso da Leopoldina, a percorrer uma bem sinuosa via férrea. Na Igreja Matriz (aqui é apenas o fruto de nossa imaginação) divisava-se um esbelto senhor de olhar vivo e penetrante, vestido em sua samarra preta, procurando acertar um relógio mecânico, de algarismos romanos. Com maestria, Pe. Antônio Correia Lima badalava um reluzente sino de timbre cristalino, adquirido pela Freguesia e doado à Santa das Causas Impossíveis em 1851, no paroquiato do Pe. Agostinho Isidoro do Rosário, quando da construção daquele templo de frontispício barroco com duas pequeninas torres. Ali perto, debruçadas no alpendre de uma fazenda, sinhás admiravam o gado pastando e cablocos desbravavando a mataria. Havia faina na lavoura e tangiam-se violas pelos terreiros, onde galopavam ciriemas, sobressaindo-se neste bucólico cenário as belezas de um multiforme passaredo e de policrômicas borboletas, tendo como pano de fundo nada menos que o azul do firmamento. Antigos muros ensombrados de pomares ao fundo de vivendas coloniais eram o retrato de um arraial cortado pelas curvas de um riacho. No futuro, seria aquela cidade o grande pólo de uma microrregião. Repleta de arranha-céus, viria a ser sede de uma gloriosa indústria do ensino, com grande rumor de comércio e de uma construção civil em franca expansão.
Visto dos morros é formidável o desforrar da área central. Quanto mais naquele tempo, quando se podia divisar o verdor de todos os recantos do vale, no entorno de seu casario patriarcal. Sob gasalhosa árvore, do alto da caixa d'água, perante os braços do tosco Santo Cruzeiro de cedro, próximo da necrópole que desde 1865 estivera cercada com estacas de baraúna, ali no Patrimônio de São Francisco, sítio condigno onde jazem os despojos daqueles que ali receberam a sepultura (o primeiro fora Joaquim Romão Moreira e Castro, a 12 de junho de 1866), mestre Arduíno Fontes Bolivar vislumbrou extasiado um dia aquela cidadezinha que ele muito amara e a ela dedicou um de seus mais belos poemetos, cantando com grande amor e devoção o seu torrão natal é largamente difundido por quantos cultuam a memória deste que foi um dos maiores intelectuais aqui nascidos.
Foi por um instante que Arduíno, distraído, ouvindo a sinfonia eterna de andorinhas, sabiás e bem-te-vis, fitando a esplêndida paisagem daquele ano de 1889, resolveu cantar assim a sua inolvidável terra natal:


VIÇOSA


Amo-te mais do que a outra qualquer cousa
Terra minha, jardim viçoso e ameno,
Onde eu, feliz, brinquei, quando pequeno
E onde espero, ainda, ter modesta lousa.

Minh'alma, inquieta e errante mariposa,
Da saudade filial voando ao aceno,
Vai muitas vezes pousar sobre o terreno
Onde meu Pai no túmulo repousa.

Do Morro do Cruzeiro descortina
o Vale que de casas se recama,
Sorrindo entre a verdura esmeraldina.

É o mesmo antigo e amado panorama,
as torres da Matriz, a casuarina,
O meu coração dos olhos se derrama!"





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José Mário da Silva Rangel
rangelvicosa@gmail.com